sábado, 7 de fevereiro de 2015

Boris Vian

SE OS POETAS FOSSEM MENOS BESTAS
Se os poetas fossem menos bestas
E se fossem menos preguiçosos
Fariam todo o mundo feliz
Para poderem tratar em paz
Dos seus sofrimentos literários
Levantariam casas douradas
Cercadas por enormes jardins
E árvores cheias de colibris
De rustiflautas e de aqualises
De pardongros e de luziverdes
De plumuchas e de picapratos
E de pequenos corvos vermelhos
Que soubessem tirar nossa sorte
Haveria grandes chafarizes
Jorrando luzes de zil matizes
Não faltariam duzentos peixes
Do crocantusco ao empedraqueixo
Do trilibelo ao falamumula
Da suazmina ao rara quirila
E do guardavela ao canifeixe
Provaríamos de um ar fresquíssimo
Perfumado pelo odor das folhas
Comeríamos quando quiséssemos
E trabalharíamos sem pressa
A arquitetar escadarias
De formas nunca dantes sonhadas
Com tábuas raiadas de lilás
Lisas como só ela sob os dedos
Mas os poetas são muito bestas
Para começar, eles escrevem
Ao invés de pôr a mão na massa
Isso lhes traz profundos remorsos
Que levam consigo até a morte
Radiantes por sofrerem tanto
O mundo os aclama com requinte
E os esquece no dia seguinte
Se a preguiça não fosse mania
Teriam fama por mais um dia.

QUERO UMA VIDA EM FORMA DE ESPINHA
Quero uma vida em forma de espinha
Num prato azul
Quero uma vida em forma de coisa
No fundo de um troço solitário
Quero uma vida em forma de areia nas mãos
Em forma de pão verde ou de moringa
Em forma de sapato velho
Em forma de tiroliroliro
De limpa-chaminés ou de lilás
De terra coberta de seixos
De cabeleireiro selvagem ou de edredom louco
Quero uma vida em forma de você
E a tenho, mas ainda não é o bastante
Nunca estou contente.

ELES QUEBRAM O MUNDO
Eles quebram o mundo
Em pedacinhos
Eles quebram o mundo
A marteladas
Para mim não faz diferença
Não faz diferença alguma
Ainda me sobra muito
Ainda sobra muito
Basta que eu ame
Uma pena azul
Uma trilha de areia
Uma ave assustada
Basta que eu ame
Um ramo frágil de erva
Uma gota de orvalho
Um grilo do campo
Eles podem quebrar o mundo
Em pedacinhos
Ainda me sobra muito
Ainda sobra muito
Terei sempre um pouco de ar
Um filete de vida
Uma nesga de luz no olhar
E o vento nas urtigas
E mesmo se, mesmo
se me prenderem
Ainda me sobra muito
Ainda sobra muito
Basta que eu ame
Esta pedra corroída
Estes ganchos de ferro
Onde um pouco de sangue se demora
Eu amo, eu amo
A madeira gasta da minha cama
O estrado e o colchão de palha
A poeira do sol
Amo o postigo que se abre
Os homens que entraram
Que avançam, que me levam
A reencontrar a vida do mundo
A reencontrar a cor
Amo este par de altas traves
Esta lâmina triangular
Estes senhores vestidos de preto
É minha festa e me orgulho
Eu amo, eu amo
Este cesto cheio de farelo
Onde vou pousar a cabeça
Oh, eu amo deveras
Basta que eu ame
Um raminho de erva azul
Uma gota de orvalho
Um amor de ave assustada
Eles quebram o mundo
Com seus maciços martelos
Ainda me sobra muito
Ainda sobra muito, meu coração.

(In Poemas e Canções, seleção e tradução Ruy Proença, São Paulo: Nankin, 2001)

SOBRE BORIS VIAN 

Por Vladimir Kush

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Danilo Alves

POETRY MUST DIE
(Um brinde no banquete das musas)

minha mãe me aconselhou
a não ler mais poesia
alegando que “às vezes a poesia
parece com a vida da gente”
achei um dos melhores conselhos
que um filho pode receber
mas infelizmente
eu me encontro num estágio
em que parecer não é suficiente
minha vida
precisa ser
o poema

(Fonte: Suplemento Literário de Minas Gerais,  Belo Horizonte,  edição 1.356, setembro/outubro 2014)























Sobre o poeta: Tem 20 anos, designer, nasceu em Poções (BA). e vive desde criança em São Paulo. Este é seu primeiro poema publicado. 

Manuel António Pina

TANTA TERRA
Tanta terra,
tantas palavras sob tantas palavras.
Regressa como um corpo o coração
à apenas existência,

lembrança de
alguma coisa lida:
o rosto da mãe, a trepadeira do jardim.
Mãe, afastei-me de mais, perdi-me

no meio de palavras minhas e palavras alheias,
quem, se eu gritar, me ouvirá entre as legiões dos anjos?
E nem isto me pertence,

a tua ausência e o meu medo;
nem estou na minha ausência,
fui como um vaso e quebrei-me ou qualquer coisa assim.

[In Nenhuma palavra e nenhuma lembrança,  In Todas as Palavras Poesia reunida, 3a. ed, Porto, Assírio & Alvim, 2013, p. 235]. 


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Odysséas Elýtis

O TEMPO É A SOMBRA CÉLERE DOS PÁSSAROS
O tempo é a sombra célere dos pássaros
Meus olhos escancarados em meio às suas imagens

Por sobre o verde ditoso das folhas
As borboletas vivem grandes peripécias

Entrementes a inocência
Despe sua última mentira

Doce doce peripécia
A Vida.

MARINHA DAS ROCHAS
Tens um gosto de tormenta nos lábios — Mas por onde
andaste
O dia todo em duro devaneio a pedra e mar
Um vento portador de águias descalvou as colinas
Raspou até o osso teu desejo
E as meninas dos teus olhos tomaram o bastão à Quimera
Pautando com espumas a memória!
Onde a ladeira familiar de um breve setembro 
De rubra terra em que a brincar olhavas lá embaixo
Os densos ramalhetes de outras moças
As quinas onde os teus amigos depunham braçadas de
abrótano.
— Mas por onde andaste
A noite toda em duro devaneio a pedra e mar
Eu te dizia que contasses dentro da água despida seus
dias luminosos
Que de costas gozasses a alvorada das coisas
Ou que voltasses a correr campos de jalde
Com uma luz trifoliada em teu peito de iâmbica heroína.
Tens um gosto de tormenta nos lábios
E uma veste vermelha como sangue
Bem fundo no ouro do verão
E aroma de jacintos — Mas por onde andaste

Ao desceres às praias às baías com seu chão de calhaus
Havia ali algas marinhas frias e salinas
Porém mais fundo ainda um sentimento humano que
sangrava
E com surpresa abriste os braços dizendo o nome teu
Enquanto ascendias ligeira até a limpidez do fundo
Onde brilhava a tua estrela do mar.

Ouve, a palavra é a prudência dos últimos
E o tempo frenético escultor dos homens
E alto paira o sol fero da esperança
E tu mais perto dele estreitas um amor
Que tem nos lábios um gosto amargo de tormenta.

Não há por que contares, azul até o osso, com outro verão
Com os rios mudarem de curso 
E levar-te à mãe deles
Para que possas outra vez beijar as cerejeiras
Ou cavalgar o vento noroeste

De pé nas rochas sem amanhã nem ontem
Sobre o perigo das rochas cabelos na tormenta
Irás dizer adeus ao teu enigma.

JÁ NÃO CONHEÇO A NOITE
Já não conheço a noite, terrível anonimato da morte
No porto de minha alma ancora uma frota de astros.
Estrela da tarde, sentinela a refulgir na brisa
Celeste de uma ilha que me sonha
A proclamar de seus altos rochedos a alvorada
Meus dois olhos num abraço te acolhem com ó astro
Do meu vero coração: Já não conheço a noite.

Já não conheço os nomes de um mundo que me nega
Leio as conchas, as folhas, os astros com clareza
Meu ódio é supérfluo nos caminhos do céu
A menos seja o sonho vendo-me cruzar de novo
com lágrimas o mar da imortalidade
Estrela do mar, sob o arco dourado de teus fogos
Já não conheço a noite que é só noite.

[In Poesia Moderna da Grécia, Seleção, tradução direta do grego, prefácio, textos críticos e notas de José Paulo Paes, Editora Guanabara, Rio de Janeiro, 1986. pp. 253-255]

SOBRE ODYSSÉAS ELÝTIS





quarta-feira, 4 de fevereiro de 2015

Bartolomeu Campos de Queirós

EXCERTO DE "VERMELHO AMARGO"

Ah! Só meu amor me sabia! Se por descuido passei a amar, em cada instante ele se fazia mais indispensável. Meu coração escolheu e agora minha carne exigia sua presença. Ah! Como o corpo exige! Se o medo me invadia, se vago o horizonte, se fria a aragem, meu amor era minha moeda. Sob os juros do amor eu me enriquecia.

A mãe nos contava sobre nossos bens: uma casa com um quintal, uma horta sob mangueira, um pé de jabuticabas — que nos espiava com muitos olhos pretos. No mais, um regador para dar de beber às plantas. Nas tardes, quando o tempo se faz humano por parecer duvidar, minha mãe, sustentando o regador pela asa, benzia as flores. Exalava um perfume de terra molhada e a alma se fazia definitivamente telúrica. Viver tinha sabor de chão encharcado. Mas isso não leva importância.

A madrasta mantinha especial conversa também com o fogo. O tomate, comia-se cru, frio pelo aço da faca. Ao livrar-se dos pesados cobertores da noite, seus passos duros caminhavam para o fogão. Soprava as cinzas que pairavam sobre as brasas, desfazendo a mentira. Atiçava, e as chamas ressuscitavam, estralando em suspiros. Despertavam vermelhas como a fatia do tomate brilharia dentro dos pratos.

O fundo é frio e a terra úmida. A aragem não sopra no lá embaixo. No fundo, o peso da terra é definitivo véu. Não há carga que o corpo morto não suporte. Não há alma lá no fundo. A luz não desfaz o breu que arde no bem profundo. No bem fundo, não há palavra capaz de soar. Mas o silêncio não existe no fundo. O nada interrompe tudo. A mãe dorme no muito fundo.

Seu adeus me deu, como sina, ler o além das letras. Aprendi, com sua ausência, a decifrar o depois dos olhares, se de afagos ou de repulsa. Li os segredos das mãos, se abençoando ou repudiando. Decifrei a censura se manifestando na linha dos lábios, amargos ou doces. Lendo adaptei-me a corresponder ao projeto do outro sobre mim. Desviando-me de mim. e, ingênuo, desconhecia a impossibilidade de novamente viver o dia de ontem. Sua partida me legou, como herança, a habilidade de explorar meu tesouro em seu vazio.

(In Vermelho Amargo, São Paulo: CosacNaify, 2011, pp. 21-23)

SOBRE BARTOLOMEU CAMPOS DE QUEIRÓS




terça-feira, 3 de fevereiro de 2015

Fernando Sernadas

Poema Crônico
Qualquer palavra serve para abrir o poema
Como rabo de lagartixa remexendo além da morte
Ou jorro de sangue antes da pedrada
O poema já esta escrito
Uma ferida irreconciliável com o mundo
Como quem e esmagado em forma de papel
E não sabe sequer que morre
Por ser ao fio das asas que o vento renasce
E nas arestas das pedras que a chuva perdura
O poema não cicatriza o caule que adorna a festa
Nem a oração da alma onde o corpo ferve
Cuidado com o poema
Depois de aberto não há como
31/1/2015

Poemeio
A linha que corta pelo centro do ser
Não é onde o corpo acaba e a morte começa
A Terra roda pela luz para que a noite se faça
Uma dialética da indiferença e de costas viradas
E ninguém sabe o que pode um corpo
Pensava Espinosa para lá dos limites desse corpo
Pois só a dor limita o corpo
Só a dor o encama e lhe tolhe os ramos
Pega-se numa pedra e a lagoa escuta
O coração das pedras e o crescimento do mundo
Enquanto o corpo cresce para dentro
E as árvores penteiam o vento
E com isto adormece o poema
2/2/2015

by Leonidafremov

segunda-feira, 2 de fevereiro de 2015

Ana Luísa Amaral

PASSOS DE VELUDO (título póstumo)

Do not go gently into that good night
Dylan Thomas
Não permitas que a noite se desabe,
habituada e negra. Antes confunde
as regras e as sombras que lhe obedecem,
cegas. Não descanses olhar sobre
o vazio, nem no silêncio seduzindo
em nada. Aqui: címbalo, pífaro, assobio,
ou tampas de barulho avesso a almofada.
Grita, blasfema, geme em timbre agudo,
mas não deixes a lua, com passos de veludo
entrar pela ombreira, sentar-se e conversar.
Nem lhe ofereças um lar de cabeceira
e penumbra doente. Argumenta-a de frente
e à seda roçagante dos seus passos;
numa filosofia de algibeira,
resiste-lhe o abraço cultivado. E rasga
a sua máscara ausente de suor. Não entres
docemente nessa noite. Não entres
tão depressa.

[In Inversos poesia 1990-2010, Lisboa: Dom Quixote, 2010, p. 209]


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...