sexta-feira, 20 de fevereiro de 2015

Cristina Campo

DOBRANDO O TEMPO,
DOBRANDO UMA ESQUINA

What sorrow 
beside your sadness 
and what beauty
W.C. Williams

Demasiadas coisas receberam tuas pálpebras
a atenção consumiu-te as pestanas.
Demasiados caminhos te repetiram,
apertada, perseguida.

A cidade dos séculos te devora
para ti entrevê, sonho e destruição
de luzes e chuvas, lágrimas já senis
sobre a rapariga que passa
febril, indomável, dobrando o tempo, dobrando uma esquina.

Regressa! Gritam os velhos de Nossa Senhora do Pranto,
a ronda da piscina de Siloé
com os cães, os híbridos, os espectros
que não se conhecem mas que tu sabes
enraizados contigo
na glute azul do asfalto
e crentes em tua flor que arde, branca —

porque todos vivemos de estrelas extintas.

[O Passo do Adeus, Tradução José Tolentino Mendonça, Lisboa, Assírio & Alvim, 2002, p. 59]. 


quarta-feira, 18 de fevereiro de 2015

Paul Auster

Noite, como que um gosto
por dentro. E de nós, cada mentira
que a língua saberia
quando se recolhe e afunda
em seu veneno.
Dormiríamos, lado a lado
com tal fome, e neste fruto,
nossa luta, viraríamos o nome
do que nomeamos. Como se um crime, sonhado
por nós, pudesse maturar a frio — e derrubar
as negras árvores, espinhos, 
que drenam a história dos astros.

[Todos os poemas, Tradução e prefácio de Caetano W. Galindo, São Paulo, Companhia das Letras, 2004, p.71].


segunda-feira, 16 de fevereiro de 2015

Miodrag Pávlovitch


EPITÁFIO DO BARDO ESLAVO

Nesta minha nova religião
chamaram-me de renegado e inimigo
por causa de nossas antigas cantigas

Para evitar a ira da igreja
arrancaram as velhas canções feito raízes
deitaram ódio contra mim

Afundei na miséria
enterrado nas trevas
sonham-me feiticeiro
mas não me ergui da tumba ainda

Quando agora me despertam não levanto
será o juízo final ou o que mais —
e meus ouvidos rotos gritam:
Ressuscita infiel recolhe o teu corpo
onde encontrar o meu corpo indago
Neste rumor que me arrebenta o crânio
é fácil rememorar o corpo

Anjos — guardem as trombetas
soldados celestes
não pisem minha cova com esporas

Ficarei onde estou
na terra de minha língua
não quero ser julgado em seus concílios
não quero ser atirado sobre a fria lápide da eternidade
não quero ser lançado contra o céu claro

Outros que feneçam
basta-me a minha fossa
a terra parece feita de lã
e a canção fertiliza os ossos em segredo.

[Miodrag Pávlovitch, Poetas do Mundo, Bosque da Maldição, Seleção, introdução e traduçãoAleksandar Jovanovic, Brasília: Editora UNB, 2003, p. 42-45]




domingo, 15 de fevereiro de 2015

Enrique Vila-Matas

EXCERTOS DE "DOUTOR PASAVENTO"

Depois de tudo, se hoje tenho alguma certeza, é a de que há uma grande injustiça no trabalho artístico. Escreve-se com a angústia de se ver desonrado por uma obra fracassada. O fracasso de uma obra supõe uma grande vergonha pessoal, porque o sujeito não pôde demonstrar nem sua inteligência nem seu talento. Ainda por cima o sujeito fica como um vulgar ambicioso, um arrivista de meia-tigela. A angústia domina, portanto, a realização da obra artística, mas o pior não é isso, o pior não é quando vem o fracasso, mas sim quando a obra resulta mais ou menos bem-sucedida e consegue aplausos e, mesmo assim, não se obtém de tudo isso nem sequer uma satisfação íntima. E que, na verdade, não há nada ali no reconhecimento, nada. Uma obra de sucesso vive sua própria vida, existe em alguma parte, à margem, e pouco pode fazer pela vida de seu autor. Ainda por cima, o cúmulo é que, de repente, sufocam o autor com felicitações superficiais, aplausos de uma honra duvidosa, grandes tapas nas costas, pedidos ridículos de autógrafos, cartas tétricas de amor, convites para amarrar uma corda no pescoço em qualquer prêmio nacional.

***

Envelhecer talvez tenha sua graça, mas também é certo que envelhecer serve para comprovar que mudamos e que o tempo caminhou conosco, serve para comprovar que avançamos por dunas movediças que na aparência nos conduziram ao término de um trajeto e nos situaram na ponta avançada de um deserto onde, ao voltar a vista para trás (...) só podemos ver um velho caminho no qual o Tempo escreveu o fim abrupto de nosso mundo, do mundo. Sabemos que é o fim do mundo, se avançarmos. Sabemos que, se dermos um passo adiante, desapareceremos. E planejamos dá-lo, pois pensamos que é o melhor, recordamos que outros já deram esse passo antes, e esses outros foram sempre nossos exploradores favoritos, os que tanto admirávamos quando os víamos desvanecer-se nas tenazes sombras do vazio.

***

“Até quando durou sua juventude, doutor Pasavento?”, me perguntou Morante à queima-roupa, no dia de Natal, assim que me viu aparecer na residência. Parecia que tinha passado toda a noite da véspera preparando aquela pergunta. Eu ia responder alguma coisa quando ele mudou a pergunta, ainda que só muito ligeiramente: “Até quando durou sua juventude, doutor Fausto?”. E riu. Era, dessa vez, o riso de um louco.

[VILA-MATAS, Enrique, In Doutor Pasavento, Tradução José Geraldo Couto, São Paulo: Cosac Naify, 2009].




sexta-feira, 13 de fevereiro de 2015

Hébe Kouya Skandalakis

CÍCLICO
Pergunto à água — o que sou?
Água que entra pela terra e some.

Pergunto ao chão — o que sou?
Chão que esconde os ossos já desfeitos.

Pergunto ao vento — o que sou?
Vento, voz a lutar inutilmente
contra o silêncio e a neve.

Pergunto à luz — o que sou?
Luz que me devora e não se apaga.

Pergunto ao céu — o que sou?
Céu, refrigério da minha punição.
[De A barreira do silêncio]

JOANA D’ARC
Vinde, pois, chamas purificadoras
queimar, com a minha carne, as cadeias
que me prendem. Suportarei o martírio até
a fogueira tornar-se refrigério
e o terror meu êxtase.
[De Novos poemas]

SATYRICON
Perguntaram à baleia
se queria morrer
para transformar-se numa lépida
criatura do ar.
Ela respondeu: “Jamais!”
Queria mesmo era ficar para sempre
na segurança do seu líquido elemento,
uma baleia apenas, nada mais.
“Uma baleia por toda a eternidade! — exclamou alguém.
— Mas isso é monstruoso.
Se ao menos fosse, como eu,
um hipopótamo!”
[Idem]

[In PAES, José Paulo (seleção e tradução). Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986. p. 251].

Hébe Koúyia Skandaláki, cujo nome literário era Melissânthi, nasceu em Atenas em 1910, onde fez os seus estudos. Passou algum tempo num sanatório da Suíça tratando-se de tuberculose, e de volta a Atenas dedicou-se ao magistério e ao jornalismo. Além da poesia, cultivou a música e a pintura. Traduziu para o grego poetas americanos (Robert Frost, Emily Dickinson) e franceses (Verlaine, Pierre Garnier). O seu livro de estreia, Vozes de Inseto [Fonés Entornou], é de 1930. A ele se seguiram, nos anos subsequentes, dez outros, entre os quais O Retorno do Pródigo [Gyrismós toü Asótou, 1936], Forma Humana [Anthrópino Sxíma, 1961], A Barreira do Silêncio [Tò Fragma tís Siopís, 1965] e Novos Poemas [Néa Poiímata, 1974]. Alguns desses livros — mais tarde reunidos todos em Os Poemas de Melissânthi [Tà Poiímata tís Melissánthis, 1975] — foram distinguidos com prêmios literários, inclusive O Irmãozinho [O Mikrós Adelfós, 1960], uma peça de teatro para crianças. Morreu em 1990. 



segunda-feira, 9 de fevereiro de 2015

Maurício Ferreira

POTLATCH

Onde o espírito se satisfaz,
mede-se a grandeza de sua perda
HEGEL

Do que perdi, nada tinha.
Lenha de cansaço na fogueira das feras,
meu rosto do canário e a noite esperando a música chegar.

Isso tudo caiu do meu bolso ao dobrar a esquina.

Meus ouvidos doem: uma gravidade solar
vergou a espinha do mundo e já não existem mais
retas, nem rios, nem gotas d’águas perdidas
nos pontos de fuga.
Um homem repousa a cabeça em fluxos de ciclone.

Há que se encontrar um gesto que faça calar
o silêncio das árvores.
Entre seivas, frestas de cascas e o derramar de folhas,
descansam cigarras e mais nada se ouve
nos azuis de maio.

Não vejo a luz.
Por trás das sombras, esperança de cores.
Meu espírito brincando de passa-anel enquanto dormia.
Oceano batendo no quintal
e cumplicidade com o infinito
no café da manhã. 
Durmamos.
Os predadores foram devorados em fogueiras d’águas
aprisionadas.
Durmamos.
Os ossos das feras nos guardam em negros olhos
esbugalhados.

E não, não foram os gigantes.
Uma mão humana cravou o tempo nas entranhas das terras.
Posso assobiar horas nas linhas de eucalipto
mas é inútil vergar galhos quando o vento embala raízes.

Não reconhecer cicatrizes, não salivar feridas,
espreitar a dor. Trapacear.
Desfalecimento do espírito.

[In Inquietação-Guia 15 poetas em torno da Azougue, organização Sérgio Cohn, Rio de Janeiro, Azougue Editorial, 2009, pp. 141-142]

domingo, 8 de fevereiro de 2015

T. S. Eliot

O ENTERRO DOS MORTOS

Abril é o mês mais cruel, gera
Lilases da terra morta, mistura
A memória e o desejo, agita
Raízes dormentes com chuva da Primavera.
O Inverno aconchegou-nos, cobriu
A terra com o esquecimento da neve, alimentou
Uma pequena vida com bolbos ressequidos.
O Verao apanhou-nos de surpresa, veio por sobre o Stambergersee
Com um aguaceiro súbito; parámos na colunata,
E seguimos, já com sol, para o Hofgarten,
E tomámos café e ficámos uma hora a conversar.
Bin gar keine Russin, stamm' aus Litauen, echt deutsch.
E quando éramos pequenos, e ficámos em casa do meu primo,
O arquiduque, ele levou-me a andar de trenó
E eu apanhei um susto. Disse, Marie,
Marie, segura-te bem. E fomos por ali abaixo.
Nas montanhas, aí sim sentimo-nos livres.
Leio, quase toda a noite, e vou para o sul no Inverno.

Que raízes se prendem, que ramos crescem
Neste entulho pedregoso? Filho do homem,
Não consegues dizer, nem adivinhar, pois conheces apenas
Um montão de imagens quebradas, onde bate o sol,
E a árvore morta não dá qualquer abrigo, nem o grilo alívio,
Nem a pedra seca qualquer ruído de água. Apenas
Há sombra debaixo desta rocha vermelha
(Anda, vem para a sombra desta rocha vermelha),
E vou mostrar-te uma coisa ao mesmo tempo diferente
Da tua sombra quando ao amanhecer te segue
E da tua sombra quando ao entardecer te enfrenta;
Vou mostrar-te o medo num punhado de poeira.

[In A terra devastada, tradução de Gualter Cunha]



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...