domingo, 8 de março de 2015

Gastão Cruz


21
Nas madrugadas de segunda-feira
tinhas de regressar não sabíamos bem
a que fracção do tempo porque tudo
se sobrepunha
e éramos forçados a deter
o instante não por ser
belo, apenas por ser água
onde nunca ninguém duas vezes entraria

22
Existiam então esses momentos
que a câmara
do tempo não retinha? Ao rio das
manhãs não voltaríamos?
São as coisas concretas as mais claras
o suor o quarto a roupa abandonada

23
Os dias existiam somente por sabermos
que se lhes seguiriam
outros essa era a garantia
de sermos reais e o tempo um facto indiscutível
como a vinda do vento o movimento das
marés a força das correntes que mudavam
a posição dos barcos fazendo-os opor
à direcção da água as proas movediças

[In Observação do Verão seguido de Fogo, Rio de Janeiro: Móbile, 2013, pp. 57-59]

foto © Michael Simon 

sábado, 7 de março de 2015

Armando Freitas Filho

GRÃO
Toco, instante, início
talvez de uma árvore
que não foi em frente.
Alguma coisa deste lado
insiste, mesmo sem ramais
em sentir o que se passa
no outro
onde cresceu e floriu o rio.
Mas não consegue ouvir tudo
nem ver claro
o que raspa e invade o campo de força
se é não ou sim, se são leões
arremessando contra a presa
ou atividade de índole diversa
sem precisão de imagens
e de trilha sonora - algo alusivo
iludido, oblíquo, contra a parede:
algo de alma, ímã e ruína. 

LISPECTOR
Certo ar que não é claro
nem escuro - que é de sol e chuva
ar que não chega ao vento
mas entreabre a porta
um palmo
ou a encosta sem fechar
igual àquela, de Duchamp
hesitante
parada no meio do caminho
interrogativa entre dois portais
em 1927: porta de saída
de entrada, de comunicação?

[In Armando Freitas Filho, melhores poemas, seleção Heloísa Buarque de Hollanda, São Paulo: Global,2010, pp. 138-139]



sexta-feira, 6 de março de 2015

Daniel Faria

DO LIVRO SEGUNDO DA NOITE
ESCURA, DE SÃO JOÃO DA CRUZ 5
Entendo agora a nudez do pobre
E posso tocar-lhe como quem toca a alma às escuras
Mesmo sem a tremenda noite com que lhe toca a mão divina
O terceiro modo da paixão são os extremos. Agora entendo
Os dedos dos cegos
Agora entendo o ovo e o mártir quando é cercado para morrer
Entendo o ventre do bicho marinho, o fundo dos golfos
E já sei como abrem os ressuscitados os olhos no sepulcro

Sei o que é ser vomitado nas praias
O que é voltar a terra firme — ao dia mais do que à luz

Sei o que é o ouro no fogo e no inferno
Sei o que é renascer pelas águas

edição de Vera Vouga


quinta-feira, 5 de março de 2015

Iúnna Môrits

A cor dos cogumelos reluzentes
neste trêmulo bosque induz em erro.
Me desagrada ter de caminhar
sobre a sua beleza venenosa
e seus afogueados chapeuzinhos.
Não sei ainda onde a natureza
ferventa cada óvulo maligno,
à luz de que clarões, pra que, depois,
sob o pungente abeto, em bosques densos,
pisando-os no chão, nos reste apenas
esta lembrança longa, interminável
de sua intensa e insólita beleza.

IEREVÃ
Já sonho com Ierevã,
alegre e clara cidade
cuja rubra caravana,
que desce lá da montanha,
foi copiada do rótulo
da garrafa de conhaque,
cidade cheia de sumo,
de raízes que meditam
fincadas dentro do solo,
de pedreiros que, na aurora,
vão trabalhar carregando
nas mãos da cor de tijolo
suas bilhas coloridas
como uma bola...
                     E um menino,
ágil como uma formiga,
vai atrás deles tocando
o cornetim de brinquedo.

JANEIRO
Azul tão intenso vem ferir a janela,
tão próxima do rio, que a vontade que sentimos
é de afastar os olhos, como quem não tem coragem
de olhar para um ícone, de encarar um milagre.
Tanta névoa, tais continentes de neve
envolvem o dia que nossos ouvidos zumbem
e todo o mundo à nossa volta fica azulado.
- Tu e eu, aprendizes de feiticeiro,
ali ficamos parados, congelados,
em nosso estúdio, no espaço
ao lado do quadro-negro pregado na parede,
a garganta seca, o olhar atento.
Cheia de arrogância, arrastarei
cada sílaba, cada minuto de vida
para a minha distância; e cada atulhada
barraca de feira com toda a sua tranqueira.
Tudo o que antes parecia irrelevante
modela agora nosso destino, entra-nos nas veias,
cola-se como um prefixo aos nossos nomes. 
Cúmplices! Quero o para sempre de nosso amor
para todo mundo, até a corrupção do túmulo,
até a ferida aberta, até o verso
inconcluso: até lá onde a relva cresce e encobre
nosso peito e nossas mãos.
Azul tão intenso vem ferir a janela,
tão próxima do rio.

KIEV
Por que será que eu vôo para esta cidade
com sua catedral azul sobre a colina?
Basta bater em suas portas vermelhas
para sentir lábios beijando-me o rosto.

Aqui eu me sinto eu mesma, inteiramente,
como um pássaro a quem dão de comer na mão.
Sobre o retângulo deste tapetinho
fico firme de pé, sem hesitar.

Feliz é aquele a quem coube a missão
de lavar carinhosamente, com um chuveirinho
de cristal, os meus olhos, boca, ouvidos,
de tudo o que o vento veio trazendo.

Sonho que a minha camisa se transforma
em pó de neve a recobrir meus ombros
e, antes de ir embora, sonho com um cachorro
parado ali, me olhando fixamente.

[In Poesia Soviética, seleção, tradução e notas de Lauro Machado Coelho, São Paulo, Algol, 2007, pp. 491-493]

Iúnna Petróvna Môrits, poeta e ativista russa,  nasceu em Kíev, em 1937, numa família judaica. O crítico norte americano Daniel Weissbort, considerou-a “um dos nomes mais importantes da poesia feminina russa atual”. 
Uma das fundadoras da seção russa do PEN International, destinado a promover a aproximação entre os intelectuais. Participa da Comissão de Direitos Humanos dessa instituição. Entre os prêmios recebidos por ela está o Andrei Sákharov para a Coragem Cívica.


quarta-feira, 4 de março de 2015

Edwin Morgan

CINCO POEMAS SOBRE DIRETORES DE CINEMA
Antonioni
Árvores afogando em sal. O buraco da fechadura geme.
Ele deixou seu barco
no leito de junco, o livro dela
e luvas idiotas onde ela as jogou.
Além do canal os combatentes rondam
de norte a sul, seu chamado
continua através dos pântanos.
‘Por quê você esperou o verão terminar
antes de vir?’ ‘Por quê você esperou por mim
se preferia ter um barco que uma mulher?’
“Não foi isso. Não é isso.’
‘Já vou.’ ‘Mande o carro de volta.’
‘Com Sandro? Deve estar brincando.’ ‘Está frio.’
O carro prateado entre os álamos
como um peixe nos juncos.
Ele vive de balas de hortelã e blues
ou
Ele recorta fotografias para ganhar a vida
ou
Enviaram para ele a morte, está abrindo agora
ou

Grierson
Depois as redes subiram e caíram
sobre a onda. Depois a água escura
incendiou subitamente, depois escureceu.
Depois com uma pescada tudo era
fogo, tudo fogo prateado
lutando contra o escuro. Depois o fogo
subiu no ar lentamente,
debatendo sobre o lado do barco.
Depois era convés e cabo.
Depois era a dança da morte
em prata com gaivotas cinzas.
Depois eram nuvens baixas, barras de luz,
água alta estapeando, rasto agitado
e chá de impermeável depois.

Warhol
Nós nos tornamos laranja. Eles se tomam roxo.
O fuso está se tornando rock metamórfico.
Acendendo um cigarro, ele se torna ela.
O Empire State está se tornando escuro
o dia todo. Na praia há deuses,
que tornam suas costas um para o outro
enquanto cada um gira-se num visitante.
A pickup centelha e cospe, dois
cantos de stereo incandescentes.
No brilho ela se torna vaga, inclina-se,
e uma fração de segundo a torna
em um próximo ciclo de escuridão.
Eles gritam como papagaios, e tão radiantes,
todos se tornando metade pássaro.
Dois no sofá tornam um fanzine,
querido. Estamos ligados, desligados, ligados.
Uma peruca vagueia, ela
se torna ele. Ele gri-
ta em laranja. Nós
vagamos para a porta.
Torna-se. Retorna-se
ao mundo enfim,
parado como o Empire State
soprado pelo vento.

Kurosawa
Espada da clareira, brilho correndo.
Tremor de árvore, choro engasgado.
Sombra de rio, abalo completo.
Moinhos de pó, velho vento.
Moinhos de cova, gélido vento.
Fogo de colmo, criança correndo.
Carroça empilhada, milhares de cinzas.
Chuva da vila, floresta da tormenta.
Deuses da tormenta, fantasmas da chuva.
Pais inquietos, lareiras de preces.
Jogando faixas, tronos dissolvendo.
Colheita de sangue, pote de cão.
Moinhos de pó, velho vento.
Moinhos de cova, gélido vento.
Forno rachado, amarrotado lento.
Lâmina da lua, crânio degolado.
Irmão de sangue, cilada suntuosa.
Moedas do sol, cantos de pássaro.
Arco inclinado, homem correndo.
Arco inclinado, corpo pulando.
Arco inclinado, pescoço fluindo.
Arco inclinado, joelhos quebram.
Arco inclinado, peito cravado. 
Arco inclinado, arco inclinado.
Arco inclinado, arco inclinado.
Moinhos de pó, velho vento.
Moinhos de cova, gélidos ventos.

Godard
- as paredes todas muito brancas, a garota
falava devagar ao ser interrogada
mas as palavras perdiam-se nos sons de balas
vindas da rua -

caído no café, quarto marrom asséptico
o clangor do rádio, uma janela
abrindo-se num jardim sujo
com uma espécie de galinheiro -
se ele estava apenas bêbado, ou morto -

‘o público não tem meios de saber
e é isto’ / no elevador do arranha-céu
no décimo-nono andar

‘tudo bem, 20 mil
uma pechincha’

- não, a interrogação foi muito antes.
Ela foi para o campo -

a junção não
‘como’ uma teia de aranha
continua pegando trens -
as pontes onde ele se debruçou -
na verdade um céu em branco

TODOS OS REACIONÁRIOS SÃO TIGRES DE
PAPEL

- ela tinha vindo para a ponte sem que soubesse
mas já era tarde, eles tinham seus cachorros,
fácil mesmo sem lanternas -

MAS ELES TAMBÉM SÃO TIGRES REAIS
QUE TÊM DEVORADO MILHÕES DE
PESSOAS

‘Não há cinema
sem um fluxo de imagens,
Godard está destruindo o cinema’

MAS POR OUTRO LADO ELES SÃO TIGRES
DE PAPEL
PORQUE O POVO AGORA TEM PODER

e o conversível deslizou sobre
um clichê bacana no mar

[In Edwin Morgan - Poetas do Mundo, seleção, tradução e introdução de Virna Teixeira, Brasília, Ed. UNB, 2006, pp. 50-63]. 



terça-feira, 3 de março de 2015

Maria Lúcia Dal Farra

POEMA
A Antonio Cândido

O ondulado mar
(crina arisca de versos)
galopa na areia imóvel desta página.
Dos cascos e redemoinhos do acaso
faço argolas de Iemanjá,
pulseiras com que ela dança
acatando
o rito dos náufragos.
Nesse ritmo
cu mesma me afogo na gramática deslizante
dessas águas
como se imergisse para o imo hipnótico
onde as ondas
sussurram vocábulos em tom de sonda.

Mimosos cavalos marinhos
escavam (sem patas)
a massa lendária deste papel,

e flores aquosas, arabescos de espuma,
calêndulas
(e até peixes)
sobem à tona
apenas

para comprovar o milagre da escrita.

MUDAS CINZAS
A Jesana B. Pereira e ao
pessoal do "5“ Curta As Mulheres”

Tudo o que é belo
a morte devora:
o pássaro, o êxtase, a veemência das musas,
a infância —
inscrita no vento
ou na água nascente
a vida nada retém.

Indago em vão
as mudas cinzas porque sei
que cada pequena coisa
pede canto.

Ó Deus,
escutai ao menos estes versos
que não vos censuro por acompanhardes
(do alto)
a minha angústia.

[In Alumbramentos, São Paulo, Iluminuras, 2011, pp. 112-113].

ODILON REDON


segunda-feira, 2 de março de 2015

Emerson Machado

EM CORES

Eram olhos lindos. Um azul bem forte nas íris. E quando estava feliz, parecia ainda mais forte. Tão azul quanto à tinta da caneta que usei para escrevê-la tantas cartas. Eram olhos mais azuis quando sorria, e também quando dava gargalhadas, mesmo tendo que fechá-los para gritar seus altos risos. O azul ficava ainda mais forte quando estava séria. Os olhos pareciam ficar a ponto de saltar das órbitas e atacar quem quer que a estivesse contradizendo, ou provocando-a, ou tinha pegado alguma coisa sem sua permissão. Eram turquesa quando estava focada, concentrada em fazer os outros felizes, ou me fazer um carinho no cabelo. Ficavam mais parecidos com a cor de uma piscina ao sairmos de férias, ou estarmos apenas tomando sol na varanda. Eram da cor do mar quando jantávamos a luz de velas e da cor do céu ao comermos hambúrgueres numa praça de alimentação qualquer. Ficavam mais claros ou mais escuros a depender do clima. No frio eram sempre da cor de Netuno. No calor eram mais para uma alvorada, poucos minutos antes do nascer do Sol. As quase imperceptíveis listras de um lápis-lazúli nas íris apareciam quando estava com medo.
Eles brilhavam às vezes. Ao me verem e raras vezes ao verem Bob — o cachorro da vizinha. E o sorriso dela? A gente conseguia prevê-lo naqueles círculos azuis de seu rosto. Primeiro ela sorria com os olhos, para então mostrar os dentes. Não me pergunte como isso podia ser possível porque eu não saberia explicar. Era pura magia.
Com o passar do tempo, o azul começou a dar lugar ao cinza. Quando chorava, era essa cor triste que eles tomavam. Doía no peito ver lágrimas escorrerem de tão perfeitos olhos e ver o azul se entregando facilmente àquela outra cor sem vida. Tempos depois ninguém mais conseguia ver o céu naqueles círculos. Nem o mar. Nem piscinas. Eu não conseguia imaginar o que podia combinar com aquela nova cor. Cinza lembra o pó, ou cidades grandes violentas. Ou carbono. Isso faz algum sentido? Pelo sim e pelo não, carbono me remete ao início da vida. E com isso podia me encher de esperança em ver aquele cinza se transformar em azul novamente. Assim como o carbono que criou os seres vivos para contemplarem a imensidão azul do mar e do céu se unindo no distante horizonte... E aqueles olhos precisavam de azul. A nova cor não era bonita. Não brilhava. Nem quando me via nem quando via Bob — sim, a vizinha ainda morava na casa ao lado e o cachorro parecia ter uma vida mais longa que a maioria dos que conheci.
Enfim, eu não queria mais encarar aquela fraca coloração de morte.
Logo, já quase no fim, quando ela virou o olhar e me encarou pela última vez, posso jurar que vi o azul que tanto me fazia falta. Cheguei a acreditar que tinha visto um singelo sorriso nele. Mas antes de poder mostrar os dentes, vi o azul se esvair, fazendo com que o cinza predominasse mais uma vez. E então pude perceber que algo estava faltando nela, algo já a tinha deixado.
A alma? Talvez.
  

Emerson Machado é jornalista pela Universidade Tuiuti do Paraná e escreve reportagens para o Diário da Amazônia. Tem vários livros infantis e juvenis publicados, entre eles O Investigador de Sótãos — livro selecionado pelo Programa Nacional Biblioteca da Escola (PNBE 2011), do Mistério da Educação. Também tem contos premiados em concursos literários e publicados em antologias e revistas. Acredita que foi irlandês em uma vida passada e adora viajar, ouvir histórias e fazer maratonas de documentários dos mais variados gêneros. Ele não gosta de pipoca.

By Shawn McNulty

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...