quarta-feira, 18 de março de 2015

Eugénio de Andrade


A Sílaba 
Toda a manhã procurei uma sílaba.
É pouca coisa, é certo: uma vogal,
uma consoante, quase nada.
Mas faz-me falta. Só eu sei
a falta que me faz.
Por isso a procurava com obstinação.
Só ela me podia defender
do frio de janeiro, da estiagem
do verão. Uma sílaba.
Uma única sílaba.
A salvação.

Abril 
Brinca a manhã feliz e descuidada,
como só a manhã pode brincar,
nas curvas longas desta estrada
onde os ciganos passam a cantar.
Abril anda à solta nos pinhais
coroado de rosas e de cio,
e num salto brusco, sem deixar sinais,
rasga o céu azul num assobio.
Surge uma criança de olhos vegetais,
carregados de espanto e de alegria,
e atira pedras às curvas mais distantes
- onde a voz dos ciganos se perdia.

Adeus 
Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, minha boca nos teus olhos
carregada de flor e dos teus dedos;
como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve - e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.
Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
Digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.
Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.

Adeus II
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.

Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.

Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

Ainda sabemos cantar 
Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.

Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude.


segunda-feira, 16 de março de 2015

Rainer Maria Rilke

Amo as horas sombrias de meu ser,
nas quais se me aprofundam os sentidos:
nelas eu tenho achado, como em velhas cartas,
meu dia-a-dia já vivido, e feito
alguma lenda distante e sofrida.
Delas me vem a noção de que tenho
lugar numa outra vida mais ampla e infinita.

E eu às vezes me sinto feito a árvore
que, sobre um túmulo, madura e ciciante,
preenche o sonho de algum morto jovem
(a cuja volta ela aperta as raízes mornas)
perdido entre amarguras e cantigas.

***

 Se a ti, vizinho Deus, eu incomodo às vezes
com rude batimento no meio da noite,
é que de quando em quando te ouço respirar
e sei que estás sozinho no salão.
E, se careces de algo, lá não há ninguém
que te ofereça um gole às mãos tateantes...
Sempre atento estou eu: ao menor sinal teu
eu estou muito perto.

Só existe entre nós uma fina parede,
por acaso: se houvesse, por acaso,
de tua boca ou da minha algum chamado,
ela se desfaria
sem alarme ou ruído.

De imagens tuas ela é toda feita:
imagens que em tua frente se põem - nomes.
E, tão logo se acende em mim a luz
com que te reconhece a profundeza minha,
ela some com um reflexo na moldura.

E meus sentidos, que em pouco se debilitam,
desligados de ti - ficam sem pátria.

***

Capto de tuas palavras o sentido
e o da história dos gestos
com que tuas mãos em torno do devir,
quentes e sábias, tentam limitá-lo.

Da vida falavas alto, da morte falavas baixo,
e sempre e sempre repetias: ser...
Ainda antes da primeira morte veio o crime
- e era um rasgão cruzando teus maduros círculos
e uma área havia
e vozes arrastadas
que então se reuniam
para te proclamarem,
para te conduzirem
- pontes sobre todo abismo.

E o que têm, desde então, balbuciado
são pedaços
de teu antigo nome.

***

Fala Abel, pálido moço:

- Eu não existo. Algo me fez meu irmão
que meus olhos não viram.
A luz ele me apagou,
meu rosto ele sufocou
com o rosto dele.
Agora ele está sozinho.
Eu penso que ele nem deve existir:
com ele ninguém faz o que ele fez comigo.
Todos me seguem a trilha:
todos chegam defronte à ira dele
e diante dele parecem perdidos.

Creio que meu irmão maior vigia
igual a um tribunal.
É em mim que a noite tem pensado,
não é nele.

***

Tu, escuridão da qual descendo,
de ti gosto mais que da labareda:
ela reduz
o mundo em que reluz
a uma espécie de círculo
fora do qual nenhum ser a conhece.

Já a escuridão, em si tudo contém:
formas e flamas e animais, e eu
- assim como também ela reúne
pessoas e potências...

E pode ser isto: uma grande força
a se mover nos subúrbios de mim...

Acredito nas noites.


***

Eu creio em tudo que ainda não foi dito.
Quero soltar meus mais sagrados sentimentos.
O que ninguém sabe ainda querer muito
em mim um dia há de ser espontâneo.

Se é presunção isto, meu Deus, perdoa:
mas é só isto o que eu tenho a dizer-te.
A força melhor em mim há de ser como um impulso
assim sem zangas nem hesitações;
e é assim que te amam as crianças.

Com esta maré, com este estuário
nos largos braços do mar aberto,
com esta volta crescente,
quero reconhecer-te e proclamar-te
como antes ninguém fez.

Se isto é soberba, deixa eu ser o soberbo
por minha prece,
que tão grave e solitária
ergue-se em frente a teu rosto de nuvens.


 [In Livro de Horas, Tradução de Geir Campos, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2ª ed., 1994]
















sábado, 14 de março de 2015

Mariana Ianelli

De Rilke para Sophia, de Alceu para Lia
Além dos célebres contos e poemas de Natal, que todos os anos surgem em novas coletâneas, há na literatura este nicho muito particular das cartas natalinas, no qual Rainer Maria Rilke ocupa um lugar especial. Suas cartas de Natal para a mãe cobrem nada menos que 26 anos, um período sem lacunas que raramente encontra paralelo no gênero epistolar a ponto de render um livro temático. Curiosamente, o que sintetiza as cartas do poeta e ao mesmo tempo as mantém vivas por um quarto de século tem relação com as cartas de Alceu Amoroso Lima para sua filha Lia. Essa presença por meio da palavra, nunca como presença física, numa época do ano em que era esperado que pais e filhos celebrassem juntos, acontece com uma intenção que não foge ao espírito da data.

Diz-se que Rilke mantinha uma distância estratégica da mãe e suas cartas seriam prova disso, de um filho que, não faltando com o afeto, tampouco buscava expandir essa relação. Mas a importância do Natal para o poeta como um momento de celebração meditativa, nítida nos motivos de sua poesia, coincide com o gesto e o conteúdo de suas cartas. Em 1903, três anos depois do início da correspondência com a mãe, Rilke propõe a ela um ritual: que sua carta seja aberta apenas no dia 24 e às 6 horas da tarde os dois se encontrem em pensamento. Fica tacitamente acordado que o Natal será comemorado sempre assim, numa secreta sintonia entre mãe e filho que significará para ambos uma comunhão sagrada.

As cartas não falham, a cada ano vêm de um lugar diferente, Paris, Westerwede, Roma, Duíno, Viena, Munique, cada lugar marcando uma fase da vida e da obra do poeta. O ritmo intenso tanto nas mudanças de residência de Rilke quanto em seu trabalho literário tem como contraponto sutil a serenidade de espírito que o poeta busca para si, desejando o mesmo para sua mãe. O presente de Natal enviado com a primeira carta, em dezembro de 1900, é simbólico: "Histórias do Bom Deus", um livro em que a mãe vai reconhecer - ele espera - o melhor em que seu filho se tornou.

É bom lembrar que, nessa época, Rilke já esboçava com o pintor Heinrich Vogeler o projeto de um ciclo de poemas de Natal que, mais de dez anos depois, resultaria no livro "A Vida de Maria". Uma das cenas escolhidas para esse ciclo é o repouso de Maria e Jesus durante a fuga para o Egito. Esse momento de repouso dos prófugos está representado também de modo simbólico no conteúdo das cartas natalinas, especialmente durante os anos da Primeira Guerra Mundial. Aquela paz de uma hora em que os dois se encontram, sempre em dezembro, numa espécie de cerimônia íntima, de cumplicidade na solidão, significa ainda um espaço interior de refúgio, uma celebração da criança a salvo dentro de um e de outro.

No Natal de 1901, em Westerwede, Rilke está casado, tem uma filha, e a família recém-formada justifica as palavras breves. No dezembro seguinte ele volta a escrever, dessa vez longamente. Fala do trabalho, da filha pequena, do tempo quente e úmido de Paris. Já em 1906, instalado em Capri, na Villa Discopoli, Rilke está separado mulher e da filha, tão sozinho quanto a mãe. A paz da hora então é real, e a solidão, uma palavra festejada. A partir daí, Rilke afasta-se cada vez mais de sua família a ponto de comentar, poucos anos depois, em Duíno, que há muito tempo não recebe notícias de sua mulher, Clara.

Em 1910, Rilke celebra o Natal em Túnis, em meio a uma paisagem de mesquitas, "templos divinos de outra crença, mas [erguidos] ao mesmo Deus". Esse breve comentário resume a convicção de fundo místico do poeta. Também nessa carta está uma de suas definições para o espírito da data: "Sentir no peito uma vez ao ano a expectativa, a esperança inabalável, de que o adulto, ora vigorando em nós, nos quer surpreender, não um pouco, não, muito, com o infinito".

Essa "esperança inabalável" e essa "feição de inocente criança" que dão sentido à hora sagrada serão desafiadas durante os anos de guerra. Justamente em 1914, a carta vem sem referência de lugar. É o primeiro dezembro de um mundo em transe, uma época em que as palavras não convencem. Mas René, o velho René, como agora assina suas cartas, continua a ver no Natal "a comemoração do júbilo", o envolvimento de cada um na imagem daquela criança pura, mesmo em circunstâncias de destruição e luto.

Se já a fidelidade das cartas, ao menos uma vez por ano, mostra uma constância de pensamento, o equilíbrio que o poeta mantém numa época de desabono espiritual prova que sua alegria não oscila com as oscilações do mundo. Por isso, suas cartas de 1914 a 1918 insistem em reabilitar as palavras desacreditadas e assumem o desafio: "Somos assim postos à prova, se de fato compreendemos a necessidade de transcender a nós próprios no congraçamento".

As cartas que se seguem, de 1919 a 1921, marcam uma temporada de turnês de leituras e conferências de Rilke pela Suíça, além da etapa final da longa gestação de "Sonetos a Orfeu" e "Elegias de Duíno". Em 1923, os poemas de "A Vida de Maria" estreiam numa peça para canto e piano.

O interessante nessa arquitetura dos poemas de Natal, contemporâneos das primeiras "Elegias", e nas cartas natalinas para a mãe, é a sugestão de uma mesma atmosfera de capela, sob a influência das artes, especialmente a pintura de ícones. Não por acaso, além das pinturas citadas pelo poeta em suas cartas, há referências a capelas que ele visita, em particular a capelinha abandonada de Santa Ana, de propriedade do Castelo de Muzot, que sintetiza em uma imagem o imperturbável sentimento ascético de Rilke nos tempos do pós-guerra. Sua última carta vem em 1925, de Muzot, e ali está, mais uma vez intacta, a celebração de júbilo do filho, comungando em pensamento com a mãe.

A criação desse espaço de sintonia lembra o teor de outras cartas natalinas, agora de pai para filha. Cobrindo um período de mais de 20 anos, as cartas de Alceu Amoroso Lima para sua filha Lia aproximam-se do espírito de união entre Rilke e Sophia. Vale destacar a carta de dezembro de 1950. A bordo do navio Argentina, no Dia dos Santos Inocentes, Alceu escreve para a filha se despedindo. Começava um tempo novo para os dois, Alceu a caminho dos Estados Unidos, Lia a caminho do mosteiro Santa Maria, em São Paulo. Nessa carta de despedida, Alceu faz um único pedido para a filha às vésperas da vida nova: que ela nunca perca sua naturalidade. Que, dali a alguns anos, ele possa reconhecer a mesma alegria de menina quando a reencontrar, "com os seus véus negros, atrás de uma grade".

É assim que os dois comemoram o Natal, celebrando a figura de uma criança e nela a essência de uma pureza e uma alegria. Em dezembro de 1961, Alceu escreve: "Se não fosse, hoje em dia, Santa Maria, e em Santa Maria se não fosse uma 'nossa menina', sempre alegre, sempre igual, sempre animada, sempre criança, (...) e por isso com o ar puro do espírito varrendo sempre todos os miasmas da minha melancolia, da inquietação, da dúvida, da divisão, da discórdia comigo mesmo, do medo, em suma, dos fantasmas do demônio exterior e interior (...), que seria de mim, neste confuso crepúsculo de 61?"


[In Valor Econômico, 6 de dezembro de 2013]

sexta-feira, 13 de março de 2015

Fabrício Corsaletti

HISTÓRIA
Na cidade em que nasci
havia um bicho morto em cada sala
mas nunca se falou a respeito
os meninos cavávamos buracos nos quintais
as meninas penteavam bonecas
como em qualquer lugar do mundo
nas salas o bicho morto apodrecia
as tripas cobertas de moscas
(os anos cobertos de culpas)
e ninguém dizia nada
mais tarde bebíamos cerveja
as brincadeiras eram junto com as meninas
a noite aliviava o dia
das janelas o sangue podre
(ninguém tocava no assunto)
escorria lento e seco
e a cidade fedia era já insuportável

parti à noite despedidas de praxe
embora sem dúvidas chorasse

ELA E SUA CIDADE
Vai buscando as nuvens compactas,
como um samba perfeito,
nesta tarde de sol em que a poesia
é menos que a poesia.
Sabe onde estão os vidros da noite.
Tem dedos infinitos,
narinas transparentes,
imperfeitas sobrancelhas intocadas.
Nos seus quadris começa o mundo.
Seu passo aperfeiçoa o amor.
Há redes grávidas, amarelas
em toda a costa do mapa.
De cada bicho rouba uma surpresa.
Pantera branca, garota de colégio
(jamais um tigre de Bengala
desbotado); brancura acinzentada
do cinema em preto e branco.
E as palavras vivas, na boca viva,
são um pensamento livre.
(Ela deveria ter sido poupada para o mundo justo.)
Antes de se cansar, desaparece.
Depois amanhece.
Viver para ela deve ser bom.

                 [In História das Demolições (2007)]

Fonte: Poesia.net

FABRÍCIO CORSALETTI Nasceu em 1978 em Santo Inácio, interior de São Paulo. Mudou-se para São Paulo em 1997, formou-se em Letras pela USP e escreveu letras para a banda de Rock Barra Mundo.

quarta-feira, 11 de março de 2015

Octavio Paz

ATRAVÉS

Passo a página do dia,
Escrevo o que me dita
o movimento de teus cílios.

Minhas mãos
Abrem as cortinas de teu ser
Te vestem com outra nudez
Descobrem os corpos de teu corpo
Minhas mãos
Inventam outro corpo para teu corpo.

Entro em ti,
Veracidade da treva.
Quero as evidências do escuro,
Beba o vinho tinto:
Toma meus olhos e reinventa-os.

Uma gota de noite
Sobre a ponta de teus seios:
enigmas de cravo.

Ao fechar os olhos
Abro-os dentro de teus olhos.

Em teu leito grená
Sempre está desperta
E úmida tua língua.

Há fontes
No jardim de tuas artérias.

Com uma máscara de sangue
Atravesso teu pensamento em branco:
A desmemória me guia
Para o reverso da vida.

A Lifetime Photography - photo © Roman Vishniac


terça-feira, 10 de março de 2015

Ana Hatherly

APERTO A TUA MÃO ATÉ OS OSSOS DOEREM
Aperto a tua mão até os ossos doerem
Ah não me, digas que não magoa nada
Aperto a tua mão com minha mão membrana
membro aéreo de deslizar pela alma
ansa de sustentar as pancadas do coração de uma engrenagem
impulso das revoluções internas fibras dos sentimentos
gestos de a gente correr por dentro como apertar a tua
mão até os ossos doerem
Ah por dentro é que todos os gestos são
o pensamento de outros tantos gestos de um corpo maquinal-
mente como colher um fruto de uma árvore animal
deslizando pelas encostas abruptas dos interstícios de
outros gestos
como apertar a tua mão é aprisionar a membrana alar de
uma súbita excrescência
Ah não digas que não magoa nada
que não ressoa dentro da pele de qualquer coisa que passa
a correr pela grande veia porta estuário das convulsões
de um animal colorido a deixar um sulco na retina objectiva
do instante secretamente
gesto de acender qualquer coisa no escuro cauda estriada
de um gesto de colheita do fluido que faz tremer os lábios
em septo da força redonda de um beijo se erguendo centro de comando
da cúpula transparente de um sol em cacho
curva de uma anca muito branca para que as carícias sejam sempre
parábolas nas mãos trémulas do gesto de derrubar
árvores por dentro enquanto as folhas convergem para um
ponto único espiral iminente
eminente como a ponta de um dedo indicando o único ponto
de incidência onde o tremor de um cílio é já demasiado
colher o teu sopro para que o mundo acabe e fiques só
sem nenhum outro gesto da mão que procuras até não haver
ossos
para apertar-te a mão e não magoar-te nada

HESITAVA E MACIO
Não não te amo
não posso amar-te assim tão dual
não posso olhar para ti e, ver-te
vejo-te correr e não vejo a corrida vejo a fuga
vejo-te deitado e resvalo
não vejo o beijo
não vejo a língua sinto o frio
sinto o redondo dos olhos na dureza da unha
não vejo as pernas
sinto apenas o peso do seio não ali
não te vejo
sei apenas fraternal idêntico
lá
no ventre produzido não não posso amar-te assim
tão perto nesta circunstância respiratória tão irmã
tão rindo
olha lembras-te como eira fundo as vértebras corriam
tão salgado passava primeiro sobre a água e como
corria ligeiramente fazia tremer a boca e então rias
e era tão negro sobre o teu joelho a ternura como um
cão deitado inclinava a cabeça tu rias por teu dentro
trémulo
ninguém estava assim em quilha ah era tão alto lá
não havia erosão
hesitava e macio
não é possível amar assim em báculo e tão pungente
como foge ali

ESTA OBSCURIDADE SALUBRE
Olha peço-te não venhas assim quando eu estava tão quieta
sentada no jardim e até com óculos
não venhas peço-te
não venhas melindroso e sorrindo
com a cabeça inclinada como um particípio
não venhas
Eu estava já me aproximando
quase tocava a recorrência das coisas
nesse momento eu olhava para o chão e via mesmo cada
pequena pedra saudável
eu estava tão quieta sentada no jardim
Respirava 
sentia as veias ligeiramente activas
mas tão ligeiramente
tudo corria fundo em sua sumidade
meus braços tinham apenas o seu peso
sem outras asas
Quando tu vieste sorrindo melindroso e tão salubre
de repente o jardim é a dificuldade essencial da minha
botânica
a minha indústria difícil
o fim que a alma lograda obtém dos corpos
Corro agora por minha alucinação dirigível
minhas tarefas são histriónicas
Eu estava ali tão quieta
estava até com óculos
e tu inclinavaste como um simulacro
Intui peço-te
esta obscuridade salubre
esta consternação despenhada
tropeçando pela alma recorrente silva

[In Poesia (1958-1978), Prefácio de Lúcia Helena da Silva Pereira, Lisboa: Moraes, 1980, pp. 80-83]



segunda-feira, 9 de março de 2015

Isabel Mendes Ferreira

139.
vim do mar. da mesa do mar. que dizia pálidos os
vestidos lançados ao chão. em vagas ou implantes dos
teus dentes como verdades, e da lã das tuas mãos como
cordeiros mansos trouxe a penitência ascendida da boca
dos animais mais ternos, vim do mar que hoje estava
de oliveiras e de fragmentos territoriais, os mesmos
quando fomos transeuntes álgidos e ardis sem envelopes
fechados, as tuas mãos como andas andaram nas minhas
como se asas também fossem, e os peixes abrigaram-
se nos teus pés. cruzados, relutantes no meio da sala
fulgurosa. e um anjo absurdamente coloquial dizia das
assimetrias do teu sorriso e do meu silêncio carnoso,
ocupaste o lugar de todos os ofícios como se ocupa a
lâmina e o fio. ao longe o futuro aquecia o vinho da
despedida em lugar do transe ou da melancolia, e floriu-
se o anjo de beijos primitivos, fez-se espelho e pedra e
lágrima e perfume e cabeça em desmaio, trago do mar
uma foice, latejante o mistério ávido em que te anuncio
nunca mais outra vez. a maré alta como advérbio
mortífero, água em calafrio e deus cheio de vestidos
lançados ao chão. e tu ao largo, sempre ao largo, cada
vez mais véu. o meu.

[In O TEMPO É RENDA, Lisboa: Labirinto de Letras, 2014, p. 092]

BY MICHELA BEVILACQUA

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...