domingo, 12 de abril de 2015

Marina Tsvétaïeva

Negra, como pupila, como pupila sorvendo
A luz - amo-te noite elevada.

Dá-me voz para cantar-te, ó mãe de todas as canções
Cujo canto é levado pelos quatro ventos.

Louvando-te, chamando-te, sou apenas uma
Concha onde ainda não cabe o oceano.

Noite! Já cansei de mirar na pupila dos homens!
Incinera-me, negro sol - é noite!

9 de agosto de 1916

(tradução de Verônica Filippovna)

sábado, 11 de abril de 2015

Antonio Gamoneda

PROMETEU NA FRONTEIRA

I
Talvez passemos pelo mesmo tormento.
Um deus caído na dor vale tanto
quanto a dor se esta supera o pranto
e se levanta contra o firmamento.

Um deus imóvel é um deus sedento
e a mim cobrem-me com o mesmo manto.
Eu tenho sede e o que levanto
é a impotência de levantamento.

Oh que dura, feroz é a fronteira
da beleza e da dor; nem um Deus
pode cruzá-la com seu corpo puro.

Ambos estamos de igual maneira
a ferro e sede da solidão; os dois
acorrentados ao mesmo muro.

II
E este dom de morrer, esta potência
degoladora da dor, de onde 
nos vem? Em que deus se esconde
esta forma sinistra de clemência?

Uma única divina descendência
a esta zona de sombra corresponde.
Se falas a um deus, quando responde,
vem a morte por correspondência.

Se não fosse cobarde, se, mais forte,
num raio pudesse pela boca
expulsar este medo da morte,

como este imortal acorrentado
seria puro na dor. Oh, rocha,
meu mundo de sede, mundo olvidado!

[In Oração Fria, Antologia. Sel., trad., introd. e posf. de João Moita, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013, pp. 31-33].


sexta-feira, 10 de abril de 2015

Nydia Bonetti

1.
era manhã bem cedo e se julgava pássaro
quando caiu a tarde
se viu pedra
(e sua cota era apenas um dia)
vida de pedra deveria ter vivido
não viveu
sonhando asas
pássaros — teriam pousado e feito ninho


2.
teu rosto no retrato / os olhos fundos
perdidos
como quem busca vida
distantes
como quem sabe o tempo
verdes em sépia na fotografia
grafada face / sagrada grafia /
lábios cerrados como quem pressente
o grande silêncio


3.
no território imperfeito em que habitamos
a pele é fronteira
afetos são águas que fluem  / em fios
ou caudalosos rios
ausências / profundezas abissais
memórias são trilhas / que a mata densa
e invasiva da vida cotidiana
encobre lentamente


4.
o tempo insiste
em arrastar móveis pesados
há sempre um piano
que não passa na porta
notas suspensas
cordas frágeis
que sempre ruem
antes que o piano toque a rua
em áspero ruído


5.
e o homem se curva :-parece ser sina
trocar o fardo milenar das culpas
pelo pós-moderno fardo do vazio
há que se ter um peso a ser carregado
a leveza parece não ser humana
não se sustenta. enquanto barro:-pesa


6.
quando a noite me olha, na sua hora mais escura
e o silêncio me encara
com seus olhos de pedra
e murro
------------paraliso
pela vidraça
chuva negra de ferpas e granizo
estilhaços de vidro
e vento
tentam furar meus olhos
------------aquários vazios
onde o último peixe
morreu de sede e medo
do gato imaginário - olhos de fogo e faca - fera
que jamais existiu


7.
todas as vozes que um dia julguei
vindas do céu
vinham de dentro
de mim
julgo então não haver céu
ou — eu o contenho.


8.
que o sangue escoe
quente viscoso fosco no humano fosso
(indecifráveis delírios)
que fragmente a bomba. e fira
olhos e bocas
e que se rasguem bandeiras — inúteis
tecidos fronteiras
tudo parece arder — então por que
poetas só ousam tocar
nos visgos dos corpos do fogo das suas
próprias peles
(devassa inocência)
e dormem — imersos em seus silêncios

SOBRE NYDIA BONETTI
Nydia Bonetti, engenheira civil, nasceu em Piracaia, interior de São Paulo, onde reside. Mantém o blog L o n g i t u d e s (http://nydiabonetti.blogspot.com). Colaboradora na Revista Mallarmargens. Tem poemas publicados em revistas e sites literários e culturais: Revista Zunái, Portal Cronópios, Musa Rara, Eutomia, Germina Literatura, e outras. Faz parte da coletânea QASAÊD ILA FALASTIN (Poemas para a Palestina), Selo ZUNAI e da Antologia Digital Vinagre - Uma antologia dos poetas neobarrocos. Publicada em 2012, pela Coleção Poesia Viva, do Centro Cultural São Paulo, na antologia Desvio para o vermelho (Treze poetas brasileiros contemporâneos), organizada pela poeta Marceli Andresa Becker. Publicada também em 2012 pelo Projeto Instante Estante, de incentivo à leitura, curadoria de Sandra Santos, Castelinho Edições. Participou da Poemantologia da Revista Arraia PajéuBR, numa iniciativa conjunta com o Portal Cronópios.  Autora do livro de poemas Sumi-ê.

BLOG DA AUTORA




quinta-feira, 9 de abril de 2015

Fernando Paixão

A noite é uma fruta costumeira
que sai das mãos maternas.
Aos poucos aparece crescida
nos hábitos da casa.

Certa vez entrou pela janela.
A passos largos distendeu
em vermelho tinto
um sem-número de cavernas.

Mas terminou resignada
igual às outras:
pálpebra escura e grave
sobre as casas.

 x.x

Sentado junto ao fogão
cúmplice da lenha que arde
assisto ao pé do fogo
os brotos infindáveis.

Observo chamas saltadas.
Sorvo delas um líquido boreal
derramado para cima.
As brasas me contam histórias
que logo esqueço.

Envelopes em bolhas de silêncio.

x.x

A candeia acesa sobre a cômoda
surpreende a visão
como o berro dos cães
aos ouvidos.

Chamas e latidos para o alto
despertam
um conhecimento miúdo
e rápido.

Como é grande o mundo...

Inseguro
recolho a atenção
nos frisos do assoalho limpo.

[In Poeira, São Paulo: Ed. 34, 2001]

Fernando Paixão nasceu em 1955 na pequena aldeia portuguesa de Beselga, vindo a transferir-se no início de 1961 para o Brasil. Formou-se em jornalismo pela USP, iniciou e interrompeu o curso de filosofia, e defendeu tese na Unicamp com estudo sobre a poesia do poeta português Mário de Sá-Carneiro. Sua produção literária começou com o livro "Rosa dos tempos", de 1980, seguido de "O que é poesia", dentro da coleção Primeiros Passos, dois anos depois. O autor, no entanto, renega hoje estes dois primeiros livros, por considerá-los “adolescentes”, sem o apuro necessário. Em 1989, retornou com o lançamento de "Fogo dos rios" (Brasiliense), seguido de "25 azulejos "(Iluminuras, 1994). Publicou também "Poesia a gente inventa", voltado para as crianças (Ática, 1996).








quarta-feira, 8 de abril de 2015

Adonis

ESPELHO DE ORFEU
Sua triste lira, Orfeu
não altera o fermento
nem faz para a amada presa na
jaula dos mortos uma cama de amor, um par de braços,
                                                                          uma trança
quem morre morre, Orfeu.

          O tempo tropeça em seus olhos
          a lira quebra em suas mãos.

Vejo você despontar nas margens
cada flor é uma canção
a água é como a voz
escuto
vejo você como sombra
que escapa de seu centro
e se põe a girar... 

ESPELHO DO GIRO
Extinto o fogo do giro depois do néctar da ferida e do
                                                                                   sonho
no leito da colheita
brilhou a paixão pelo mais alto, escalei meu anseio, subi
                                                                                 seu fogo, e saímos
do país do suor e do limo
no tapete diáfano da criação.

Hoje sou o aroma astral
me espelho, faço do tempo um espelho para captar meu
                                                                                 rosto adivinho
para captar o dia afiado, como o íntimo, para conquistar
para encantar as distâncias e as margens.

[ADONIS poemas, São Paulo, Companhia das Letras, 2012, seleção e tradução do árabe Michel Sleiman, pp. 130-131].


segunda-feira, 6 de abril de 2015

Gleb Gorbóvski

&
Uma cobra apareceu na cabeceira de minha cama,
pertinho de meu rosto, pálido no escuro.
Eu sabia que, se piscasse,
a baba venenosa desse corpo
escamoso seria liberada. Por isso,
fica imóvel, eu me disse,
finge de morto. Até as quatro horas da manhã
ela ficou lá, suspensa.
Os passarinhos já tinham começado a cantar
e o sol já clareava tudo com seus raios
quando me deu vontade de explodir,
de gritar: dane-se, pare de me torturar.
...Mas a cobra, sem querer esperar por minha cólera,
foi-se embora.


CÉU
Só uma pitadinha dele em minha janela.
Oh, que miséria é esta cidade!
Ou um farrapo de nuvem que se esgueira,
ou a chuva que desaba qual lençol
ou a neve como fibra de lã
obstruindo
a saída de minha toca para o céu.
Lá em cima, as máquinas vão voando
e uma multidão de estrelas se aglomera.
Escura é minha janela e indistinta;
sento-me aqui, gastando os meus lápis,
e um céu secundário construo
na vastidão de minha alma.

&
Botas de borracha. O rio
chicoteia as minhas pernas.
Como estamos longe, você e eu,
como escapar dessa terrível desolação,
dois extremos de uma mesma estrada...

O BOSQUE
Não é feito de madeira
e sim de música -
sons que o atravessam.
Sento-me à sombra de um abeto,
como na cela de uma torre
e meu coração bate forte.
Voo de bétulas,
quietude dos cogumelos
e o sopro da vida em cada célula;
sopro e mais que isso - a luta
pela gota de umidade, como uma bolha,
no livre movimento das raízes.
As asas voejam para longe
de mim que não me movo.

PARA A MORTE DE PASTERNÁK
No meio do século XX
levaram-no à fogueira.
Foi queimado, feito cinzas
para que ficasse leve
como pó e compreendesse
toda a sua nulidade.

Atrevido e terrível era
aquele homem. Em sua testa,
como neve, derretia
a poesia. Mas o fogo desatava
novos versos em seu peito.

No corpo todo. A lenha inflamada
gemia. Em torno dançava,
como numa caverna primitiva,
com um ritmo errático,
toda uma geração.

No céu, a lua morria,
ferida por um foguete dos Urais.

[In Poesia Soviética, seleção, tradução e notas de Lauro Machado Coelho, São Paulo, Algol, 2007, pp. 255-257]

Gleb Gorbóvski, nasceu em Komi, ao norte de Leningrado, em 4 de outubro de 1931. Começou a escrever poesia aos dezesseis anos, no exército. 



domingo, 5 de abril de 2015

Laura Riding

SONO TRANSGREDIDO
Uma hora do dia foi subtraída
Para fazê-lo durar mais uma hora.
O dia dilatado cresceu
No que tinha sido interrompido.
Mais uma hora do sono foi subtraída,
Até que todo o sono fosse transgredido,
Embora o curso do dia
Durasse mais, mais se adiasse.

E o sono, sumido.
E o mesmo dia nunca termina,
Um dia enorme, e a insônia,
Um gradual entardecer rumo a logo se deitar.

Logo, logo,
E o sono, esquecido.
Tipo: o que foi nascer?
E nenhuma morte até aqui, o fim tão lento,
Parecemos partir mas permanecemos.

E se permanecemos
Algo mais há de ser feito
E nunca termine embora muito termine.
Pois o muito mantém os olhos bem abertos,
Muito aberto é muito mais sono esquecido,
Sono esquecido é sono transgredido,
Sono transgredido é a mente durando bem mais,
Mais pensamento, mais dizendo,
Em vez de dormindo, piscado, piscando,
Piscando de pé e por causa de sonhos
Que são iguais a todas as coisas comuns,
As coisas comuns iguais a todos os sonhos.

Tradução: Rodrigo Garcia Lopes

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...