sábado, 18 de abril de 2015

Sérgio Bernardo

QUERIDO ARREPENDIDO
Está parado ali
sob holofotes de néon
e a chuva tropical,
esperando que ela desça
com migalhas de comiseração
em um prato de plástico,
mas o elevador do prédio
é cúmplice do seu ódio
e não a traz ao solo.
Se descesse, veria que é real
esse embrulho com remorso e culpa
que traz preso ao braço,
mas não descerá.
E ele ficará ali
a madrugada toda
como elemento da paisagem.
                       
DEZOITO HORAS
A tarde compra
um lote
de sol inverossímil,

uns dormem, uns acordam,

no extremo da praça a bica
doura uma mistura
de limo e água,

o funcionário de uniforme laranja
produz:

varre com fúria
as margens do asfalto,
rio de automóveis.

HORIZONTE NU
Aqui o litoral seduz o corpo,
a água esconde um mar de sêmen
e a espuma lambe os pés com língua de sal.

Soubesse antes do horizonte nu,
teria me inaugurado na linha do oceano,
jamais entre as paredes de uma casa.

Casas degolam liberdades.
Mas ao vento marítimo todos os rumos são possíveis:
as algas ensinam caminhos múltiplos
aos passos indecisos do pensamento.

Soubesse antes da solidão atlântica,
o mofo dos dias submergiria nela
e a inquietude urbana viria para um banho de sol,
deixando vazias as ruas e as pessoas.
Ruas têm sempre esquinas
e pessoas sempre se impõem limites:
ambas não conhecem o dialeto infinito da distância.

Aqui, junto às ondas, se decifra o idioma dos náufragos.
Porque apenas vozes afundadas no desconhecido
narram com claridade a vida.

Lá atrás fica o fim do horizonte,
existe um cardume perdido com roupas sobre a pele.
Lá está a resposta que o sangue vomita.
Há mais casas que céu, mais poeira que gotas
e um chão sem areia morna nem cheiro de maresia.

Nesse lugar, o futuro é um peixe nascido sem nadadeiras.

 FONTE: BLOG DO AUTOR
                                               
SOBRE SÉRGIO BERNARDO:
Jornalista, poeta e contista, Sérgio Bernardo nasceu no Rio de Janeiro. Premiado em diversos estados do Brasil, várias cidades de Portugal e na Argentina. Figura em antologias no Brasil, Uruguai e Portugal. Publicou, em 2005, Caverna dos signos, a convite da Secretaria de Cultura de Nova Friburgo, onde mora. Em 2010, lançou Asfalto, pelo Selo Off Flip, em Paraty/RJ, durante a Off Flip 2010. Pertence à Academia de Letras do Rio de Janeiro.

Alison Johnson

sexta-feira, 17 de abril de 2015

Flannery O´Connor

Meu bom Deus, somos tão estúpidos até Tu nos dares qualquer coisa. Mesmo ao orarmos, és Tu que tens de orar em nós. Gostava de escrever uma prece bonita, mas falta-me a matéria-prima. Há em volta de mim um vasto mundo sensível que eu deveria ser capaz de usar como instrumento em Teu louvor; mas não consigo. Todavia, num qualquer momento insípido em que eu talvez esteja a pensar em cera para o soalho ou em ovos de pombo, as primeiras palavras de uma prece bonita poderão emergir-me do subconsciente, levando-me a escrever um texto inflamado. Não sou filósofa, caso contrário conseguiria entender estas coisas.

Se eu me conhecesse plenamente, meu bom Deus, se conseguisse descobrir em mim própria todos os traços pedantes e egocêntricos, falhos de sinceridade, o que seria eu, afinal? Mas que faria eu em relação a estes sentimentos que ora são medo, ora alegria, que se encontram demasiado fundo para que o meu entendimento os alcance? Tenho medo das mãos insidiosas, oh, Senhor, que buscam às apalpadelas nas trevas da minha alma. Por favor, sê a minha sentinela contra elas. Por favor, sê a barreira no alto do desfiladeiro. Será que conservo a minha fé somente por preguiça, meu bom Deus? Esta, porém, é uma ideia que agradaria a alguém racional até à medula.

[In Um Diário de Preces, prefácio de Pedro Mexia, tradução Paulo Faria,  Lisboa: Relógio D´Água, 2014, p. 21].

SOBRE A AUTORA





Filipe Marinheiro

«Noutros Rostos» VIII
vou contando todas as vidas tristes que se amadurecem

no fundo dos meus olhos a passarem atrás das coisas gastas

em cada rua vazia espero pelo seu sabor mudo


e desapareço naquele estremecimento que sai virgem do chão

por onde caminho novamente sombrio


«Noutros Rostos» XII
em todo o andar doido dos pais

escorrega sempre um sorriso leve entre os braços puros

e as cabeças dos filhos deslocam-se

os corações ao alto

como tremem e tremem por dentro

como são tão silenciosos corações e deliciosos sorrisos

e os pais envolvem comovendo-se

os braços apaixonados

os rostos dos pais

inundam-se nos lados das suas bocas

pelas veias e sangue arterial desentupidos

e os filhos rodopiam nos dedos formosos

no chão escorregadio

os filhos abertos ao novo amor sentam-se nos colos calmos

dos pais sentindo todo aquele momento visceral

e eterno

movem-se em silhuetas vivas

atentas a tudo o que se passa e mexe à sua volta

procuram o manso amor a florescer

na cadência absurda das coisas inseparáveis e escorregam

nos pequenos corpos celestes

enquanto a paixão surge numa sombra uma paixão quente fria

os pais têm urgência

nesse amor são do dia para a noite

progressivamente maiores e mais fortes


todos os filhos a certa altura perdem-se

nas brincadeiras para que os pais os encontrem e dancem

a levitar junto ao tecto

junto às janelas que batem noutras janelas

que batem por cima nas cortinas loucas por voarem

com a brisa daquele minúsculo vento levíssimo

a transbordar de imagens suores

e flores deambulantes

mas amplamente perfumadas

e o vento a respirar

dos movimentos doidos dos filhos encavalitados nos ombros pérola

dos pais

são vestígios desse doce amor

a erguer-se dentro de todos os órgãos

até chorarem os corações e os sorrisos fora

os seus lábios estão na fímbria do andar pontual dos pais

mas os pais atravessam a morte desértica

pelos seus filhos

os pais são realmente heróis anjos de guarda que mergulham

no magma da terra adentro

e esmagam-se no seu interior por eles

os pais devem ser as coisas mais frágeis e dóceis do mundo

porque os filhos deformam a expressão

do próprio mundo

e alagam os pulmões e cabelos dos pais nos brinquedos de fogo

e nos jogos adúlteros um pouco mais tarde

os filhos sabem aos pais

andam à velocidade das ruas intermináveis

dos becos frios

contudo confidentes


e os pais os mais elevados Deuses

chegam a rachar os seus próprios ossos através da saliva

e lágrimas dos altos filhos

amor mortal

amor a desaparecer no lusco-fusco

todo esse triste amor atira-se precipício abaixo sem pressentir

o desassossego espiritual dos filhos e pais recalcados

pelas submersas infâncias

todas as palavras que os filhos escoam pelo ar negro

arrancam a doçura do mar do sol

mas também das casas

dos quartos intensamente alagados pela força anterior

das belas memórias

como a interromperem-se num vazio corajoso e recente passado

os pais desenterram essas lembranças

como escapam nelas também

filhos e pais a queimarem-se melancólicos

depois certo dia os filhos

numa rara homenagem

escavam de novo o chão da sua casa e penetram solitários

dentro dos quartos

engolem toda aquela água d’alfinetes pretos

para se entrelaçarem nos velhos sorrisos dos pais

vêm à superfície

com os pais às cavalitas

e como brilham o recente caminhar!

sentam-se hoje nas mãos uns dos outros partilhando o choro nu

os pais embrulhados nas roupas dos filhos de alto a baixo

tocam-se em ambas as peles

nos ligeiros poros esvoaçantes beijam-se

nas faces viradas ao avesso com o relevo da luz

a asfixiar os seus reflexos


e as luzes solares inclinam as estrelas cadentes equilibrando

filhos e pais

num sorriso possível sorriso amante

nos pensamentos magnificentes

nada há na morte

pensam filhos e pais pois a vida incha toda a matéria que se mexe

com toda uma violência e alegria certas

germinando por si

o incondicional amor que nas profundezas loucas dos filhos

desentranham o coração manso dos pais

que desliza no sorriso

saboroso dos filhos

que desliza na sua doçura

deslizando na força do amor

que desliza na violência sonâmbula do medo

e crê-se

que o amor entre pais e filhos por fora e por dentro

deve acontecer

e ao acontecer devemos acreditar

que por fora e por dentro está todo o nosso leal amor

e todo o leal amor acontece


«Noutros Rostos» XIV
porque durante o silêncio da noite tudo respira tranquilo

na mais breve insolvência musical

e na cama ouço a inocência das eternas servidões...

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Filipe Marinheiro nasceu em Coimbra, a 30 de julho de 1982, e atualmente reside em Aveiro. 
Publicou Um Cândido Dilúvio / Sombras em Derivas (2013), Silêncios (2013),  Noutros Rostos (2014), todos pela Ed. Chiado. 



quinta-feira, 16 de abril de 2015

Rainer Maria Rilke

Estou no mundo tão só, e ainda não só o bastante
para cada hora sacralizar.
No mundo eu me vejo débil demais
e ainda assim não débil o bastante
para diante de ti ser uma coisa
obscura e esperta;
vontade eu tenho e quero acompanhar minha vontade
a caminho da ação.
Quero nos calmos e de certo modo irrequietos tempos
quando algo se aproxima
estar entre os que sabem,
ou sozinho.
Eu quero espelhar-me sempre em tua forma total
e jamais estar cego ou velho em demasia
para aguentar tua imagem oscilante e pesada.
Quero me desdobrar.
Em parte alguma quero estar curvado,
pois sempre que me curvo estou mentindo.
E quero que todos os meus sentidos
sejam, diante de ti, bem verdadeiros. Quero me descrever
como a uma imagem que eu tivesse visto
tanto de perto quanto de longe,
como uma palavra que eu compreendo,
como meu vaso de todos os dias,
como o semblante de minha mãe,
como um navio
que me conduzisse
através da mortífera tormenta.

 [In Livro de Horas, Tradução de Geir Campos, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2ª ed., 1994]


quarta-feira, 15 de abril de 2015

Al Berto

6
é tarde meu amor
estou longe de ti com o tempo, diluíste-te nas veias das marés, na saliva
de meu corpo sofrido
agora, tuas máquinas trituram-me, cospem-me, interrompem o sono
habito longe, no coração vivo das areias, no cuspo límpido dos corais,
e no ventre impossível das cidades nocturnas
a solidão tem dias mais cruéis
tentei ser teu, amar-te e amar o falso ouro... quis ser grande e morrei
contigo
enfeitar-me com tuas luas brancas, pratear a voz em tuas águas de seda..,
cantar-te os gestos com ternura
mas não
águas, águas inquinadas pulsando dentro de meu corpo, como um peixe
ferido, louco
em mim a lama... e o visco inocente dos teus náufragos sem nome de
ma, nem estátua-de-jardim-público
aceito o desafio do teu desdém
na boca ficou-me um gosto a salmoura e destruição
apenas possuo o corpo magoado destas poucas palavras tristes que te can-
tam


7
a noite chega-me irrequieta de cíclicos ventos, cintilam peixes pelas
paredes do quarto
durmo sobre as águas e tenho medo
encolho-me no leito estreito, no fundo dele, onde o linho já não fulgura
queda a queda, voo

não consigo dormir com esta ferida
as máquinas sussurram, trepam pelas paredes, escancaram portas, invadem a casa, ocupam os sonhos
sirenes, alarmes lancinantes, cremalheiras da noite ressoando no limite do corpo

levanto-me e saio para a rua
caminho na chuva adocicada da manhã, as pedras acendem-se por dentro, reconhecem-me
uma voz líquida arrasta-se no interior dos meus passos, ecoa pelos recantos ainda vivos do teu corpo

em ti acostam os barcos e a sombra dos grandes navios do mundo
vive o peixe, agitam-se algas e medusas de mil desejos
em ti descansam os pássaros chegados doutras rotas
secam as redes, põe-se o sol
em ti se abandona a ressaca das ondas e o sal dos meus olhos
as árvores inclinadas, os frutos e as dunas
em ti pernoita a seiva cansada de palavras, o suco das ervas e o açúcar transparente das camarinhas
em ti cresce o precioso silêncio, as ostras doentes e as pérolas dos mares sem rumo
em ti se perdem os ventos, a solidão do mar e este demorado lamento.

[In O medo, 4a. ed., Lisboa, Assírio&Alvim, 2009, pp. 160-161]



terça-feira, 14 de abril de 2015

Alejandra Pizarnik

NESTA NOITE, NESTE MUNDO

Para Martha Isabel Moia

Nesta noite neste mundo
as palavras do sonho da infância da morte
nunca é isso o que queremos dizer
a língua natal castra
a língua é um órgão de conhecimento
do fracasso de todo o poema
castrado pela sua própria língua
que é o órgão da re-criação
do re-conhecimento
mas não é o da re-surreição
de algo parecido com negação
do meu horizonte de maldoror com o seu cão
e nada é promessa
entre o dizível
que equivale a mentir
(todo o que se pode dizer é mentira)
o resto é silêncio
só que o silêncio não existe

não
as palavras
não fazem o amor
fazem a ausência
se digo água, beberei?
se digo pão, comerei?

nesta noite neste mundo
extraordinário silêncio o desta noite
o que se passa com a alma é que não se vê
o que se passa com a mente é que não se vê
o que se passa com o espírito é que não se vê
de onde vem esta conspiração de invisibilidades?
nenhuma palavra é visível

sombras
recintos viscosos onde se esconde
a pedra da loucura
corredores escuros
eu os percorri a todos
oh fica um pouco mais conosco!

minha pessoa está ferida
minha primeira pessoa do singular

escrevo como quem sacou uma faca na escuridão
escrevo como estou dizendo
a sinceridade absoluta continuaria sendo
o impossível
oh fica um pouco mais conosco!

as degenerações das palavras
desabitando o palácio da linguagem
o conhecimento entre as pernas
que fizeste do dom do sexo?
oh meus mortos
eu os comi e me engasguei
não posso mais de não poder mais

palavras dissimuladas
tudo se desliza
para a negra liquefação

e o cão de maldoror
nesta noite neste mundo
onde tudo é possível
salvo
o poema

falo
sabendo que não se trata disso
sempre não se trata disso
oh ajuda-me a escrever o poema mais desnecessário
                que não sirva nem para
                 ser imprestável
ajuda-me a escrever palavras

nesta noite neste mundo

[In Poesía Completa, Barcelona: Editorial Lumen, 2000, pp. 398-400]. 

VALENTIN SEROV

segunda-feira, 13 de abril de 2015

Leandro Rodrigues

1
ISADORA DANÇA
Isadora Duncan
mesmo morta
ainda dança na contra-luz
da Lua.

Isadora ousa precipita-se
num passo solto
e profundo
padedê-precipício

Então salta num voo
livre tênue
em slowmotion-pasodoble
frágil-infinito.

2
A POETA
              Para Ana Cristina César

Dizem que esta noite
é póstuma/ compulsória
Em sua fragrância
e Invento.
Na armação metálica
de desilusão e medo.
Nas asas do anjo parafusadas
manchadas de sangue a óleo
Apoiadas sobre os ciprestes
ou parapeitos.

Dizem que esta noite
é mórbida/ tísica/ essência
Nas palavras atadas
ao limbo/ ao vento
No clamor do sexo
exposto/ de chumbo
na prateleira dissolvida/ resolvida.

Dizem que esta noite
uma poeta súbita
se atirou
de uma centena de métricas
Numa cidade longínqua
sem escadas
entre a chuva que caía torpe
e os sinais pontuais de trânsito:
Um filete de versos
ácidos escorria
pelo canto de sua gengiva.

3
AO MEIO
meio-dia
a vida ao meio
o sol ardendo inteiro.




Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...