segunda-feira, 15 de junho de 2015

Edmond Jabès

CANÇÃO DO ESTRANGEIRO

Estou à procura
de um homem que não conheço,
que nunca foi tão eu mesmo
quanto desde que o procuro.
Teria ele meus olhos, minhas mãos
e todos esses pensamentos semelhantes
aos destroços deste tempo?
Estação de mil naufrágios,
o mar deixa de ser mar,
convertido em água gelada dos túmulos.
Mais longe, porém, quem sabe mais longe?
Uma menina canta a contragosto
e, à noite, reina sobre as árvores,
pastora em meio a carneiros.
Arranquem a sede do grão de sal
que nenhuma bebida poderá aplacar.
Com as pedras, um mundo se consome
por ser, como eu, de parte alguma.

(Tradução de Caio Meira)

terça-feira, 9 de junho de 2015

Maria do Sameiro Barroso

LUA DE FOGO

Quisera adivinhar-te num cálice branco
de açucenas,
percorrer-te entre as ondas, beber, em ti,
a maresia, a lua de logo,
a rosa inarticulada de um fonema.

Depois, amar-te, entre o rosmaninho,
o feno, a alfazema,
no paraíso dos teus braços fluir,
no teu remanso ébrio,
nascer dos relâmpagos de seda,
na lâmpada nocturna,
nas uvas do teu corpo, florir,
e colher, na chama, no secreto lume,
o fruto, a estrela,

a seiva doce do poema.

[In AREIA DO TEU NOME POESIA AMOROSA, Lisboa, 2013, p. 49]

paul klee

sábado, 6 de junho de 2015

Maria do Sameiro Barroso

14.
Nada esqueço, nem o que fui,
nem o que sou.
Falta ainda uma rosa de luz,
quer seja concha, mimosa ou papoila,
boca, beijo ou coral.
Falta ainda uma canção para irradiar
a sombra.
Imensa é a escuridão dos frutos.


E o teu rosto que tomba, radioso,
no caudal azul das minhas mãos.

15.
Há uma noite para nomear a alegria,
uma voz a conjugar a lua
e os seus símbolos obscuros,
entre cimbales que me embriagam,
taças de ambrosia e veneno.
Há uma noite para reunir o canto
e trepar às raízes roxas do vazio,
nos estiletes que a noite tange
entre os violinos e a seda,
escrevendo as linhas de enxofre,
na cinza ampla


dos laranjais perdidos.

16.
Não duvidemos das rosas efémeras,
nem da primitiva luz.
Os mendigos dormem na aurora.
Não duvidemos da lembrança enferma,
da travessia inútil, da magia suprema
das palavras fidelíssimas
Não duvidemos da morte
essa toupeira incessante,
nem da vida,
chama em movimento.
chaga aberta.
Nos rios de sombra,
ateio a minha luz,


canção dos despojos. 

17.
Viajo nos paraísos que invento.
Nas anémonas negras, leio o sonho,
o cristal.
Deito-me entre sílabas
longas e breves,
pronuncio a chave, a palavra,
o incenso.
Procuro o significado dos frutos,
a lava, a cinza, a completa memória.
Numa aurora encarnada,
os genes da sombra frutificam


em opalas iridiscentes.

[In O CORPO LUGAR DE EXÍLIO, Lisboa, 2013, pp. 14-17]






sexta-feira, 5 de junho de 2015

Mariana Ianelli

ESSENCIAL

O branco há de me cobrir.
Nenhuma ótima filosofia,
nenhuma música para essa vez.
Os bárbaros conversam comigo do poço,
os mais hábeis, os mais inertes.
Minha confidência se abre para eles:
é a demolição do minuto pontual,
da cadeia insustentável de regras,
dos meus calçados infalíveis
que respeitaram sempre um certo simulacro.
Bárbaros por uma ausência profana
de ideais e arrependimentos:
o exemplo da rendição inocente.
Deveres à parte,
costumes exauridos e desígnios à parte,
o branco há de deitar sobre mim.

[In  Duas Chagas, São Paulo: Iluminuras, 2001, p. 53]

By Amelia von Buren

quinta-feira, 4 de junho de 2015

Alfonsina Storni

DOR 
Eu quisera nesta divina tarde de outubro
passear pela orla distante do mar.

Que a  areia dourada,  e as águas verdes,
E o puro céu me vissem passar.

Ser alta, soberba, perfeita, eu quisera
Como uma romana, para combinar

Com as grandes ondas, e as rochas mortas
E as extensas praias que circundam o mar.

Com passo lento, e  olhos frios
E a boca muda, deixar-me levar;

Ver como se quebram as ondas azuis
Contra os granitos e não piscar,

Ver como aves de rapina comem
Pequenos peixes e não acordar;

Pensar que as frágeis embarcações
Afundassem na água sem  suspirar;

Ver que se adianta a garganta do  ar,
O homem mais belo não querer amar;

Perder o olhar distraidamente,
Perdê-lo, para nunca mais o encontrar.

E, ereta figura, entre o céu e a praia,
Sentir o esquecimento perene do mar.

SOBRE ALFONSINA STORNI


terça-feira, 2 de junho de 2015

Dora Ferreira da Silva

DEPOIS
Sim, era o tempo. Depois — inútil consultares o relógio —
o tempo não era.Tudo pleno e íntegro: obedecíamos a um
[milagre
mais simples que as coisas usuais. A labareda encontrou o
[seu fiel
cessando de crepitar. As emoções se extinguiram
na lareira que não fora acesa em noite de verão.
O calor das coisas a si mesmo se bastara a ponto
de adormecer. E a orquestra ali estava suspensa depois do
acorde final, os músicos ausentes
algumas folhas caídas no chão de madeira morta.
O perdão da seiva antiga recendia a música de violinos
e flautas. Persistente floresta de sons, a música!
Os acordes da alma ainda ecoavam — do insípido à
[exaltação.
Persistente floresta, a alma. E tu misericórdia
há onde caibas? Exorbitas instrumentos partituras:
música pura. Silêncio que nos acolhe
e disso faz um ramo de primavera.

APAGADAS AS LUZES
Ônibus de luzes apagadas
de Volta Redonda a Barra do Pirai.
O motorista sorriu
o tempo de um adeus
e o ônibus seguiu —
barco sacolejante de operários.
Faróis de automóveis (em sentido contrário)
acendiam-lhes os olhos. Muito o sono
e a noite cresceu. Evolavam-se
os corpos de suor e incenso.
No altar do silêncio brilhava
a hóstia da comunhão.

Segui a via que liga Volta Redonda
a Barra do Pirai
com a legião cansada
dos anjos daquele dia.

ALÉM
Não me explicas
não te explico
o milagre do contato
que é de alma e é carnal
que é do espírito abissal
tudo somando o igual.
Sinto o frêmito do vento
nas plantas do beiral
desta casa provisória.
Não há linhas divisórias
que nos digam quem é qual
por tão próximos — não há espaço
para o abraço
para o ai!
Andando em duas direções
transpusemos nossa essência
um é o outro
e o círculo no entanto
determina eterno encontro.
Sem assombro dou-te um beijo
o realejo da infância
é o fundo musical.
Valha-nos Deus!
Vamos chorar? Vamos sorrir?
O agora é o por vir
que empurra e enterra o antes
para nova floração.
Só não passa nem transita esse
doido coração
não é meu
não é teu
está nu de possessivos
a imperecível carnação.
Sorrimos o mesmo sorriso
diante das megapalavras
somente cativos do Nada.
E eternamente calamos.

[In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 1999, pp. 354-355]

Randall David Tipton


segunda-feira, 1 de junho de 2015

Affonso Romano de Sant´Anna

SUPLÍCIO CORPORAL
Magoamos
pelo menos 3 vezes ao dia
nosso corpo
obrigando-o a comidas repulsivas.

De noite ele se vinga
sonhando (ou faxinando)
o lixo imaginário
que nele acumulamos.

Magoamos o corpo
a vida inteira
não lhe ofertando o sexo
que urge
como urge
onde urge
quando urge.

Em compensação
o cobrimos de joias perfumes, cremes e roupas
nem sempre convenientes.

Ele suporta.
O levamos a festas, esportes, celebrações exaustivas.
Ele emite sinais de desconforto.
Mas prosseguimos inclementes
chicoteando a alimária que somos. 

REMORSO
Irônico, eu digo:
“Bem que eu gostaria
que bife desse em árvore.”
Mas árvores também sangram
e não me deixariam dormir
rasgando com gemidos
minha insone madrugada.

Ainda agora descubro uma pequena mariposa
na água que restou do banho.
Estou limpo
e ela
           morta.

Com a indiferença de paquiderme
                                                       pisamos
formigas e índios, operários e mulheres
e, desatentos,
não recolhemos seus restos sequer
como troféu.

[In Sísifo desce a montanha, Rio de Janeiro: Rocco, 2011, pp. 104-105]

Zaira Dzhaubaeva



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...