quarta-feira, 8 de julho de 2015

Henriqueta Lisboa

ARIEL
Dança Ariel sob raios de sol
entre o vergel, vergando
as finas hastes, as corolas
repletas de orvalho. A gota
de orvalho, que clara
medalha sobre o peito de Ariel!

Dança Ariel renascido
de frias ruínas, como o arco-íris
do fundo dos vales. E o vento
com suas flautas e bronzes, que impulso
para os aéreos movimentos de Ariel!

Dança Ariel sobre as ondas. Seus pés
como pérolas salvas pendem
de dois frisos. E o mar,
que voluptuoso ninho de conchas
para o jogo de Ariel!

Dança Ariel sobre o altar das noites
despertando as estrelas. E elas
próprias, suspensas
de secretos transportes, que ardentes
comparsas para o sacrifício de Ariel!

Dança Ariel para o tempo, à margem
da eternidade. E que precária
cousa, a eternidade,
para a alegria pura de Ariel!

[In Nova Lírica, Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1971, p. 107]


Georges Henri Rouault -  1939






segunda-feira, 6 de julho de 2015

Friedrich Hölderlin

NOVE POEMAS DE HOELDERLIN

POR DE SOL
Onde estás? A alma anoitece-me bêbeda
De todas as tuas delícias; um momento
Escutei o sol, amorável adolescente,
Tirar da lira celeste as notas de ouro do seu canto da noite.
Ecoavam ao redor os bosques e as colinas;
Ele no entanto já ia longe, levando a luz
A gentes mais devotas
Que o honram ainda.

O APLAUSO DOS HOMENS

Não trago o coração mais puro e belo e vivo
Desde que amo? Por que me afeiçoáveis mais
Quando era altivo e rude,
Palavroso e vazio?

Ah! só agrada à turba o tumulto das feiras;
Dobra-se humilde o servo ao áspero e violento.

Só crêem no divino
Os que o trazem em si.

AS PARCAS
Mais um verão, mais um outono, ó Parcas,
Para amadurecimento do meu canto
Peço me concedais. Então saciado
Do doce jogo, o coração me morra.

Não sossegará no Orco a alma que em vida
Não teve a sua parte de divino.
Mas se em meu coração acontecesse
O sagrado, o que importa, o poema, um dia:

Teu silêncio entrarei, mundo das sombras,
Contente, ainda que as notas do meu canto
Não me acompanhem, que uma vez ao menos
Como os deuses vivi, nem mais desejo.

FANTASIA DO CREPÚSCULO
Descansa o lavrador à sua porta
E vê o fumo do lar subir, contente.
Hospitaleiramente ao caminhante
Acolhem os sinos da aldeia.

Voltam os marinheiros para o porto.
Em longínquas cidades amortece
O ruído dos mercados; na latada
Brilha a mesa para os amigos.

Ai de mim! de trabalho e recompensa
Vivem os homens, alternando alegres

Lazer e esforço: por que só em meu peito
Então nunca dorme este espinho?

No céu da tarde cheira a primavera;
Rosas florescem; sossegado fulge
O mundo das estrelas. Oh! levai-me,
Purpúreas nuvens, e lá em cima

Em luz e ar se me esvaia amor e mágoa!
Mas, do insensato voto afugentado,
Vai-se o encanto; escurece, e, solitário
Como sempre, fico ao relento.

Vem, suave sono! Por demais anseia
O coração; um dia enfim te apagas,
ó mocidade inquieta e sonhadora!

E chega serena a velhice.

OUTRORA E HOJE
Meu dia outrora principiava alegre;
No entanto à noite eu chorava. Hoje, mais velho,
Nascem-me em dúvida os dias, mas
Findam sagrada, serenamente.

CANTO DO DESTINO DE HIPERION
No mole chão andais
Do éter, gênios eleitós!
Ares divinos
Roçam-vos leve
Como dedos de artista
As cordas sagradas.

Como adormecidas
Criancinhas, eles
Respiram. Floresce-lhes
Resguardado o espírito
Em casto botão;
E os olhos felizes
Contemplam em paz
A luz que não morre.

Mas, ai! nosso destino
É não descansar.
Míseros os homens
Lá se vão levados
Ao longo dos anos
De hora em hora como
A água, de um penhasco
A outro impelida,
Lá somem levados
Ao desconhecido.

METADE DA VIDA

Peras amarelas
E rosas silvestres
Da paisagem sobre a
Lagoa.

Ó cisnes graciosos,
Bêbedos de beijos,
Enfiando a cabeça
Na água santa e sóbria!

Ai de mim, aonde, se
É inverno agora, achar as
Flores? e aonde
0 calor do sol
E a sombra da terra?
Os muros avultam
Mudos e frios; à fria nortada
Rangem os cata-ventos.

MADURAS ESTÃO
Maduras estão, cm fogo imergidas, cozidas
E na terra provadas as frutas. É for^a
Que tudo penetrem, à guisa de cobras,
Profeticamente e sonhando nas
Colinas do céu. Muita coisa
Devemos guardar como um fardo
De lenha nos ombros. Entanto
São maus os caminhos. Indóceis

Cavalos, trabalham
Elementos e as velhas
Leis da terra. Ah, e sempre ao
Sem peias vai uma saudade. Contudo
Muito há que guardar. É mister a constância.
Mas nós não queremos ver nem
Para diante nem para trás! só queremos
É que nos embalem da mesma maneira
Que o lago num bote.

LEMBRANÇA

Sopra o nordeste,
O mais grato dos ventos:
Crrato a mim porque é cálido, e aos marujos
Porque promete fácil travessia.
Eia, saúda agora

O formoso Garona
E os jardins de Bordéus!
Lá coleia na íngreme ribeira
A vereda, e no rio
Se despenha o regato; mas acima
Olha o par generoso
De álamos e carvalhos.

Ainda me lembro bem e como
As largas copas curva
O olmedo sobre o moinho.
No pátio há uma figueira.
E nos dias feriados,
Pisando o chão sedoso
Passeiam mulheres morenas
No mês de março
Quando o dia é igual à noite
E nos lentos caminhos
De áureos sonhos pejados
Sopram brisas embaladoras.

Mas estenda-me alguém,
Da escura luz repleto
O aromado copo
Para que eu possa descansar; pois doce
Seria o sono à sombra.
Também não fora bem
Privar-se de mortais
Pensamentos, que bom
É conversar, dizer
O que se sente, ouvir falar de amores,
De coisas passadas.

Porém que é dos amigos? Belarmino
E o companheiro? Muitos
Têm medo de ir à fonte.
É que a riqueza principia
No mar. Ora, eles
Reúnem como pintores
As belezas da terra e não desprezam
A alada guerra não,
Nem desdenham morar anos a fio
Sob o mastro sem folhas, onde à noite
Não há as luminárias da cidade,
Nem dança e música nativa.

Mas hoje aos índios
Foram-se os homens,
Ali, na extremidade
Das montanhas cobertas de vinhas
Donde baixa o Dordonha,
Acaba o rio no Garona
Largo como o Oceano. Todavia
O mar toma e devolve a lembrança.
O amor também demora o olhar debalde.
O que perdura porém, fundam-no os poetas.

Sobre Friedrich Hölderlin

[In Manuel Bandeira, Poemas Traduzidos, 4a. ed. Rio de Janeiro: José Olympio, 1976, pp. 76-82]

Ulisse Caputo

domingo, 5 de julho de 2015

Jiří Orten

ETERNAMENTE

A noite cai de joelhos,
ajoelha-se e não crê.

Nada mais na vida me fascina,
calo-me rápido,

e no entanto as mães dos mortos
estão novamente prontas.

Todos nós sobrevivemos
com grande pesar.

Errar eternamente até estar inocente.
Eternamente.

A noite cai de joelhos.
Você irá rezar esta noite, Desdêmona?

Jiří Orten (1919-1941), pseudônimo do poeta tcheco Jiri Ohrenstein. Começa a publicar seus poemas aos dezessete anos, em 1936, com o incentivo de Frantisek Halas. Com a invasão alemã na Tcheco-Eslováquia e a aplicação de severas leis anti-semitas, começa a utilizar os pseudônimos Jiri Jakub e Karel Jílak para tentar publicar seus textos. Suas obras estão contidas em três cadernos, redigidos entre 1938 e 1941. Sua contribuição foi bastante grande para a renovação da poesia tcheca.

[In CÉU VAZIO 63 poetas eslavos, organização, estudo introdutório, notas biográficas e tradução Alexsandar Jovanovic, São Paulo, Huitec, 1996, p. 96] 

François Bouchot 


sábado, 4 de julho de 2015

Lupe Cotrim

SAUDADE
a Guilherme de Almeida

A saudade é o limite da presença,
estar em nós daquilo que é distante,
desejo de tocar que apenas pensa,
contorno doloroso do que era antes.
Saudade é um ser sozinho descontente
um amor contraído, não rendido,
um passado insistindo em ser presente
e a mágoa de perder no pertencido.
Saudade, irreversível tempo, espaço
da ausência, sensação em nós premente
de ser amor somente leve traço
num sonho vão de posse permanente.
Saudade, desterrada raiz, vida
que se prolonga e sabe que é perdida.

ANJO BARROCO
Anjo barroco é a fonte do teu rosto
e és fiel e grave como as crianças tristes.
Pela tua alma de infância ainda persiste
a pureza, na sombra de um desgosto.

Teus olhos, de um castanho manso e denso,
têm ternura de terra e de brinquedo
e teu riso é sonoro e sem segredo
e em tudo és sempre o mesmo e sempre intenso.

A vida te perturba. A tempestade
que por vezes te rasga o sentimento
vem da aurora de um mundo sem idade

onde o homem solitário, na selvagem
surpresa do primeiro sofrimento,
tinha um deus ainda intacto em sua imagem. 

ÚLTIMA PAISAGEM
Quando eu morrer,
se morrer,
quero um dia de sol,
denso, cintilante,
escorrendo-me pelo corpo
seus dedos quentes.
E quero o vento,
um largo vento dos espaços
que me respire e me arrebate
no seu fôlego,
por outros continentes.
E quero a água,
violenta, fria, palpitante,
possuindo-me a alma
a transbordar dos poros.

Se nenhum amor me resguardar
em seu abraço,
e dar-me sensação
de que possuo e pertenço,
quero pegar a vida,
palmo a palmo,
traço a traço,
num dia esfuziante de azul,
com o mar na boca e nos braços.

Quando eu morrer,
se morrer,
eu que renasço a cada momento,
criando íntimos laços
por toda natureza,
eu que perduro no eterno
da intensidade,
quero morrer assim;
os olhos na distância
do entendimento
e o corpo penetrando na beleza,
passo a passo.
Meu fim transformado em luz
dentro de mim.


[In ENCONTRO, São Paulo: Brasiliense, 1984, pp. 59-61]

BY ANDRÉ BOGAERT 

sexta-feira, 3 de julho de 2015

Rainer Maria Rilke

PRIMEIRA ELEGIA DE DUINO
Quem, se eu gritasse, me ouviria em meio às ordenações
Dos anjos? E mesmo se um deles de repente
Me chamasse ao seu coração eu me apagaria face à sua
Presença mais forte. Porque o Belo nada é
Senão o começo do terrível, que estamos apenas supor-
[ tando,
E se assim admiramos é que impassível
Desdenha de nos destruir. Todo anjo é terrível.
Hei de reter-me, pois, e hei de conter em mim
O apelo de um triste soluço. Ah! a quem então
Nos é dado recorrer? Nem aos anjos, nem aos homens,
E os animais sagazes já desconfiam por instinto
Que não nos podemos sentir em intimidade
No mundo interpretado. Resta-nos talvez
Uma árvore qualquer a rever cada dia,
Sobre a encosta; resta-nos a estrada de ontem,
E a fidelidade infantil a algum costume
Que em nós se aprouve e assim ficou e não partiu.
Oh! e a noite, a noite, quando o vento cheio de ruído do
[ mundo
Nos consome a face para quem não seria a desejada
Um suave desencanto, que ante o coração sozinho
Se ergue penosamente. E’ ela mais amável aos amantes?
Ah! esses só fazem se enganar mutuamente com a pró-
[pria sorte,
Não o sabes ainda? Lança o vazio de teus braços
Aos espaços respiráveis; talvez que os pássaros
Sintam num voo mais íntimo o ar mais amplo.
Sim, quiseram-te as primaveras; muitas estreias
Viveram para que as descobrisses. Do passado
Cresceu a onda; ou bem ao cruzares
Uma janela aberta um violino se entregou a ti. Tudo isso
[era missão.
Mas lhe estiveste à altura? Não andaste sempre perdido
A espera, como se tudo te anunciasse
Uma visão amada? (E onde a queres abrigar,
Agora que grandes e estranhos pensamentos
Vêm e vão em ti e às vezes se deixam, à noite) .
Mas se sentes saudade, canta os amantes; bem longe
Da plena imortalidade está seu decantado sentimento.
Canta, a esses abandonados que quase invejas e que
Te parecem tão melhores que os aquietados. Recomeça
Sempre a tua inacessível louvação;
Pensa; o herói persiste, o próprio fim foi nele
Um pretexto para ser: seu derradeiro nascimento.
Mas aos amantes, retoma-os ainda a natureza
Esgotada como se as forças que os realizaram
Não se pudessem reproduzir. Já pensaste bem em Gas-
[para Stampa,
Essa amante em cujo exemplo exaltado se encontra
Toda jovem que o amado abandonou: se eu fosse como
[ela?
Essas penas mais antigas, enfim, não deveriam ser
Fecundas para nós? Não é chegado o tempo
Em que nós, amantes, nos livremos vibrando das amadas
Como vibra a flecha ao deixar a corda para ultrapassar-se
Na tensão do ímpeto. Porque não há repouso em nada.
Vozes, vozes! Ouve, meu coração, como só os santos
Ouviram: eles, que o apelo imenso
Ergueu do chão; e eles sobre-humanos
Prosseguiram ajoelhados, sem atender a nada:
Pois era como ouviam. Não que tu pudesses suportar
A voz de Deus, nem de longe. . . Mas ouve o sopro,
A incessante mensagem que nasce do silêncio.
Agora, daqueles que jovens morreram, sobe um murmúrio
[ aos teus ouvidos.
Não importa onde entrasses, nas igrejas
De Roma e de Nápoles, não te falou sereno o seu destino?
Ou uma inscrição se impunha, majestosa,
Como há pouco naquela lousa em Santa Maria Formosa.
Que me querem eles? Delicadamente
Preciso desfazer a impressão de erro que muitas vezes
Perturba um pouco o movimento puro de suas almas.
Bem certo deve ser estranho não habitar mais a terra,
Não recorrer mais a hábitos apenas adquiridos,
Não mais dar às rosas e às promessas de outras coisas
A significação de um futuro humano;
Estranho não se ser mais o que se foi no infinito cuidado
Das mãos, e abandonar até o próprio nome
Como um pobre brinquedo jogado.
Estranho não mais desejar desejos. Estranho
Ver tudo o que foi laço, no espaço flutuar
Desfeito. Coisa difícil é estar morto;
E cheia de ressurreições, pois que há sempre para nós
Um prenúncio de eternidade. Mas os vivos
Cometem, todos, o erro de tudo distinguir.
Os anjos (diz-se) muitas vezes ignoram se caminham
Entre os vivos ou os mortos. O eterno rio
Carrega sempre através os dois reinos todas as idades
E em ambos o que domina é a sua voz.
Afina! eles não precisam de nós, os cedo transportados;
Suavemente nos libertamos das coisas terrenas como
O ser se despega do seio materno. Mas nós, que preci-
[ samos
De tão grandes segredos dos quais em luto
Nascem tantas vezes vitórias tão abençoadas, podemos
[acaso viver sem eles?
E vá a lenda de que outrora, lamentando Linos
A primeira música ousou penetrar a estéril rigidez da
[ matéria inerte. . . e que então, no espaço em
[sobressalto que um adolescente quase divino
De súbito deixou para sempre, o vazio penetrou
Naquelas ondulações que são para nós arrebatamento e
[ consolo e socorro.

Tradução: Vinícius de Moraes

[In Poesia Alemã, Prefácio e Organização Geir Campos, Rio de Janeiro, Ministério da Educação e Cultura, 1960, pp. 331-337]

BY ALESSANDRA ZAMPARO- FLICKR

quinta-feira, 2 de julho de 2015

Abgar Renault

DESINTEGRAÇÃO
Eu tenho o coração cheio de coisas para dizer. . .
E a minha voz, se eu acaso falasse,
teria a força de uma revelação!

Meu espírito palpita ao ritmo desordenado e aflito
de asas prisioneiras que se dilaceraram
na arrancada impossível da libertação e da altura.

Minhas mãos tremem ainda ao contato
imaterial, sobre-humano e fugitivo
de qualquer coisa além e acima deste mundo. . .

Adormeceu para sempre no fundo dos meus olhos
a saudade de paisagens estranhas e longínquas,
que nunca, nunca mais voltarão neste tempo e neste espaço.

Doem meus olhos. Tremem, ansiosas, as minhas mãos.
Meu espírito palpita. Tenho o coração cheio de coisas para
[dizer. . .

Eu estou vivo. Senhor! mas. em verdade, c como se estivesse
[ morto. . .
[1931] 

DIANTE DO CREPÚSCULO
Para que tantas palavras, se não existe onde derramá-las
ou fita de ouro em que enfiá-las em lúcido colar?
Para que esta contiguidade e este contacto,
se são construídos de alturas e de mares que não esquecem?
Para que o jardim de asas verdes e tantos céus,
quando a neblina corta o olhar e estanca o voo?
Por que nas mãos de escamas brotam frouxéis,
se em nenhuma pele se adoçará sua doçura amarga?
Onde a taça desmedida em que se debruçaria
tanto entornado vinho em busca de ser bebido?
E as uvas cálidas de onde ele escorreu
e em que procura regresso e reintegração?
Em que cidade de tantas ruas sem casas
procurar os sapatos já sem couro
e as pernas sem pés que desejam calçá-los para ir aonde?
Toda pergunta fica e interroga outra interrogação:
Quem se abriria em arca ou peito ou bosque
para receber o escuro viajante que está partindo sem viagem?

SOBRE ABGAR RENAULT

[In A outra face da lua, Rio de Janeiro: José Olímpio/INL, 1983, pp. 42-43]



quarta-feira, 1 de julho de 2015

Fernando Paixão

OUTUBRO DE 1999
“Se a tua morte não é notícia
nos diários de Espanha
devemos então concluir
que a presença de um poeta
corresponde tão-somente ao círculo
de uma língua local, intransferível?”

Talvez. Os jornais nascem todas as manhãs
a partir de um engano, bem sabemos.

Quando morre um poeta, verdadeiro,
leva consigo um repertório insuspeito
de dedos noturnos ainda em funcionamento.
Nessa hora os seus versos teclam
aéreo abandono
mesmo cerrados os livros.

Não foi diferente contigo.

Hoje, pelo dia inteiro, chegou às alamedas
e praças de Sevilha e Barcelona
(e mesmo nestas calles de Madri)
um vento seco e severino, João Cabral,
mensageiro da tua ausência.


VÉSPERA
Um resto de hora
varre os telhados
em despedida.

Como outros calendários
sucumbiram
em outros quartos de hotel.

Idêntica mentira: a noite
alonga o corpo da fera
no escuro das velhas ruas.

A viagem termina. O dia
fecha os olhos à própria água.
Devagar: sem protocolo.

[In Poeira, São Paulo: Ed. 34, 2001]



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...