CONSTELAÇÃO
Olhava da vidraça
derramar-se a Via Láctea
sobre a massa das árvores.
Por causa do vidro, da transparência do ar,
ou porque me nasciam lágrimas,
tinha a impressão de que algumas estrelas
mergulhavam no rio,
outras paravam nos ramos.
Passageiros dormiam,
eu clamava por Deus
como o cachorro que sem ameaça aparente
latia desesperado na noite maravilhosa:
Ó Cordeiro de Deus, ó Cruzeiro do Sul,
ó Cordeiro, ó Cruzeiro!
Como o cão, minha língua ladrava
à aterradora beleza.
[In A DURAÇÃO DO DIA, São Paulo: Record, 2010, p. 87].
quinta-feira, 16 de julho de 2015
quarta-feira, 15 de julho de 2015
Armando Freitas Filho
42
Destrava o que o ar segura
e o chão clama.
Instante imprevisto do tempo
não sujeito à cronologia.
Transpira, transparece
se entretém — vide verso livre e único
que, do outro lado, ao revés, emite sua aura
de animal arisco à mão caçadora
e ilumina algumas linhas
dando vida, fibra, força
à trama do aramado inteiro.
11 III 2003
43
Seu gosto se aproxima da palavra almíscar.
Da palavra, não do odor da substância
que procuro no dicionário, pois nunca a testei.
No entanto, em você mastigo almíscar.
Mistura de dor e flor, rima óbvia, dueto vocabular
tantas vezes tentado, mas aqui o que molha minha boca
sabe a surpresa
13 IV 2003
44
Parar de escrever pode ser morrer.
Mas se não for? Dias sem ruído.
O kastelo interior em ruínas acabadas.
A "tresnoitada luz", de Borges
batendo em cima do "sol aparafusado"
de Van Gogh, no texto de Artaud.
Não poder nem sonhar mais por escrito
debaixo da lua implacável, de Goeldi.
2 V 2003
45
A linha preta do pensamento
— trêmula, feita à mão —
pauta, de cima a baixo
o amarfanhado espaço
do amanhecer.
Não se escreve nada no campo
deste dia longo, parado
de raro mar, árvore estrita
de paisagem repetente, de palavras
despida.
Não se escreve nada na máquina
deste dia estatístico, indiferenciado
que se produz em série
embora o gráfico se sobressalte, aqui e ali.
2 VI 2003
(In Raro Mar, São Paulo: Companhia das Letras, 2006, pp. 70-71)
segunda-feira, 13 de julho de 2015
Ruy Cinatti
POEMA DE AMOR
Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar,
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nós olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada.
Sou demasiado são para me esquecer
do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas.
Tardará muito, se é que as horas contam,
ver-te, de novo, perto de mim, longe,
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto,
um dia a menos, o da tua chegada.
E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabina telefónica,
e ligo para ti — que número? — ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...
Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
— as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se... —
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles
carregada de ilhas, de nocturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada,
na minh'alma inquieta um outro bater d'asas
ou num jardim um leito de flores!...
Junho 77
[In 56 Poemas, Lisboa: Relógio D´Água, 1992, p. 27].
Os segredos de amor têm profundezas difíceis de alcançar,
tal como a chuva que hoje cai e nos molha na calçada a face,
nós olhando triste uma saudade imensa
num corpo de mulher metamorfoseada.
Sou demasiado são para me esquecer
do tempo apaixonado que vivi nos teus braços
e bebo no teu um coração meu
adormecido no mar do meu cansaço
ou no rio das minhas secas lágrimas.
Tardará muito, se é que as horas contam,
ver-te, de novo, perto de mim, longe,
mas eu espero, sou paciente e, no meu canhenho, aponto,
um dia a menos, o da tua chegada.
E assim me fico, rente ao horizonte,
abrigado da chuva numa cabina telefónica,
e ligo para ti — que número? — ninguém responde
do oceano que avança e retrai colinas,
o vulto de um navio, tu na amurada
acenando um lenço, ó minha pomba branca!...
Como se tempestade houvesse e um naufrágio de chuva
— as vidraças escorrem, as árvores liquefazem-se... —
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, a minha boca neles
carregada de ilhas, de nocturnos perfumes
que ateiam lumes, ó minha idolatrada,
na minh'alma inquieta um outro bater d'asas
ou num jardim um leito de flores!...
Junho 77
[In 56 Poemas, Lisboa: Relógio D´Água, 1992, p. 27].
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| O beijo - Gustav klimt |
domingo, 12 de julho de 2015
Marize Castro
COM VERTIGEM E PERÍCIA
Sob as torres de Gaudí,
acredito no amor como acredito e
— com vertigem e perícia.
Caminho pelos subterrâneos e revejo lendas
— fábulas que negros olhos me mostraram.
A beleza permanece com as faces lanceadas.
Como lhe falar da estupidez humana?
Tenho comigo o sudário marinho.
E com ele que sou puta e sagrada.
Celebro nesta noite
uma vida de pontiagudas adagas.
Porque estou só nestas ramblas
consigo contemplar certos mares
e certas sedes escandalosas.
EM SEGREDO
Durante visita a uma casa de Virginia Woolf
Nesta casa renasci.
Tempestade tudo que senti.
Celeste tudo que ficou.
Sob arcos de folhas
permaneço ilha
rasgando dias
guardando lendas,
urnas, trovões.
Esperando teu abraço,
teu chamado.
Ah, senhora loba,
que tudo sabe de mim,
cuida-me em segredo
neste paraíso carmim.
[In ESPERADO OURO, 2005]
Sob as torres de Gaudí,
acredito no amor como acredito e
— com vertigem e perícia.
Caminho pelos subterrâneos e revejo lendas
— fábulas que negros olhos me mostraram.
A beleza permanece com as faces lanceadas.
Como lhe falar da estupidez humana?
Tenho comigo o sudário marinho.
E com ele que sou puta e sagrada.
Celebro nesta noite
uma vida de pontiagudas adagas.
Porque estou só nestas ramblas
consigo contemplar certos mares
e certas sedes escandalosas.
EM SEGREDO
Durante visita a uma casa de Virginia Woolf
Nesta casa renasci.
Tempestade tudo que senti.
Celeste tudo que ficou.
Sob arcos de folhas
permaneço ilha
rasgando dias
guardando lendas,
urnas, trovões.
Esperando teu abraço,
teu chamado.
Ah, senhora loba,
que tudo sabe de mim,
cuida-me em segredo
neste paraíso carmim.
[In ESPERADO OURO, 2005]
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| Sagrada Família, Barcelona, by Paul Weerasekera |
sábado, 11 de julho de 2015
Cristina Campo
Que longa aprendizagem para desnudar até ao fulcro, véu após véu, uma pele a seguir à outra, uma relação. Como se acredita por tanto tempo no tacto, na discrição, na reserva, véus delicados — e é justo que assim seja, enquanto não forem percebidos exactamente como véus: suaves insídias, perigos impalpáveis para a pupila límpida do amor.
Job, o melhor amigo de Deus, não teve nenhum respeito por ele, nem reserva nem discrição. Gritava-lhe tudo de si mesmo e não aceitava resposta senão dele: Voca me et ego respondebo tibi, aut certe loquar et tu responde mihi.
Oxalá estivesse cada amante absorvido apenas pelo seu amor, docemente descuidado dos sentimentos do outro e ao mesmo tempo, e precisamente por isso, esquecido de si próprio, imerso como um peixe jubiloso na realidade do outro. Nenhum amor teria alguma vez fim. «Que eu jamais queira pedir-te amor» deveria ser o voto recíproco dos amantes, a fórmula sacramental das núpcias.
É um equilíbrio impossível, mas de que mais há-de o amor desejar viver? «Enquanto não estiverdes em condições de ouvir o aplauso de uma só mão...».
Cada amor é um caminho sobre as águas de Genesaré: uma dúvida, um temor, um olhar para baixo e afunda-se. Os olhos deveriam permanecer sempre altos, fixos no deus tranquilo que
nos estende a mão.
------------
A mediocridade, o medo, a sujeição ao mundo. Tudo isto me parece hoje um espelho duplo que o príncipe do mundo faz deslizar como um diafragma por entre as raízes e as copas da alma: para que a estas nunca mais seja concedido reflectirem-se naquelas nem a ambas nutrirem-se umas das outras, felizmente, como o céu e a terra.
Este espelho não só tenta separar as duas partes da alma como também isolá-las a ambas em obstinada contemplação de si próprio: as raízes das raízes, as copas das copas. Nascem assim as linguagens em secções estanques; de um lado, «a vida é outra coisa, conservar um sentido saudável das proporções, não façamos literatura», e do outro: «a sublime missão, o sagrado nome», etc. Fica assim instaurada a retórica das raízes e das copas e a petrificação, ao mesmo tempo, tanto da ideia como da vida.
Talvez a vontade nos tenha sido dada só para destruir aquele espelho (a que com grande frequência as pessoas chamam precisamente vontade). O deus tira o juízo a quem quer perder, dizem. Mas com que sagacidade o tira a quem quer salvar! De outro modo, como poderia induzir um homem através da noite escura, das florestas de ursos e de serpentes, dos fantasmas nocturnos e da imagem dos seus próprios pecados — toda a interminável procissão de horrores necessária ao encontro?
É sempre um acesso de loucura que abre caminho ao labirinto das aparências enganosas, onde os diamantes parecem cascas de caracol, as pedrinhas da estrada pérolas e o inferno escancarado a cada passo as graciosas pradarias do Eliseu.
A juventude é o primeiro, e o mais fatal, desses labirintos. Até os sonhos se lhe apresentam invertidos, lisonjeando-a de modo a fazê-la perder-se com divinas palavras: mensagens escritas ao contrário numa casa ainda privada de espelhos.
É o tempo em que o deus nos tapa os olhos com a sua mão — ou iremos fazê-lo pouco depois nós mesmos devido ao terror.
[In Os Imperdoáveis, tradução de José Colaço Barreiros, Lisboa, Assírio & Alvim, 2003, pp. 162-164].
[In Os Imperdoáveis, tradução de José Colaço Barreiros, Lisboa, Assírio & Alvim, 2003, pp. 162-164].
sexta-feira, 10 de julho de 2015
Rainer Maria Rilke
SALTIMBANCOS
1
Nosso caminho não é mais largo que o teu, freqüentemente calmos de muito alto, também nos arrebentamos, mas a falta de atenção não nos obriga retornar à corda. A ti, qualquer errinho faria morrer. Divertimos com nossos mil erros a morte, espectadora que ocupa a melhor cadeira no circo de nossas desgraças.
2
Façamos como eles: jamais cair sem morrer. Que multidão ao redor de nossa queda! Mas uma criança, meio de lado, observa a corda vazia com, ao fundo, a noite intacta.
3
A corda estava tão alta que aquilo se passava acima dos refletores. Mas logo estava novamente entre nós, em seu traje tão rosa. No alto, havia outro rosa que explicava à noite imensa o absurdo de seu puro perigo movente.
4
Que perfeição. Se fosse na alma, que santos fariam! - É na alma, mas eles a tocam apenas por acaso, nos raros momentos de um imperceptível deslize.
Muzot, 7-11 de agosto de 1924
1
Nosso caminho não é mais largo que o teu, freqüentemente calmos de muito alto, também nos arrebentamos, mas a falta de atenção não nos obriga retornar à corda. A ti, qualquer errinho faria morrer. Divertimos com nossos mil erros a morte, espectadora que ocupa a melhor cadeira no circo de nossas desgraças.
2
Façamos como eles: jamais cair sem morrer. Que multidão ao redor de nossa queda! Mas uma criança, meio de lado, observa a corda vazia com, ao fundo, a noite intacta.
3
A corda estava tão alta que aquilo se passava acima dos refletores. Mas logo estava novamente entre nós, em seu traje tão rosa. No alto, havia outro rosa que explicava à noite imensa o absurdo de seu puro perigo movente.
4
Que perfeição. Se fosse na alma, que santos fariam! - É na alma, mas eles a tocam apenas por acaso, nos raros momentos de um imperceptível deslize.
Muzot, 7-11 de agosto de 1924
[In As janelas, seguidas de poemas em prosa franceses, organização e tradução Bruno Silva D´Abruzzo e Guilherme Gontijo Flores, Belo Horizonte: Crisálida, 2009, p. 63]
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By Joachim Van Den Heuvel |
quinta-feira, 9 de julho de 2015
Boris Pasternak
A MORTE DO POETA*
Ninguém acreditava. Pensavam: «Que delírio!»
Mas sabiam por dois,
por três, por todos. Alinhavam-se
sobre o tempo que parara
as casas de funcionários e comerciantes,
os pátios, as árvores, e lá dentro
gralhas, ébrias de sol,
excitadas com as esposas
que gritam, para que daí em diante essas loucas não
se ponham a pecar, que diabo!
Tinha no rosto rugas húmidas
como vincos rasgados nas feições.
Era um dia, um dia inofensivo, mais
do que dezenas de dias vividos antes.
Amontoava-se o povo em parada à entrada,
como se um tiro os tivesse formado.
Como, esmagados, são esborrachados pelas águas
sargos e lúcios na explosão do petardo,
como o suspiro de um tiro a sério.
Tu dormias, deitado num leito de trapos,
tu dormias e, os calafrios acalmados,
— Belo, aos vinte e dois anos **.
Como anunciava o teu tetráptico.
Tu dormias, a face contra a almofada,
dormias — com todas as pernas, com toda a força,
penetrando de novo e com novo ímpeto
no reino dos mitos recentes.
Viram-te nele entrar ostensivamente
e chegares de um só salto;
o teu tiro foi semelhante ao Etna
nos contrafortes de covardes e poltrões.
______________________
* Escrito à morte de Maiakovski.
** Alusão ao poema de Maiakovski: "A nuvem de calças".
[In Poetas Russos, Tradução e prólogo por Manuel de Seabra, Lisboa: Relógio D´Água, 1995, pp. 119-121].
Ninguém acreditava. Pensavam: «Que delírio!»
Mas sabiam por dois,
por três, por todos. Alinhavam-se
sobre o tempo que parara
as casas de funcionários e comerciantes,
os pátios, as árvores, e lá dentro
gralhas, ébrias de sol,
excitadas com as esposas
que gritam, para que daí em diante essas loucas não
se ponham a pecar, que diabo!
Tinha no rosto rugas húmidas
como vincos rasgados nas feições.
Era um dia, um dia inofensivo, mais
do que dezenas de dias vividos antes.
Amontoava-se o povo em parada à entrada,
como se um tiro os tivesse formado.
Como, esmagados, são esborrachados pelas águas
sargos e lúcios na explosão do petardo,
como o suspiro de um tiro a sério.
Tu dormias, deitado num leito de trapos,
tu dormias e, os calafrios acalmados,
— Belo, aos vinte e dois anos **.
Como anunciava o teu tetráptico.
Tu dormias, a face contra a almofada,
dormias — com todas as pernas, com toda a força,
penetrando de novo e com novo ímpeto
no reino dos mitos recentes.
Viram-te nele entrar ostensivamente
e chegares de um só salto;
o teu tiro foi semelhante ao Etna
nos contrafortes de covardes e poltrões.
______________________
* Escrito à morte de Maiakovski.
** Alusão ao poema de Maiakovski: "A nuvem de calças".
[In Poetas Russos, Tradução e prólogo por Manuel de Seabra, Lisboa: Relógio D´Água, 1995, pp. 119-121].
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Fernando Paixão
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