sexta-feira, 14 de agosto de 2015

Nikos Kazantzákis

2 DE FEVEREIRO — Quando acordei, a amendoeira ainda floria em mim. Meu sangue latejava em ritmo musical, cheio de júbilo, tristeza e nostalgia. Seu nome, querida Mariô, pairava sobre ele como uma gaivota sobre o mar. Ah! Como gostaria de ter tempo — e ânimo — para traduzir esse ritmo em palavras, transformando-o num poema! Uma canção bailava em meus lábios e eu dizia: “Ah! Deixem-me em paz hoje, com um lápis e papel!”

Mas o clarim soou o alarme, apanhamos os fuzis. Os rebeldes assomaram a ponta do nariz no cume das Águias, onde estão entrincheirados há meses sem que se consiga desalojá-los. Cumpria matar-se mutuamente. Na hora em que lhe escrevo já é noite, regressamos exaustos, ensanguentados. As perdas de ambos os lados se equivalem, sem o mínimo resultado, nem para eles, nem para nós. 

Correu sangue por nada. . .

Quando Homero descreve os combates dos aqueus e troianos, quando lemos o relato de suas agonias, experimenta-se uma alegria soberana, nosso espírito ganha asas, porque um grande criador soube extrair de um massacre o canto inimitável. Parece então que aquelas vítimas não são mais homens e sim nuvens de formato humano, insensíveis à dor, que se afrontam no meio do éter imarcescível, num simulacro de combate. E o sangue derramado tem a cor púrpura da noite. A poesia não estabelece diferença entre o homem e a nuvem, a morte e a imortalidade. Mas quando tudo se passa sobre a terra e os guerreiros possuem um corpo verdadeiro, composto de carne, osso e pelos, e dotado de alma, que coisa atroz é a guerra, meu amor! 

Parte-se para a batalha com o propósito de não odiar ninguém, de se dominar, continuar humano, mesmo em plena carnificina. Porém, ao ter de defender a própria vida, sente-se no âmago de si mesmo uma fera negra e felpuda que acorda, como um longínquo antepassado esquecido. Nosso rosto humano cede lugar à máscara do gorila, nosso cérebro se converte numa bola de sangue entremeada de pelos. Começa-se a gritar: “Todos à frente, vamos matá-los!” Mas esses gritos não são nossos, embora saiam de nossas bocas. Não são gritos humanos. O próprio metatipo recua apavorado diante desse ancestral das profundezas: o gorila.

Às vezes sou acometido da nostalgia de me deixar matar para resguardar o que me resta de humano e escapar à brutalidade. Mas você me prende à vida, resigno-me. Digo- me que um dia este massacre terá de acabar e poderei abandonar a pele de gorila: a farda, os coturnos, o fuzil.

Então, Mariô querida, voltaremos a Súnio, de mãos dadas, para recitar os versos imortais da Ilíada.

- Excerto de "Os irmãos inimigos", Nikos Kazantzakis, Nova Fronteira, 1965. 


segunda-feira, 10 de agosto de 2015

T. S. Eliot

PAISAGENS

I. NEW HAMPSHIRE
As vozes das crianças no pomar
Entre o tempo das flores e dos frutos:
Cabeça dourada, cabeça carmesim,
Entre a verde fronde e a raiz.
Asas negras e castanhas pairam;
Vinte anos e a primavera fina;
O hoje sangra, o amanhã lancina,
Cobre-me todo, luz em fólios;
Cabeça dourada e asa negra
Se entrelaçam, oscilando,
Emergindo, cantando,
Fremindo macieira acima.

II. VIRGÍNIA
Ruivo rio, ruivo rio,
Lento flui calor é silêncio
Vontade alguma é imóvel como um rio
Imóvel. O calor se moverá somente
Com a voz do melro tagarela
Antes ouvida? Imóveis colinas
Aguardam. Comportas aguardam. Arvores roxas
E árvores brancas aguardam, aguardam.
Tardam, esgalham. Vivendo, vivendo,
10 Sempre imóveis se movendo.
Pensamentos cruéis comigo vêm
E comigo vão:
Ruivo rio rio rio.

III. USK
Sem alarde quebra-se o ramo,
Ou a esperança de encontrar
O cervo branco atrás da límpida nascente.
Relanceia o olhar, mas não lanceia, não soletra
Antigos sortilégios. Deixa-os dormir.
“Docemente imersos, mas não tanto submersos,”
Ergue teus olhos
Até onde mergulha e emerge a estrada
Busca apenas onde
A luz cinzenta o verde espaço tangencia
A capela do eremita, a prece do peregrino.

IV. RANNOCH, POR GLENCOE
Aqui definha o corvo, aqui o cervo conformado
Procria para o rifle. Entre a tenra charneca
E o céu macio, escasso é o espaço para o voo
Ou para o salto. A substância se esfacela,
No ar exíguo lua fria ou lua ígnea. A estrada
Ondula na apatia de uma guerra antiga,
Langor de aço espedaçado, 
Clamor de erro obscuro, ao silêncio
Resignado. A memória perdura
Para além dos ossos. Orgulho degolado,
Longa é a sombra do orgulho, na garganta esguia
Nenhum colóquio de ossos.

V. CABO ANN
Depressa depressa depressa, escuta o pardal canoro,
O pardal palustre, o pardal astuto, o pardal vespertino
Da alba e do crepúsculo. Acompanha a dança
Do pintassilgo ao meio-dia. Dá uma chance
Ao pintarroxo gorjeante, ao esquivo. Saúda
Com estrídulo assobio o pio da codorna, da codorniz
Gingando entre as moitas da baía. Segue o pé
Do melro-ribeirinho, do andarilho. Persegue o voo
Da seta bailarina, da andorinha. Aclama
Em silêncio o noitibó. São todos audíveis. Doce doce doce.
Mas ao fim renuncia a esta gleba, deixa-a
Ao seu real proprietário, à pertinaz, à gaivota.
E basta de palavreado.

(In POESIA, Tradução, apresentação, introdução e notas de Ivan Junqueira, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, pp. 177-179)

Winslow Homer




sábado, 8 de agosto de 2015

Yves Bonnefoy

VERO NOME
Chamarei deserto a este castelo que tu foste,
Noite à tua voz, ausência à tua face,
E quando caíres sobre a terra estéril,
Chamarei nada ao raio que te trouxe.

Morrer é um país que tu amavas. E eu venho
Eternamente por teus sombrios caminhos.
Destruo teu desejo, tua forma, tua memória,
Sou teu inimigo que não terá piedade.

Chamar-te-ei guerra e sobre ti
Tomarei as liberdades da guerra. Terei então
Em minhas mãos o teu rosto, obscuro e trespassado,
E em meu coração o país que acende a tempestade.

Da crepitação noturna de uma terra supliciada,
Necessita a luz para surgir
E é de bosques tenebrosos que a flama salta.
O próprio verbo sonha a essência,
Uma plácida margem além do canto.

Para que vivas, precisarás transpor a morte.
A mais imácula presença é um sangue entornado.

[Tradução de Lenilde Freitas]


sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Nathan Alterman

UMA CARTA
Meus olhos hoje se abriram de repente em cima de ti.
Meu deus meu,
eu sou inocente.
Lembra-me, quando o sol vai pascendo sobre a água,
Que nasci gêmeo diante de ti.
Agora é o crepúsculo. Adensaste as vidraças,
Apagaste o candelabro e embaçaste as imagens.
Porque morreu em mim teu único, o filho que amavas,
Sobre o qual levantei a mão no prado.
Estou inocente, meu deus. Bati lentamente, docemente.
Arrastei-o do teto maternal para o mercado.
Tirei-lhe a túnica. Esperava por suas lágrimas.
Amarrei-lhe os braços, mas ele sorria em silêncio.
Não o sabia desde sempre — que ele é mais precioso
[do que eu.
E ele, só ele, é para ti o querido, o único.
Sobre o berço de suas dores, eu me curvava como uma
[ama.
Para ele, tocava árias no meu acordeon.
Quando a noite estrangeira se abriu para me chamar
[para ti,
E que eu fugia para ele, encantado pelo seu fascínio —
Meu irmão que lutava, meu irmão que acabava de
morrer,
Ficou sem água nem confissão. 
Hoje, minha alma quer descansar em ti, no
esquecimento...
Tu és para mim uma floresta espessa, pesada de fôrça
[e triste.
Se tivesses visto, ao menos, entre a noite e a
[madrugada.
Como em tuas portas minhas mãos imploravam — o
[arrependimento!
Se apenas tivesses visto como meus dias maravilhosos
Faziam dançar um urso no mercado, para o pão e o
[amor.
— Os porteiros se lançariam a seus pés, meu deus,
Quando eu os trouxer diante de ti para que os vejas.
Preparo-me para a viagem da estrada que soçobra.
Em sua fria brisa, tão doce à minha boca
Direi à minha terra:
Lembra-te da minha carícia
Eu sou a mão que se levantou sobre os teus lilases.
Foi bom que eu não tivesse fugido para longe com a
[solidão glacial
E que os tumultos do estrangeiro me tivessem recebido
[em seu seio
Ao menos se quisesses também perdoar este trabalho
poético
E aceitá-lo como um riso'simples que tivesse rido aqui. 
A uma árvore pesada, meu deus, chegará coxeando
[meu ser.
Deixará cair seu pobre saco, e sucumbido...
. .. Hoje tive vontade de te compor uma carta,
Mas, ao tocar o coração do poema, a pena se quebrou.

[In Antologia da Literatura Hebraica Moderna, Rio de Janeiro, Biblos, 1969, pp. 45-47].





quarta-feira, 5 de agosto de 2015

Ana Miranda

No tempo em que eu tinha quintal
Foi quando eu era menina
Tinha pai e um desespero
De desbravar este mundo
Mas ele me desbravou
E mansa do coração
Mas brusca na atitude
Na aptidão messalina
Ferindo por ser ferida
Perdendo por ser perdida
E encontrada depois
Vivendo meus pesadelos
Numa pena e num tinteiro
Na barra do meu vestido
Na juventude das coxas
Na inocência esquecida
Nas roxas saias de Deus
Ah quantas vezes fui rude
Ah tantas vezes fui má
Tudo passa tudo passa
Não passa o que eu desejar
A menina tão afoita
A menina tão aflita
Às turras com o destino
Como fosse condenada
A um nunca desistir
Flor de uma obsessão
Flor da paixão ardente

[In Prece a uma aldeia perdida, Record: São Paulo, 2004, p. 107]

SOBRE ANA MIRANDA

Simon Shawn Andrews

terça-feira, 4 de agosto de 2015

Maria do Sameiro Barroso

28.
Depois da trovoada, as camélias
molhadas.
O medo passou.
A terra está fresca,
como uma lamparina a alumiar
a infância,
quando refrescos de groselha,
açucenas, matagais de amoras,
perfumavam o horizonte aberto.
Mais tarde, hortelã.

E cerejas a iluminar o palco
com a arte dos beijos.


29.
Ainda, a casa, o linho, as trepadeiras,
o orvalho.
À noite, o obscuro, o enigma,
o duplo gume,
os animais de sombra abandonando
os disfarces,
metamorfoseando-se em deuses,
sugando o corpo,
devorando o sangue,
percorrendo a manhã bicéfala,

incendiando a boca negra da lua.


[In O CORPO LUGAR DE EXÍLIO, Lisboa, 2013, pp. 28-29]

Oleg Trofimov




segunda-feira, 3 de agosto de 2015

Manuel Gusmão

um risco na página
um gesto furtivo
um movimento
de queda
na sombra
da sombra
de um corpo, uma boca
: alguém chama — palavras contra
o sentido, contra a direcção
do vento

***
O rio divide-te entre
as margens montanhosas
pelas pedras
que saltando
vais de
onde vens
rosto de quem
uma borboleta
brilha na claridade
do súbito assombro.

***
a lagartixa
o pequeno sáurio
miniatura sobrevivente
de uma adaga pré-histórica
deixa cortada
e de si separada
a cauda, a lâmina em movimento
que fica para trás e deixa fugir
o tronco e os seus velocíssimos
dois pares de pés.

***
o comboio de corda
cruza o sítio de partida
e fecha um dos zeros
do 8 deitado no mapa
celeste
e se leste
até ao fim o seu movimento
viste-o fechar o outro zero
e caíste infinitamente
na terra finita.

[in Pequeno Tratado das Figuras, Assírio & Alvim, 2013]

Bibliotecário de Babel

SOBRE MANUEL GUSMÃO

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...