domingo, 13 de setembro de 2015

Yevgeny Yevtushenko

Quando o teu rosto surgiu no horizonte
sobre a minha vida destroçada,
desde o primeiro instante percebi
como era mísero tudo o que possuo.
Mas o teu rosto iluminou os rios
e os mares com sua luz própria
e me iniciou nas cores deste mundo,
a mim que em nada estava iniciado.
Quanto temo, ah quanto temo
o fim dessa aparição inesperada,
o fim das descobertas, o fim
das lágrimas e dos êxtases.
Mas não luto contra esse temor.
Compreendo que esse medo mesmo
é o amor. Por isso, eu o preservo,
embora não o saiba acariciar,
descuidado vigia de meu amor.
Dia e noite esse temor me persegue.
Sei que esses instantes são efêmeros
e que, para mim, desaparecerão as cores
assim que o teu rosto se puser no horizonte.


[In Poesia Soviética, seleção, tradução e notas de Lauro Machado Coelho, São Paulo, Algol, 2007, p. 352]


sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Henriqueta Lisboa

ROMANCE DO ALEIJADINHO
Antônio Francisco Lisboa
no catre de paralítico.
Antônio Francisco Lisboa
está nos últimos dias.

—Sobre meu corpo, ó Senhor,
põe teus divinos pés.
Ao penitente perdoa
ira, luxúria e soberba.

Os grossos lábios murmuram
secos, gretados de terra.
Tateiam os olhos cegos
as moedas falsas da luz.
Estende os braços, estende-os,
não tem mãos para sentir
a carnadura de estrelas
de sua pedra vencida.
E anseia substâncias plásticas
sob dedos renascidos.

—Mais que volutas, rosáceas,
mais do que as flamas e as curvas
flexuosas dos meus delírios,
em segredo amei as virgens
de leves túnicas brancas,
formas essenciais do sonho
que fez de meu corpo uma alma.

E mais do que os rijos músculos
desses guerreiros que atroam
nuvens e ares com trombetas,
amei a graça e a doçura
dos anjos, dos ruflos de asas,
a delicadeza em flor
das crianças que não me amaram.

Queda um momento perplexo:
de um lado o mar infinito
de vagas que se desdobram
verdes, verdes, sempre verdes,
e seus passos firmes de homem
caminhando, caminhando,
sobre as ondas caminhando.

À esquerda a floresta, o abismo:
fulvas serpentes se enroscam
nos troncos dóceis dos cedros
atravancando a passagem.
E recorda as vezes tantas
em que seus pés se enredaram.

—Filtros, filtros de cardina,
filtros, prodigiosos filtros!
Do catre imundo e revolto
Joana Lopes se aproxima:
—Que queres tu, Pai Antônio?

—Para onde foi teu marido,
filho ingrato que gerei?
—O mundo levou teu filho
mas uma filha te deu.

—Januário, onde está Januário?
É meu escravo ou não é?
—Januário de tantas mágoas
descansa no cemitério,

— Ganhei dinheiro às carradas
e minha arca está vazia.
—Eras amigo dos pobres,
são pobres os teus amigos.

—Quero a Bíblia, a minha Bíblia!

Mãos compassivas depõem
no peito coberto de úlceras,
restos do sagrado livro.

—Sobre meu corpo, ó Senhor,
põe teus divinos pés.

O moribundo sem força
move os lábios num sussurro.

E da distância dos séculos
anjos e virgens o escutam.

[In Nova Lírica, Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1971, pp. 47-49]






quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Dora Ferreira da Silva

MARIA ZAMBRANO I
Teu ensinamento de mulher:
a razão poética une cabeça e coração.
Grata o recebo de tuas mãos
de tua alma sábia
e feminina. Diotima de Mantinéia
precedeu-te no ágape socrático
e sabemos o que ensinou aos doutos
sobre o Amor. Abundância e penúria
o muito e o nada
o paradoxo.
Vi tuas imagens: a Menina bela e grave
a mulher fascinosa
a anciã de olhar desesperado
que de longe vinha - de alguma nebulosa
ou de uma estrela desfazendo-se no céu.
Principalmente guiavas os que partiam
para outros mundos e países sem nome
em teu veleiro de vidência.


MARIA ZAMBRANO II
Estrela do caminho
do alto guias. Vi tua face de Menina
como se já soubesses teu destino.
Vi teu rosto jovem
feito só de madrugada
estando a noite adormecida.
Que asa liga o rosa ao magenta
levando pólen pelas estradas
roçando pensamentos
enlaçando ao dom poético
um dom de dizer
quase impossível nas pautas do Ser?
A outros e a mim deixaste
sílabas sagradas
pedras roladas
no flanco dos rios.
Anjo e criatura
pura e impura
conheces infernos e alturas
de um céu mais íntimo e profundo
que as margens deste mundo.

No silêncio que habitas
pouso esta vida
sem deter-te a labareda:
brilho de ouro e seda.

[In Cartografia do Imaginário, T.A. Queiroz Ed,, São Paulo, 2003, pp. 124-125]

terça-feira, 8 de setembro de 2015

António Ramos Rosa

DAQUI DESTE DESERTO EM QUE PERSISTO
Nenhum ruído no branco.
Nesta mesa onde cavo e escavo
rodeado de sombras
sobre o branco
abismo
desta página
em busca de uma palavra

escrevo cavo e escavo na cave desta página
atiro o branco sobre o branco
em busca de um rosto
ou folha
ou de um corpo intacto
a figura de um grito
ou às vezes simplesmente
uma pedra

busco no branco o nome do grito
o grito do nome
busco
com uma fúria sedenta
a palavra que seja
a água do corpo o corpo
intacto no silêncio do seu grito
ressurgindo do abismo da sede
com a boca de pedra
com os dentes das letras
com o furor dos punhos
nas pedras

Sou um trabalhador pobre
que escreve palavras pobres quase nulas
às vezes só em busca de uma pedra
uma palavra
violenta e fresca
um encontro talvez com o ínfimo
a orquestra ao rés da erva
um insecto estridente
o nome branco à beira da água
o instante da luz num espaço aberto
Pus de parte as palavras gloriosas
na esperança de encontrar um dia
o diadema no abismo
a transformação do grito
num corpo
descoberto na página do vento
que sopra deste buraco
desta cinzenta ferida
no deserto

As minhas palavras são frias
têm o frio da página
e da noite
de todas as sombras que me envolvem
são palavras frágeis como insectos
como pulsos
e acumulo pedras sobre pedras
cavo e escavo a página deserta
para encontrar um corpo
entre a vida e a morte
entre o silêncio e o grito

Que tenho eu para dizer mais do que isto
sempre isto desta maneira ou doutra
que procuro eu senão falar
desta busca vã
de um espaço em que respira
a boca de mil bocas
do corpo único no abismo branco

Sou um trabalhador pobre
nesta mina branca
onde todas as palavras estão ressequidas
pelo ardor do deserto
pelo frio do abismo total

Que tenho eu a dizer
neste país
se um homem levanta os braços
e grita com os braços
o que de mais oculto havia
na secreta ternura de uma boca
que era a única boca do seu povo
Que posso eu fazer senão
daqui
deste deserto
em que persisto
chamar-lhe camarada

[In O Poeta na rua, Quasi Edições]



segunda-feira, 7 de setembro de 2015

Stefan Zweig

Lágrimas inundam os olhos de Händel, tão violento o fervor se agita dentro dele. Folhas ainda tinham que ser lidas, a terceira parte do oratório. No entanto, após esse “Aleluia, Aleluia”, ele não pôde ir mais adiante. Esse júbilo o preencheu harmonicamente, dilatou-se e expandiu- se, doendo-lhe como fogo líquido que queria correr, sair. Ó, como isso comprimia e oprimia, pois ele queria escapar dele, ascender e retornar ao céu. Célere, Händel tomou a pena e escreveu notas, que se iam formando uma após outra com mágica pressa. Ele não podia parar e, como um navio cujas velas são impelidas pela tempestade, continuou a ser levado. Ao seu redor a noite estava silenciosa, a úmida escuridão jazia calada sobre a grande cidade. Contudo dele jorrava a luz e inauditamente o gabinete retumbava com a música do universo.

[Excerto do ensaio A RESSURREIÇÃO DE GEORG FRIEDRICH HÄNDEL, in Momentos Decisivos da Humanidade, tradução Álvaro Alfredo Bragança Júnior e Ingeborg Hartl, São Paulo, Record, 1999, p. 91]


Fonte: Blog de Henrique Autran Dourado




sábado, 5 de setembro de 2015

Affonso Romano de Sant´Anna

PALAVRAS QUE ATRAPALHAM E AJUDAM A VIVER

"Mas você sabe que a pessoa pode encalhar 
numa palavra e perder anos de vida?".
Clarice Lispector


Vejam só: encalhar numa palavra. A pessoa lá vai no seu barquinho vida adentro e, de repente, encalha numa palavra. Pode ser "marxismo", "Deus", "pai", "vanguarda", "revolução", "Paris", "aposentadoria". As palavras são paralisantes. O Brasil, por exemplo, no princípio do século estava encalhado na "febre amarela". Nos últimos anos reencalhou na "ditadura" e na "censura". Tem hora que encalha na "inflação". Agora encalhou no "desemprego". E está dificil desencalhar da "reforma agrária", da "corrupção" e do "subdesenvolvimento".
Os escritores, sobretudo, encalham muito nas palavras. João Cabral se referia a Graciliano Ramos como um homem "com as mesmas vinte palavras girando ao redor do sol". Joyce, com Ulisses e Finnegans wake encalhou titanicamente numa região cheia de palavrosos icebergs. Alguns poetas que conheço estão há cinqüenta anos engastalhados em palavras como "Pound, ideograma., morte do verso, Joyce, un coup de dés", e não há quem os demova.
Quem leu O nome da rosa se lembra que havia lá na biblioteca medieval um texto impossível, envenenado, como o fruto interditado no meio do jardim. É que as palavras, com essa coisa de se plantarem em nossa vida, nos alimentam e nos matam, são remédio e veneno, e, como os produtos de uma farmácia, são drogas que podem sarar ou curar. É uma questão de alquimia verbal saber administrá-las. Aurélio Buarque de Hollanda, que dicionarizava rebanhos de palavras, enfatizando o lado positivo das palavras, me disse um dia: "Nós temos que dar oportunidade às palavras". Entendi isto como uma sugestão para a gente se desencalhar e ir desfrutando palavras novas, como o amante que com um novo amor renasce vida afora.
Em algumas culturas certas palavras não podem sequer ser pronunciadas, pois trazem desgraças. Mas em algumas narrativas certos vocábulos abrem grutas, cofres e corações. Sim, algumas palavras ajudam o barco a flutuar: "esperança", amanhã", "utopia". Pode-se também passar uma estação com algumas delas, como se pode passar uma temporada num determinado lugar, num certo corpo, num certo amor. Certas palavras são como hotéis: nelas fazemos pernoite, mas outras demandam moradia maior, são grutas ou catedrais que exigem contemplação.
Ler é tomar a palavra alheia, vesti-la, habitá-la por certo tempo. Escritor, no entanto, não é aquele que acumula palavras obscuras num egoísta museu ou cofre de erudição, mas quem as troca na bela moeda da emoção.
Eis um bom exercício: tome um lápis e anote as palavras que paralisaram ou fizeram sua vida avançar. Palavras-coisas, palavras-pessoas. Sobre a vida e sobre as palavras há várias teorias, a escolher. Há quem diga que a vida tem que ser palavras em movimento, aquele work-in-progress de que falam os ingleses. Se você encontrar, vinte ou trinta anos depois, uma pessoa fazendo o mesmo discurso, tenha pena, desconfie, é sinal que a vida dela emperrou. (A menos que seja um discurso de amor).
Com as palavras a gente tem que tomar cuidado, pois no primeiro encontro nos libertam, depois nos aprisionam. Há palavras tão duras e montanhosas, que nem com trator, só dinamitando. E o fato é que um simples "bom dia" ou "alô" pode salvar uma vida. A psicanálise pretende ser o método da "cura pela fala", mas também pode se tratar pelo ouvido. As palavras ouvidas também curam. Vejam a mãe soprando o dedinho do filho dizendo: "já passou o dodói, pronto".
Viver também é a arte de lidar com as palavras.
E como já disse alguém as palavras são caminhos para encontrar as coisas perdidas.

[In Que presente te dar? Leya, 2013]



sexta-feira, 4 de setembro de 2015

Renata Pallottini

ALGUMAS FANTASIAS SOBRE A MORTE
A memória de
Cacilda Becker
Alberto D’Aversa
Telcy Perez
I
FAÇO as inquirições de ser e morte e não respondo:
sou pouco para o largo desse campo.

Olho os verdes do templo e indago e não respondo.

Também as vozes que se alongam pela nave,
penso, não nos respondem. Se calamos
é por cansaço e sombra, é por temor da morte,
e grande irrespondida, a mais calada.

Faço o palpar do pulso e ainda não ouço,
meu saber dessas coisas tão pequeno.
Quem pode haver do coração a mágoa
surda, como os ruídos dentro d’água?

Se para o coração, caminha a morte.
Não há quem me responda de outra sorte.

II
Onde está quem não está? Onde, no ar,
está quem já se foi? No ar? Na relva?
Onde a semente está, há alguém? Alguém há sempre?

Onde estou eu estarei eu somente?
Onde estou eu, Amor está, semente.

Mas a quem já não está, Amor não salva.
Quem já não está jaz numa tabula de prata.

III
Uso palavras como pedras como beijos
meu amigo morreu
falando de esperança

Eu ensaio lutar olhando a rua
as árvores
o verde de suas folhas sobre o rio
O amigo era
de largo peito e profunda alegria

Olho a manhã com lágrimas nos olhos
as árvores depois as sementes
o amigo

Eu não bebi bastante o vinho de seu riso
não me lembro do gosto de sua pele
mas penso — porque não — construir-lhe um jazigo
onde ele sentado sobre a pedra
a sorrir convidasse os passantes a ouvi-lo
a ouvir o meu amigo...

As árvores
depois suas folhas
seus filhos
o amigo e seu perfil desdobrado no rio
vejo o barco e os reflexos
o amigo
morreu quando esperava ter chegado à vida

Eu uso versos como gritos
como espadas
Mas amava esse amigo
e não sabia nada.

[In Obra Poética, São Paulo, Hucitec, 1995, pp. 190-191].



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...