sábado, 19 de setembro de 2015

Conceição Lima

VERSÃO DE DESERTO
Trazido não sei por que apelos, urgências
Vieste impugnar o momento que me cerca.
Demora — conclamas — a clara voz em minha boca.

Peço-te porém que repares:
não agonizam dunas nestes campos.
Aqui não jazem ossadas sem registo
nem apodrecem espectros de
perdidas caravanas.
Nenhum trilho foi abandonado
e não reneguei
Não, não reneguei
o nome do pai do meu pai.

O meu deserto é a vertical semente de um barco.
O areal (seu brilho de nada e de lago)
não é senão a metáfora de uma horta
talvez uma projectada cisterna.
Esta claridade nos olhos do griot cego
este reflexo que obscurece a luz do dia
não irradia de um céu empedernido —
a minha fome não é a maldição
do velho deus inclemente.
E todavia devora-me a cicatriz da penúltima batalha
e tenho por estigma
a memória de um longo fratricídio.
Mas estou aqui
sob este sol que alucina
a savana ao meio-dia.
Aqui, sob este toldo rasgado
onde envergo a sede dos meus ossos
e perduro sem jardim nem chuva
sem tambores nem flauta
sem espelhos,
companheira do tempo que amarra
as minhas veias ao umbigo do poço.

Não, nenhum trilho foi esquecido
e venero o profano nome do pai do meu pai.

Lenta a vertigem vai esculpindo
os murmúrios de um rio incerto —
planto estacas
em redor da vigília dos meus mortos.
Não anuncio.
Tardo e não prenuncio reino ou abismo.
Não sou mensageira de vãos sacrifícios,
épicas derrotas, novos caminhos.
Aqui onde o inferno acontece
neste lugar onde me derramo e permaneço
inauguro a véspera da minha casa.
O meu silêncio franqueia
o umbral de qualquer coisa.

(In A dolorosa raiz do Micondó, Geração Ed., São Paulo, 2012, pp. 69-71)



sexta-feira, 18 de setembro de 2015

Matilde Campilho

EU JÁ ESCUTO OS TEUS SINAIS

Olhe lá
Eu nunca quis voltar
atrás no tempo
nem por uma vez
A vida já foi muito boa
e muito ruim comigo
com minhas costas
com meus rins
com meus estúpidos
glóbulos vermelhos
com minha melancolia
com minha nacionalidade
A vida já foi mais estúpida
que meus glóbulos vermelhos
Mais doce que a visão do sol
de junho batendo nos joelhos
de um garoto ou de uma mulher
A vida já se serviu de mim
como uma pega
como um garçom
como um respigador
como um profissional
da marcação de fronteiras
Serviu-se de mim
para todos os trabalhos
Quis cuspir-lhe na cara
vezinquando
Mas nunca
por razão nenhuma
quis voltar atrás
no tempo da vida
Pelo contrário
sempre me servi
do tempo dela
para aprender a contar
as partes todas
da futebolada mística
Desta vez é diferente
Escute agora é diferente
Daqui da bancada
dá para ver meio passado
e meio futuro
Me sento sobre o balde
do duro inverno boreal
E enquanto vou esculpindo
o lustroso nada a canivete
Eu vejo os 32 °C no pontão
do Leme (mais cinco graus
se contarmos a temperatura
externa da pedra física)
Sobre o cais estão dançando
alguns astros imperfeitos
Suspeito que são homens
Eles levantam suas plumas
até a garganta do deserto
Sim eu me lembro
Mais de 40 homens
e a banda tocando
uma canção de amor
De repente lá vem vindo
oba de repente lá vem
Estou falando da entrada
da menina na arena
Da entrada dos seus cabelos
na frente de nossas retinas
Estou falando da velocidade
de um bambolê elétrico
rodopiando em torno
de tantos triplos suores
enquanto a banda toca
Olhe lá não procure histórias
estou falando de algum passado
Estou falando do ritmo
de uma estação violenta
E nem por isso impiedosa
É verão no Rio de Janeiro
Daqui deste balde revirado
dá para ver a felicidade
desabando sobre as cabeças
Dá para ver a força santa
do desejo físico imortal
Dá para ver disparos
que arrasam com toda
espécie de nacionalidade
Olhe eu nunca quis trocar
os tempos nem as partes
da partida fundamental
Mas daqui deste balde
dá para ver o assalto
que deu cabo da puta
e do garçom e até mesmo
do barbudo fronteiriço
O crime alegórico
que restaurou a alegria
E portanto veja bem
hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só para me sentar
sobre a pedra austral
e ficar assistindo às explosões
dos bambolês polifônicos
entre os dedos de uma mulher
Hoje se eu pudesse
eu voltava à cidade
Só para beijar
a cidade na boca.


[In Jóquei, Ed. 34, Rio de Janeiro, 2015, pp.128-131]


quinta-feira, 17 de setembro de 2015

Ana Luísa Amaral

A CARTA
Senhores:
hão de a dor e a ausência ter sabor,
um certo cheiro doce e demorado,
em forma de mil olhos

Pois vós olhastes essa minha ausência,
dissestes que dali criei palavras,
mas não por minha mão

Na vossa história, senhores,
eu fui só voz,
em vez de gente inteira

Inteira, nunca o fui,
dobrada ao meio pelo escuro das vestes,
pelas juras forçadas que cumpri,
pelo dever que me ditou meu pai

Porém, fui eu que as fiz, às letras dessas cartas
eu, que as fui construindo devagar,
na escuridão da cela

O resto foi roubado por vós
e noutra língua,
e em mitos que vos eram
necessários

Não fui só voz:
fui eu, dona de mim,
porque as letras me foram, e o amor,
e o ódio vagaroso

Só para isso me valeu viver,
pura compor, igual a sinfonia,
tudo o que considerei

Ele foi só palavras que em palavras forjei,
bigorna onde moldei espadas e lanças,
o lume necessário

Só não moldei
as grades da prisão onde vivi:
essas, moldastes vós
até incandescência

Mas eu, nas letras que compus,
eu inventei a ausência como mais ninguém.
Eu fui a mão da ausência
numa cela escura

E os atos dele foram-me as metáforas,
imagens a seguir-me, mais fortes
do que a vida.
Por isso me chamastes, senhores,
no vosso tempo, uma palavra nova e ágil:
literatura

E assim eu fui-vos voz,
e doce mito. E nada mais
vos fui

Quero dizer-vos hoje,
neste tempo tão escuro,
mas de um escuro diverso do que tive:
adeus

Deixai-me o escuro, o meu.
Porque ao lado da minha,
a vossa ausência, essa que em mim plantastes,
nada é.
Tomáreis vós saber o que é ausência

Ausência: eu: demorada nestas linhas.
Dizer com quanto escuro
a noite se desfaz
e se constrói —

(In Escuro, São Paulo: Iluminuras, 2015, pp. 47-48)





terça-feira, 15 de setembro de 2015

Cecília Meireles

GENTE DESAPARECIDA
O POETA PORTUGUÊS Carlos Queirós, querido amigo, já desapareceu deste mundo há vários anos, para nossa melancolia e saudade. Mas em 1935, quando ainda estava presente, publicou um livro a que dera o nome de Desaparecido e que começava assim:

“Sempre que leio nos jornais: “De casa de seus pais desapareceu...” Embora sejam outros os sinais, /Suponho sempre que sou eu.”

O poeta sonhava ir, jovem e independente, por seus próprios caminhos, à procura de um destino autêntico, e ser um “feliz desaparecido”, mesmo quando ventos contrários atormentassem a rota do seu veleiro. Por amor a essa aventura de partir para o mistério — herança náutica de seu povo — alegrava-se com a ideia de tal evasão, certamente mais no plano simbólico do sonho do que no da realidade física e imediata.

Mas por que desaparece tanta gente, todos os dias, em redor de nós, sem que possamos admitir que esses desaparecimentos sejam de origem lírica?

Ouço pelo rádio as famílias, os amigos, os conhecidos que indagam, inquietos, que reclamam,
descrevem, dão sinais, indicam pistas. Há desaparecidos de todas as idades e cores, e ambos os sexos, das mais variadas condições sociais: quem tiver notícias de seu paradeiro é favor informar às pessoas aflitas que os procuram.

Mas quem vai saber o paradeiro da mocinha de blusa cor-de-rosa e saia amarela que, assim colorida, bateu asas sem se despedir dos parentes? Quem viu o menino de blusão verde e sapatos novos que saiu de casa pela tardinha e lá se foi andando — e irá andando enquanto tiver boas solas nos sapatos — por muito que os pais inconsoláveis o estejam chorando e os vizinhos não possam entender tamanha ingratidão? Que foi feito da velhinha, um pouco desmemoriada, que saiu para a missa e depois entrou por um caminho desconhecido, com seu vestido cinzento, sua bolsinha de verniz e duas travessas no cabelo?

Há os desaparecidos recentes: de ontem, da semana passada, de há um mês ou dois. Assim mesmo recentes, não se encontram vestígios seus em parte alguma. Foram raptados? Ficaram debaixo do trem? Subiram para algum disco-voador? Afogaram-se? Partiram para o secreto paraíso onde não querem ser importunados? Embarcaram para Citera? Quem sabe o que lhes aconteceu?

Mais comovente, porém, é a busca de desaparecidos antigos: “Procura-se uma conhecida que há três anos não se encontra...” Para onde foi a jovem Marília que há cinco anos disse que ia trabalhar no Rio de Janeiro?.. . Que é feito do rapaz moreno, com um sinal no queixo, que usava um cordãozinho de ouro com a imagem de São Jorge?

Todas essas pessoas e muitas outras estão sendo procuradas, pacientemente, com anúncios pelos jornais e nas emissoras. Uma incansável busca. Gente de todos os Estados do Brasil, gente com vários compromissos: eram noivos, eram chefes de família, eram donas de casa... Gente miúda, que não se esperava fosse capaz de meter-se em aventuras: meninotas e rapazinhos em idade escolar; mocinhas que pareciam tímidas e assustadas, moços ainda sem emprego...

Pois desapareceram. Para onde foram? Isso é o que se deseja saber. Não quiseram mais nada com pai nem mãe, avós nem irmãos, casa, comida, sono, afeto — nada. Desejaram sumir, sumiram. Ou foram arrastados violentamente e não tiveram forças para resistir. Talvez se sintam mais felizes. Talvez estejam arrependidos e envergonhados. Talvez não existam mais. Pode ser que um dia voltem.. . Pode ser que, por enquanto, estejam dando a volta ao mundo num veleiro imaginário.. . Pode ser que já estejam cansados. Pode ser que não se cansem jamais .. . Enquanto não regressam, boa viagem, senhores desaparecidos! Se não regressarem, boa viagem, também!

Mas os afetos vigilantes continuam, inconformados, a recordar os ausentes — todos os dias novos, todos os dias mais numerosos — e, por humildes lugares, famílias tristes cultivam longos canteiros de saudades.

[In Escolha o seu sonho, 6a. ed., Record, Rio de Janeiro, s/d, pp. 47-49]



domingo, 13 de setembro de 2015

Yevgeny Yevtushenko

Quando o teu rosto surgiu no horizonte
sobre a minha vida destroçada,
desde o primeiro instante percebi
como era mísero tudo o que possuo.
Mas o teu rosto iluminou os rios
e os mares com sua luz própria
e me iniciou nas cores deste mundo,
a mim que em nada estava iniciado.
Quanto temo, ah quanto temo
o fim dessa aparição inesperada,
o fim das descobertas, o fim
das lágrimas e dos êxtases.
Mas não luto contra esse temor.
Compreendo que esse medo mesmo
é o amor. Por isso, eu o preservo,
embora não o saiba acariciar,
descuidado vigia de meu amor.
Dia e noite esse temor me persegue.
Sei que esses instantes são efêmeros
e que, para mim, desaparecerão as cores
assim que o teu rosto se puser no horizonte.


[In Poesia Soviética, seleção, tradução e notas de Lauro Machado Coelho, São Paulo, Algol, 2007, p. 352]


sexta-feira, 11 de setembro de 2015

Henriqueta Lisboa

ROMANCE DO ALEIJADINHO
Antônio Francisco Lisboa
no catre de paralítico.
Antônio Francisco Lisboa
está nos últimos dias.

—Sobre meu corpo, ó Senhor,
põe teus divinos pés.
Ao penitente perdoa
ira, luxúria e soberba.

Os grossos lábios murmuram
secos, gretados de terra.
Tateiam os olhos cegos
as moedas falsas da luz.
Estende os braços, estende-os,
não tem mãos para sentir
a carnadura de estrelas
de sua pedra vencida.
E anseia substâncias plásticas
sob dedos renascidos.

—Mais que volutas, rosáceas,
mais do que as flamas e as curvas
flexuosas dos meus delírios,
em segredo amei as virgens
de leves túnicas brancas,
formas essenciais do sonho
que fez de meu corpo uma alma.

E mais do que os rijos músculos
desses guerreiros que atroam
nuvens e ares com trombetas,
amei a graça e a doçura
dos anjos, dos ruflos de asas,
a delicadeza em flor
das crianças que não me amaram.

Queda um momento perplexo:
de um lado o mar infinito
de vagas que se desdobram
verdes, verdes, sempre verdes,
e seus passos firmes de homem
caminhando, caminhando,
sobre as ondas caminhando.

À esquerda a floresta, o abismo:
fulvas serpentes se enroscam
nos troncos dóceis dos cedros
atravancando a passagem.
E recorda as vezes tantas
em que seus pés se enredaram.

—Filtros, filtros de cardina,
filtros, prodigiosos filtros!
Do catre imundo e revolto
Joana Lopes se aproxima:
—Que queres tu, Pai Antônio?

—Para onde foi teu marido,
filho ingrato que gerei?
—O mundo levou teu filho
mas uma filha te deu.

—Januário, onde está Januário?
É meu escravo ou não é?
—Januário de tantas mágoas
descansa no cemitério,

— Ganhei dinheiro às carradas
e minha arca está vazia.
—Eras amigo dos pobres,
são pobres os teus amigos.

—Quero a Bíblia, a minha Bíblia!

Mãos compassivas depõem
no peito coberto de úlceras,
restos do sagrado livro.

—Sobre meu corpo, ó Senhor,
põe teus divinos pés.

O moribundo sem força
move os lábios num sussurro.

E da distância dos séculos
anjos e virgens o escutam.

[In Nova Lírica, Belo Horizonte: Imprensa Oficial, 1971, pp. 47-49]






quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Dora Ferreira da Silva

MARIA ZAMBRANO I
Teu ensinamento de mulher:
a razão poética une cabeça e coração.
Grata o recebo de tuas mãos
de tua alma sábia
e feminina. Diotima de Mantinéia
precedeu-te no ágape socrático
e sabemos o que ensinou aos doutos
sobre o Amor. Abundância e penúria
o muito e o nada
o paradoxo.
Vi tuas imagens: a Menina bela e grave
a mulher fascinosa
a anciã de olhar desesperado
que de longe vinha - de alguma nebulosa
ou de uma estrela desfazendo-se no céu.
Principalmente guiavas os que partiam
para outros mundos e países sem nome
em teu veleiro de vidência.


MARIA ZAMBRANO II
Estrela do caminho
do alto guias. Vi tua face de Menina
como se já soubesses teu destino.
Vi teu rosto jovem
feito só de madrugada
estando a noite adormecida.
Que asa liga o rosa ao magenta
levando pólen pelas estradas
roçando pensamentos
enlaçando ao dom poético
um dom de dizer
quase impossível nas pautas do Ser?
A outros e a mim deixaste
sílabas sagradas
pedras roladas
no flanco dos rios.
Anjo e criatura
pura e impura
conheces infernos e alturas
de um céu mais íntimo e profundo
que as margens deste mundo.

No silêncio que habitas
pouso esta vida
sem deter-te a labareda:
brilho de ouro e seda.

[In Cartografia do Imaginário, T.A. Queiroz Ed,, São Paulo, 2003, pp. 124-125]

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...