sábado, 26 de setembro de 2015

Murilo Mendes

OURO PRETO

A alma livremente encarcerada
Comunica-se com os doidos e os poetas
Oue pelas frias naves dão-se os pés.
Sinto grego o céu de outrora me envolver.

A cavalo sobre as igrejas de pedra
Irrompe o Aleijadinho na sua capa.
Nas linhas de ar balança-se o relógio
Marcando cegamente o compasso do tempo.

Um vulto cruza outro na ladeira.
Pelos desertos espaços metafísicos
Arrastam-se as sandálias da pobreza.

Das varandas azuis tombam ossadas.
Ouro Preto severa e íntima adormece
Num abafado rumor de águas subterrâneas.

[In Sonetos brancos, in  Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 445]






sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Adélia Prado

INCONCLUSO
O dia em sua metade
e o calor do corpo ainda não me deixou.
Ele estava em minha casa e ia comer conosco.
Enquanto a mãe cozinhava,
esgueirou-se e disse no meu ouvido:
Quero falar com você.
Vamos até ali, respondi abrasada,
medrosa de que alguém nos visse.
Chegara com um frango depenado
— o que não me abalava o enlevo —
como se me testasse:
A quem não ama seu corpo,
sua alma lhe fecha a porta.
Ai, que meu pai não me visse assim tão ofegante
e estumasse seu nariz perdigueiro
à cica que me entranhava.
O sonho acabou aqui, onde estou até agora
ardente e virgem.

[In MISERERE, São Paulo, Record, p. 77]


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Ángelos Sikelianós

O APOCALIPSE
E a criação, como após
a morte de Deus, se enchera
de brumas. O ar nevoento,
que a espada de luz
das estrelas feria,
por toda parte estremecia
de antigo sofrimento...

A bruma se elevava, espessa
como o incenso da oferenda
fiel de uma escrava enquanto,
inundados de lua,
os olhos vertiam,
orvalho silencioso, o pranto.

E com as mãos rasguei
o ar enganoso à volta;
nos montes e nos mares
a meus olhos luzia
do profundo, sacro dia
da criação, o arrebol.
Uma lira soava
no ar tão intenso
— a do sol!

[De O vidente, 1]

CREPÚSCULO
E eu tinha os olhos cheios,
mas tão cheios de luz,
que se fechasse as pálpebras
ela jorraria como pranto,
como pranto — abrindo-se
em flores orvalhadas.
A luz cavava sulcos
em meu cérebro, aligeirando-o
como à árvore o vento
que lhe atira os frutos
ao chão, e aí,
libertas, as folhas
frondejam nas alturas
com um novo frêmito.
A luz cavava sulcos
em meu cérebro e corria-me
pelas veias, lenta, calma.

[Idem, III]

HOMERO
E o ombro tocou-me
mão que não se via;
e tive pena ao guiar um cego
pela rua sombria.
A alta lei não-escrita
da criação ouvia
eu, pálpebras bem abertas,
como quem não deseja
perder da grande luz
uma gota que seja.
No bosque à minha volta
noite adentro as azeitonas
se iluminavam do secreto
azeite que as sazona.

E enquanto ele ascendia, farto,
contemplando os longes, eu
anulava em meus olhos
a lágrima, como Odisseu.

[Idem, III]

SOBRE SIKELIANÓS

[In Poesia Moderna da Grécia, seleção, tradução direta do grego, prefácio, textos críticos e notas de José Paulo Paes, Rio, Ed. Guanabara, 1986, pp. 96-98].



quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Marize Castro

meu menino parte e eu estou longe
mas não tão longe que não sinta seu hálito
seu arfar, sua alegria

meu rebelde (assim eu o chamava) foi enviado
em uma Iria noite, antes dos relâmpagos

envolto em placenta verde, pediu-me:

rasgue-a, traga-me para este mundo
serei sua liberdade
sua proteção
te guardarei à noite
durante o dia dormirei
aos seus pés
você me amará para sempre
serei seu filho mais alegre
mas também serei sua maior tristeza
em terra estrangeira
quando eu partir, você estará longe
não te deixarei não me ver andar
eu que sempre voei, estarei paralisado

ampliando a eternidade

-0-0-

triste rapaz, quando eu disser
não te amo mais

não acredite

sob meus pés
uma terra estrangeira move-se
um funeral anuncia-se

novamente sou líquida tempestade

estou de novo na primeira floresta
alimentando-me de uivo
granizo
fel

por isso, triste rapaz, quando eu disser
distancie-se
saiba que há um dilúvio
a galope

(este coração está por um triz)
mas também saiba
que te ter dentro de mim
é o que as pessoas neste imenso
mundo chamam
de Céu

[In Habitar teu Nome, Natal (RN): Una, 2011, pp. 46-47].



terça-feira, 22 de setembro de 2015

Jaime Rocha

A mulher caminha pelas urzes, no auge
do vento, já depois da morte, enovelada
pelos ramos que cortam a paisagem.
O homem está parado como uma ave
de pedra, batida pelo fumo. Depois, é o
corpo dela desfeito sobre os rochedos,
uma faísca que incendeia um pedaço
de madeira. O homem, amarrado a uma
mancha de ferro, contempla o corpo vazio.
Um pássaro cego cai em cima de um espelho.
É o rosto dele despedaçado, a dor.
Tudo é medonho à sua volta, a parte
de trás da luz, a humidade, a respiração
das plantas.

///

Toda aquela assombração está gravada
na tinta como se pertencesse a um livro
queimado, roído pelo sol. O homem sabe
que se trata de uma morta, mas não
entende que é a cicatriz do seu peito que
lhe ocupa o sono e o cativa para um ritual
demoníaco. Conhece os seus cabelos, os
lábios a descerem pelas amoras, pela cera.
E toda a sua pele sobressai, pintada na
parede, nos pregos, nas mãos que descansam
em cima de uma toalha. Um navio incendeia-se
contra um recife. É ela ou os seus vestidos a
desaparecerem no horizonte, no fim de tudo.

///

Ela diz, é a sua primeira fala depois de morta,
tapar-te-ei com os meus cetins como se o meu
corpo fosse um risco no céu.
O homem sabe que as palavras são apenas uma
memória. A sua cintura procura reviver depois
de os cães o terem dilacerado. É um grito, um
beijo frio. Ela avança com a roupa ensanguentada.
Mas é apenas uma moldura envolvida pelo âmbar,
uma luminosidade difusa, saída de uma necrópole.
Um dos lados do seu rosto fica negro, como se a
lua tivesse passado por cima dele e o deixasse
marcado por uma dor.

///

A mulher mostra-se na luz, entre a folhagem.
A cor dos seus cabelos está intacta. Ela tece
um caminho para o homem, mas as mãos dele
colaram-se ao cimento, os seus olhos pararam
no tempo. Todo o seu corpo se assemelha agora
a uma árvore acorrentada pelas heras onde não
entra a música, nem o tempo que separa os dias.
As ondas sustiveram o movimento em direcção
à praia, regressando ao outro lado do horizonte.
As nuvens caíram. As aves perderam as asas.
Tudo, até os cães, desapareceu na escuridão.
Apenas umas pétalas esvoaçaram ao acaso,
seguindo o rasto dos morcegos, num último
torpor, numa vergonha.

[in Necrophilia, Relógio d’Água, 2010; um ciclo de 50 poemas em torno do quadro Beata Beatrix, de Dante Gabriel Rossetti]

Fonte: Bibliotecário de Babel

SOBRE JAIME ROCHA

By Fabrizio Erminio‎


segunda-feira, 21 de setembro de 2015

Rui Costa

AUTOBIOGRAFIA 
Não preciso mas tu sabes como eu sou
Encaminho-me pouco divirto-me assim nas copas
Das árvores soprando pensamentos para o mundo que há de noite.
As pessoas quando acordam são outras, já sabias,
Essa névoa contemporânea do medo miudinho
Que perdemos nas cidades e nos corpos, tu entraste
Antes de mim nos jogos, o enxofre da música e o
Lago do feitiço, inocente homem breve que sonha
Tu bem sabes.
Depois aluguei a bruxa por uma vasta noite.
E a minha vida mudou, a noite cresceu,
A vertigem ardeu-me nos braços até a sangria
Do tédio quando para sempre julguei que te perdia.
Na luta perdi um ou dois braços,
Mais do que o que tinha. Mas esta memória é um palácio,
São corais no pensamento. Jardins e fantasmas,
O gume nas mãos sorvendo, criança estratosférica
E profunda: sem braços e agora sem mais nada.
Não me percebeste, enchi-me de fúria.
É uma arte, queria eu dizer, matar sem retrocesso e
Atraso – ah aqueles braços para apoiar as mãos - ,
Ceifando. Saturno.e.o.vento.na.proa.erguendo.
O: navio:no:mar:parado:parado: completamente.
Parado.como dizer? Não dizer, eu sou.uma vida
Medonha e múltipla. E agora descanso
Deitado nestas mãos que mexem
Sem apoio, sabes, nascendo dos teus olhos
P’la manhã.

A NUVEM PRATEADA DAS PESSOAS GRAVES
Nem sempre se deve desconfiar das pessoas
graves, aquelas que caminham com o pescoço inclinado para baixo,
os olhos delas a tocar pela primeira vez o caminho que os pés confirmarão
depois.
Às vezes elas vêem o céu do outro lado do caminho que é o que lhes fica por baixo
dos pés e por isso do outro lado do mundo.
O outro lado do mundo das pessoas graves parece portanto um sítio longe dos pés
e mais longe ainda das mãos
que também caem nos dias em que o ar pode ser mais pesado e os ossos
se enchem de uma substância morna que não se sabe bem o que é.
Na gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, com que nos são alheias
quando as olhamos de frente rumo ao lado útil do caminho que escolhemos, essas
pessoas arrastam uma nuvem prateada que a cada passo larga uma imagem daquilo
que foram ou das pessoas que amaram.
Essas imagens podem desaparecer para sempre se forem pisadas quando caem no
chão. A gravidade dos pés e da cabeça, e também dos olhos, dessas
pessoas, é, por isso, uma subtil forma de cuidado.

[In A Nuvem Prateada das Pessoas Graves, Ed. Quasi, 2006]

Fonte: Blog Casa dos Poetas 

Giovanni Spazzini

domingo, 20 de setembro de 2015

João Luís Barreto Guimarães

PONTE MÓVEL SOBRE O RIO LEÇA
Imóvel na ponte aberta sobre este porto de mar
queria não ter de esperar que o petroleiro passasse
a vomitar ouro preto nos depósitos da Cepsa.
Olho as margens da tarde em informe ebulição:
o navio japonês veio dar à luz Toyotas
alinhados sobre o cais qual parada militar
(os turistas do cruzeiro aguardam pelo autocarro
que narrará em sueco memórias do Porto antigo).
Do cargueiro africano rolam troncos gigantescos
houve um que caiu à água e ninguém o foi salvar
(decerto não irá longe nestas águas estagnadas
nem poderá ir mais ao fundo).
Corre um vento de norte. Novembro
está dentro do outono. Alguém reuniu o manto
de folhas cerca da ponte mas pelo final do dia
já é outono outra vez. E
distraí-me do cais. Espera. Lá está a marinha.
A fragata da Defesa devolveu homens a terra
meio dia de licença na casa da luz vermelha
(este Natal as meninas vão-lhes dar a provar sonhos
e o porteiro: rabanadas). Se
faltavam desrazões para me obrigar a parar
aqui me têm parado (só re
parando se vê)
qualquer amurada é perfeita para resumir um país
qualquer ponte é ideal para se matar
os tempos.

[In Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2011, p. 240]





Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...