domingo, 22 de novembro de 2015

Marize Castro

SENHAS

Não há último amor.
Há noites que se apaziguam.
Bosques a galope.
Labirintos que se enraízam.
Anjos que zelam hortos.
Moças que escrevem abismadas cartas
e, escarlates, enlouquecem.
Jogam-se — cerradas —
em qualquer movediço porto.

[In Esperado Ouro, p. 89]

Josef Kote

sábado, 21 de novembro de 2015

Carminha Gouthier

PAÍS SEM FRONTEIRAS

Ó Tu que remas,
qual o nome deste grande mar?
A água azul, de tão azul, tingiu meus olhos,
a água azul tingiu meus sonhos.

Perdi o rumo das enseadas
e o contorno dos mil países

Não quero caminho, não quero norte,
não quero agulhas de navegante.

Sei de terras lá muito longe,
de um palácio sem morador.
Sei de uma estrada — de onde vem?
que é longa e reta - para onde vai?

O tu que remas tão devagar,
As horas caem das tuas mãos.

Há luzes mortas nos horizontes
e estranho apelo para a solidão.

 By Ahmed Ammar


sábado, 14 de novembro de 2015

Rainer Maria Rilke

Amo as horas sombrias de meu ser,
nas quais se me aprofundam os sentidos:
nelas eu tenho achado, como em velhas cartas,
meu dia-a-dia já vivido, e feito
alguma lenda distante e sofrida.
Delas me vem a noção de que tenho
lugar numa outra vida mais ampla e infinita.

E eu às vezes me sinto feito a árvore
que, sobre um túmulo, madura e ciciante,
preenche o sonho de algum morto jovem
(a cuja volta ela aperta as raízes mornas)
perdido entre amarguras e cantigas.

[In Livro de Horas, Tradução de Geir Campos, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2ª ed., 1994]

By Ruth Doremus



quinta-feira, 12 de novembro de 2015

Cecília Meireles

CAMINHANTE

Ando em ti, Roma de altos ciprestes e largas águas,
como atrás de mim mesma,
algum dia depois da minha morte.

Encontro meus próprios anjos
de asas abertas em cada esquina
e meus olhos com pálpebras de pedra, 
em cada fonte:
— cheios até a borda.

Contemplo minhas abatidas colunas,
e a nenhuma porta paro,
e sobre nenhum jardim suspiro mais.

Ando em ti, Roma dos altos sonhos e das largas ruínas,
como depois de mim mesma,
atrás de um outro destino.

Ando, ando, ando,
e sinto a extensão de meus antigos muros
e, com profunda pena,
escuto a longa tuba mitológica
derramando para nuvens efêmeras
dispersas notícias atrasadas
de inútil Glória e possível Amor.

[In Poemas Italianos, Poesia Completa, Edição do Centenário, Organização, apresentação e estabelecimento do texto Antonio Carlos Secchin,  Vol. II, Rio de Janeiro,  Nova Fronteira, 2001, pp. 1150-1151]




quarta-feira, 11 de novembro de 2015

Gonçalo M. Tavares

VIDA
Salta entre animais e plantas;
entra na pedra e respeita a sua paciência;
apodera-se do animal e vai atrás do seu sangue,
da ousadia de movimentos que existe
numa luta de toiros rivais.
Ganha a forma de cada forma
e a vontade de cada vontade.
Faz mais barulho de noite para provar
que mesmo aquilo que não é visto, existe.
Enche de verde a erva
e de vermelho a cara ingênua da rapariga.
Aceita as maiores extravagâncias da matéria:
está viva a coisa que se enrola em si própria,
mas também a coisa muito alta com duas bocas ou nenhuma,
ainda a coisa ruidosa quando respira e a coisa silenciosa
(como a luz a encher boa parte do copo vazio).
Tudo está vivo porque a vida não escolhe: salva o que nasce,
aquilo em que tocas, aquilo que vês, ouves.
E até aquilo em que pensas. 

[In 1, poemas, Rio de Janeiro, Bertrand do Brasil, 2005, p. 114]

By Akira Sawada


terça-feira, 10 de novembro de 2015

Murilo Mendes

ESTUDO N° 4
Quando se acalmará
Esta doença fértil a que chamam Vida?
Não quero soletrar o horizonte
Nem seguir o desenho da onda na areia,
Nem quero conversar flores no campo idílico.
Quero antes correr a cortina sobre mim mesmo,
Transcender minha história
E esperar que Deus remova meu corpo.
Quero tudo, ou nada:
Todas as paixões, todos os crimes, delícias e propriedades.
Ou então mergulhar num saco de cinzas,
Montar num avião de fogo, e nunca mais descer.

POEMA BÍBLICO ATUAL
Nós esperamos a formação de trincheiras na nuvem
Esperamos ver os anjos reunindo os elementos
E as filhas do relâmpago empunhando fuzis.

Para que semear a árvore que vai dar a madeira do leito do assassino,
Para que tratar a terra, descobrir o metal destinado às metralhadoras,
Para que alimentar a criança que mais tarde abandonará os pais
[órfãos?

Deixa crescer a semente que Deus plantou na tua alma
E tua posteridade tranquila se multiplicará
Na proporção das areias do mar e das estrelas do céu.
 
Reconhece o teu limite e adora a mão do Senhor que te remove
Como um menino remove as peças do seu jogo de armar.

[In As Metamorfoses, Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, pp. 323-324]

By Sabine Van Durmen‎


segunda-feira, 9 de novembro de 2015

Keats

A BELEZA EM CADA SER É UMA ALEGRIA ETERNA
A beleza em cada ser é uma alegria eterna:
o seu encanto torna-se maior e nunca se há-de perder
no nada; reservar-nos-á ainda um refúgio
de paz, onde adormeceremos habitados por sonhos
suaves, a felicidade do nosso corpo, uma respiração branda.
Comecemos, assim, a tecer em cada manhã
uma grinalda de flores para nos unirmos à terra,
apesar do desalento, da ausência daqueles
cuja nobreza amávamos, dos dias cheios de escuridão,
de todos os caminhos insalubres e misteriosos,
abertos para os nossos anseios; sim, apesar de tudo,
uma forma de beleza afasta o sudário
das nossas almas sombrias. Assim é o sol, a lua,
as antigas ou novas árvores cuja bênção faz germinar
a sombra sobre os humildes rebanhos; os narcisos
e o mundo verdejante que os cerca; e os límpidos rios
que para si criam um dossel de frescura
durante as estações ardentes; os silvados do bosque
enriquecidos pelo belo, nascente esplendor das rosas;
e, também, a magnificência do destino
que imaginamos para os mortos poderosos;
as histórias encantadoras que lemos ou escutamos:
fonte inesgotável duma imortal bebida,
que vem do limiar do céu e para nós se derrama.

E não é apenas por algumas horas passageiras
que nos abandonamos a estas essências; assim como as árvores
murmurando à volta dum templo logo se tornam
tão amadas como o próprio templo, também a lua
e a paixão da poesia, glórias infinitas, tantas vezes
nos assombram, até serem uma luz vivificadora
da alma, e com tanta firmeza nos cingem,
para que, esteja a brilhar o sol ou se apaguem os céus,
elas existam eternamente em nós, ou morreremos.

[In Poesia Romântica Inglesa, Byron, Shelley, Keats,  prefácio e tradução de Fernando Guimarães, Relógio D´Água, Lisboa, 2010, p. 113]

By Svetlana Rodionova


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...