segunda-feira, 15 de fevereiro de 2016

Marize Castro

RÉQUIEM

Galáxias afastam-se.
Queimam em torno de um outono estranho.

Resgato-me. Sequestro-me.
Lanço-me em subterrâneos de éter.

Morta estarei mais viva.
Sem fomes, sem fezes, sem sangue, sem vítimas.

Próxima ao gélido rio, eis-me aqui,
neste vulcão tardio, ermo.
Túmulo de frágil aranha num mundo
de desejos e erros.

[In Lábios-espelhos]

phillip moore

sábado, 13 de fevereiro de 2016

Eugénio de Andrade

Sobre Nuno Guimarães


Raramente amizade e morte me terão procurado quase ao mesmo tempo. Com Nuno Guimarães isso aconteceu. Eu pude ainda falar-lhe da sua poesia violentamente fascinada por essa forma molecular «onde o real oscila no seu leito»; desses campos visuais que se estendiam, roído por um sol lúcido e baixo de fim de outono, entre os territórios privilegiados de Cesário Verde e do último Carlos de Oliveira.


A sua lição, como ele foi o primeiro a afirmar, é realmente dura: uma escrita onde «tensão e atenção acumuláveis» descobrem as zonas de ruptura, a «duplicidade perfeita». Será o poeta o «fomentador da divisão»?

A esta pergunta não teve Nuno Guimarães já tempo de responder, mas a resposta, a mim, que sou como ele «insociável e corrompido por hábitos marítimos», não me faz falta. O que me perturba, agora ao reler os seus versos, é que tenha faltado à promessa de prosseguirmos juntos esse exercício de pastorear o ser.

[In Poesia e Prosa [1940-1979] , vol 2, 1980]




terça-feira, 2 de fevereiro de 2016

Marize Castro

À ESPERA

Porque nesta casa nada se oculta, eu te chamo.
Entre a vigília e o espelho, eu te espero.

Amo as palavras.
Por elas também virei homem.
Vi fúrias parindo fêmeas ávidas de linguagem.
Mulheres que deslizam.
Entregam-se. Desobedecem.
Dividem suas casas com os pássaros.
Mulheres que guardaram a senha:
fechar a porta a qualquer invasão.

Em silêncio, deixar cair
crucifixo, rosário, camafeu.

Nenhum véu. Nenhuma ilusão

[In Lábios-Espelhos, Natal (RN):UNA, 2009]



segunda-feira, 1 de fevereiro de 2016

Oswald de Andrade

NOSSA SENHORA DOS CORDÕES

Evoé
Protetora do Carnaval em Botafogo
Mãe do rancho vitorioso
Nas pugnas de Momo
Auxiliadora dos artísticos trabalhos
Do barracão
Patrona do livro de ouro
Proteje nosso querido artista Pedrinho
Como o chamamos na intimidade
Para que o brilhante cortejo
Que vamos sobremeter à apreciação
Do culto povo carioca
E da Imprensa Brasileira
Acérrima defensora da Verdade e da Razão
Seja o mais luxuoso novo e original
E tenha o veredictum unânime
No grande prélio
Que dentro de poucas horas
Se travará entre as hostes aguerridas
Do Riso e da Loucura

NA AVENIDA

A banda de clarins
Anuncia com os seus clangorosos sons
A aproximação do impetuoso cortejo
A comissão de frente
Composta
De distintos cavaleiros da boa sociedade
Rigorosamente trajados
E montando fogosos corcéis
Pede licença de chapéu na mão
20 crianças representando de vespas
Constituem a guarda de honra
Da Porta-Estandarte
Que é precedida de 20 damas
Fantasiadas de pavão
Quando 40 homens do coro
Conduzindo palmas
E artisticamente fantasiados de papoulas
Abrem a Alegoria
Do Palácio Floral
Entre luzes elétricas

(In Obras Completas 7 - Poesias Reunidas, Civilização Brasileira)

domingo, 31 de janeiro de 2016

Orides Fontela

A ESTRELA PRÓXIMA

A poesia é
impossível

o amor é mais
que impossível

a vida, a morte loucamente
impossíveis.

Só a estrela, só a
estrela
existe

— só existe o impossível.

In Rosácea (1986)

HOMENAGEM II
Mário Quintana

PROGRAMAS
Exorcizar os ventos
anular as estátuas
recuperar os anjos
— instaurar a alegria.

Para instaurar jardins:
desencantar as fadas
dissolver os rochedos
devorar as esfinges.

In Rosáceas (1986)


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Ana Luísa Amaral

PENÉLOPE FALA A ULISSES, OU OUTRAS FALAS
1.

Cala-te, tu,
de voz de azul harpia
e deixa-me que eu ouça outra vez o Egeu,
as ondas sufocadas,
as sereias cantando,
e um riso que foi meu junto de tanto mar

Deixa que ouça outra vez a sua voz
e silencia o tom de azul harpia,
agora, 
que o meu amigo fala,
e a memória que dele se desprende
só me pode rimar com o que tenho agora
e é demais conhecido ao longo desta língua,
a minha língua que não é de Egeu,
mas de outro mar mais largo

2.

Deixa-me que registe
por dentro da memória
a sua voz,
que com ela me cheguem
mil Cretas e soluços de sereias,
Minotauros brincando pela praia,
livres como meninos
em castelos de areia e labirintos

Deixa-me a sua voz,
tu, a de azul harpia,
revisitados montes sem idade
nem tempo para amar

3.

Por isso, ao meu amigo, lhe fala a minha língua
de saudade
- rimando no meu mar com o seu mar,
que é outro e tão diferente
e em tempo tão diferente
do azul, que até à exaustão
cantei 
Por isso, ao meu amigo, lhe fala
a minha língua de saudade:
de janelas de sol emolduradas em solidões
diferentes,
mas sempre e ao mesmo tempo
e neste bastidor:
a solidão igual -

[In INVERSOS poesia 1990-2010, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2010. pp. 534-536]



sábado, 2 de janeiro de 2016

Jorge Luis Borges

O ANJO
Que o homem não seja indigno do Anjo
cuja espada o protege
desde que o gerou aquele Amor
que move o sol e outras estrelas
até o Ultimo Dia em que ressoe
o trovão na trombeta.
Que não o arraste a vermelhos bordéis
nem aos palácios que erigiu a soberba
nem às tavernas insensatas.
Que não se entregue à súplica
nem ao ultraje do pranto
nem à fabulosa esperança
nem às pequenas magias do medo
nem ao simulacro do histrião;
o Outro o observa.
Que lembre que jamais estará só.
Ou no público dia ou na sombra,
o incessante espelho o confirma;
que não macule seu cristal uma lágrima.

Senhor, que até o fim de meus dias sobre a Terra
eu não desonre o Anjo.

O SONHO
A noite nos impõe sua tarefa
mágica. Destecer o universo,
as infinitas ramificações
de efeitos e de causas, que se perdem
na vertigem sem fundo que é o tempo.
A noite quer que esta noite esqueças
teu nome, teus ancestrais e seu sangue,
cada palavra humana e cada lágrima,
o que a vigília pôde te ensinar,
o ponto ilusório dos geômetras,
a linha, o plano, o cubo, a pirâmide,
o cilindro, a esfera, o mar, as ondas,
tua face sobre a fronha, o frescor
do lençol estreado, os jardins,
os impérios, os Césares e Shakespeare
e o que é mais difícil, o que amas.
Curiosamente, uma pílula pode
riscar o cosmos e erigir o caos.

[Poesia Borges, Companhia das Letras, 2009, pp. 340-341]



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...