quinta-feira, 12 de maio de 2016

Orides Fontela

HERANÇA
Da avó materna:
uma toalha (de batismo).
Do pai:
um martelo
um alicate
uma torquês
duas flautas.
Da mãe:
um pilão
um caldeirão
um lenço.

KANT (RELIDO)
Duas coisas admiro: a dura lei
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim.

O CORAÇÃO (PASCAL)
As ignotas
(des)razões
do
espanto.


DO ECLESIASTES
Há um tempo para
desarmar os presságios

há um tempo para
desamar os frutos

há um tempo para
desviver
o tempo.

[Poesia Reunida [1969-1996], São Paulo: Cosac Naify, 2006]

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Anna Akhmátova

O CANTO DO ÚLTIMO ENCONTRO

Sentia-me sem forças, gelada,
mas os meus passos eram leves.
Na mão direita tinha a luva
da mão esquerda, ao partir.

Eram realmente tantos degraus?
Eu sabia que eram só três!
O Outono abraçava os plátanos
e murmurava: «Morre comigo!»

É o meu destino
que me enganasse e me traísse.
Eu respondi: «Oh, meu amor!
Eu também... Contigo morrerei...»

Este é o canto do último encontro.
Olhei para a casa escura,
Só no meu quarto, amarelo e indiferente,
ardia o fogo das velas.

[In Poetas Russos, Relógio D´Água, 1995, p.169]


terça-feira, 19 de abril de 2016

Cecília Meireles

O gosto da Beleza em meu lábio descansa:
breve pólen que um vento próximo procura,
bravo mar de vitória — ah, mas istmos de sal!

Eu — fantasma — que deixo os litorais humanos
sinto o mundo chorar como em língua estrangeira
eu sei de outra esperança: eu conheço outra dor.

Apenas alia noite algum radioso espelho
em sua lâmina reflete o que estou sendo.
E em meu assombro nem conheço o próprio olhar.

Alta é a alucinação da provada Beleza.
Pura e ardente, esta angústia. E perfeita, a agonia
Eu, que a contemplo, vejo um fim que não tem fim.

Dunas da noite que se amontoam.

[In Solombra, Poesia Completa. Vol. II, Nova Fronteira, 2008]



sábado, 16 de abril de 2016

Hans Magnus Enzensberger

UMA VAGA LEMBRANÇA
Nos nossos debates, companheiros,
me parece às vezes
havermos esquecido algo.
Não é o inimigo.
Não é a linha.
Não é a meta.
Não consta do Breve Curso.

Se nunca o tivéssemos sabido
não haveria luta.
Não me perguntem o que é.
Não sei como se chama.
Apenas sei que ê
o mais importante
aquilo que esquecemos.

A FACA REAL
Havia, porém, milhares num porão
ou um sozinho consigo ou dois
e lutavam entre si um contra o outro

Um era quem dizia A Mais-Valia
e não pensava em si e não queria saber
nada de nós recitava A Doutrina
O Proletariado e a Revolução
Palavras cultas na sua boca como pedras
E também levantava as pedras
e as jogava E tinha razão

Não é verdade E era o outro
que o dizia Amo apenas a ti
e não a todas Que fria está minha mão
E a dor devoradora no teu fígado
não consta nas senhas Não
morremos ao mesmo tempo Quem
terá razão quando estamos contentes? E tinha razão

Mas E assim continuava o outro Doravante
não posso por atrás o teu
pé Quem sabe tanto quanto nós
não se ajudará tão facilmente a si mesmo e Eu
não conto mais Por isso
entre no partido etc. Mesmo se
não tivermos razão E tinha razão

Desde sempre sabia que aquilo
que tu mesmo não crês
Dizia o outro Diante de nós
Como uma faca levas Porém aqui
já está cravada até o cabo
na tua carne A faca
A faca real E tinha razão

E então morreram um e outro
também Mas não ao mesmo tempo
E morreram todos E então
gritavam e lutavam uns contra os outros
e se amavam e se alegravam
e oprimiam-se uns aos outros
Milhares num porão

Ou um sozinho consigo mesmo ou dois
E se ajudavam E tinham razão
Não se podiam ajudar um ao outro

[In Eu falo dos que não falam, ed. Brasiliense, 1985, trad, Kurt Scharf e Armindo Trevisan]

SOBRE  HANS MAGNUS ENZESBERGER




terça-feira, 12 de abril de 2016

Fiama Hasse Pais Brandão

EPÍSTOLA PARA MEUS MEDOS

Sois: os sons roucos, a espera vã, uma perdida imagem.
O coração suspende o seu hálito e os lábios tremem
sinto-vos, vindes ao rés da terra, como ventos baixos,
poisais no peitoril. Sois muito antigos e jovens,
da infância em que por vós chorava encostada a um rosto.
Que saudade eu tenho, ó escuridão no poço,
ó rastejar de víboras nos caniços, ó vespa
que, como eu, degustaste o figo úbere.
Depois, mundo maior foi a presença e a ausência,
a alegria e as dores de outros que não eu.
E um dia, no alto da catedral de Gaudí,
chorei de horror da Queda, como os caídos anjos.


[Epístolas e Memorandos, Relógio d'Água, 1996]

segunda-feira, 4 de abril de 2016

Al Berto

a escrita é a minha primeira morada de silêncio
a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras
extensas praias vazias onde o mar nunca chegou
deserto onde os dedos murmuram o último crime
escrever-te continuamente... areia e mais areia
construindo no sangue altíssimas paredes de nada

esta paixão pelos objectos que guardaste
esta pele-memória exalando não sei que desastre
a língua de limos

espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos
as manhãs chegavam como um gemido estelar
e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar

outros corpos de salsugem atravessam o silêncio
desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo


[AL BERTO, in SALSUGEM (1978/83), in O MEDO ( Assírio & Alvim, 1997)]

Pintura de Catrin Welz Stein


sábado, 19 de março de 2016

Roberto Piva

POEMA DE NINAR PARA MIM E BRUEGEL

Eu te ouço rugir para os documentos e as multidões
denunciando tua agonia as enfermeiras desarticuladas
A noite vibrava o rosto sobrenatural nos telhados manchados
Tua boca engolia o azul
Teu equilíbrio se desprendia nas vozes das alucinantes
madrugadas
Nas boates onde comias picles e lias Santo Anselmo
nas desertas ferrovias
nas fotografias inacessíveis
nos topos umedecidos dos edifícios
nas bebedeiras de xerez sobre os túmulos

(In Paranoia)


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...