sábado, 23 de julho de 2016

Wislawa Szymborska

NUVENS
Para descrever as nuvens
eu necessitaria ser muito rápida —
numa fração de segundo
deixam de ser estas, tornam-se outras.
É próprio delas
não se repetir nunca
nas formas, matizes, poses e composição.
Sem o peso de nenhuma lembrança
flutuam sem esforço sobre os fatos.
Elas lá podem ser testemunhas de alguma coisa —
logo se dispersam para todos os lados.
Comparada com as nuvens
a vida parece muito sólida,
quase perene, praticamente eterna.
Perante as nuvens
até a pedra parece uma irmã
em quem se pode confiar,
já elas — são primas distantes e inconstantes.
Que as pessoas vivam, se quiserem,
e em sequência que cada uma morra,
as nuvens nada têm a ver
com toda essa coisa
muito estranha.
Sobre a tua vida inteira
e a minha, ainda incompleta,
elas passam pomposas como sempre passaram.
Não têm obrigação de conosco findar.
Não precisam ser vistas para navegar.

domingo, 17 de julho de 2016

Ingeborg Bachmann

O TEMPO APRAZADO
Vêm aí dias difíceis.
O tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Em breve terás de atar os sapatos
e recolher os cães nos casais da lezíria,
pois as vísceras dos peixes
arrefeceram ao vento.
Mortiça arde a luz dos tremoceiros.
O teu olhar abre caminho no nevoeiro:
o tempo até ver aprazado
assoma no horizonte.
Do outro lado enterra-se-te a tua amante,
a areia sobe-lhe pelo cabelo a esvoaçar,
corta-lhe a palavra,
impõe-lhe o silêncio,
acha-a mortal
e pronta para a despedida
depois de cada abraço.
Não olhes em volta.
Ata os sapatos.
Recolhe os cães.
Lança os peixes ao mar.
Extingue os tremoceiros!

Vêm aí dias difíceis.


domingo, 10 de julho de 2016

Miguel Manso

V
desprendeu a crina prateada
frente ao espelho corroído na casinha do pátio
ao pé do lavatório, essa bisavó
magra enigmática

num aceno breve reuniu o que estendeu
no enredo voluminoso de um toucado enquanto
de fora o calor velava um Verão de limoeiros

eu estava no ângulo mais assombrado
da idade cuidando por não ser descoberto
escondido com uns pássaros ao fundo

tão-pouco soubemos avó de poesias
e o que nesse canto me ofereceste devolvo
pior no recanto tardio de uns versos

VI
o ciúme tardio sem motivo
a torpe varonia enroupada na mansidão
em que flagravas

inseguro, em surdina
junto à presença desenvolta da mulher
de quem foste marido e náufrago

e teve contigo, afinal, um amor fiel
fecundo e bom

[In Supremo 16/70, 2013]



sexta-feira, 24 de junho de 2016

Maria Teresa Horta

ALUMBRADA
Maria baixa os olhos
alumbrada

e antes que Gabriel
a beije
fita-o por entre as pálpebras

Encandeada com as suas asas
pergunta
com voz rasgada:

- Nunca me deixas? Nunca me largas? 

CONFISSÃO DO ANJO
Vi-a levar os dedos
de brilho
aos cabelos descobertos

e escutei o som cantado
das pulseiras, na leve nudez
de pétala de cada um dos seus pulsos

Enquanto num breve impulso
a resvalar em quebranto
surge a leveza do manto

deixando a descoberto
o seu vestido vermelho

Labareda - pensei
sem desviar os olhos

atento a um lugar tamanho
que assombra e me impede
de confessar a Maria

ser ela o começo do lenho

[In Anunciações - Um Romance, Dom Quixote, Lisboa, 2016]

Philippe De Champaigne 


quinta-feira, 26 de maio de 2016

Miguel Manso

NA MORTE DA AVÓ
não bastasse a humilhação pública de morrer
espera-se do corpo que cumpra com indiscutível
pompa o intolerável protocolo de ausentar-se

a penosa execução circular e nocturna do velório
a presença inconveniente dos agentes funerários
os adereços lutuosos a obscena maquilhagem

no dia seguinte, o inventário das orações, a concisa
cerimónia (não há muito a dizer, sejamos honestos
e soa até a insulto que se pronuncie o nome de

Lázaro) o caixão é fechado, o dia põe-se bonito
– é quase tão imoral como alguém ter trazido uma
gravata com motivos facetos, uma camisa florida –

depois, em casa, parece que as vozes ressoam como numa
sala a que tivessem subtraído os móveis e houvesse, por isso
a estranheza de uma extensão desprovida, dissemelhante

o avô vai buscar as memórias da infância (por que
razão obscura omite ele as lembranças de casado?) há
na sua voz qualquer coisa de paciente melancolia

como se aceitasse, com constrangedora submissão, que
o tempo não se detenha nunca, que os anos nos empurrem
para um buraco na terra, nos sujeitem a tão bruta descortesia

a prontidão da morte, a ligeireza do tempo, a estupidez
da vida que nunca vai encontrar cura e razão para ela própria
contra tudo isso eu alardeio o poema, antecipo a derrota

[in Santo Subito, edição do autor, 2010]

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Orides Fontela

HERANÇA
Da avó materna:
uma toalha (de batismo).
Do pai:
um martelo
um alicate
uma torquês
duas flautas.
Da mãe:
um pilão
um caldeirão
um lenço.

KANT (RELIDO)
Duas coisas admiro: a dura lei
cobrindo-me
e o estrelado céu
dentro de mim.

O CORAÇÃO (PASCAL)
As ignotas
(des)razões
do
espanto.


DO ECLESIASTES
Há um tempo para
desarmar os presságios

há um tempo para
desamar os frutos

há um tempo para
desviver
o tempo.

[Poesia Reunida [1969-1996], São Paulo: Cosac Naify, 2006]

segunda-feira, 2 de maio de 2016

Anna Akhmátova

O CANTO DO ÚLTIMO ENCONTRO

Sentia-me sem forças, gelada,
mas os meus passos eram leves.
Na mão direita tinha a luva
da mão esquerda, ao partir.

Eram realmente tantos degraus?
Eu sabia que eram só três!
O Outono abraçava os plátanos
e murmurava: «Morre comigo!»

É o meu destino
que me enganasse e me traísse.
Eu respondi: «Oh, meu amor!
Eu também... Contigo morrerei...»

Este é o canto do último encontro.
Olhei para a casa escura,
Só no meu quarto, amarelo e indiferente,
ardia o fogo das velas.

[In Poetas Russos, Relógio D´Água, 1995, p.169]


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...