domingo, 15 de outubro de 2017

Eugénio de Andrade

AO ABRIGO DE INJÚRIAS
Por que palavra começar, por que desordem? O vento levanta-se rápido da rugosidade da pedra, o cavalo de fogo escouceia, relincha no pátio, o rapazito abre-lhe o portão, galopa na poeira.
.
Desse dia pouco mais há a dizer — o crepúsculo foi-se aproximando dos degraus da casa, já não se distingue o arado da sua sombra, e ao fundo do horizonte o garoto, cúmplice do vento, afasta-se ao abrigo de injúrias.
(In Poesia e prosa [1940-1979])


Conceição Lima

A MÃO
Toma o ventre da terra
e planta no pedaço que te cabe
esta raiz enxertada de epitáfios.

Não seja tua lágrima a maldição
que sequestra o ímpeto do grão
levanta do pó a nudez dos ossos,
a estilhaçada mão
e semeia

girassóis ou sinos, não importa
se agora uma gota anuncia
o latente odor dos tomateiros
a viva hora dos teus dedos.

ARQUIPÉLAGO
O enigma é outro — aqui não moram deuses
Homens apenas e o mar, inamovível herança.

[In A dolorosa raiz do Micondó, Geração Editorial, 2012]



quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Tonino Guerra

ÁGUA NA BOCA
Tinha uma sede impossível a terra
palácios e árvores estremeciam com aquele ar seco
até o Pai eterno dificilmente respirava.
Nasciam fogos como quem tivesse lançado gasolina
e todo o trigo e todo o milho se queimou.
Em redor a planície esboroada
até aos joelhos
transformava-se num mundo de pó que chegava às montanhas.
As florestas, enormes velas de cinza que desabam.
Pássaros e animais fugiam dos céus
e da terra, mas os escaravelhos
as lesmas e os ratos morreram de boca aberta.
Depois levantou-se um vento que parecia arrebatar
a planura e nuvens negras
ensombraram até Bolonha
estradas telhados e homens.
Começou a chover às duas da manha de quinze de outubro
depois de quatro meses e um dia.
Todos despertaram do seu sono e não acreditavam.
Pegaram em baldes, cântaros, alguidares e até em copos
e foram para o meio da estrada.
E houve descarados que dançavam.
Eu, que então tinha oito anos,
de rosto contra o céu
deixei que chovesse em minha boca.

[In Histórias para uma noite de calmaria, tradução de Mário Rui de Oliveira, Assyrio & Alvim, 2002]


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Tonino Guerra

O HOMEM QUE CONTEMPLA
UM PEDAÇO DE TERRA

Vivia num grande quarto, com uma porta de vidro, sob uma pequena porção de terra, circundada por um muro. Não tinha nada cultivado. Da Primavera ao Outono, com a porta aberta, fixava aquele rectângulo de terra. Sobre o rectângulo via poisar todos os pássaros da zona que talvez viessem beber, pois colocara um prato de água num canto. Faltava apenas um melro. E ele esperava-o. Contemplava, entretanto, a vida das formigas e as silvas que, abundantes, cresciam de ano para ano. Numa Primavera seguiu a viagem de um caracol que, em três meses, assinalou, com uma linha branca, todo o muro. Os ruídos e as notícias das cidades pareciam distantes daquele lugar e da sua mente, ocupada numa preguiçosa meditação. Às vezes chovia. Raramente nevava.
Finalmente, um ano, o melro chegou, mas a porta encontrava- -se fechada e o velho já morto. Estava sepultado sob aquela terra que tinha contemplado por tantos anos e o pássaro poisado exacta- mente no meio da erva que crescera por cima dele. E bebia do recipiente do lado, cheio de água das chuvas.

O SECRETO SEDUTOR
Por diversas noites, uma jovem religiosa, que sofria mais do que qualquer outra criatura a renúncia aos prazeres do corpo, recolheu os folhetos que alguém, secretamente, fizera passar por baixo da porta fechada de sua cela. Eram pedaços de um papel muito branco, sobre o qual se distinguia a marca, provavelmente o desenho de uma parte do rosto. Primeiro um olho, uma madeixa de cabelo, depois uma orelha, a boca, a testa, o queixo. A religiosa, unindo os fragmentos, procurou compor o rosto e, com terror, sofria cada vez mais o fascínio que exalava aquela imagem ainda incompleta. Na última noite, quando estava certa que encontraria o último fragmento para completar o rosto do secreto sedutor, acendeu uma vela para queimar aquela imagem de tentação. E apercebeu-se que se tratava do rosto de Deus. Então, um a um, como se fossem hóstias consagradas, engoliu os fragmentos de todo aquele papel.

[In Histórias para uma noite de calmaria, tradução de Mário Rui de Oliveira, Assyrio & Alvim, 2002]

 SOBRE TONINO GUERRA








domingo, 27 de agosto de 2017

Yehuda Amichai

NOSSA HISTÓRIA
Na história de nosso amor, um foi sempre
Uma tribo nômade, outro uma nação em seu próprio solo.
Quando trocamos de lugar, tudo tinha acabado.
O tempo passará por nós, como paisagens
Passam por trás de atores parados em suas marcas
Quando se roda um filme.
As palavras
Passarão por nossos lábios, até as lágrimas
Passarão por nossos olhos.
O tempo passará
Por cada um em seu lugar.
E na geografia do resto de nossas vidas,
Quem será uma ilha e quem uma península.
Ficará claro pra cada um de nós no resto de nossas vidas
Em noites de amor com outros

quinta-feira, 13 de julho de 2017

Fernando Sernadas

POEMA SEM DIRECÇÃO
Um poema não é um pão
Um pão é um poema a haver
De pão falar em poesia nunca rima
Por ser o pão da ordem política
Mesmo em obras de arte o pão aparece
Sempre inteiro nunca a repartir
Still-Lifes com frutos brilhantes e intocáveis
De ser a arte purgante mas só no purgatório da vida
Por estar cheio o purgatório da morte

Um poema ainda não é arte
Enquanto arte é regressar a casa à hora certa
Mesmo se a ovelha perdida do rebanho ao cair da noite
Porque em arte também se não fala de quem sofre
Pode o poeta falar interminávelmente do seu próprio sofrer
Mas se se atreve a mencionar milhões de outros seres sofredores
Fica logo conhecido como um poeta menor
Porque o sofrimento também é da ordem política
E fica a arte sem tema a não ser as palavras que a política não quer

A arte em poesia são pensamentos claros e óbvios
Não interessa que espere o leitor o repetitivo por causa do ritmo
O óbvio tem que ser o espelho onde nos não vemos ainda
O fio de água que de submerso mais fresca nos mata a sede
Um ser humano a pensar não esquece
As vísceras da ovelha morta sobre o orvalho, a cabeça inteira rejeitada pelos lobos
Uma mente pensante é um sol de milénios
Mas acaba por cegar os acomodados
Não há descanso possível para o poeta pensante
E mesmo assim é acusado de comunista e ninguém o leva a sério

Ser comunista não é da ordem política
Mas mesmo assim comunista não é de se dizer em nemhum poema
Simplesmente há coisas que se não dizem em arte
Porque a arte tem sempre um selo de destino
Que o poeta saiba o destino da sua arte
Não ilumina ninguém mas também ninguém sai cego
Por isso todo os jovens poetas devem primeiro saber para quem escrevem
E nunca escrever poemas como este

Fernando Sernadas, Saída, 2005

segunda-feira, 26 de junho de 2017

Otto Lara Resende


"Duro ofício, este de viver, Vivo a dizer que não me sinto apto para ele, que o ignoro, que não sei por onde começar. Quanto a mim, a minha verdadeir vocaçao e a morte. Nascemos é mesmo para morrer, com este disfarce que é a vida de permeio. Não sei, mas não creio em soluções. Desamparo não tem cura, tem paliativos. Buscar relações, ligar-se às coisas, amar burramente uma vassoura, apaixonar-se doidamente por um tapete, morrer por uma coleção de selos, enlouquecer de amor por uma avença. Esquecer-se um pouco, anestesiar tanto quanto possível o sentimento, a sensação, o pontapé da existência, da vivência. Sair de si mesmo, expulso se for preciso, como se expulsa um cão leproso e repugnante, senão a gente morre de mastigar a própria consciência, nessa autodevoração amarga e miúda. Por tendência, sou um ruminante de mim mesmo. Precisamos provocar, ajudar a hemoptise, vomitar um pouco de nossa alma (e não comer o vômito, como um cão humilhado). ´Estoy cansado de ser hombre´. Quando me perguntam quantos anos tenho, deveria responder: “Tenho vinte e seis anos de erros”. Só há um caminho na vida, o caminho que perfazemos palmo a palmo, morosamente, enervantemente. E inútil buscar atalhos (ilusões), somos repostos violentamente sobre nossa via crucis individual. E estamos sós, pavorosamente sós, nessa marcha medonha para o grande espetáculo, a grande peça, a imensa representação, a fabulosa revista teatral que será o Juízo Final". (Fragmento de carta de Otto a Murilo, Rio de Janeiro, 30 de setembro de 1948, In Mares Interiores, Correspondência de Murilo Rubião & Otto Lara Resende, org. Cleber Araújo Cabral, 2016)

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...