domingo, 15 de outubro de 2017

Cecília Meireles

ADOLESCENTE ROMANO
Eis a bela cabeça de bronze do remoto adolescente:
o cabelo é uma franjada coroa como de folhas de oliveira;
as sobrancelhas arredondam guirlandas serenas;
a narina respira o arcaico dia de vida;
há no lábio uma surpresa de sonho quase com forma de palavra.
E como o artista vazou-lhe a íris, tal pupila desmesurada,
cai-lhe sobre todo o rosto uma sombra densa, grave e profunda:
- redondas janelas por onde penetra a face móvel dos séculos,
redondas janelas por onde assoma esse abismo da eternidade,
silencioso, imenso, extático,
onde as imagens todas se apagam.
Que adolescente viveu com sua carne
o espetáculo de alma que o bronze traz de tão longe?
[Em Poemas Italianos, 2017]

João Cabral de Melo Neto

OUVINDO EM DISCO MARIANNE MOORE
Ela desvestiu a poesia,
como se desveste uma roupa,
das verticais, do falar alto,
menos de quem prega, apregoa,
de quem esquece o microfone
que tem a dois palmos da boca
porque falando alto imagina
que a emoção sobreexposta é a boa.
Em disco, a voz desconhecida,
que nunca berra nem cantoa,
da voz fria do poema impresso
em nenhum momento destoa.

HOMENAGEM RENOVADA A MARIANNE MOORE
Cruzando desertos de frio
que a pouca poesia não ousa,
chegou ao extremo da poesia
quem caminhou, no verso, em prosa
E então mostrou, sem pregação,
com a razão de sua obra pouca,
que a poesia não é de dentro,
que é como casa, que é de fora;
que embora se viva de dentro
se há de construir, que é uma coisa
que quem faz faz para fazer-se
— muleta para a perna coxa.

DÚVIDAS APÓCRIFAS DE MARIANNE MOORE
Sempre evitei falar de mim,
falar-me. Quis falar de coisas.
Mas na seleção dessas coisas
não haverá um falar de mim?
Não haverá nesse pudor
de falar-me uma confissão,
uma indireta confissão,
pelo avesso, e sempre impudor?
A coisa de que se falar
até onde está pura ou impura?
Ou sempre se impõe, mesmo impura-
mente, a quem dela quer falar?
Como saber, se há tanta coisa
de que falar ou não falar?
E se o evitá-la, o não falar,
é forma de falar da coisa?

SOBRE ELIZABETH BISHOP
Quem falar como ela falou
levará a lente especial:
não agranda e nem diminui, essa lente filtra o essencial

que todos vemos mas não vemos
até o chegar a falar dele:
o essencial que filtra está vivo
e inquieto como qualquer peixe.

Não se sabe é a sábia receita
que faz sua palavra essencial
conservar aceso num livro
o aço do peixe inaugural.

[In Agrestes, 1981-1985]

Eugénio de Andrade

AO ABRIGO DE INJÚRIAS
Por que palavra começar, por que desordem? O vento levanta-se rápido da rugosidade da pedra, o cavalo de fogo escouceia, relincha no pátio, o rapazito abre-lhe o portão, galopa na poeira.
.
Desse dia pouco mais há a dizer — o crepúsculo foi-se aproximando dos degraus da casa, já não se distingue o arado da sua sombra, e ao fundo do horizonte o garoto, cúmplice do vento, afasta-se ao abrigo de injúrias.
(In Poesia e prosa [1940-1979])


Conceição Lima

A MÃO
Toma o ventre da terra
e planta no pedaço que te cabe
esta raiz enxertada de epitáfios.

Não seja tua lágrima a maldição
que sequestra o ímpeto do grão
levanta do pó a nudez dos ossos,
a estilhaçada mão
e semeia

girassóis ou sinos, não importa
se agora uma gota anuncia
o latente odor dos tomateiros
a viva hora dos teus dedos.

ARQUIPÉLAGO
O enigma é outro — aqui não moram deuses
Homens apenas e o mar, inamovível herança.

[In A dolorosa raiz do Micondó, Geração Editorial, 2012]



quarta-feira, 20 de setembro de 2017

Tonino Guerra

ÁGUA NA BOCA
Tinha uma sede impossível a terra
palácios e árvores estremeciam com aquele ar seco
até o Pai eterno dificilmente respirava.
Nasciam fogos como quem tivesse lançado gasolina
e todo o trigo e todo o milho se queimou.
Em redor a planície esboroada
até aos joelhos
transformava-se num mundo de pó que chegava às montanhas.
As florestas, enormes velas de cinza que desabam.
Pássaros e animais fugiam dos céus
e da terra, mas os escaravelhos
as lesmas e os ratos morreram de boca aberta.
Depois levantou-se um vento que parecia arrebatar
a planura e nuvens negras
ensombraram até Bolonha
estradas telhados e homens.
Começou a chover às duas da manha de quinze de outubro
depois de quatro meses e um dia.
Todos despertaram do seu sono e não acreditavam.
Pegaram em baldes, cântaros, alguidares e até em copos
e foram para o meio da estrada.
E houve descarados que dançavam.
Eu, que então tinha oito anos,
de rosto contra o céu
deixei que chovesse em minha boca.

[In Histórias para uma noite de calmaria, tradução de Mário Rui de Oliveira, Assyrio & Alvim, 2002]


segunda-feira, 18 de setembro de 2017

Tonino Guerra

O HOMEM QUE CONTEMPLA
UM PEDAÇO DE TERRA

Vivia num grande quarto, com uma porta de vidro, sob uma pequena porção de terra, circundada por um muro. Não tinha nada cultivado. Da Primavera ao Outono, com a porta aberta, fixava aquele rectângulo de terra. Sobre o rectângulo via poisar todos os pássaros da zona que talvez viessem beber, pois colocara um prato de água num canto. Faltava apenas um melro. E ele esperava-o. Contemplava, entretanto, a vida das formigas e as silvas que, abundantes, cresciam de ano para ano. Numa Primavera seguiu a viagem de um caracol que, em três meses, assinalou, com uma linha branca, todo o muro. Os ruídos e as notícias das cidades pareciam distantes daquele lugar e da sua mente, ocupada numa preguiçosa meditação. Às vezes chovia. Raramente nevava.
Finalmente, um ano, o melro chegou, mas a porta encontrava- -se fechada e o velho já morto. Estava sepultado sob aquela terra que tinha contemplado por tantos anos e o pássaro poisado exacta- mente no meio da erva que crescera por cima dele. E bebia do recipiente do lado, cheio de água das chuvas.

O SECRETO SEDUTOR
Por diversas noites, uma jovem religiosa, que sofria mais do que qualquer outra criatura a renúncia aos prazeres do corpo, recolheu os folhetos que alguém, secretamente, fizera passar por baixo da porta fechada de sua cela. Eram pedaços de um papel muito branco, sobre o qual se distinguia a marca, provavelmente o desenho de uma parte do rosto. Primeiro um olho, uma madeixa de cabelo, depois uma orelha, a boca, a testa, o queixo. A religiosa, unindo os fragmentos, procurou compor o rosto e, com terror, sofria cada vez mais o fascínio que exalava aquela imagem ainda incompleta. Na última noite, quando estava certa que encontraria o último fragmento para completar o rosto do secreto sedutor, acendeu uma vela para queimar aquela imagem de tentação. E apercebeu-se que se tratava do rosto de Deus. Então, um a um, como se fossem hóstias consagradas, engoliu os fragmentos de todo aquele papel.

[In Histórias para uma noite de calmaria, tradução de Mário Rui de Oliveira, Assyrio & Alvim, 2002]

 SOBRE TONINO GUERRA








domingo, 27 de agosto de 2017

Yehuda Amichai

NOSSA HISTÓRIA
Na história de nosso amor, um foi sempre
Uma tribo nômade, outro uma nação em seu próprio solo.
Quando trocamos de lugar, tudo tinha acabado.
O tempo passará por nós, como paisagens
Passam por trás de atores parados em suas marcas
Quando se roda um filme.
As palavras
Passarão por nossos lábios, até as lágrimas
Passarão por nossos olhos.
O tempo passará
Por cada um em seu lugar.
E na geografia do resto de nossas vidas,
Quem será uma ilha e quem uma península.
Ficará claro pra cada um de nós no resto de nossas vidas
Em noites de amor com outros

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...