domingo, 14 de julho de 2019

Kabir



KABIR - [Poema 12]

Conta-me, ó Cisne, tua velha história.

De onde viestes? Para onde vais?

Em que margem pousarás para descansar?

A qual meta entregastes o coração?

*

Esta é a manhã da consciência!

Voemos juntos! Desperta! Segue-me!

Há um lugar livre da dúvida e da tristeza,

Onde o terror da morte não impera.

*

Lá, florescem bosques em eterna primavera,

E sua fragrância faz avançarmos mais e mais.

Imerso nela, o coração, qual abelha, se inebria.

Imenso nela, já não quer outra alegria.

Tradução de José Tadeu Arantes

segunda-feira, 10 de junho de 2019

Eugénio de Andrade

DO OUTRO LADO
Também eu já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrejas de sobra e ninguém te impede de entrar. Morre se quiseres por um deus ou pela pátria, isso é contigo; pode até acontecer que morras por qualquer coisa que te pertença, pois sempre pátrias e deuses foram propriedade apenas de alguns, mas não me peças a mim, que só conheço os caminhos da sede, que te mostre a direcção das nascentes.

SOBRE A SOMBRA
Era setembro, era onde a sombra rói os ramos. Os corpos são mais jovens nestas dunas, e só os jovens nos podem ensinar. Por isso os procuramos, e a pergunta é sempre a mesma — como se morre? Envelhecer não é assim tão simples, por mais que digam. Quantos dias de sol o declínio nos reserva? Por quanto tempo poderemos amá-los, a esses jovens, sem os ofender? Esta alegria de noutros corpos sermos ainda alguma juventude, como guardá-la, sem a degradar?

(In Poesia e Prosa - 1940-1979)

sábado, 13 de abril de 2019

Murilo Mendes

REVELAÇÃO
Quando me inclinei sobre a água, a estrela saíra,
O parque elaborando curvas a seu gosto.
Um rumor de pássaros fixou-se na folhagem:
As árvores cantavam o que sobrou de Mozart.
Com as garras de veludo e ferro a noite
Ao seu colo atraía as demais formas.
Então a morte começou a filtrar palavras duras
Nos pares demarcados pela sombra,
— Desfaziam-se mãos, cabeças e cinturas —,
E o pequeno verme roeu a concha da vida,
Flechou a íntima dúvida nos corações
Que batiam em ritmo de marcha, apressados tambores
A aumentar o ruído das ruínas do céu
Tombando sobre nós todos, tombando.

IMAGEM DE CRISTO
Eis um Cristo miserável, ínfimo,
Feito com remendos
De madeira, cortina e papelão,
Feito com estilhaços
De homens mortos, vivos e por nascer.
Negam-lhe o ar da ternura,
O sopro dos corações antigos
E as lonjuras da primeira infância.
Em torno dele cantam fechados,
Dançam, rindo e chorando:
Inconscientes, cantam
Entre nuvens de incenso e sarcasmos.
Pedem graças, milagres e dinheiro.
Tudo suporta a imagem,
Tudo suporta obscura.

Mas o átomo se desintegra
Para que a matéria refeita,
Regenerada,
Varrida pelo chicote dos quatro ventos,
Faça em breve ao Cristo ultrajado
Um trono de universos que se expandem
Violentamente.

(In Parábola)




sábado, 16 de março de 2019

Dora Ferreira da Silva

Habitas meu coração: barbas de rei assírio
olhar de extensões alheias
a tempo e medida.
Tua voz tem asas de falcão e pousa
nas torres mais altas do meu ser
onde jamais me aventurei. É minha a tua solidão.
Sirvo-te em silêncio e às vezes
como a uma criança me apertas em teu peito:
acaricio então tua face estranho rei.
Outras vezes ouço passos ecoando
no enlace das colunas em seteiras escadas. Se grito
teu nome – és mil ressonâncias e seu eco em mim.

terça-feira, 22 de janeiro de 2019

Kabir

KABIR

Eu disse, à criatura sedenta dentro de mim,
que rio é esse que desejas atravessar?
Não há viajantes na estrada que leva ao rio, e não há estrada.
Vês alguém caminhando junto à margem, ou se abrigando ali?

Não há rio algum, nem barco, nem barqueiro.
Não há corda atada ao barco, nem alguém para puxá-la.
Não há chão, céu, tempo, banco de areia ou vau!

E não há corpo, nem mente!
Acreditas que existe algum lugar capaz de aplacar
a sede da alma?
Nessa grande ausência, nada encontrarás.

Sê forte, então, e penetra teu próprio corpo;
ali tens um lugar sólido para os teus pés.
Pensa nisso com cuidado!
Não te desvies noutra direção!

Kabir diz isto: apenas te desfaz de todo pensamento sobre
coisas imaginárias,
e te mantém firme sobre aquilo que és.

Trad. Adriana Lisboa

—–

O poeta místico Kabir viveu na Índia de 1440 a 1518.

segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Madalena de Castro Campos

IMPÉRIO

Onde ele dizia descoberta, ela ouvia jugo. Onde
ele dizia civilização, ela ouvia barbárie.
Pilhagem, extorsão, estupro,
escravatura.
Terra queimada, a princípio,
lavrada, depois, com os ossos dos mortos.
Elas, mais dóceis, vomitavam do ventre
a fé e o medo, misturados no sangue
dos filhos mestiços.
Eles, mais rudes, sabiam que contrapor a força à força
talvez permitisse uma imitação da revolta.
Mas as coisas nunca coincidem com as palavras,
e raramente a carne com o punhal.

(in O Fardo do Homem Branco)

terça-feira, 7 de agosto de 2018

Mariana Ianelli

VIDA
Vida, pátria dos resistentes,
Quiséramos perder-te às vezes.

Partir e voltar por infinitos meses
Até que partíssemos somente.

Mas parecíamos fortes
E olhávamos para o chão cá de cima.

Empreendíamos novos encontros,
Multiplicávamos vínculos.

Uma carícia qualquer sempre havia
Por sobre a espessa nuvem do silêncio.

Pelo código do tempo, íamos adiante
Tramando futuros arrependimentos.

De dezembro a dezembro
Desabrochava a nossa rosa invisível, sedenta.

Sonhávamos que te perdíamos,
Mas éramos fortes ainda.

E por ti combatíamos,
A festa dos exércitos, dia a dia.


ESTAÇÕES
A estrada é apenas uma,
Desenhada no verso das mãos.
Intimidades da terra,
Que sei de seus dons, também meus?
Nada além estar cobrindo os montes.

Cruzado o rio, cidade nova.
Há muito o que fazer pela memória,
Para que a fonte entorne e se esvazie,
Mulheres para amar entre os lobos
E amá-las porque amanhã terei partido.

Quem vejo como espelho de mim mesmo:
Um viajante no fim da primavera
Provocando a rebelião das águas,
Ajudando a cintilar a poeira
Que a brisa carrega de uma parte a outra.

O dia posto, uma noite mais.
Mudas, todas as cores se ocultam,
Fingem-se de negro o vermelho, o verde
E a cor de certa música esquecida
Que vagamente me seduz, num calafrio.

Arde a coroa de fogo,
Define-se o diagrama de um círculo.
Na ensoalhada direção do extremo norte,
O céu do mapa, sem planetas, predomina.
Nele revoluteiam as minhas asas estendidas.


SOPHIA
Tenho olhos para o inaudito,
Mãos para acudir o amigo,
Pernas para estar a caminho,
Ouvidos que retêm o invisível.

O silêncio eu trago no corpo
E a voz para quando é preciso.

No plasma acumulo e dissipo
O plasma dos meus vinte filhos.
Todo instante de agora
É a gota de luz que eu respiro.

Nos labirintos da mente,
Existe o sem-limite do que amo,
Hóstia do meu pensamento.

E existem os desertos do mal,
Paraíso eterno da serpente,
O grau zero do sobrenatural,
Razão por que temo a mim mesma.

Sedenta, a besta vive aqui dentro
Com sua cabeça de touro
Desfigurada pela tirania do desejo.

E também vivem comigo os arcanjos,
Presença secreta de um verbo
Que me ensina tudo que posso,
O perdão, a vergonha, o comedimento,
Honras que fazem minha alma serena.

Sobrenome do minuto presente,
A memória coleciona páginas
De um livro iniciado muito antigamente.
A franja de longas histórias sacode
E se rebela a qualquer murmúrio do vento.

Perco-me no meio de um bosque,
Mas no ramo da palmeira eu me reconheço.
Sorrio para uma caravana de homens,
Mas tão-só na mulher de olhos claros
Eu de fato me esqueço e me acrescento.

Pequeno grão no deserto de um século,
Sou também um pouco de ti,
Que às vezes estás ao meu lado,
Às vezes abaixo, às vezes acima de mim.

(In Fazer Silêncio, 2005)


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...