NESSAS MANHÃS DE VENTO
Saiba - disse-me o sem-voz - nem tudo é mansidão.
Quando olhares para a boca de um homem velho,
pensa quantos lábios deve ter tocado,
quantas línguas sugado,
quantos sabores provado.
Pensa nos dentes dessa boca de homem velho:
Quanto terá mastigado?
Que carnes, que frutos triturado?
Que mamilos e tetas mordiscado?
Quando fitares a boca de um homem velho,
pensa, jovem leitor, na senectude daquela língua
e nas ordens que terá decretado.
Quantas palavras mastigado? Quantos versos lambido?
Que nãos... a quantos ferido?
Que sins... a quantos acariciado?
Pensa nos verbos no imperativo,
nos substantivos gelados e lânguidos adjetivos,
nos silêncios engolidos e gritos vomitados.
Quando cravares teu olhar na boca de um homem velho,
flor murcha decadente, lábios enrugados
como pétalas costuradas em linho gris,
pensa nos sorrisos que brotaram em tempos viçosos,
[imprecisos,
em campos da alma fértil e fresca
banhados por raríssimos orvalhos
que o tempo fez questão de eliminar.
Pensa no hálito-brisa que então partia,
dobrando as flores da vida desejada,
anunciando a chuva definitiva
que levaria a alma-seiva para outras safras.
Quando olhares a boca de um homem velho
e dela ouvires “Filho, o que te aflige?"
Responde, com calma, que teu olhar investiga
o tempo, o tempo, o tempo, o tempo.
E se ela tornar a perguntar a ti,
na teimosia típica de um velho,
“Filho, o que te assusta?"
Olha firme para aquela boca, sem medo,
e não deixe que perceba
que nela vês os corpos dilacerados de teus irmãos
E os fiapos de carne presos naquelas presas.
Beija aquela boca, filho,
é a tua boca repousando no amanhã.
SOL E ESCURIDÃO
Para Ana C. e os suicidas de Copacabana
Deve ser assim:
quando se salta do décimo segundo andar
não se enxerga o sol
o mundo é negro como o asfalto
que o acolhe num violento abraço
seu aconchego, seu remanso
a rigidez do meio-fio
a sujeira da calçada em obras
um dente ensaguentado na sarjeta
Um céu sem nuvens, azul, despido,
o sol brilhando nas peles oleosas de Copacabana
e Nossa Senhora recolhendo os pedaços
do suicida em sua avenida
Alguns velhos anseiam o sol
por um pouco mais de vida
Deve mesmo ser assim:
Quando se salta do décimo segundo andar
não há outro anseio
que não o brilho da escuridão.
CARTA DE INTENÇÃO
quandeu crescer
vou ser rimbaud-menino-mau
de cueca suja e cara iluminada
dentes sujos da carne do poema
Talvez escreva Cantos
prometo: pecarei na tua lápide
um pouco de Edgar, outro de Álvares
um tanto de Bandeira, outro de Andrades
quandeu morrer, que seja leve
o anjo que virá chamar meu nome
na lista em sua palma desenhada
e que eu, ainda lúcido, questione
a cor das asas e da hora-madrugada.
(In Babelical, Ed. Patuá, SP, 2018)
Foto by Gregory Colbert
Leonardo Almeida Filho é professor universitário, escritor, ensaísta e mestre em literatura brasileira pela Universidade de Brasília. Publicou sua tese, Graciliano Ramos e o mundo interior: o desvão imenso do espírito, pela Editora da UnB, em 2008, e também, O livro de Loraine (romance, 1998) e Logomaquia: um manefasto (híbrido, 2008). Possui contos e poesias nas coletâneas Antologia do Conto Brasiliense (2004), Todas as gerações (2007) e Prêmio SESC de contos Machado de Assis (2011); e Poemas para Brasília (2004). Em 2010, pela Editora Hinterlândia, publicou, com os professores Hermenegildo Bastos e Bel Brunacci, o livro Catálogo de benefícios: o significado de uma homenagem; e em 2014, pela editora E-galaxia, o volume de contos Nebulosa fauna & outras histórias perversas. Em 2018, lançou o volume de poesias Babelical, e em 2019 o romance Nessa boca que te beija, ambos pela Editora Patuá. Email: leo.almeidafilho@gmail.com
(Dados retirados do blog Ruído Manifesto)
sexta-feira, 30 de agosto de 2019
segunda-feira, 26 de agosto de 2019
REMAKE
As coisas acontecem e se repetem
com insistência e violência circular
Não há comemoração para membros
serrados e para os ossos reunidos a fios
de medula e horror ao fim de cada dia
Tudo é repetição, todas as tramas
brilham iridescentes e entrelaçadas
sobre a cidade, flores, remédios
e hemorragias, esperando que alguém
toque a teia e nos leve o roteiro, sem direito
de escolha, cheios de esperança e medo
da roleta-russa e até da relva, a relva
que somos, a mesma que ontem brilhava
sob o ridículo orvalho e hoje agoniza
pelo gesto gratuito e assassino de um raio
seco que a incendeia e destrói
Sabemos e negaremos e negaremos
essas histórias, todos prisioneiros
de diferentes crimes iguais, atenuantes
e liberdades provisórias, indultos
Sim, temos princípios, fugidios meios
Somos aprendizes do fim
(In Fundamentos de Ventilação e Apneia, Patuá, 2019)
As coisas acontecem e se repetem
com insistência e violência circular
Não há comemoração para membros
serrados e para os ossos reunidos a fios
de medula e horror ao fim de cada dia
Tudo é repetição, todas as tramas
brilham iridescentes e entrelaçadas
sobre a cidade, flores, remédios
e hemorragias, esperando que alguém
toque a teia e nos leve o roteiro, sem direito
de escolha, cheios de esperança e medo
da roleta-russa e até da relva, a relva
que somos, a mesma que ontem brilhava
sob o ridículo orvalho e hoje agoniza
pelo gesto gratuito e assassino de um raio
seco que a incendeia e destrói
Sabemos e negaremos e negaremos
essas histórias, todos prisioneiros
de diferentes crimes iguais, atenuantes
e liberdades provisórias, indultos
Sim, temos princípios, fugidios meios
Somos aprendizes do fim
(In Fundamentos de Ventilação e Apneia, Patuá, 2019)
segunda-feira, 19 de agosto de 2019
Murilo Mendes
MURILO MENDES
O FILHO DO SÉCULO
Nunca mais andarei de bicicleta
Nem conversarei no portão
Com meninas de cabelos cacheados
Adeus valsa "Danúbio Azul"
Adeus tardes preguiçosas
Adeus cheiros do mundo sambas
Adeus puro amor
Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem
Não tenho forças para gritar um grande grito
Cairei no chão do século vinte
Aguardem-me lá fora
As multidões famintas justiceiras
Sujeitos com gases venenosos
É a hora das barricadas
É a hora da fuzilamento, da raiva maior
Os vivos pedem vingança
Os mortos minerais vegetais pedem vingança
É a hora do protesto geral
É a hora dos vôos destruidores
É a hora das barricadas, dos fuzilamentos
Fomes desejos ânsias sonhos perdidos,
Misérias de todos os países uni-vos
Fogem a galope os anjos-aviões
Carregando o cálice da esperança
Tempo espaço firmes porque me abandonastes.
(Em O Visionário, 1941)
O FILHO DO SÉCULO
Nunca mais andarei de bicicleta
Nem conversarei no portão
Com meninas de cabelos cacheados
Adeus valsa "Danúbio Azul"
Adeus tardes preguiçosas
Adeus cheiros do mundo sambas
Adeus puro amor
Atirei ao fogo a medalhinha da Virgem
Não tenho forças para gritar um grande grito
Cairei no chão do século vinte
Aguardem-me lá fora
As multidões famintas justiceiras
Sujeitos com gases venenosos
É a hora das barricadas
É a hora da fuzilamento, da raiva maior
Os vivos pedem vingança
Os mortos minerais vegetais pedem vingança
É a hora do protesto geral
É a hora dos vôos destruidores
É a hora das barricadas, dos fuzilamentos
Fomes desejos ânsias sonhos perdidos,
Misérias de todos os países uni-vos
Fogem a galope os anjos-aviões
Carregando o cálice da esperança
Tempo espaço firmes porque me abandonastes.
(Em O Visionário, 1941)
quarta-feira, 31 de julho de 2019
Mariana Ianelli
FAZER FOGO
Que sei eu da tua vida feita de milhões de instantes?
Das tuas monstruosidades, tuas taras, teus dramas?
Que sei eu dos teus contrabandos no caminho até agora?
Se nem sei teu nome e as palavras de um pós-guerra
São como pedras que precisamos atritar para dar fogo...
Não é mau que o cenário seja pobre e antes uma questão
De sobrevivência fazer fogo: isso aproxima estranhos, dispensa
Cerimônia, protela a discórdia e nos chama a certos gestos
De linguagem universal, rosto de dor, corpo com sono, sede,
Medo, fome, e então se tocam a tua loucura, a minha sanha,
O meu desejo e o teu desejo, acordados, então queimamos,
E queimamos bem, como se assim fizéssemos juntos a vida toda.
Que sei eu da tua vida feita de milhões de instantes?
Das tuas monstruosidades, tuas taras, teus dramas?
Que sei eu dos teus contrabandos no caminho até agora?
Se nem sei teu nome e as palavras de um pós-guerra
São como pedras que precisamos atritar para dar fogo...
Não é mau que o cenário seja pobre e antes uma questão
De sobrevivência fazer fogo: isso aproxima estranhos, dispensa
Cerimônia, protela a discórdia e nos chama a certos gestos
De linguagem universal, rosto de dor, corpo com sono, sede,
Medo, fome, e então se tocam a tua loucura, a minha sanha,
O meu desejo e o teu desejo, acordados, então queimamos,
E queimamos bem, como se assim fizéssemos juntos a vida toda.
domingo, 14 de julho de 2019
Kabir
KABIR - [Poema 12]
Conta-me, ó Cisne, tua velha história.
De onde viestes? Para onde vais?
Em que margem pousarás para descansar?
A qual meta entregastes o coração?
*
Esta é a manhã da consciência!
Voemos juntos! Desperta! Segue-me!
Há um lugar livre da dúvida e da tristeza,
Onde o terror da morte não impera.
*
Lá, florescem bosques em eterna primavera,
E sua fragrância faz avançarmos mais e mais.
Imerso nela, o coração, qual abelha, se inebria.
Imenso nela, já não quer outra alegria.
Tradução de José Tadeu Arantes
segunda-feira, 10 de junho de 2019
Eugénio de Andrade
DO OUTRO LADO
Também eu já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrejas de sobra e ninguém te impede de entrar. Morre se quiseres por um deus ou pela pátria, isso é contigo; pode até acontecer que morras por qualquer coisa que te pertença, pois sempre pátrias e deuses foram propriedade apenas de alguns, mas não me peças a mim, que só conheço os caminhos da sede, que te mostre a direcção das nascentes.
Também eu já me sentei algumas vezes às portas do crepúsculo, mas quero dizer-te que o meu comércio não é o da alma, há igrejas de sobra e ninguém te impede de entrar. Morre se quiseres por um deus ou pela pátria, isso é contigo; pode até acontecer que morras por qualquer coisa que te pertença, pois sempre pátrias e deuses foram propriedade apenas de alguns, mas não me peças a mim, que só conheço os caminhos da sede, que te mostre a direcção das nascentes.
SOBRE A SOMBRA
Era setembro, era onde a sombra rói os ramos. Os corpos são mais jovens nestas dunas, e só os jovens nos podem ensinar. Por isso os procuramos, e a pergunta é sempre a mesma — como se morre? Envelhecer não é assim tão simples, por mais que digam. Quantos dias de sol o declínio nos reserva? Por quanto tempo poderemos amá-los, a esses jovens, sem os ofender? Esta alegria de noutros corpos sermos ainda alguma juventude, como guardá-la, sem a degradar?
(In Poesia e Prosa - 1940-1979)
sábado, 13 de abril de 2019
Murilo Mendes
REVELAÇÃO
Quando me inclinei sobre a água, a estrela saíra,
O parque elaborando curvas a seu gosto.
Um rumor de pássaros fixou-se na folhagem:
As árvores cantavam o que sobrou de Mozart.
Com as garras de veludo e ferro a noite
Ao seu colo atraía as demais formas.
Então a morte começou a filtrar palavras duras
Nos pares demarcados pela sombra,
— Desfaziam-se mãos, cabeças e cinturas —,
E o pequeno verme roeu a concha da vida,
Flechou a íntima dúvida nos corações
Que batiam em ritmo de marcha, apressados tambores
A aumentar o ruído das ruínas do céu
Tombando sobre nós todos, tombando.
IMAGEM DE CRISTO
Eis um Cristo miserável, ínfimo,
Feito com remendos
De madeira, cortina e papelão,
Feito com estilhaços
De homens mortos, vivos e por nascer.
Negam-lhe o ar da ternura,
O sopro dos corações antigos
E as lonjuras da primeira infância.
Em torno dele cantam fechados,
Dançam, rindo e chorando:
Inconscientes, cantam
Entre nuvens de incenso e sarcasmos.
Pedem graças, milagres e dinheiro.
Tudo suporta a imagem,
Tudo suporta obscura.
Mas o átomo se desintegra
Para que a matéria refeita,
Regenerada,
Varrida pelo chicote dos quatro ventos,
Faça em breve ao Cristo ultrajado
Um trono de universos que se expandem
Violentamente.
(In Parábola)
Quando me inclinei sobre a água, a estrela saíra,
O parque elaborando curvas a seu gosto.
Um rumor de pássaros fixou-se na folhagem:
As árvores cantavam o que sobrou de Mozart.
Com as garras de veludo e ferro a noite
Ao seu colo atraía as demais formas.
Então a morte começou a filtrar palavras duras
Nos pares demarcados pela sombra,
— Desfaziam-se mãos, cabeças e cinturas —,
E o pequeno verme roeu a concha da vida,
Flechou a íntima dúvida nos corações
Que batiam em ritmo de marcha, apressados tambores
A aumentar o ruído das ruínas do céu
Tombando sobre nós todos, tombando.
IMAGEM DE CRISTO
Eis um Cristo miserável, ínfimo,
Feito com remendos
De madeira, cortina e papelão,
Feito com estilhaços
De homens mortos, vivos e por nascer.
Negam-lhe o ar da ternura,
O sopro dos corações antigos
E as lonjuras da primeira infância.
Em torno dele cantam fechados,
Dançam, rindo e chorando:
Inconscientes, cantam
Entre nuvens de incenso e sarcasmos.
Pedem graças, milagres e dinheiro.
Tudo suporta a imagem,
Tudo suporta obscura.
Mas o átomo se desintegra
Para que a matéria refeita,
Regenerada,
Varrida pelo chicote dos quatro ventos,
Faça em breve ao Cristo ultrajado
Um trono de universos que se expandem
Violentamente.
(In Parábola)
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