sexta-feira, 20 de maio de 2022

Alberto Bresciani

 

REFUGIADOS
 
No silêncio das florestas,
na solidão da cidade,
 
somos os refugiados
de um tempo em cinzas.
 
Desejamos tanto
e é pouco o que passou.
 
Sim, ouvimos vozes,
um certo rumor impreciso.
 
Chegamos a pensar
que não queremos mais,
 
apenas o sol onde está,
pássaros nos binóculos.
 
Este é um lugar
onde nada nos sobra.
 
(Em Hidroavião, 2020)


  • segunda-feira, 20 de setembro de 2021

    José Luis Peixoto


    CERTEZA
     
    Num momento, acerta-nos a certeza de tantas manhãs desperdiçadas.
    De repente, este inverno é o último e os nossos braços
    esticados não chegam
    ao fim de março. A criança que transportamos debaixo de
    tudo, dentro de tudo,
    pergunta: e agora? Agora, não há mais respostas do que
    esta grande resposta.
    E não nos podemos queixar de falta de aviso, sempre
    soubemos
    que todos os objetos possuem sombra. Tivemos férias
    de verão e idades,
    tivemos terças-feiras, semanas que passaram demasiado
    depressa. E agora?
    Agora, agarramo-nos a cada minuto deste entardecer e,
    num momento,
    sabemos por fim que aquilo que importa é pouco e raro.
     
    (Regresso a Casa, Porto Alegre: Dublinense, 2020, p. 30)
     
     
    ODISSEIA
     
    Eis Ulisses em seu longo caminho, avança pelas vagas,
    como avança pelos versos, como avança pela espera
    de quem olha o horizonte em ítaca. Eis Ulisses
    com seu humano propósito.
    A guerra de Troia é uma porta que fechou ao sair, saiu
    desalmado; também pode ser uma idade, ou a pessoa
    que Ulisses já não quer ser. Sim, a guerra de Troia é a
    pessoa que Ulisses já não quer ser.
    A embarcação de Ulisses pode ser uma bicicleta
    ou um táxi, não importa, pode ser um passeio a pé,
    de mãos nos bolsos.
    Os dez anos de viagem até ítaca podem ser dez minutos,
    podem ser um telefonema rápido, um vulto
    que se distingue ao longe ou, mais provavelmente,
    podem ser a vida inteira. Sim, os dez anos de viagem até ítaca
    são a vida inteira.
    E, claro, Ulisses és tu. Já tinhas percebido, não?
    Ulisses és tu, a guerra de Troia és tu, és toda a viagem,
    és ítaca também.
    Haverás de chegar. Na hora certa, terás de chegar.
    Já te esperam.
    ______________________________
    Este navio dispensa o leme. Estes marinheiros dispensam o mapa. Foram contratados pela forma do nome e do rosto, com mínimas habilitações literárias, ironia máxima. O mar sabe conduzir o navio. As correntes e as tempestades são a sua verdadeira tripulação. Destes marinheiros, apenas se exige nomes bons de citar, rostos bons de esculpir e, claro, um comportamento adequado, que oscile entre o apolíneo e o dionisíaco. Todas as sílabas dos seus nomes devem ser pronunciadas, de modo a que poetas elevados e pessoas de bom gosto possam dizer Euríloco da mesma maneira que diriam torneira, possam dizer Perimedes e iluminar uma frase, dar elegância a uma ideia. Estes nobres marinheiros são sobretudo arquétipos, desempenham essa função com bravura, navegam com destreza na origem etimológica das palavras. Aquela nuvem podia ser um arquétipo, uma pena levada pelo vento podia ser um arquétipo, mas faltava-lhe o valor do tempo acumulado: uma espécie de condensação, comparável ao processo que forma diamantes nos secretos segredos da terra. O mar que rodeia o navio é literalmente feito de diamantes, mas não é por isso que se dispensa leme e mapa nesta viagem. Ao longo de cantos identificados com numeração romana, o percurso já está definido, é único e inevitável. Ulisses foi atado ao mastro apenas para causar efeito dramático.
    ____________________________________
    Quem espera depende de quem chega.
    Mas quem chega, para saber que chegou,
    depende de quem espera. Penélope é
    Ulisses e, ao mesmo tempo, Ulisses é
    Penélope. Quem passa dias a fiar e
    noites a desfazer o que fiou cumpre
    o mesmo caminho de quem passa dias
    a navegar e noites também a navegar.
    Penélope tem barba, Ulisses tem útero,
    Penélope tem barba, Ulisses
    também tem barba; Penélope tem útero, Ulisses
    também tem útero. Orgulhamo-nos
    do século XXI e, por isso, sabemos
    que qualquer uma dessas opções é
    válida, o que conta é o paradigma,
    o que conta é a estrutura exemplar
    oferecida pelo paradigma: alguém
    venceu a guerra de Troia, alguém
    pariu Telêmaco.
     
    (Em Regresso a Casa, poemas, Porto Alegre: Dublinense, 2020)
     
     
     Escritor José Luís Peixoto estreia-se nos «palcos» de Nova ...

    terça-feira, 3 de agosto de 2021

    Nikos Kazantzákis

    “...Como os incrédulos conseguirão crer nos prodígios que a fé pode gerar? Esquecem-se de que a alma do homem torna-se onipotente, ao ser tomada por uma grande ideia. As pessoas assustam-se quando, depois de amargas provações, entendem que têm no íntimo uma força que pode exceder a força humana; assustam-se, porque a partir do momento em que entendem que existe essa força, não podem mais encontrar justificativas para suas ações insignificantes ou indignas, para suas vidas perdidas, jogando a culpa nos outros: já sabem que elas – e não a sorte, não o destino, nem mesmo os outros ao redor -, apenas elas têm integral responsabilidade, não importa o que façam, não importa no que se tornem. E aí então se envergonham de rir e de zombar se uma alma inflamada busca o impossível. ”

    [In O capitão Mihális (Liberdade ou Morte), trad. Silvia Ricardino, São Paulo: ed. Grua, 2013]

     


     

    sábado, 14 de novembro de 2020

    Ailton Volpato

     Finados

    A criança sobre o campo sagrado traça caminhos. Brinca, não sabe o que virá e vive o dia na graça. No campo está a história, a memória. Só. A vida já é outra via antecipada pelo amor. A criança é uma promessa, ponte a oscilar o tempo, entre riso e lágrima: um desejo de ser. E o que celebramos é passagem.

    2020 




    terça-feira, 13 de outubro de 2020

    Ailton Volpato

    Quando visitas a humilde morada
    É festa,
    e a riqueza é o anúncio
    Da vitória.
    Estás sempre presente,
    Em ronda silente,
    Renovando o entusiasmo
    De ir além.
    De ti, o que ouço é sempre cântico,
    Liturgia solene:
    Do ínfimo instante se estende
    O eterno.

     


     

    quinta-feira, 10 de setembro de 2020

    Wislawa Szymborska

     NADA É DADO

    Nada é dado, tudo emprestado.
    Estou atolada em dívidas até o pescoço.
    Serei forçada a pagar por mim
    gastando a mim mesma,
    dando a vida pela vida.

    É coisa já arranjada:
    tenho que devolver
    o coração e o fígado
    e cada dedo em particular.

    Tarde demais para quebrar os termos do contrato.
    O que devo me será tirado
    junto com a minha pele.

    Ando pelo mundo
    numa multidão de outros devedores.
    Alguns suportam o ônus
    de pagar pelas asas.
    Outros, queiram ou não,
    prestarão conta de suas folhas.

    Todo tecido em nós
    está na coluna Débito.
    Nenhum cílio, nenhuma haste
    a conservar para sempre.

    O inventário é minucioso
    e tudo indica
    que não vamos ficar com nada.

    Não consigo lembrar
    onde, quando e com que fim
    permiti que abrissem
    essa conta em meu nome.

    O protesto contra ela
    chamamos de alma.
    Esse é o único item
    que não consta do inventário.

    (Em [Para o meu coração num domingo], tradução: Regina Przybycien e Gabriel Borowski, Companhia das Letras, São Paulo, 2020)
     

    sexta-feira, 31 de janeiro de 2020

    Dora Ferreira da Silva


    Moras num antiquário e nunca estás.
    Um gato sonolento recebe instáveis visitantes
    mas eu fico à espera. Conheço cada fresta da parede
    suas manchas e os objetos estranhos que ninguém
    pensa comprar: a pátina os cobre de suave indiferença.
    Parecem meteoros expulsos de espaços
    infinitos e eu sinto a esperança de ver-te
    ainda que um só momento — ausente de ti mesmo
    e a sós contigo. Aqui estou de joelhos. Imóvel.
    Julgarias que lá estava — se tanto — uma pequena pirâmide
    silenciosa. Ver-te-ia de pálpebras fechadas
    teu modo de estar a sós tua possível neurastenia
    debatendo-se no antiquário entre objetos.
    E quando te fosses quem sabe desligarias
    as pesadas correntes que me prendem.

    [In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 1999]

    Fernando Paixão

      Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...