quinta-feira, 31 de maio de 2012

Clarice Lispector

Estou desorganizada porque perdi o que não precisava? Nesta minha nova covardia – a covardia é o que de mais novo já me aconteceu, é a minha maior aventura, essa minha covardia é um campo tão amplo que só a grande coragem me leva a aceitá-la –, na minha nova covardia, que é como acordar de manhã na casa de um estrangeiro, não sei se terei coragem de simplesmente ir. É difícil perder-se. É tão difícil que provavelmente arrumarei depressa um modo de me achar, mesmo que achar-me mesmo seja de novo a mentira que vivo.

In Clarice Lispector . A Paixão Segundo G.H.

Alexandre O´Neill

A Traição

quando do cavalo de troia saiu outro
cavalo de tróia e deste um outro
e destoutro um quarto cavalinho de
tróia tu pensaste que da barriguinha
do último já nada podia sair
e que tudo aquilo era como uma parábola
que algum brejeiro estivesse a contar-te
pois foi quando pegaste nessa espécie
de gato de tróia que do cavalo maior
saiu armada até aos dentes de formidável amor
a guerreira a que já trazia dentro em si
os quatro cavalões do vosso apocalipse



Alexandre O'Neill (1924-1986)
Poesias Completas

Adélia Prado

UMA VALSA PARA DANÇAR 
AMÉRICO, EU TE AMO, Américo. Você tem uma loja de tecidos e uma mulher que você vive querendo não enganar, um filho tão bonitinho, Américo, as mãos macias de medir tecido, de apalpar meu pescoço com intenções de quem vai assassinar. Você é um colosso, Améríco, tem tudo pra me agradar. Sua inteligência sem escolas é tão ignorante que eu me arrepio dos seus mundos novos. Dentes afiados, uma saúde enxuta você tem, não vai me pedir um chá. Quando eu te peço um metro de voal, você retruca pra espichar a conversa: "leva também um metro de amorim." Você fala amorim, de sabido ou de bobo, Américo? Antigamente se um homem falasse errado, descartava na hora. Hoje, não. Quero vinho de todos os barris. Você é pai extremoso, exemplar marido caseiro. Tens um livro, não tens? Uma coleção de marcas de cigarro e o retrato de sua mãe. Você fecha a loja aos domingos e feriados, incrível Américo, você não quer ficar rico, como te resistir? Sua mulher me pede açúcar emprestado, eu peço a ela é licença pra ver o álbum de retratos: você segurando seu filho, você pondo comida nra passarinho, brincando com o cachorro. Se você ficar quieto e parar de me espreitar desse modo invisível, eu pinto você, seus olhos bonitos de homem, mais que os de uma mulher, bonitos. Você é meu amor delicado, por você faço doce de leite, corto em pequenos losangos, ponho minha blusa bordada e fico no banco da praça te esperando no seu caminho, quando "cai a tarde tristonha e serena, em macio e suave langor", pra te entregar o coração.
Você passa e eu digo: boa tarde, Américo.

In Solte os Cachorros,  Rio de Janeiro, Nova Fronteira,  1979, p. 101-102


Manoel de Barros


A poesia está guardada nas palavras – é tudo que eu sei.
Meu fado é o de não saber quase tudo.
Sobre o nada eu tenho profundidades.
Não tenho conexões com a realidade.
Poderoso para mim não é aquele que descobre ouro.
Para mim poderoso é aquele que descobre as insignificâncias (do mundo e as nossas).
Por essa pequena sentença me elogiaram de imbecil.
Fiquei emocionado.
Sou fraco para elogios.

Tratado geral das grandezas do ínfimo, Manoel de Barros



Ana Martins Marques

10 VISITAS AO LUGAR COMUM

1

Quebrar o silêncio
e depois recolher
os pedaços
testar-lhes o corte
o brilho
cego

2

Pagar para ver
e receber
em troca
vistas parciais
uns cobres
de paisagem

3

Dobrar a língua
e ao desdobrá-la
deixar cair
uma a uma
palavras
não ditas

4

Perder a hora
e encontrá-la depois
num intervalo
de teatro
nos cantos empoeirados
do domingo
entre um telefonema e outro
dentro do táxi

5

Dar à luz
e então sondar
num átimo
de abismo
– como um espeleólogo
um cosmólogo
um cenógrafo
um guarda-noturno –
a própria
escuridão

6

Perder a cabeça
e então buscá-la
nos últimos lugares
em que esteve
dentro da touca
de banho
sobre o travesseiro
entre os joelhos
entre as mãos
na casa demolida
da infância
sobre suas coxas
mornas
ainda

7

Tirar fotografias
e depois devolvê-las
àqueles de quem as tiramos
à mulher fora de foco
em seu vestido violeta
à casa de janelas verdes
às paisagens
tomadas emprestadas
à casca
de cada coisa
aos vários ângulos
da Torre Eiffel
ao cachorro morto
na praia

8

Cortar relações
e depois voltar-se
verificar se o que restou
suporta
remendo
demorar-se
sobre a cicatriz
do corte

(guardar
por precaução
a tesourinha
para mais tarde)

9

Esperar
horas a fio
e então
desvencilhar-se
das coisas tecidas
na espera
dos ponteiros do relógio
cada um mais lento
que o outro
dos pelo menos
dez cigarros
das poltronas de mogno
uma delas
vazia


10

Quebrar promessas
e ao recolher os cacos
discerni-los
entre aqueles
do silêncio
quebrado

Fonte: Revista Piauí, ano 6, maio 2012, p. 79

Geraldo Holanda Cavalcanti

O SONHO DE CLARICE

 A luz da vela no basement
num lugar que não era o meu nem o dela
Clarice me disse, contou
o sonho que era meu e dela

O sonho narrado não perde
a clara neblina em que envolto nasce
e se é Clarice quem narra
antes mais veste e reveste

Inútil pensar que as imprecisas formas
que ora se chegam ou afastam do modelo
adquirem, faladas, o contorno exato
de Gala, da pedra, ou do pintor que as pinta

Por isso a palavra escolhe tanto
e várias, cada uma trazendo
um pedaço da imagem que se esquiva
e se trasmuda envelhecendo a frase

E as palavras têm de correr
atrás do sentido ou mágicas se tornam
para vestir a elusiva forma
que dos dedos se escapa ou da memória

E assim Clarice fala
que o meu caminho conhecera, tomou
de minha mulher o ventre apalpara, apalpou
dentro de mim se enluvou
e para Clarice aquele sonho no basement
ou o vinho no copo à luz da vela
ou as vinte pessoas na sala ou a noite
tinham todos a nítida fixação da névoa.

Geraldo Holanda Cavalcanti, Poesia Reunida, Bertrand Brasil: Rio de Janeiro, 1998, p. 151-152

quarta-feira, 30 de maio de 2012

Henriqueta Lisboa

O TESOURO
Em pleno cristal reside o tesouro.
Orvalho cotidiano. Mãos de criança
poderiam tocá-lo.
Porém o homem buscou na distância
a névoa para os próprios olhos.
om a sombra caminhou sobre os mares,
com a noite regressou à terra.
E logo vislumbrava o tesouro
por entre as montanhas da lua.

O tesouro é desnudo. O louco
o transporta ao reino dos sonhos
onde pervagam panejamentos.
Sopram os vendavais sobre as formas
a cada instante recriadas.
E em meio à conjura de mitos
o diamante se troca
pelas jóias de embuste.

Pronto para abastecer o universo
com a delicada flor dos trigais,
a todos pertence o tesouro.
Porém em torno da arca lavra
o pânico, lavra o fogo nos campos
guardados pelas foices recurvas.
E a um passo dos rufiões o tesouro
permanece inviolado.

Demasiado ardente é o hálito humano
sobre a camélia branca.


[Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral,  Duas Cidades: São Paulo, 1985, p. 269]

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...