PENSANDO MURILO MENDES
último espasmo da lua
e os sumaríssimos suspiros.
trigonometria água lustral anjos cubistas
relógio de fogo.
algo enlouqueceu
nos pássaros do olhar.
o bonde e o violão se espandongam
rangem no sangue
entardecer do tempo.
pensamento a soabrir a pálpebra
para fora da luz
antiuniverso da matéria
sem palavras.
orfeu hidrofeu catastrândula.
entre os mortos
e a congestão nasal
passeia um sacerdote antiquíssimo
e a sábia indiferença
do abismo oval.
tudo enlouqueceu
às vésperas do sonho.
todos os telhados se evaporaram
e a infância.
restou aquele menino magro
mirando a tristeza infinita
dos meteoros sem deus.
Afonso Henriques de Guimaraens Neto nasceu em Belo Horizonte, Minas Gerais, em 17 de junho de 1944, sendo filho de Hymirene Papi de Guimaraens e do poeta Alphonsus de Guimaraens Filho. Em 1954, mudou-se para o Rio de Janeiro, e seguiu depois para Brasília, onde se formou em Direito na primeira turma da Universidade de Brasília, em 1966. De volta ao Rio de Janeiro em 1972, participou intensamente do movimento político - cultural rotulado de poesia marginal e trabalhou na FUNARTE – Fundação Nacional de Arte – (1976 -1994). Desde 1976, é professor do Instituto de Artes e Comunicação Social da Universidade Federal Fluminense. Em 1997, defendeu tese de doutorado na Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro. Casado com a arquiteta Cêça de Guimaraens, tem dois filhos: Mariana e Francisco.
terça-feira, 7 de agosto de 2012
Alphonsus de Guimaraens Filho
JÁ
Já me cansei do ofício triturante
de procurar o sumo das palavras.
Quero ouvir outra voz, não esta que foi minha.
Quero outro sol, não este que anoitece
meu coração e o crispa e farpa e deita
âncora a cegos, barcos para os mortos.
Oscila minha voz entre o clamor
da vida ensanguentada e perseguida
pelos punhais de fogo do real.
Vou pelas ruas que não vi: não quero
ver nas fábulas mais que nas calçadas.
Quem canta? Já me canso do que cantam.
Já me canso dos cantos dissipados
como grandes hortênsias nos jardins
onde rendeiras cegas bordam harpas.
Já me cansei dos portos invisíveis.
Do silêncio das casas cor de morte,
dos quintais onde háfrutos para bocas
surtas do sulco em brasa da agonia.
Já me cansei o ofício triturante
de procurar o sumo das palavras.
Pois se palavra sou, se sou o verbo,
quero me inocentar de quanto fere
meu desalento e solidão, criar-me
à minha própria semelhança, ter
uma certeza ao menos entre instáveis
e vacilantes coisas que me olham
como se alguma culpa lhes pesasse,
como se a minha culpa lhes pesasse.
Quero uma voz que fenda o ser e varra
essa fina poeira incandescente
em que de todo me queimei sonhando,
desconhecendo.
Já me cansei do ofício triturante
de procurar o sumo das palavras.
Quero ouvir outra voz, não esta que foi minha.
Quero outro sol, não este que anoitece
meu coração e o crispa e farpa e deita
âncora a cegos, barcos para os mortos.
Oscila minha voz entre o clamor
da vida ensanguentada e perseguida
pelos punhais de fogo do real.
Vou pelas ruas que não vi: não quero
ver nas fábulas mais que nas calçadas.
Quem canta? Já me canso do que cantam.
Já me canso dos cantos dissipados
como grandes hortênsias nos jardins
onde rendeiras cegas bordam harpas.
Já me cansei dos portos invisíveis.
Do silêncio das casas cor de morte,
dos quintais onde háfrutos para bocas
surtas do sulco em brasa da agonia.
Já me cansei o ofício triturante
de procurar o sumo das palavras.
Pois se palavra sou, se sou o verbo,
quero me inocentar de quanto fere
meu desalento e solidão, criar-me
à minha própria semelhança, ter
uma certeza ao menos entre instáveis
e vacilantes coisas que me olham
como se alguma culpa lhes pesasse,
como se a minha culpa lhes pesasse.
Quero uma voz que fenda o ser e varra
essa fina poeira incandescente
em que de todo me queimei sonhando,
desconhecendo.
segunda-feira, 6 de agosto de 2012
Paulo Mendes Campos
PESQUISA
O tempo é audível; também se pode ouvir a eternidade.
In Melhores Poemas - Paulo Mendes Campos, São Paulo: Global Ed., 2000, 3a. ed, pp. 52-53
Tempo é espaço interior. Espaço é tempo exterior.
Novalis
A gaivota determinada mergulha na água
Verde. Há um tempo
para o peixe
E um tempo para o pássaro
E dentro e fora do homem
Um tempo eterno
de solidão.
Muitas vezes, fixando o meu olhar no morto,
Vi espaços claros, bosques, igapós,
O sumidouro de um tempo subterrâneo
(Patético, mesmo às
almas menos presentes)
Vi, como se vê de um avião,
Cidades conjugadas pelo sopro do homem,
A estrada amarela, rio barrento e torturado,
Tudo tempos de homem, vibrações de tempo, vertigens.
Senti o hálito do tempo doando melancolia
Aos que envelhecem
no escuro das boites,
Com uma tensão de nervos feridos
E corações espedaçados.
Se acordamos, e ainda não é madrugada,
Sentimos o invisível fender o silêncio,
Um tempo que se ergue ríspido na escuridão.
Cascos leves de cavalos cruzam a aurora.
O tempo goteja Como o sangue.
Os cães discursam nos quintais, e o vento.
Grande cão infeliz,
Investe contra a sombra.
O tempo é audível; também se pode ouvir a eternidade.
In Melhores Poemas - Paulo Mendes Campos, São Paulo: Global Ed., 2000, 3a. ed, pp. 52-53
Murilo Mendes
JANDIRA
O mundo começava nos seios de Jandira.
Depois surgiram outras peças da criação:
surgiram os cabelos para cobrir o corpo,
(às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos).
E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.
E surgiram sereias da garganta de Jandira:
o ar inteirinho ficou rodeado de sons
mais palpáveis do que pássaros.
E as antenas das mãos de Jandira
captavam objetos animados, inanimados,
dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
E os mortos acordavam nos caminhos visíveis do ar
quando Jandira penteava a cabeleira...
Depois o mundo desvendou-se completamente,
foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.
E Jandira apareceu inteiriça,
de cabeça aos pés.
Todas as partes do mecanismo tinham importância.
E a moça apareceu com o cortejo do seu pai,
de sua mãe, de seus irmãos.
Eles é que obedecem aos sinais de Jandira
crescendo na vida em graça, beleza, violência.
Os namorados passavam, cheiravam os seios de Jandira
e eram precipitados nas delícias do inferno.
Eles jogavam por causa de Jandira,
deixavam noivas, esposas, mães, irmãs
por causa de Jandira.
E Jandira não tinha pedido coisa alguma.
E vieram retratos no jornal
e apareceram cadáveres boiando por causa de Jandira.
Certos namorados viviam e morriam
por causa de um detalhe de Jandira.
Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira.
Outro, por causa de uma pinta na face esquerda de Jandira.
E seus cabelos cresciam furiosamente com a força das máquinas;
não caía nem um fio,
nem ela os aparava.
E sua boca era um disco vermelho
tal qual um sol mirim.
Em roda do cheiro de Jandira
a família andava tonta.
As visitas tropeçavam nas conversações
por causa de Jandira.
E um padre na missa
esqueceu de fazer o sinal-da-cruz por causa de Jandira.
E Jandira se casou.
E seu corpo inaugurou uma vida nova,
apareceram ritmos que estavam de reserva,
combinações de movimento entre as ancas e os seios.
À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas que repetem
as formas e os sestros de Jandira desde o princípio do tempo.
E o marido de Jandira
morreu na epidemia de gripe espanhola.
E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.
Desde o terceiro dia o marido
fez um grande esforço para ressuscitar:
não se conforma, no quarto escuro onde está,
que Jandira viva sozinha,
que os seios, a cabeleira dela transtornem a cidade
e que ele fique ali à toa.
E as filhas de Jandira
inda parecem mais velhas do que ela.
E Jandira não morre,
espera que os clarins do juízo final
venham chamar seu corpo,
mas eles não vêm.
E mesmo que venham, o corpo de Jandira
ressuscitará inda mais belo, mais ágil e transparente.
(O Visionário)
[In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, pp. 202-203]
O mundo começava nos seios de Jandira.
Depois surgiram outras peças da criação:
surgiram os cabelos para cobrir o corpo,
(às vezes o braço esquerdo desaparecia no caos).
E surgiram os olhos para vigiar o resto do corpo.
E surgiram sereias da garganta de Jandira:
o ar inteirinho ficou rodeado de sons
mais palpáveis do que pássaros.
E as antenas das mãos de Jandira
captavam objetos animados, inanimados,
dominavam a rosa, o peixe, a máquina.
E os mortos acordavam nos caminhos visíveis do ar
quando Jandira penteava a cabeleira...
Depois o mundo desvendou-se completamente,
foi-se levantando, armado de anúncios luminosos.
E Jandira apareceu inteiriça,
de cabeça aos pés.
Todas as partes do mecanismo tinham importância.
E a moça apareceu com o cortejo do seu pai,
de sua mãe, de seus irmãos.
Eles é que obedecem aos sinais de Jandira
crescendo na vida em graça, beleza, violência.
Os namorados passavam, cheiravam os seios de Jandira
e eram precipitados nas delícias do inferno.
Eles jogavam por causa de Jandira,
deixavam noivas, esposas, mães, irmãs
por causa de Jandira.
E Jandira não tinha pedido coisa alguma.
E vieram retratos no jornal
e apareceram cadáveres boiando por causa de Jandira.
Certos namorados viviam e morriam
por causa de um detalhe de Jandira.
Um deles suicidou-se por causa da boca de Jandira.
Outro, por causa de uma pinta na face esquerda de Jandira.
E seus cabelos cresciam furiosamente com a força das máquinas;
não caía nem um fio,
nem ela os aparava.
E sua boca era um disco vermelho
tal qual um sol mirim.
Em roda do cheiro de Jandira
a família andava tonta.
As visitas tropeçavam nas conversações
por causa de Jandira.
E um padre na missa
esqueceu de fazer o sinal-da-cruz por causa de Jandira.
E Jandira se casou.
E seu corpo inaugurou uma vida nova,
apareceram ritmos que estavam de reserva,
combinações de movimento entre as ancas e os seios.
À sombra do seu corpo nasceram quatro meninas que repetem
as formas e os sestros de Jandira desde o princípio do tempo.
E o marido de Jandira
morreu na epidemia de gripe espanhola.
E Jandira cobriu a sepultura com os cabelos dela.
Desde o terceiro dia o marido
fez um grande esforço para ressuscitar:
não se conforma, no quarto escuro onde está,
que Jandira viva sozinha,
que os seios, a cabeleira dela transtornem a cidade
e que ele fique ali à toa.
E as filhas de Jandira
inda parecem mais velhas do que ela.
E Jandira não morre,
espera que os clarins do juízo final
venham chamar seu corpo,
mas eles não vêm.
E mesmo que venham, o corpo de Jandira
ressuscitará inda mais belo, mais ágil e transparente.
(O Visionário)
[In Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, pp. 202-203]
domingo, 5 de agosto de 2012
João Cabral de Melo Neto
A URBANIZAÇÃO DO REGAÇO
Os bairros mais antigos de Sevilha
criaram uma urbanização do regaço
para quem, em meio a qualquer praça,
sente o olho de alguém a espioná-lo,
para quem sente nu no meio da sala
e se veste com os cantos retirados.
Com ruas feitas com pedaços de rua,
se agregando mal, por mal colados,
com ruas feitas apenas com esquinas
e por onde o caminhar fia quadrado,
eles têm abrigos e íntimos de corpo
nos recantos em desvão e esconsados.
Com ruas medindo corredores de casa,
onde um balcão toca o do outro lado,
com ruas arruelando mais, em becos,
ou alargando, mas em mínimos largos,
os bairros mais antigos de Sevilha
criam o gosto pelo regaço urbanizado.
Eles têm o aconchego que a um corpo
dá estar noutro, interno ou aninhado,
para quem torce a avenida devassada
e enfia o embainhamento de um atalho,
para quem quer, quando fora de casa,
seus dentros e resguardos de quarto.
OS VAZIOS DO HOMEM
Os vazios do homem não sentem ao nada
do vazio qualquer: do do casaco vazio,
do da saca vazia (que não ficam de pé
quando vazios, ou o homem com vazios);
os vazios do homem sentem a um cheio
de uma coisa que inchasse já inchada;
ou ao que deve sentir, quando cheia,
uma saca: todavia não, qualquer saca.
Os vazios do homem, esse vazio cheio,
não sentem ao que uma saca de tijolos,
uma saca de rebites; nem têm o pulso
que bate numa de sementes, de ovos.
2.
Os vazios do homem, ainda que sintam
a uma plenitude (gora mas presença)
contêm nadas, contêm apenas vazios:
o que a esponja, vazia quando plena;
incham do que a esponja, de ar vazio,
e dela copiam certamente a estrutura:
toda em grutas ou em gotas de vazio,
postas em cachos de bolha, de não-uva.
Esse cheio vazio sente ao que uma saca
mas cheia de esponjas cheias de vazio;
os vazios do homem ou o vazio inchado:
ou o vazio que inchou por estar vazio.
Poesias Completas (1940-1965), Rio de Janeiro: José Olympio, 1975, pp. 36-37
Sobre João Cabral de Melo Neto
Maria Gabriela Llansol
Saber esperar alguém
Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti -------------------
----------------------------- até que a dor alegre recomece.
In: O começo de um livro é precioso. Assírio & Alvim, 2003.
Extraído de http://poemargens.blogspot.com.br/2012/04/maria-gabriela-llansol.html
__________ se estiveres ausente ( automóvel, comboio, avião, mudança de estação ou de cidade ), compra um papel simples que te comunique e envia-mo pelos meios mais eficazes ao teu alcance, e que te revelem como comprimido a desfazer-se debaixo da língua.
maria gabriela llansol
amigo e amiga
curso de silênco de 2004
assírio & Alvim
2006
Fonte: http://canaldepoesia.blogspot.com.br
Se eu fosse aquela em que tu
«Se eu fosse aquela em que tu
Pensas, a que tu tens amor», dizia
Insistente a canção, à luz daquele
Candeeiro da Belle Époque. Tinha
Oito anos e olhava para o garoto
Sobre o seu supedâneo. Estive para
Dizer «Eu sou aquela em quem tu
Pensas» e estive para não dizer. E se
Tivesse dito? Seria aquele semântico
Tu que sempre me diria. E se dito não
Tivesse? Meu Eu gramatical ficaria
Apenas meu, é certo… mas tão incerto
maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003
Fonte: http://canaldepoesia.blogspot.com.br
Não há mais sublime sedução do que saber esperar alguém.
Compor o corpo, os objectos em sua função, sejam eles
A boca, os olhos, ou os lábios. Treinar-se a respirar
Florescentemente. Sorrir pelo ângulo da malícia.
Aspergir de solução libidinal os corredores e a porta.
Velar as janelas com um suspiro próprio. Conceder
Às cortinas o dom de sombrear. Pegar então num
Objecto contundente e amaciá-lo com a cor. Rasgar
Num livro uma página estrategicamente aberta.
Entregar-se a espaços vacilantes. Ficar na dureza
Firme. Conter. Arrancar ao meu sexo de ler a palavra
Que te quer. Soprá-la para dentro de ti -------------------
----------------------------- até que a dor alegre recomece.
In: O começo de um livro é precioso. Assírio & Alvim, 2003.
Extraído de http://poemargens.blogspot.com.br/2012/04/maria-gabriela-llansol.html
.
maria gabriela llansol / XCII. beirais__________ se estiveres ausente ( automóvel, comboio, avião, mudança de estação ou de cidade ), compra um papel simples que te comunique e envia-mo pelos meios mais eficazes ao teu alcance, e que te revelem como comprimido a desfazer-se debaixo da língua.
maria gabriela llansol
amigo e amiga
curso de silênco de 2004
assírio & Alvim
2006
Fonte: http://canaldepoesia.blogspot.com.br
Se eu fosse aquela em que tu
«Se eu fosse aquela em que tu
Pensas, a que tu tens amor», dizia
Insistente a canção, à luz daquele
Candeeiro da Belle Époque. Tinha
Oito anos e olhava para o garoto
Sobre o seu supedâneo. Estive para
Dizer «Eu sou aquela em quem tu
Pensas» e estive para não dizer. E se
Tivesse dito? Seria aquele semântico
Tu que sempre me diria. E se dito não
Tivesse? Meu Eu gramatical ficaria
Apenas meu, é certo… mas tão incerto
maria gabriela llansol
o começo de um livro é precioso
assírio & alvim
2003
Fonte: http://canaldepoesia.blogspot.com.br
Carlos Drummond de Andrade
GOVERNAR
Os garotos da rua resolveram brincar de Governo, escolheram
o Presidente e pediram-lhe que governasse para o bem de todos.
— Pois não — aceitou Martim. — Daqui por diante
vocês farão meus exercícios escolares e eu assino. Clóvis e mais dois de vocês
formarão a minha segurança. Januário será meu Ministro da Fazenda e pagará o
meu lanche.
— Com que dinheiro? — atalhou Januário.
— Cada um de vocês contribuirá com um cruzeiro
por dia para a caixinha do Governo.
— E que é que nós lucramos com isso? —
perguntaram em coro.
— Lucram a certeza de que têm um bom Presidente.
Eu separo as brigas, distribuo tarefas, trato de igual para igual com os
professores. Vocês obedecem, democraticamente.
— Assim não vale. O Presidente deve ser nosso
servidor, ou pelo menos saber que todos somos iguais a ele. Queremos
vantagens.
— Eu sou o Presidente e não posso ser igual a
vocês, que são presididos. Se exigirem coisas de mim, serão multados e
perderão o direito de participar da minha comitiva nas festas. Pensam que ser
Presidente é moleza? Já estou sentindo como este cargo é cheio de espinhos.
Foi deposto, e dissolvida a
República.
HISTÓRIA MALCONTADA
A HISTÓRIA de Chapeuzinho Vermelho sempre me pareceu mal contada, e não há esperança de se conhecer exatamente o que se passou entre ela, a avozinha e o lobo.
Começa que Chapeuzinho jamais chegaria depois do lobo à choupana da avozinha. Ela vencera na escola o campeonato infantil de corrida a pé, e normalmente não andava a passo, mas com ligeireza de lebre. Por sua vez, o lobo se queixava de dores reumáticas, e foi isto, justamente, que fez Chapeuzinho condoer-se dele.
Estes são pormenores da versão da história, ouvida por Tia Nicota, no começo do século, em Macaé. Segundo ali se dizia, Chapeuzinho e o Lobo fizeram boa liga e resolveram casar-se. Ela estava persuadida de que o lobo era um príncipe encantado, e que o casamento o faria voltar ao estado natural. Seriam felizes, teriam gêmeos. A avozinha opôs-se ao enlace e houve na choupana uma cena desagradável entre os três. O lobo não era absolutamente príncipe, e Chapeuzinho, unindo-se a ele, transformou-se em loba perfeita, que há tempos ainda uivava à noite, nas cercanias de Macaé.
HISTÓRIAS PARA O REI
Nunca podia imaginar que fosse tão agradável a função de contar histórias, para a qual fui nomeado por decreto do Rei. A nomeação colheu-me de surpresa, pois jamais exercitara dotes de imaginação, e até me exprimo com certa dificuldade verbal. Mas bastou que o Rei confiasse em mim para que as histórias me jorrassem da boca à maneira de água corrente. Nem carecia inventá-las. Inventavam-se a si mesmas.
Este prazer durou seis meses. Um dia, a Rainha foi falar ao Rei que eu estava exagerando. Contava tantas histórias que não havia tempo para apreciá-las, e mesmo para ouvi-las. O Rei, que julgava minha facúndia uma qualidade, passou a considerá-la defeito, e ordenou que eu só contasse meia história por dia, e descansasse aos domingos. Fiquei triste, pois não sabia inventar meia história. Minha insuficiência desagradou, fui substituído por um mudo, que narra por meio de sinais e arranca os maiores aplausos.
(Contos Plausíveis)
In POESIA E PROSA, Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguilar, 1992, 1268-1269
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Fernando Paixão
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