segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Ximena Gómez

A CASA
branca, na encosta da colina,
etérea,
como que suspensa no ar.
A casa,
as estâncias em ruínas
com espelhos sem reflexo
onde não podia olhar-me.
A casa,
a trilha de saída

sobre o declive
era tão incerta
como o traço de um sopro
no ar.

A casa. Ventre.
Estava atada a essa entranha.
Sair dela
era um salto para a morte.
A casa,
A que uma vez nos deixaste, pai.


Fonte: [http://poetasyescritoresmiami.com/2011/10/12/poema-la-casa-%C2%A9-por-ximena-gomez/]

Tradução do espanhol: Antonio Damásio e José Pires


Sobre a autora: Ximena Gómez nasceu na Colômbia. Seu interesse pela literatura surgiu na infância das leituras compartilhadas com seu pai. Desde então ama As Mil e Uma Noites, as rimas de  Mother Goose, e as histórias fantásticas e humorísticas que povoavam os livros de sua meninice. Estudou psicologia e, ao graduar-se, começou a participar de cursos de literatura infantil e de motivação à escrita criativa para crianças e adolescentes. Depois ela mesma produziu e disponibilizou oficinas para crianças e professores sobre literatura fantástica. Na Colômbia trabalhou em universidades e escreveu artigos sobre literatura, literatura fantástica e técnicas de história para crianças.  

domingo, 2 de setembro de 2012

Miodrag Pávlovitch

INVERNO DE CONCEITOS ANTIGOS
Hoje o sol varou o tempo frio, porém
cortinas se erguem, resta a geada, o vento
balouça, brotam cristas de fumaça
ao sul, acordamos depois de muito tempo
sem crimes cometidos em sonho, mas não
sem o sentimento de culpa, o olhar vagueia
incapaz de centrar-se em algo interior,
não é o momento de colocar a questão da alma,
estamos distantes do som que confirma a presença da alma,
o profano ocupou muitos pontos eminentes,
será que isso significa que a santidade se coalhou
que em outro lugar qualquer ocupou colônias
em continente em que não temos embaixador
e o que mais se pode tomar aos antigos conceitos.
O olhar descobre as estações do ano menos os prismas
cujos cortes seriam reflexo de um outro mundo
precedido de virgens carregadas de luz
e conhecimento teológico que não se pode negar.
Onde está agora o lugar do canto do galo
para o início do banquete na floresta na presença de gigantes
selvagens famintos exilados do tempo
que somente confiam naquela hospitalidade de outrora
quando Abraão e a mulher receberam os anjos.
O espírito doméstico ecoa o vazio
e nem mesmo assim pode se afirmar que inexista para sempre 
talvez tenha permanecido apenas o pressentimento 
de que cada um de nós esteve no mundo da orgia e ficou 
enredado (em sua coroa) também com a respiração monocorde dela
ainda que não se tenha demonstrado a imobilidade
daquilo que se denominava “ser” nem é
certo que o espírito paire acima de nós como um polvo.
O vazio em que conceitos antigos habitam é visível
e cada vazio que deixaram é túmulo
sobre o qual o homem reza pela ressurreição geral.

[Miodrag Pávlovitch, Poetas do Mundo, Bosque da Maldição, Seleção, introdução e traduçãoAleksandar Jovanovic, Brasília: Editora UNB, 2003, p. 27-29]

sábado, 1 de setembro de 2012

Hilda Hilst


XLI
Faremos deste modo
Para que as mãos não cometam
Os atos derradeiros:

Envolveremos as facas e os espelhos
Nas lãs dobradas, grossas.
E de alongadas nódoas, o ressentimento.

Pintadas as caras num matiz de gesso
Recobriremos corpo, carne
Na tentativa cálida, multiforme
Na rubra pastosidade

De um toque sem sofrimento.

E afinal
Cara a cara (espelho e faca)
De nossas duplas fomes
Não diremos.

XLII
As barcas afundadas. Cintilantes
Sob o rio. E é assim o poema. Cintilante
E obscura barca ardendo sob as águas.
Palavras eu as fiz nascer
Dentro da tua garganta.
Úmidas algumas, de transparente raiz: 
Um molhado de línguas e de dentes.
Outras de geometria. Finas, angulosas 
Como são as tuas
Quando falam de poetas, de poesia.

As barcas afundadas. Minhas palavras.
Mas poderão arder luas de eternidade.
E doutas, de ironia as tuas 
Só através da minha vida vão viver.

(Do Amor, Massao Ohno Editor: São Paulo, 1999, pp. 50-51)

Paulo Leminski

NOMES A MENOS 
    Nome mais nome igual a nome,
uns nomes menos, uns nomes mais.
    Menos é mais ou menos,
nem todos os nomes são iguais.

    Uma coisa é a coisa, par ou ímpar,
outra coisa é o nome, par e par,
    retrato da coisa quando límpida,
coisa que as coisas deixam ao passar.

    Nome de bicho, nome de mês, nome de estrela,
nome dos meus amores, nomes animais,
    a soma de todos os nomes,
nunca vai dar uma coisa, nunca mais.

    Cidades passam. Só os nomes vão ficar.
Que coisa dói dentro do nome
    que não tem nome que conte
nem coisa pra se contar?


VOLTA EM ABERTO 
    Ambígua volta
em torno da ambígua ida,
    quantas ambiguidades
se pode cometer na vida?
    Quem parte leva um jeito
de quem traz a alma torta.
    Quem bate mais na porta?
Quem parte ou quem torna?

Paulo Leminski, Col. Melhores Poemas, Sel. Fred Góes e Álvaro Martins, 6a. ed., São Paulo: Global, 2002, pp. 118-119




quinta-feira, 30 de agosto de 2012

Mariana Ianelli

O ENREDO DO CÃO
Nenhuma oração foi necessária
Para dizer como tua angústia se pôs nua,
De coxas nuas, desnutridas e surradas.
De quanta monotonia este enredo é feito
Que prevê a escuridão das tropas de combate
Mas não lamenta a tua consciência enfraquecida,
Teu brilho moreno se apagando,
Porque maior é o repouso do corpo, e mais precioso,
Quando o sangue já se esvaiu desperdiçado ...
De quanta sabedoria este enredo é feito
Que restaura um exército de sua culpa e sua couraça
E desenrola a bandeira da trégua sobre ti
No instante em que nada mais te contentava ...

Ter o sono brutal será também teres te apagado um pouco,
Mas afinal toda vida que fulgura, para fulgurar consome.


Nas galerias ocultas do medo eu me contive,
Não ousaria elevar meu grito de inocência.
Tantas vezes ostentei os meus cuidados
Em conservar o rebanho e os campos de trigo
Como se todos habitassem um só corpo
Que a ocasião da felicidade protegesse
E foi num sopro que acabei exterminado,
Vivendo entre a espada, o luto e uma elegia.
O pastoreio que difundia minha glória pelos montes
Não perdurou como eu imaginava,
Um fenômeno tenebroso vingou sobre minha fé
E o caos no céu encobriu as minhas idades.
Para mim estava aberto um só atalho
Onde os desenganados jamais dormem,
Uma confusão de braseiro, infâmia e dissonância
Que fui obrigado a tolerar desde o princípio
Sob o pavor de uma tragédia ainda mais dura
Que me dobrasse em partes irreconciliáveis,
Perdidas do eixo do meu peito manso,
Perdidas da minha condição elementar de humanidade.
Eu não sabia que um argumento verdadeiro é pouco
Se avaliado dentro de um extenso jogo de discursos,
Não compreendia as armadilhas do fogo,
Nem carecia de um motivo para cantar.
Fui um dos imprestáveis que devolveu a carne à orgia,
Que se hospedou na cave das madonas libertinas,
E não por divertimento ou bizarria,

Mas porque a invalidez havia me assaltado até a vertigem
E todo brilho de areia que por ventura eu entrevisse
Emanava para mim de alguma aurora doentia.
Hoje sou o errante que civiliza o vácuo.
Tenho olhos que miram a exuberância da erva-doce
Mas dela só enxergam um grosso punhado de sarça.
Um rival entre os parentes,
Qualquer anônimo dentro do meu pesadelo,
Os braços da fome emergindo dos meus panos,
Imundice que desperta de um puro sentimento,
O revés da alma, antes meu conteúdo imenso,
Seiva subindo pelo organismo, seiva descendo,
Uma caça devorada pelo abutre, ainda quente,
Estas ruínas que transporto inutilmente.
Nem promessa de luz, nem melancolia:
Um fantasma já não medita sobre o seu tempo.
Enquanto limpo o meu terreno do joio,
O maldito se aproxima, muito cavalheiresco,
E com as patas em torno do cabo da forquilha
Ele sugere me ajudar com o arado.
Eu me pergunto se acaso este veneno
Que se espalha com perigosa lentidão
Descerá tão fundo ao limite da inclemência
Até me transformar num vadio
A quem nada importa ter-se habituado à desgraça.
As idéias que antigamente me agitavam
Não produzem mais nenhum brilho exultante
Porque a minha prisão neste lugar do Oriente
Contesta toda possibilidade de amor

E induz qualquer pequeno gesto de brandura ao ódio.
De outrora só restou a matriz do indivíduo
Que disseminava aos ventos o seu afinco,
Sua identidade missionária e sua completa retidão.
As regalias da serenidade,
A juventude na orla viçosa dos campos,
O fruto do labor amealhado por anos,
Tudo se pulverizou com a minha queda.
Temo pela evasão do pensamento lúcido,
Eu enfraqueço tão apressadamente,
Coberto de humilhações, aleijado.
Quase permito que o corvo encontre em mim
Um porto para a sua miséria peregrina.
No entanto, estes membros são todos nudez,
Por nenhuma contenda eu pegaria em armas:
A minha razão é a singular vara da batalha.
Já não peço o contrário desta noite - eu silencio.
Venham os comandos dianteiros da artilharia,
A chuva insurgente de invernada, o seu granizo,
Caiam todos sobre mim: eu subsisto.
Não devo profanar as minhas conquistas, se as perdi,
Nem temer se me reduzem a um insensato que delira.
Porque suportei o incêndio e a sangria
E foram mensagens torturantes que aceitei,
Sem por isso professar a minha nostalgia,
Porque me deitei no pó e ali me calei por sete dias,
Mereço encurtar as fronteiras do destino:
- Este é o meu único pedido.

Do livro Passagens, São Paulo: Iluminuras, 2003, pp. 19-23.





Guimarães Rosa


EXCERTO DE GRANDE SERTÃO: VEREDAS
De primeiro, eu fazia e mexia, e pensar não pensava. Não possuía os prazos. Vivi puxando difícil de dificel, peixe vivo no moquém: quem mói no asp’ro, não fantaseia. Mas, agora, feita a folga que me vem, e sem pequenos desassossegos, estou de range rede. E me inventei neste gosto, de especular idéia. O diabo existe e não existe? Dou o dito. Abrenúncio. Essas melancolias. O senhor vê: existe cachoeira; e pois? Mas cachoeira é barranco de chão, e água se caindo por ele, retombando; o senhor consome essa água, ou desfaz o barranco, sobra cachoeira alguma? Viver é negócio muito perigoso...

Explico ao senhor: o diabo vige dentro do homem, os crespos do homem – ou é o homem arruinado, ou o homem dos avessos. Solto, por si, cidadão, é que não tem diabo nenhum. Nenhum! – é o que digo. O senhor aprova? Me declare tudo, franco – é alta mercê que me faz: e pedir posso, encarecido. Este caso – por estúrdio que me vejam – é de minha certa importância. Tomara não fosse... Mas, não diga que o senhor, assisado e instruído, que acredita na pessoa dele?! Não? Lhe agradeço! Sua alta opinião compõe minha valia. Já sabia, esperava por ela-já o campo! Ah, a gente, na velhice, carece de ter sua aragem de descanso. Lhe agradeço. Tem diabo nenhum. Nem espírito. Nunca vi. Alguém devia de ver, então era eu mesmo, este vosso servidor. Fosse lhe contar... Bem, o diabo regula seu estado preto, nas criaturas, nas mulheres, nos homens. Até: nas crianças – eu digo. Pois não é ditado: “menino – trem do diabo”? E nos usos, nas plantas, nas águas, na terra, no vento... Estrumes.
... O diabo na rua, no meio do redemunho...


In Grande Sertão: Veredas, Ficção Completa em dois volumes, Volume II, Rio de Janeiro: Ed. Nova Aguillar, 1994, pp. 6-7




Cecília Meireles

MULHER ADORMECIDA
Moro no ventre da noite: 
sou a jamais nascida.
E a cada instante aguardo vida.

As estrelas, mais o negrume
são minhas faixas tutelares, 
e as areias e o sal dos mares.

Ser tão completa e estar tão longe! 
Sem nome e sem família cresço, 
e sem rosto me reconheço.

Profunda é a noite onde moro.
Dá no que tanto se procura.
Mas intransitável, e escura.

Estarei um tempo divino 
como árvore em quieta semente, 
dobrada na noite, e dormente.

Até que de algum lado venha 
a anunciação do meu segredo 
desentranhar-me deste enredo,

arrancar-me à vagueza imensa, 
consolar-me deste abandono, 
mudar-me a posição do sono.

Ah, causador dos meus olhos, 
que paisagem cria ou pensa 
para mim, a noite densa?
(Mar Absoluto e outros poemas)

PRELÚDIO
Que tempo seria, 
ó sangue, ó flor, 
em que se amaria 
de amor.

Pérolas de espuma, 
de espuma e sal.
Nunca mais nenhuma 
igual.

Era mar e lua: 
minha voz, mar.
Mas a tua. . . a tua,
luar!

Coroa divina 
que a própria luz 
nunca mais tão fina 
produz.

Que tempo seria, 
ó sangue, ó flor, 
em que se amaria 
de amor!
(Mar Absoluto e outros poemas)

In: Obra Poética, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983, pp. 238-239




Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...