sexta-feira, 5 de outubro de 2012

Renata Pallottini

CORAÇÃO AMERICANO
1976

“Coração Americano um sabor de vidro e corte.” (Fernando Brant)

Aos meus companheiros de sala Almino Affonso e Plinio Arruda Sampaio

1

Tombou sobre as cúpulas
sem forma
aos poucos penetrando com suas cinzas
as pedras e os beirais e as próprias pombas
foi tomando de úmido
o que era só frio
pois pelo alto chegava
e quase de repente os vitrais embaçava
foi colhendo pessoas
pálidas e com olhos de fadiga
e as foi cercando com seus braços grossos
que se diluíam e de novo condensavam
armas daninhas de nenhuma identidade
mas incansáveis
e fomos vendo que ninguém nos salva
fomos sentindo que este peso é muito
que não somos capazes
Senhor faz de nós qualquer coisa
alguma coisa que seja tua para sempre
que te pertença
qualquer coisa menos isto que agora calados somos:
gente com medo.

2

Estamos todos cansados
É de tarde e o céu escuro cai
o chão de asfalto pesa
temos amigos
é como se pudéssemos falar
e como se pudéssemos sorrir
Mas já não sabemos nada
Um grande dedo aponta direção desconhecida
Estamos perdidos
e muito cansados
Os amigos consultam-se com olhares
as palavras são curtas e a angústia
muita
Nem a música pode o que podia
Vemos os quadros azuis e por vezes o mármore
olhamos o campo verde emoldurando cinzas
estamos aqui calados olhando e tristes
e duramente e infinitamente
cansados
Quem há de delatar
quem há de resistir por forte e quem
sucumbirá depois de algumas lágrimas?
Quem será traidor quem o herói
a quem havemos de encontrar um dia
marcado a ouro na rua?
Quem está degradado em seu ofício
quem desterrado e puro
a quem enviaremos nossas cartas cifradas?
Para quem os cifrões?

3

Todos partiram:
os que liam
e os que escreviam.
Os que sorriam
e os que calculavam.
Os que brilhavam 
e os sofriam.
Todos foram de partida.
Mudou-se a vida.
Hoje estão vivos
os que se calam.
Os que concordam que estão concordes.
Quando se acorda
mandam dormir
quem nos acorda.
Partiram os que cantavam
e os que cantando despertavam.
Partiram os que falavam
e os que falando explicavam.
Partiram os que lidavam
com brinquedos de palavras;
e os que brincando ensinavam.
Partiram. E no entanto
havendo gente de menos
o mundo ficou mais apertado.

4

Ficção científica.
Faz um livro de ficção científica e esquece.
Telenovela.
Escreve logo uma telenovela.
E esquece.
Introspecção.
Faz a introspecção e a masturbação.
E esquece.
Resistência carnavalesca.
Entra no campeonato
bebe e esgota o peito
canta e seca o hálito
e cai na rua como um trapo.
E esquece.

5

Aos poucos o homem fraqueja
e lentamente agoniza
antes da sepultura.
Seu epitáfio é composto,
longamente meditado
muito antes de feito o túmulo.
Outros homens, como a estátua
que ornamentará seu leito,
fazem sua morte.
E muito antes,
como a fizeram, precisos,
sua vida determinaram.
E o homem adormece
sem nunca haver suspeitado,
sem haver lutado nunca.

6  (VALLEGRANDE)*

Nas verdes colinas há um silêncio de morte.
Entre árvores, pássaros, moradas
um silêncio que veio se acomoda.
Surgem as fontes de água,
caminhos de homens sós, passos, picadas,
entre pássaros, fontes, emboscadas.
Nas montanhas mais verdes a morte está plantada
e o céu que ali se estende não se estende por nada.
Se alguém ali morreu, pouco importa quem seja:
foi um homem quem morreu com seus olhos de estrelas,
sua barba e seus cabelos, sua boca e seus desejos.
Um homem morto apenas e não morto por nada
entre árvores, pássaros, fontes, emboscadas,
a caminho das últimas, indistintas moradas.

In: Obra Poética, Editora Hucitec: São Paulo, 1995, pp. 195-198


O PÃO AMARGO

"Ela foi sentar-se em frente dele a boa distância,
como a de um tiro de arco;
pois disse:
que não veja eu a morte do menino.
Sentada em frente dele,
levantou sua voz e chorou."
Gênesis, 21,16

O pão amargo e a água consumada
do odre seco em cáustico deserto;
sob o mirrado arbusto a esquiva sombra
se nega pela areia e é como um rastro.

Sem planta fresca, a fruta apetecida
traz a longínqua fixação do incerto;
quando a brasa arenosa for alfombra
tornar-se-á carícia o fogo do astro.

Para a criança adormecida ao braço
o olhar alonga, e faz como se fosse
para nos olhos tê-la, traço a traço.

Lembrando a noite aquela e a face gêmea
que lhe roçara a face em mágoa doce,
a escrava chora a condição de fêmea.

Fonte: Jornal de Poesia e Fonte: Itaú Cultural

Copiado de www.vermelho.org.br

* Vallegrande, segundo a Wikipedia, é uma cidade da Bolívia localizada no departamento de Santa Cruz. No censo realizado em 2001 possuia 7.793 habitantes. Vallegrande foi fundada em 30 de Março de 1612 pelo ruralista Lucio Escalante. Vallegrande, originalmente, tinha como nome "Jesús y Montes Claros de los Caballeros". A cidade se tornou mundialmente famosa porque nela foi achada a ossada do revolucionário Ernesto Che Guevara em 1997. Além disso, a cidade está bastante próxima de onde o grupo guerrilheiro de Che se estabeleceu em 1960 e perto de onde Ernesto teria sido morto.

Saiba mais sobre a grande intelectual brasileira Renata Pallottini




quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Clarice Lispector

7 de junho de 1969

O QUE É O QUE É?
Se recebo um presente dado com carinho por pessoa de quem não gosto — como se chama o que sinto? Uma pessoa de quem não se gosta mais e que não gosta mais da gente — como se chama essa mágoa e esse rancor? Estar ocupado, e de repente parar por ter sido tomado por uma desocupação beata, milagrosa, sorridente e idiota — como se chama o que se sentiu? O único modo de chamar é perguntar: como se chama? Até hoje só consegui nomear com a própria pergunta. Qual é o nome? e este é o nome.

A NOITE MAIS PERIGOSA
Juro, acredite em mim — a sala de visitas estava escura — mas a música chamou para o centro da sala — uma coisa acordada estava ali — a sala se escureceu toda dentro da escuridão — eu estava nas trevas — senti que por mais escura a sala era clara — agasalhei-me no medo — como já agasalhei de ti em ti mesmo — que foi que encontrei? — nada senão que a sala escura enchia-se de uma claridade que não iluminava — e que eu tremia no centro dessa difícil luz — acredita em mim embora seja difícil explicar — sou alguma coisa perfeita e graciosa — como se eu nunca vira uma flor — e com medo pensei que aquela flor é a alma de quem acabara de morrer — e eu olhava aquele centro iluminado que se movia e se deslocava — e a flor me impressionava como se houvesse uma abelha perigosa rondando a flor — uma abelha gelada de pavor — diante da irrespirável graça desse bruxuleio que era a flor — e a flor depois ficava gelada de pavor diante da abelha que era muito doce das flores que ela no escuro chupava — acredita em mim que não entendo — um rito fatal se cumpria — a sala estava cheia de um sorriso penetrante — tratava-se apenas de um esbranquiçar das trevas — não ficou nenhuma prova — nada te posso garantir — eu sou a única prova de mim — e assim te explico o que os outros não entendem e me põe no hospital — não entendo que se possa ter medo de uma rosa — experimentaram com violetas que eram mais delicadas — mas tive medo — tinha cheiro de flor de cemitério — e as flores e as abelhas já me chamam — não sei como não ir — na verdade eu quero ir — não lamente a minha morte — já sei o que vou fazer e aqui mesmo no hospital — não será suicídio, meu amor, amo demais a vida e por isso nunca me suicidaria, vou mas é ser a claridade móvel, sentir o gosto de mel se eu for designada para ser abelha.

DO MODO COMO NÃO SE QUER A BONDADE
Y com sua enorme inteligência compreensiva, dedicando-se a não ser humana, no sentido em que ser humana é também ter violências e defeitos. Dedica-se a compreender perdoando os outros. Aquele coração está vazio de mim porque precisa que eu seja admirável. Todos recorrem a ela quando estão com algum conflito e ela, “a consoladora oficial”, en­tende, entende, entende. Minha grande altivez: preciso ser achada na rua.

MAS JÁ QUE SE HÁ DE ESCREVER...
Mas já que se há de escrever, que ao menos não esmaguem as palavras nas entrelinhas.

In: A Descoberta do Mundo, 1984, pp. 300-302



quarta-feira, 3 de outubro de 2012

Maria do Rosário Pedreira

ESTA MANHÃ ENCONTREI O TEU NOME
Esta manhã encontrei o teu nome nos meus sonhos
e o teu perfume a transpirar na minha pele. E o corpo
doeu-me onde antes os teus dedos foram aves
de verão e a tua boca deixou um rasto de canções.

No abrigo da noite, soubeste ser o vento na minha
camisola; e eu despi-a para ti, a dar-te um coração
que era o resto da vida - como um peixe respira
na rede mais exausta. Nem mesmo à despedida

foram os gestos contundentes: tudo o que vem de ti
é um poema. Contudo, ao acordar, a solidão sulcara
um vale nos cobertores e o meu corpo era de novo
um trilho abandonado na paisagem. Sentei-me na cama

e repeti devagar o teu nome, o nome dos meus sonhos,
mas as sílabas caíam no fim das palavras, a dor esgota
as forças, são frios os batentes nas portas da manhã.

Sobre Maria do Rosário Pedreira

terça-feira, 2 de outubro de 2012

Joaquim Pessoa

É um barco e uma pedra.
É a pedrada no charco.
É o orvalho na erva.
É a bandeira. É o arco.
É a chuva. É o outono.
É a sopa de hortelã.
É o cão que não tem dono.
É o bicho da maçã.
O tempo que está mudado.
É o orgulho nacional.
É a balada. É o fado.
A galinha no quintal.
O carneiro a remoer
as hortênsias da avenida.
É o silêncio a bater
numa vidraça partida.
É o ódio que nos cega.
É o braço que se estende.
O discurso. A cabra-cega.
É o homem que se vende.
É o peito que não pára
de apertar o coração.
É a comida mais cara.
É a cara contra o chão.
É a semente na terra.
É o trigo na seara.
É uma arma de guerra.
É a raiva que dispara.
É o lobo que devora
as canelas da poesia.
É o momento. É a hora
de estrangular a alegria.
É a videira. É o vinho.
É o copo de amargura.
É a santa da Ladeira.
São as raias da loucura.
É o tejo que se embala
num cacilheiro doente.
É o desejo que estala.
É o buraco no dente.
É o dinheiro. É o juro.
O amor em percentagem.
É o passado e o futuro.
É uma questão de coragem.
É o que sobra. É a falta.
É o emprego decente.
É a amizade da malta.
É a ternura da gente.
É a mulher que pariu.
É o filho que se fez.
É a corda e o rastilho.
É o sarilho outra vez.
É o mapa desenhado
sobre as costelas partidas.
É o sorriso emprestado.
A hipoteca das vidas.
É a mágoa registada.
É a patente do medo.
É a cultura enlatada.
É o drama sem enredo.
É o rugido da fera.
É o marquês de pombal.
O cravo na primavera.
Uma prenda de Natal.
É o azul. É o vício.
É a carga de porrada.
É a cara do polícia.
É a liamba fumada.
O ministro que promete
que amanhã irá chover.
O desenho na retrete
para toda a gente ver.
É a dança. É o marasmo.
A paragem do autocarro.
É atingir o orgasmo
com o fumo de um cigarro.
É chamar nomes à mãe
do tipo que está ao lado
e responder a alguém
Eu estou bem, muito obrigado!

de Português Suave, 1979 - incluído em Amor Combate, Litexa, 1985

Sobre Joaquim Pessoa

segunda-feira, 1 de outubro de 2012

Manuel Bandeira

ORAÇÃO A SANTA TERESINHA DO MENINO JESUS
Perdi o jeito de sofrer.
Ora essa.
Não sinto mais aquele gosto cabotino da tristeza.
Quero alegria!
Me dá alegria,Santa Teresa!
Santa Teresa não, Teresinha...Teresinha... Teresinha...
Teresinha do Menino Jesus.
Me dá alegria!
Me dá a força de acreditar de novo
No Pelo Sinal
Da Santa Cruz!
Me dá alegria!
Me dá alegria,Santa Teresa!...Santa Teresa não, Teresinha...
Teresinha do Menino Jesus.

domingo, 30 de setembro de 2012

Miodrag Pávlovitch

PACIFICAÇÃO
Nas trevas
uma abelha
perfura os olhos
do moribundo

O cego
ergue as mãos
o punho recende
a flor

Um sol miúdo
ingressa pela porta
Sangue escorre pelo vidro

Aviso
aos que enxergam longe

(Bosque da Maldição, 2003, trad. Aleksandar Jovanovic)

sábado, 29 de setembro de 2012

Cecília Meireles

EVELYN
Não te acabarás, Evelyn.

As rochas que te viram são negras, entre espumas finas;
sobre elas giram lisas gaivotas delicadas,
e ao longe as águas verdes revolvem seus jardins de vidro.

Não te acabarás, Evelyn.

Guardei o vento que tocava
a harpa dos teus cabelos verticais,
e teus olhos estão aqui, e são conchas brancas,
docemente fechados, como se vê nas estátuas.

Guardei teu lábio de coral róseo
e teus dedos de coral branco.
E estás para sempre, como naquele dia,
comendo, vagarosa, fibras elásticas de crustáceos,
mirando a tarde e o silêncio
e a espuma que te orvalhava os pés.

Não te acabarás, Evelyn.

Eu te farei aparecer entre as escarpas,
sereia serena,
e os que não te viram procurarão por ti
que eras tão bela e nem falaste.

Evelyn! — disseram-me, apontando-te entre as barcas.

E eras igual a meu destino:

Evelyn — entre a água e o céu.
Evelyn — entre a água e a terra.
Evelyn — sozinha — entre os homens e Deus.

In: Obra Poética, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1983, pp. 244-245

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...