quarta-feira, 31 de outubro de 2012

Marly de Oliveira


IX
A Carlos Drummond de Andrade
Poeta do finito e do infinito,
tempo presente e ausente e do futuro,
de tudo um pouco te ficou na austera
concepção de vida, ó demiurgo
da memória, do sonho, do sarcasmo,
da violência contida e sem triunfo,
da doçura do hóspede secreto
de si mesmo
rebentando-se em dor, amor, soluço;
que te dizer no dia abençoado,
eu que nem sei de mim, eu que me sei
agora remetida à tua lição
de dançarino aflito sobre os fios
finos, tênues e tensos da canção?

O pórtico arruinou-se de meu sonho,
a tristeza infantil revigorou-se;
meu canto não celebra o que interpreta
na inspeção, de que falas, dolorosa
do deserto.
Já não saúdo ao jeito natural
de quem sabia adormecer crianças.
O sino toca e não percebo: falta
a malícia das coisas, a aliança
secreta com o que existe.
Ó meu jovem poeta,
não te consome o tempo irreverente:
és a mina de tudo o que ainda anima
a aceitação difícil do mistério, 
a solércia dos mitos que o amor 
vai criando de forma insidiosa.

Atento te debruças sobre a vida, 
assistes impassível ao desmonte 
e ao recriar-se, franco, cada dia, 
de um céu mofino, um tempo de pesares. 
Mas de tal modo, poeta, 
extraordinária
é a tua percepção do que se vive, 
que nem te rapta o sonho, 
nem te perde a obscura realidade.
Pairas, tranqüilo, sobre as coisas, 
herdeiro penseroso do milagre. 

X
A Carlos Drummond de Andrade
Meu poeta querido: 
os tempos são ruins, a vida pesa, 
reina por todo lado a forma imperativa 
da mentira e do engano.
Estou só como nunca, de tal forma 
envolvida fui numa trama antiga, 
que ora morta me tem e separada 
até de mim.

Não sei bem que dizer-te neste dia,
senão que meu amor não muda com a mudança
de tudo.
O que me salva é a fé que tenho em mim, 
em ti,
na tua Obra, altíssima entre todas, 
no livro que acabei de traduzir, 
na lembrança de Borges, que aceitou 
a cegueira dos olhos, que lhe impede 
a leitura de uns livros, que só eles 
compensam nossa faina de existir.

O resto não tem nome, é só a fúria 
de perceber o dano
que atinge o entendimento e nos destrói 
a esperança, a certeza, a confiança 
que se depôs no amor, que era tão pouco, 
no anel, que era só vidro 
e se quebrou.
No entanto, aqui estou,
no dia de teus anos proclamando
que apesar dos pesares, dos desmandos,
do tempo que inaugura novos tempos
de desentendimento
e luta,
que o canto me consola se me vem 
com a inocência cruel da tua chama dizer
que se te sai da boa ensimesmada
é porque a brisa o trouxe e o leva a brisa. 
Mas neste poema eu sou quem te visita 
e te traz a certeza de um afeto, 
que antes cresce com o tempo que declina, 
contrariamente à lei que rege a vida, 
e a lição renovada de teus livros, 
que quanto passa o tempo mais entendo.

Marly de Oliveira, Aliança, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1978, pp; 25-28

Tributo ao mineiro Carlos Drummond de Andrade, no dia em que faria 110 anos!



Rainer Maria Rilke

HORA GRAVE
Quem agora chora em algum lugar do mundo,
Sem razão chora no mundo,
Chora por mim.

Quem agora ri em algum lugar na noite,
Sem razão ri dentro da noite,
Ri-se de mim.
Quem agora caminha em algum lugar no mundo,
Sem razão caminha no mundo,
Vem a mim.
Quem agora morre em algum lugar no mundo,
Sem razão morre no mundo,
Olha para mim.

[Tradução: Paulo Plínio Abreu]


terça-feira, 30 de outubro de 2012

Daniel Lima


Não sobra nada. Tudo já está repartido,
distribuído, possuído, ocupado.
Nada está mais livre para ninguém.
E ninguém é mais livre para nada. Nem
maio sobra; nem julho; nem setembro.
Por onde anda a primavera que, aliás,
nunca vi passando por aqui? O luar
está em perigo e os namorados nem se advertem
disto, porque talvez nem saibam
mais amar. Pois não sobra amor nenhum também.

E se alguma coisa sobrar, que é que
iremos fazer com ela? Num mundo assim
sem tempo e sem lugar para nada, que iremos
fazer com o que sobrar das nossas lembranças?

Daniel Lima, Poemas, Recife: Cepe, 2011, p. 239

segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Gastão Cruz

NAO CANTES O MEU NOME EM PLENO DIA
Não cantes o meu nome em pleno dia
não movas os seus ásperos motivos
sob a luz dolorosa sob o som
da alegria

Não movas o meu nome sob as tuas
mãos molhadas do choro doutros dias
não retenhas as sílabas caídas
do meu nome da tua boca extinta

Não cantes o meu nome a primavera
já o ameaça hoje principia
a vida do meu nome não o cantes
com a tua alegria.

In Os nomes, Imagem da Linguagem, Assírio & Alvim, 1974

Fonte: Poesia e prosa no sapo.pt

Sobre Gastão Cruz

domingo, 28 de outubro de 2012

Clarice Lispector

ÂNGELA.- Continuei a andar pela cidade à toa. Na praça quem dá milho aos pombos são as prostitutas e os vagabundos — filhos de Deus mais do que eu. Eu dou milho para você, meu amor. Eu, prostituta 
e vagabunda. Mas com honra, minha gente, com minha homenagem aos pombos. Que vontade de fazer uma coisa errada. O erro é apaixonante. Vou pecar. Vou confessar uma coisa; às vezes, só por brincadeira, minto. Não sou nada do que vocês pensam. Mas respeito a veracidade: sou pura de pecados.
Música de órgão é demoníaca. Quero minha vida acompanhada, como com irmãs gêmeas, de música de órgão. Só que dá medo. Música funeral? Não sei bem, estou um pouco fora de órbita.
Hoje matei um mosquito. Com a mais bruta das delicadezas. Por quê? Por que matar o que vive? Sinto-me uma assassina e uma culpada. E nunca mais vou esquecer esse mosquito. Cujo destino eu tracei. A grande matadora. Eu, como um guindaste, a lidar com um delicadíssimo átomo. Me perdoe, mosquitinho, me perdoe, não faço mais isso. Acho que devemos fazer coisa proibida — senão sufocamos. Mas sem sentimento de culpa e sim como aviso de que somos livres.
Eu sou o meu próprio espelho. E vivo de achados e perdidos. É o que me salva. Estou metida numa guerra invisível entre perigos. Quem vence? Eu sempre perco.
AUTOR.- Ângela é muito provisória.
ÂNGELA.- Eu não chego a me compreender não. É fumaça nos meus olhos, é telefone ocupado, é unha quebrada no meio, risco de giz no quadro negro, é nariz entupido, é fruta de repente podre, é cisco no olho, é pontapé no traseiro, é pisadela no calo do pé, é alfinete furando o dedo delicado, é injeção de Novocaína, é cusparada no meu rosto. Sou uma atriz perfeita.
AUTOR.- Gazela doida que é.

In Um Sopro de Vida (Pulsações), Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 4a. ed, 1978, pp. 62-63

sábado, 27 de outubro de 2012

Augusto Frederico Schmidt

A POESIA CHEGOU
Ó demônios que em mim tendes guarida,
Ó abismos escuros e traiçoeiros,
Que me chamais e que me seduzis:
Vede, aqui estou perdido na Poesia!

Vede, mal não chegou, e nela eu fico,
Como o ser natural nos seus domínios,
Como o pássaro no ar e os peixes nágua,
Como o ente amoroso em seus amores.

Vede, a Poesia em mim, me transfigura,
E vós, tredos abismos e demônios,
Vosso poder perdeis, de vós me aparto.

E o que tanto a minha alma seduzia,
Nada mais pode, nada mais encanta,
Quando a Poesia vem e me reclama. 


Coleção Melhores Poemas, seleção de Ivan Marques, Global Editora: São Paulo, 2010, p. 122

quinta-feira, 25 de outubro de 2012

Rainer Maria Rilke

Estou nas trevas, como cego.
Meu olhar não encontra teu caminho.
O frenesi enlouquecido dos dias
é uma cortina que te esconde de mim.
Eu a observo: subirá
essa cortina que esconde minha existência,
o peso de minha vida e seu sentido.
E que é na verdade minha morte.

A Lou Andreas-Salomé
29 de dezembro de 1898

Apaga-me os olhos: e ainda posso ver-te,
tranca-me os ouvidos: e ainda posso ouvir-te,
e sem pés posso ainda ir para ti,
e sem boca posso ainda invocar-te.
Quebra-me os braços, e posso apertar-te
com o coração como com a mão,
tapa-me o coração, e o cérebro baterá
e se me deitares fogo ao cérebro
hei-de continuar a trazer-te no sangue".

(Tradução do germanista português, Paulo Quintela)
A Lou Andreas-Salome

Volga
Por longe que estejas: posso ainda te ver,
Por longe que estejas: tu permanecerás
Qual presença que não pode empalidecer,
Qual paisagem, a mim sempre contornarás.
Se tuas margens eu jamais tivesse tocado,

Mesmo assim saberia tua imensidão:
Ondas de meus sonhos me teriam levado
À beira de tua infindável solidão.

[Fonte: manuthinkerfree.blogspot.com.br/2010/11/poemas-de-rilke.html]



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...