NAUFRÁGIO
Silêncio,
agora me destroço,
mastro retorcido,
casco arrebentado.
Meu nome encontra
o rosto da sereia cega
e decepada.
Meu nome encontra o nome
desse país provisório
entre a vida e a água.
Vértebras.
Pele furada.
Olho de baleia.
Agora é a minha deixa.
Coluna dolorida
tocando o abismo
desse céu inverso.
Incisão de agulhas de tricô.
Silêncio.
Agora me atravessam
pregos,
travessões.
Silêncio,
agora começou.
Copiado da Revista de Autofagia, Belo Horizonte, MG, n. 3, março de 2009, p. 22
Sobre a autora
Blog da autora: http://www.ovelhapop.blogspot.com
quinta-feira, 29 de novembro de 2012
quarta-feira, 28 de novembro de 2012
Verônica de Aragão
MOBILIÁRIO
Como se saído de uma ampulheta
o pó cotidianamente se derrama
sobre os móveis.
E a mulher, com mão de Sancho,
recolhe com pano umedecido
os vestígios do tempo
na serenidade da casa.
Não há nada de eterno sob a razão do tempo.
E o que é a realidade
se não a tentativa frequente
de recolher o pó caído da ampulheta
e depositado na mobília;
se não o polimento contínuo das coisas
para que a imagem delas fique intacta;
se não o movimento incessante da mão
até o esgotamento
— até que outra mão substitua a anterior
e sob sua força se construa uma nova realidade
tão irreal quanto a primeira.
Como se fosse possível eternizar o amor
que também se esvai, tão quanto a areia.
In: Roteiro da Poesia Brasileira - anos 90, seleção e prefácio Paulo Ferraz, São Paulo: Global, 2011, pp. 160-161.
Como se saído de uma ampulheta
o pó cotidianamente se derrama
sobre os móveis.
E a mulher, com mão de Sancho,
recolhe com pano umedecido
os vestígios do tempo
na serenidade da casa.
Não há nada de eterno sob a razão do tempo.
E o que é a realidade
se não a tentativa frequente
de recolher o pó caído da ampulheta
e depositado na mobília;
se não o polimento contínuo das coisas
para que a imagem delas fique intacta;
se não o movimento incessante da mão
até o esgotamento
— até que outra mão substitua a anterior
e sob sua força se construa uma nova realidade
tão irreal quanto a primeira.
Como se fosse possível eternizar o amor
que também se esvai, tão quanto a areia.
In: Roteiro da Poesia Brasileira - anos 90, seleção e prefácio Paulo Ferraz, São Paulo: Global, 2011, pp. 160-161.
segunda-feira, 26 de novembro de 2012
Clarice Lispector
Ângela.- “O Indescritível”
Comprei uma coisa pela qual perdidamente me apaixonei: o preço não importa, esse objeto vale o ar.
Tem essa coisa uma base sólida de metal, muito concisa. Nesse cilindro faiscante há uma levíssima abertura. Nesta se põem hastes delicadas e finas. E em cima de cada haste fica em glória uma bolinha redonda e pequena que parece uma joia de prata de lei.
Esse objeto é mágico. Basta um sopro ou um leve toque de mão — e ele vibra todo se confundindo tremeluzente com o ar. É um objeto de lua ou de sol? parece uma boa notícia, parece um susto alegre, parece um “de repente”. São trinta bolinhas e hastes. Mas você se engana: quando elas se põem a vibrar e a mexer-se parecem um delicado trilhão de bolinhas. Mais outra coisa ele tem: quando se acendem as luzes da sala, as bolinhas fazem sombra, verdejantes.
E tem mais: quando vibra resulta do leve entrechoque das bolinhas entre si — resultam umas notas musicais. E esse objeto se for bem trabalhado e impulsionado canta ligeiro — ligeiro dó-ré-mi...
“Pegando a palavra”. Pego a palavra e faço dela coisa.
Peguei a alegria e fiz dela como cristal brilhíssimo no ar. A alegria é um cristal. Nada precisa ter forma. Mas a coisa precisa estritamente dela para existir.
Comprei uma coisa pela qual perdidamente me apaixonei: o preço não importa, esse objeto vale o ar.
Tem essa coisa uma base sólida de metal, muito concisa. Nesse cilindro faiscante há uma levíssima abertura. Nesta se põem hastes delicadas e finas. E em cima de cada haste fica em glória uma bolinha redonda e pequena que parece uma joia de prata de lei.
Esse objeto é mágico. Basta um sopro ou um leve toque de mão — e ele vibra todo se confundindo tremeluzente com o ar. É um objeto de lua ou de sol? parece uma boa notícia, parece um susto alegre, parece um “de repente”. São trinta bolinhas e hastes. Mas você se engana: quando elas se põem a vibrar e a mexer-se parecem um delicado trilhão de bolinhas. Mais outra coisa ele tem: quando se acendem as luzes da sala, as bolinhas fazem sombra, verdejantes.
E tem mais: quando vibra resulta do leve entrechoque das bolinhas entre si — resultam umas notas musicais. E esse objeto se for bem trabalhado e impulsionado canta ligeiro — ligeiro dó-ré-mi...
“Pegando a palavra”. Pego a palavra e faço dela coisa.
Peguei a alegria e fiz dela como cristal brilhíssimo no ar. A alegria é um cristal. Nada precisa ter forma. Mas a coisa precisa estritamente dela para existir.
In Um Sopro de Vida (Pulsações), Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 4a. ed, 1978, p.111
domingo, 25 de novembro de 2012
Gastão Cruz
SEGUNDA GLOSA
ao Manuel Gusmão, que da Litania
também recolheu os ecos
Regressámos à curva das palavras, ao
eco na abóbada total
onde a nossa pequena eternidade
como a frágil película dum filme
escurecido se fixava
Tínhamos posto as mãos sobre a pele do tempo
por baixo pressentindo
a corrente de lava enquanto esperança
e desejo sopravam
no peito raso
Entendemos agora que
quando cruelmente triunfamos
é fugaz o furor voraz dos músculos
e por isso terror e alegria, então
e hoje, nos trespassam
ao Manuel Gusmão, que da Litania
também recolheu os ecos
Regressámos à curva das palavras, ao
eco na abóbada total
onde a nossa pequena eternidade
como a frágil película dum filme
escurecido se fixava
Tínhamos posto as mãos sobre a pele do tempo
por baixo pressentindo
a corrente de lava enquanto esperança
e desejo sopravam
no peito raso
Entendemos agora que
quando cruelmente triunfamos
é fugaz o furor voraz dos músculos
e por isso terror e alegria, então
e hoje, nos trespassam
[Escarpas, Rio de Janeiro, Móbile, 2011 p. 60]
sábado, 24 de novembro de 2012
Mia Couto
OS PAPÉIS DA MULHER
O que a memória ama, fica eterno.
Te amo com a memória, imperecível.
Adélia Prado
Sou mulher, sou Marta e só posso escrever. Afinal, talvez seja oportuna a tua ausência. Porque eu, de outro modo, nunca te poderia alcançar. Deixei de ter posse da minha própria voz. Se viesses agora, Marcelo, eu ficaria sem fala. A minha voz emigrou para um corpo que já foi meu. E quando me escuto nem eu mesma, me reconheço. Em assuntos de amor só posso escrever. Não é de agora, sempre foi assim, mesmo quando estavas presente.
E escrevo como as aves redigem o seu voo: sem papel, sem caligrafia, apenas com luz e saudade. Palavras que, sendo minhas, não moraram nunca em mim. Escrevo sem ter nada que dizer. Porque não sei o que te dizer do que fomos. E nada tenho para te dizer do que seremos. Porque sou como os habitantes de Jerusalém. Não tenho saudade, não tenho memória: meu ventre nunca gerou vida, meu sangue não se abriu em outro corpo. É assim que envelheço: evaporada em mim, véu esquecido num banco de igreja.
Só te amei a ti, Marcelo. Essa fidelidade levou-me ao mais penoso dos exílios: esse amor afastou-me da possibilidade de amar. Agora, entre todos os nomes, só me resta o teu nome. Só a ele posso pedir o que antes te pedia a ti: que me faça nascer. Porque eu preciso tanto de nascer! De nascer outra, longe de mim, longe do meu tempo. Estou exausta, Marcelo. Exausta, mas não vazia. Para se estar vazia é preciso ter dentro. E eu perdi a minha interioridade.
Por que não escreveste nunca? Não é de te ler que mais tenho saudade. É o som da faca rasgando o envelope que trazia a tua carta. E sentir, de novo, uma carícia na alma, como se algures estivessem golpeando um cordão umbilical. Engano meu: não há faca, não há carta. Não há parto de nada, nem de ninguém.
* * *
Vês como fico pequena quando escrevo para ti? É por isso que eu nunca poderia ser poeta. O poeta se engrandece perante a ausência, como se a ausência fosse o seu altar, e ele ficasse maior que a palavra. No meu caso, não, a ausência me deixa submersa, sem acesso a mim.
Este é o meu conflito: quando estás, não existo, ignorada. Quando não estás, me desconheço, ignorante. Eu só sou na tua presença. E só me tenho na tua ausência. Agora, eu sei. Sou apenas um nome. Um nome que não se acende senão em tua boca.
* * *
Esta manhã, contemplei ao longe a queimada. Do outro lado do rio, extensões imensas se consumiam num ápice. Não era a terra que se convertia em chama: era o próprio ar que ardia, todo o céu era devorado por demônios.
Mais tarde, quando as labaredas serenaram, restou um mar de cinza escura. Na ausência de vento, partículas flutuavam como negras libélulas sobre o carbonizado capinzal. Podia ser um cenário de fim de mundo. Para mim, era o oposto: era um parto da Terra. Apeteceu-me gritar pelo teu nome:
— Marcelo!
Escutar-se-ia longe, este meu grito. Afinal, neste lugar, até o silêncio faz eco. Se existe um sítio onde eu possa renascer é aqui onde o mais breve instante me sacia. Eu sou como a savana: ardo para viver. E morro afogada pela minha própria sede.
* * *
— Que é isto?
Na última paragem antes de chegarmos a Jerusalém, Orlando (a quem devo habituar-me a chamar de Aproximado) perguntou, apontando para o meu nome na capa do meu diário:
— O que é isto?
— Esta — emendei. — Esta sou eu.
Devia ter dito: esse é o meu nome, grafado na capa do meu diário. Mas não. Disse que era eu como se todo o corpo e toda a minha vida fossem cinco simples letras. É isso que sou, Marcelo: sou uma palavra, tu me escreves de noite, de dia me apagas. Cada dia é uma folha que tu rasgas, sou o papel que espera pela tua mão, sou a letra que aguarda pelo afago dos teus olhos.
[Fragmento de ANTES DE NASCER O MUNDO, Companhia das Letras: São Paulo, 2009, pp. 131-134].
sexta-feira, 23 de novembro de 2012
Mariana Ianelli
II
As patas ardendo no sal do estrangeiro,
Bem-vindo seja o caçador que me tem.
Veias abertas, suplico, costas marcadas,
Que venha a cruz alta, flagelo do céu.
E venham amarras, estacas e brasas,
Este membro adaga, três vezes meu.
Ao som do alaúde, desce o fio d’água,
Esganiço e calo, me regozijo de medo.
Eu, placidez de cabra, perdão de joelhos.
Dentre os animais, um sim que pranteia.
Eu, estado de graça, salvar e adoecer.
Mais, peço mais, flor no baixo-ventre,
Auréola de fogo em minha cernelha.
Toda vela, todo véu, breu me possui
Enquanto, luz, possuo o reverendo.
Sagrada, profana: hóstia que me contém.
quinta-feira, 22 de novembro de 2012
Silvina Ocampo
PRESSENTIMENTO
Durante muitos dias me seguiste.
No canto do pássaro, nas sombras,
Nas modulações do espaço:
Aprendi a conhecer-te.
Eu sentia tua luz atravessar-me
Como uma flecha de ouro envenenada.
Desobedecia-te arrependida.
Falavas-me em segredo.
Nos espelhos quebrados, na tinta
Azul dos cadernos que deixavas
Sobre a mesa de meu quarto.
Eu tremia a olhar-te, eu tremia
Como tremem os galhos refletidos
Na água movida pelo vento.
Agora que conheço teus sinais,
Tua pele e tuas orelhas, teu semblante,
Não te desobedecerei,
E ajoelharei diante de tua imagem,
Implacável sibila que me segues.
Durante muitos dias me seguiste.
No canto do pássaro, nas sombras,
Nas modulações do espaço:
Aprendi a conhecer-te.
Eu sentia tua luz atravessar-me
Como uma flecha de ouro envenenada.
Desobedecia-te arrependida.
Falavas-me em segredo.
Nos espelhos quebrados, na tinta
Azul dos cadernos que deixavas
Sobre a mesa de meu quarto.
Eu tremia a olhar-te, eu tremia
Como tremem os galhos refletidos
Na água movida pelo vento.
Agora que conheço teus sinais,
Tua pele e tuas orelhas, teu semblante,
Não te desobedecerei,
E ajoelharei diante de tua imagem,
Implacável sibila que me segues.
[Silvina Inocencia Ocampo Aguirre nasceu em Buenos Aires no dia 28 de julho
de 1903. Na juventude estudou desenho em Paris com Giorgio de Chirico e Fernand Léger. Poeta, contista e tradutora, casou-se com o escritor Adolfo Bioy Casares, em 1940. Faleceu no dia 14 de dezembro de 1993, em Buenos Aires].
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