sábado, 5 de janeiro de 2013

Mariana Ianelli

EXPIAÇÃO
Da parceria profunda
reconheço os meus filhos alçados pelo reverso,
nos cordéis do pavilhão
onde cessam aqueles aventureiros
que aprovaram sobre seus prazeres o mal.
Desalinhados pelo osso,
com suas letras emborcadas na pedra,
o couro jovem desfiado em escarlate,
cravado na vara alta por semanas.
Ao toque de alarma para a agonia,
entre se resolverem pelo ferro
ou pelo único tributo indulgente
de rendição que os vingasse,
eles foram acautelados por mim,
ungidos com o meu soro bento
e depois completamente escarnados.

In Duas Chagas, São Paulo: Iluminuras, 2001, p. 95


sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Hilda Hilst

I
Carrega-me contigo, Pássaro-Poesia
Quando cruzares o Amanhã, a luz, o impossível
Porque de barro e palha tem sido esta viagem
Que faço a sós comigo. Isenta de traçado
Aquarela Marina Martinelli
Ou de complicada geografia, sem nenhuma bagagem
Hei de levar apenas a vertigem e a fé:
Para teu corpo de luz, dois fardos breves.
Deixarei palavras e cantigas. E movediças
Embaçadas vias de Ilusão.
Não cantei cotidianos. Só cantei a ti
Pássaro-Poesia
E a paisagem-limite: o fosso, o extremo
A convulsão do Homem.
Carrega-me contigo.
No Amanhã.

II
Como se perdesse, assim te quero.
Como se não te visse (favas douradas
Sob um amarelo) assim te apreendo brusco
Inamovível, e te respiro inteiro
Um arco-íris de ar em águas profundas.
Como se fosse tudo o mais me permitisses,
A mim me fotografo nuns portões de ferro
Ocres, altos, e eu mesma diluída e mínima
No dissoluto de toda despedida.
Como se te perdesse nos trens, nas estações
Ou contornando um círculo de águas
Removente ave, assim te somo a mim:
De redes e de anseios inundada.

III
De uma fome de afagos, tigres baços
Vêm se juntar a mim na noite oca.
E eu mesma estilhaçada, prenhe de solidões
Tento voltar à luz que me foi dada
E sobreponho as mãos nas veludosas patas.
De uma fome de sonhos
Tento voltar àquelas geografias
De um Fazedor de versos e sua estada.
Memorizo este ser que me sou
E sobre os fulcros dentes, ali
É que passeio e deslizo a minha fome.
Então se aquietam de pura madrugada
Meus tigres de ferrugem. As garras recolhidas
Como se mesmo a morte os excluísse.

In Obra Poética Reunida, Brasilia: Editora da UNB, 1998 pp. 35-36

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Henriqueta Lisboa

AS PALAVRAS
1
Este é um planeta de palavras
neutras movíveis e versáteis
que de rodízio pela ponte
vão ter à margem oposta

Candentes em água fria
petrificadas no fogo
tumultuam-se as palavras
umas prontas para o jogo
outras intactas à sorte

Mantêm auras de mistério
nos percursos de ida e volta
conforme o sangue que as gera
o incentivo que as abrasa
conforme a língua que as solta
ou que as segura na raça.

2
Os cardos se abriram
fecharam-se os lírios
horizontes amplos
estreitaram o âmbito
só pela palavra
que em tempo de espera
nos foi sonegada.

A casa estremece
no próprio alicerce
pelo desatino
de alguma palavra
de metal ferino
que nos fira o ouvido
sem qualquer preparo.

Os verdes ondulam
ao longo das várzeas
espelhos se aclaram
no colo das grutas
por palavra terna
que a alma nos enleva
no momento exato.

Ó cores nascidas
ó sombras criadas
ó fontes detidas
Ó águas roladas
Ó campos abertos
por simples palavras.

3
Segredos expostos
tingem de rubor
a palavra rosa

Como que em deslize
tocam-se cristais
na palavra brisa

Algo se insinua
de abandono e flauta
na palavra azul

Desgastados mantos
 pesam sobre o leito
da palavra fama

Espinheiro agreste
rompe raiva e ruge
na palavra guerra

Não há luz que corte
o ermo corredor
da palavra morte.

ROSA PLENA
Rosa plena. Em glória 
de cor
de forma 
de febre
de garbo.
Em auréola sobre si mesma
estática.
Em arroubo diante da luz
dinâmica.
Enrodilhada em aconchego de concha 
buscando o núcleo.
Fugindo-lhe ao cerco
asas aflantes flamejantes.

Rosa plena.
Turíbulo. Ostensório. 
Convite à valsa dos ventos.
Tributo ao círculo — perfeição 
de chegar e partir.
Cada pétala é um sonho de retorno.
E as pétalas se avolumam compactas 
e esmaecidas logo se despejam ao longo e ao largo
— no fascínio 
do pretérito pelo devir.
Sangue em oblata 
Amor e morte
pela revelação.
Rosa plena.
Poesia, 
que se fez Carne.

(Pousada do Ser)

Henriqueta Lisboa, Obras Completas, Vol. I, Poesia Geral,  São Paulo, Duas Cidades, 1985, pp. 514-517.

quarta-feira, 2 de janeiro de 2013

Marguerite Duras

EXCERTO DE "YANN ANDRÉA STEINER"
Você entende, como resistir a uma coisa dessas, alguém tão pleno de infância que quer tudo junto, ao mesmo tempo. Rasgar os livros, queimá-los. E sentir medo pelo seu desaparecimento. Você sabia que o livro já existia. Você me dizia: o que a senhora pensa fazer? O que tudo isso quer dizer? Estar escrevendo o tempo todo, o dia todo? A senhora vai ser abandonada por todos, porque é louca, insuportável. Uma babaca... Nem vê que está bagunçando as mesas com tantos rascunhos, por toda a parte pilhas e pilhas...

Acontece de a gente rir junto dos seus acessos de raiva. De repente. Às vezes acontece você ficar com medo de que eu jogue o livro no mar ou o queime. Às vezes você volta às cinco da manhã das suas perambulações, das suas seções de contemplação daqueles inefáveis barmen dos grandes hotéis da colina, considerados os mais luxuosos do mundo. Feliz de voltar desses lugares maravilhosos. Muitas vezes estou dormindo quando você volta. Ouço você se dirigir à sala para verificar se o manuscrito está ali, em cima da mesa. E depois à cozinha, para ver se sobrou café no pacote, pão e manteiga e café!

Comecei a não falar mais com você. A somente lhe dar bom dia no meio da felicidade. A deixá-lo sozinho. A comprar-lhe bifes. A vê-lo apenas de manhã, saindo desgrenhado do seu quarto à procura de um café forte, e a rir até as lágrimas do seu ar de administrador, da sua fiscalização.

Você assustava, muitas vezes eu tinha medo de você. E em volta de nós se tinha medo por mim. Eu achava que a cada dia você era mais sincero, mas que era tarde demais para mim, que eu não podia mais conter você. Como nunca consegui conter o medo de você. Você não sabe me poupar do medo de ser morta por você. Todas as minhas amigas e conhecidas estão encantadas com a sua doçura. Você é meu melhor cartão de visitas. Para mim, sua doçura me leva de volta à morte, a qual você certamente sonha em me dar, sem saber. A cada noite.

Às vezes, sinto medo desde que você acorda. A cada dia, nem que seja somente durante alguns segundos, você se torna, como todos os homens, um assassino de mulheres. Isso pode ocorrer todos os dias. Às vezes, você dá medo como um caçador sem rumo, um criminoso em fuga. E disto, em volta de mim, acontecia que temessem por mim. Mas eu conservei isso, tenho medo de você. A cada dia, em momentos muito breves que lhe escapam, tenho medo do seu olhar sobre mim.

Às vezes, basta o seu olhar para eu ter medo. Às vezes, nunca te vi antes. Não sei mais o que vieste buscar nessa estação balneária tão frequentada  nessa temporada mortal, lotada, onde estás ainda mais só do que na tua cidade de província.

A fim, talvez, de conseguir matá-lo, expulsá-lo, não sei, acontece-me de nunca ter te visto antes. De te ignorar até o pânico. De não mais saber de modo algum por que estás aqui, o que vieste procurar aqui e também o que vais fazer de ti mesmo. O dia de amanhã é o único assunto que jamais abordamos.

Tu também não deves mais saber o que estás fazendo aqui, na casa desta mulher já idosa, louca de escrever.

Pode ser que seja como de costume, que seja sempre assim, que não seja nada, que tenhas simplesmente vindo porque estavas desesperado, como em cada dia da tua vida estás, e também durante alguns verões e a certas horas dos dias e das noites quando o sol deixa o céu, por exemplo, e penetra no mar a cada noite para sempre, tu não podes te impedir de querer morrer. Sei disso.

Nos vejo perdidos os dois na mesma espécie de natureza. Me acontece de ser invadida de ternura pela espécie de gente que somos. Instáveis, dizem as pessoas, loucos, um pouco. “Gente que não vai mais ao cinema, nem ao teatro, nem às recepções.” Gente de esquerda, está se vendo, é assim mesmo, não sabe mais viver, Cannes os aborrece e também os grandes hotéis marroquinos. O cinema, o teatro, tudo igual.


[In Yann Andréa Steiner, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1993, pp. 61-64].




terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Florisvaldo Mattos

CAFÉ MATINAL
A Carlos Nelson Coutinho
I
Agora podemos saber o que é pior:
a mente desconexa, a fome a navalhadas.
Mesmo que nos reste a ferida dos signos,
roto lábio sobre espigas de fel,
nada nos salvará, nada será pior.
A luz está no caos celebrando vontades
durando nos espaços matutinos.
No exato momento, ao deus
que nos valeu somos gratos - e mudos
nem mesmo reparamos que se fende
o universo da ilusão.
A lição de modéstia que renova
o passado dos gestos preferimos
o som metálico das vozes - ou apenas
nos rendemos ao peso do silêncio.

II
De meu querer me liberto. Agora vejo:
a verdade resiste a meu próprio consumo.

E sendo credo e coisa, permaneço
longe de mim e perto da verdade,
canto civil engendrado nas perfídias
do tempo, inscrito no muro do sono.

Agora vejo claramente: a luz
rompe o surdo planalto de bandeiras,
favorecida pelo inédito
de tudo. Desce e inaugura para sempre
o instante anônimo da verdade -
o súbito clarão das coisas simples.

A luz está no caos. Acorde e veja. 

Fonte: Poesia Reunida e Inéditos, São Paulo: Escrituras Editora, 2011, p. 84

Sobre o autor: Florisvaldo Mattos é natural de Uruçuça, no sul da Bahia. Escritor e poeta, participou com Gláuber Rocha do grupo que editava a revista Mapa. Publicou, dentre outros, os livros Lucernário, poesia, e Uma História da Poesia Brasileira. Membro da Academia de Letras da Bahia, atualmente ocupa o cargo de editor-chefe do jornal diário A tarde, de Salvador. 


segunda-feira, 31 de dezembro de 2012

Madeleine Delbrêl

SENHOR, CONVIDA-NOS PARA DANÇAR
Muitos santos sentiram vontade de dançar,
tão contentes estavam de viver.
Santa Teresa de Ávila com suas castanholas, 
São João da Cruz com o menino Jesus nos braços,
e São Francisco de Assis diante do Papa,
Se estivéssemos contentes contigo,
Senhor, não conseguiríamos resistir a essa vontade de dançar...

Penso que, às vezes, estejas farto disto:
de pessoas que falam de servir-te, com ares de comandantes,
de conhecer-te, com ares de professores,
de te atingirem, com regras de esporte,
de te amarem, como se ama um casal de velhos.
Um dia em que sentias vontade de outra coisa,
inventaste São Francisco e fizeste dele teu jogral;

Senhor, vem convidar-nos,
estamos prontos a dançar em nossa caminhada,
dançar estas contas, este jantar a preparar,
esta vigília em que teremos sono...
dançar, por teu amor a dança do trabalho,
e a do calor, e depois, a do frio.
Se certas árias são em tom menor,
nós não diremos que são tristes,
se outras nos deixam um pouco sem fôlego, não diremos que são de arrasar.
E se um ou outro nos esbarra, não faremos caso,
sabendo que é assim quando se dança.

Dá-nos viver nossa vida,
não como um jogo de xadrez, onde tudo é calculado,
não como uma competição onde tudo é difícil,
não como um teorema que nos quebra a cabeça,
mas como uma festa sem fim,
onde nosso encontro se renova,
como um baile,
uma dança,
entre os braços da tua graça,
na música universal do teu amor.

[As mais bela orações de nosso tempo, Seleção, tradução e apresentação Frei Raimundo Cintra e Rose Marie Muraro, 2a. ed. Rio de Janeiro, Ed. José Olympio, 1973, pp. 60-61].

Sobre Madeleine Delbrêl

Henri Matisse

domingo, 30 de dezembro de 2012

Hélio Pellegrino

O PASTOR DO ANO NOVO
Entre o boi e o burro. Em meio ao feno, numa gruta onde os animais se recolhem, para abrigar-se da noite. Num espaço de rocha, cavado no coração da matéria, aí nasceu o menino, soberano do tempo e, por isto, pastor do Ano Novo. Sua mãe é jovem, cheia de graça, e se chama Maria. O pai é o carpinteiro José. O boi, o burro, o feno, a pedra escavada, a manjedoura, a estrela, com seu rastro de fogo, compõem um elenco elementar de presenças — resumo do Cosmo.

Há de tudo, em torno do menino que acabou de nascer. A reentrância da pedra, muda de um silêncio longuíssimo. A prestança do feno, na humildade de sua serventia. A manjedoura talhada na madeira, afeiçoadamente. O boi, o burro, construções de carne e paciência, ruminando o mistério. E o pai. A mãe. Os altos presságios, crivados de ansiedade. A dor da carne dilacerada, o esforço ofegante e antiquíssimo para dar à luz do mundo uma criança. E a criança que irrompe das entranhas sangrentas, o salto da eternidade para o tempo, do esquecimento para à memória, a luta, a cruz.

Uma criança nasceu em Belém e instaurou os tempos novos — Ano Novo. A criança tornou-se homem e tomou-se Deus. Seus pés inventaram o Caminho. Sua boca proferiu a Verdade. Seu peito abrasou-se do amor que é Vida, em perfeita abundância. Jesus Cristo, Senhor nosso, dono do gesto exemplar, luz de Deus feita carne. O que subidamente transfigura — e transverbera — a humana condição. Somos deuses.

Crucificadamente deuses. Na carência e na morte. O Terceiro Mundo e, em particular, o Nordeste brasileiro, que o digam. Nascem crianças, crucificadamente. O egoísmo dos ricos — classes e nações — as crucifica, a cada dia, pelo mundo afora. A fome se expande, a miséria pulula, o sacrifício dos inocentes fecha o círculo homicida, segundo por segundo. A iniquidade e a injustiça dão sinais de si, como o pulsar de um coração de pedra. Por isto é que o Cristo nasceu, para nos salvar: ossos, músculos, nervos, pão e vinho. Que persuasiva — e infinita — paciência, ano após ano, nasce e renasce no Natal — e no Ano Novo. Até o fim dos tempos, na roda circular do eterno retorno, surgirá o Cristo, cercado de forças elementares, para testemunhar a dignidade e os direitos da vida — e do homem. A essa teimosia sublime damos o nome de Ressurreição da Carne.

Há um Cristo da palavra, da pregação e do milagre, pescador de peixes e de homens. Há um Cristo que morre na cruz para morrer, por nós, a morte, ensinando-nos que o amor vence o derradeiro lance, e que é possível viver — e morrer — para os outros, pelos outros. Há um Cristo que nos diz: Ama o Teu Próximo Como a Ti Mesmo, Esta é a regra santa —difícil regra. Pois sermos deuses significa, não a dominância da soberbia e da grandeza, mas a vitória da humildade. Deus é quem hospeda o Próximo, no espaço de seus braços abertos. O Próximo é o mistério luxuoso diante do qual devo apagar-me, para que seu rosto resplandeça. É esta a excentricidade que o Cristo veio ensinar ao mundo. Só consigo ganhar-me, perdendo-me, só amealho riqueza, doando-a, só conquisto o meu nome, nomeando, chamando, clamando, consentindo no ser.

Deus é discreto. Deus é silêncio e vazio. Deus é liberdade. Cristo é uma imensa árvore copada, sem copa e sem tronco, dentro de cujo ardente perfil vazado todas as coisas cabem. Tudo e todos. Somos todos convidados para o banquete. Cristo, à cabeceira da mesa, nos convoca para o ágape. O pão, o vinho, a alegre — e leve — embriaguez apolínea. Cristo Apolo, elegantíssimo na sua túnica, pregando pelos campos. As ervas do caminho e os lírios das ravinas o compreenderam. Nós, humanos, temos ouvido mais duro.

Deus é paciente, o tempo divino é todo o tempo e, portanto, abolição do tempo, enquanto sudário da morte. Deus se mistura ao nosso barro, nasce, vive, morre e ressuscita conosco. O companheiro. Cristo companheiro, acompanhante, acompanhado. O amigo, o viandante, o peregrino, senhor do Verbo. Cristo é a juventude do mundo. Sua esperança. Sua tenaz — terna, eterna — esperança. Lâmina de acerados açúcares, vulnerante e irresistível.

Somos fuliginosos, perplexos, desgarrados e tristes. Somos seres humanos, transmudados por Cristo, homem divino. Somos bichos da terra, tão pequenos, mas o fogo do amor de Deus mora em nós. Por isto, temos a possibilidade da louca alegria. Cristo bailarino. Cristo dançarino. O mais próximo Próximo. Ali, na esquina, está ele, e nos olha. Naquele bar, naquele beco, naquela masmorra, hospital ou cortiço. Onde a carne sofre, aí está o Cristo, crucificado. Onde a carne ama, aí está o Cristo, glorificado. Onde está o homem, aí está o Cristo, suprema possibilidade do humano. Aqui.

Hoje é véspera do Ano-Novo, reedição da espera — e da esperança — do Natal. As duas festas participam de um mesmo ciclo, rito de natividade pelo qual reinventamos o futuro. Falemos, portanto, da Criança Eterna, semente de sol que nasce e renasce — pelos milênios afora. O boi, o burro, o feno, a manjedoura, a gruta, o pai, a mãe, a estrela. Os espaços infinitos. A tenra doçura da noite. O sofrimento da carne que, nesse cenário arquetípico, dá à luz do mundo a Luz do mundo. Toda criança que nasce é luz do mundo, e destampa o Natal — e o Ano-Novo. Vamos buscá-la perto, ao alcance da mão. Nesse momento, uma criança acaba de nascer. Dezenas, centenas, milhares de crianças acabam de nascer. Os frutos dourados do prazer da carne, dessa carne a quem a Criança Eterna investiu de uma dignidade infinita. O corpo, a carne, a comida, o concreto vigor do abraço, onde Deus fulge. Fúlgida luz. Tudo é uma beleza.

Beleza que se faz. Deus em nós — conosco — se constroi, doridamente , com as mãos, ferramentas, disciplinada carpintaria. O operário José. Maria, dona-de-casa. O aprendiz de oficial, menino Jesus, trabalha a madeira, fabrica seus barcos, seus arcos. A flor. O fruto. A criança. A grande empreitada cósmica se encorpando, complexa, através de milhões, bilhões, trilhões de anos. Toda criança é um deus que nasce. Tecido, tapete trançado, espessura de carne feita de tantos, tantos fios. Tantas fibras: luz, treva, travo, espaço, tempo, energia, matéria, matemáticas — a palavra. O Cristo que nasce no Natal e no Ano-Novo se repete — inesgotável — em qualquer criança que chega ao mundo. Deus minúsculo que explode bendito fruto de vosso ventre, ave, Maria.

Somos deuses, por decreto de uma criança que nasce. Carreguemo-la conosco — nosso centro. Entre quedas, desistências, covardias e grandezas, somos deuses. Há uma criança eterna em nós, que a cada dia quer nascer. A insofrida antemanhã. Que a cada momento a ajudemos. A incessante maiêutica. O parto, na agonia do caminho, da verdade e da vida. Por mão de mestre Jesus, carpinteiro, companheiro, fiador da justiça no mundo. Lumen.

(31.12.86)

[In A BURRICE DO DEMÔNIO, Rio de Janeiro: Rocco, 1988, pp. 129-132]

Sobre Hélio Pellegrino


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...