quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

Gérard de Nerval

EL DESDICHADO
Eu sou o Tenebroso, - o Viúvo, - o Inconsolado,
O Senhor de Aquitânia à Torre da abulia:
Meu único Astro é morto, o meu alaúde iriado
Irradia o Sol negro da Melancolia.

Na noite Sepulcral, Tu que me hás consolado,
O Posílipo e o mar Itálico me envia,
A flor que tanto amava o meu ser desolado,
E a treliça onde a Vinha à Roseira se alia.

Sou Biron, Lusignan?...  Febo ou Amor?  Na fronte
Ainda o beijo da Rainha rubro me incendeia;
Eu sonhei na Caverna onde nada a Sereia...

E duas vezes cruzei vencedor o Aqueronte:
Modulando na cítara a Orfeu consagrada
Os suspiros da Santa e os arquejos da Fada.

[In Alexei Bueno, Cinco Séculos de Poesia, Rio de Janeiro, Ed. Record Ltda., 2012, p. 69]




quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

Daniel Jonas

SÃO TRISTES OS MEUS DIAS COM PEDRAS
São tristes os meus dias com pedras
em lugar de mãos
ou a cabeça funda na brancura
de través do travesseiro
e o corpo depresso em moles guindastes.
São dias de chorar por menos
ou teimar queixoso com um crânio polido,
batuque convexo
no muro demorado.
Ficar a ouvir o sangue,
o som tubular do sangue. Ao vale seco
da clavícula atrair a água, o sangue
e sorver a sopa intestina
ou se o líquido escapa à boca
tantálica, calar com argila
o que me pede água.
Ficar a palpar os buracos
da ausência, as ligas
da ausência, as ribanceiras
a que caem os pensamentos, a cor
dióspiro que banha a enfermidade
e em seguida tomar o pulso
evadido, travar o touro, o soco da dor,
o infinito infinitivo presente.
Uma amálgama de alma
migra no fôlego de modorrento
pregão de dor, o condor
passa e anda andino e é uma
traça asfixiante: faço um céu rarefeito,
a dispneia é um felino
que arranha céus
e a boca rebuliço espúmeo
expele o sabor da morte
e o que mais consiga cuspir
por entre ovéns e enxárcias
e traves quebradas.
É uma desilusão com as coisas,
uma desilusão funda com as coisas,
com o vazio meio-cheio das coisas.
Meu fôlego um fólio cheio
de silêncio, uma catástrofe natural
um vulcão: no meu pulmão pôr lava
e no trovão treva.

 [in Os Fantasmas Inquilinos, Lisboa: Livros Cotovia, 2005]

terça-feira, 29 de janeiro de 2013

Ximena Gómez

FILHOS DE ARES
Houve sangue na atmosfera e nuvens nos charcos
E picadas de pássaros em lábios de cadáveres.

E houve homens lagarto arrastando-se no lodo.
E pragas multiplicando-se em casas desocupadas.

E houve corvos na observação de soldados nus.
E mulheres ocultas em ossários, recolhendo cantos.

E houve homens em peleja pelas urinas de uma latrina.
E um proscrito faminto que sonhava devorar explosivos.

E houve cantos, silvos e sussurros ao alvorecer.
E um homem que solfejava de dia e tossia à noite.

E houve crianças que cremavam formigas que iam para o combate.
E um judeu que procurava seu filho entre as ervas.

E houve soldadesca e gargalhadas, cervejas e whisky.


ESPECTRO NOTURNO
O vento açoita a porta.
A chama da vela se extingue.

O eco de um canto se escuta...

Uma árvore arranha nos vidros
Um enxame de formigas pulula nas frestas
Suspensa num livro a aranha aguarda
Umas pisadas, um estalar de pedriscos...

O eco de um canto se reitera...

A avó hermafrodita com bigode,
Senta-se acocorada na lâmpada.
Duas chamas oscilam na cara do gato.
O pai morto cruza o umbral...

O eco de um canto se extingue...

— Tenho medo, papai — grita o menino.
Alguém acende a luz.

Tradução: José Pires Cardoso

Ximena Gómez é uma poeta colombiana radicada em Miami! 

Novalis

SAUDADES DA MORTE
Desçamos ao reino terrestre,
Deixemos império de Luz.
Sinal de partirmos alegres
Das mágoas são golpes e fúria.
Varemos estreito batel,
Veloz, nas margens do Céu.

Louvados noite e sono,
Eternos e sempre louvados.
O dia deu-nos o calor,
Secura dão-nos cuidados.
Errantes seremos não mais,
Buscamos a casa do Pai.

No mundo, então, que faremos
Com tanto amor, tão fiéis?
Se põem de lado o velho,
O novo o que nos reserva?
Mas que só, desconsolado,
O devoto do passado!

Do tempo em que altas brilhavam
As chamas da luz dos sentidos.
As mãos do bom Pai e o Rosto
Do homem eram conhecidos
Ainda à sua imagem feitos,
Tantos espíritos eleitos.

Do tempo em que ainda floriam
Antigas estirpes magníficas,
O reino do Céu pretendiam
Crianças pelo martírio.
Mil corações d’amor rasgados,
Outros só a prazeres dados.

Do tempo em que jovem e ardente
A Si mesmo Deus se mostrou.
À morte tão cedo consente
Dar vida tão doce de amor.
Penas nem medos afasta
Porque ser fiel lhe basta.

Mas vê temerosa saudade
Estaremos na noite encobertos.
Jamais a transitoriedade
Acalma a sede que aperta.
Nós vamos voltar à pátria,
Ver esse tempo sagrado.

Já tarda nosso regresso,
Repousam há muito os Amados!
O túmulo a vida nos fecha,
Agora são dores e os medos
Nada quer o coração
Tão farto em mundo tão vão.

Secreto, infindavelmente,
Um manso arrepio perpassa.
Parecendo-nos que se sente
Funéreo eco de mágoas.
O hálito da saudade
Vem daqueles que amamos.

Descer até à doce Noiva,
Até Jesus – nosso Amado.
A paz de quem ama e sofre
É sol poente iluminado.
Um sonho desprende laços,
O Pai nos cinge nos braços!

In Os Hinos À Noite. Trad.: Fiama Hasse Pais Brandão

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

Eugénio de Andrade

JUVENTUDE
Sim, eu conheço, eu amo ainda
esse rumor abrindo, luz molhada,
rosa branca. Não, não é solidão,
nem frio, nem boca aprisionada.
Não é pedra nem espessura.
É juventude. Juventude ou claridade.
É um azul puríssimo, propagado,
isento de peso e crueldade.

 in "Até Amanhã"

ADEUS
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mão à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.

Meto as mãos nas algibeiras
e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro!
Era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.

Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes!
e eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
no tempo em que o teu corpo era um aquário,
no tempo em que os meus olhos
eram peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.

Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor...,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
de que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.

Adeus.

OS AMIGOS
Os amigos amei
despido de ternura
fatigada;
uns iam, outros vinham,
a nenhum perguntava
porque partia,
porque ficava;
era pouco o que tinha,
pouco o que dava,
mas também só queria
partilhar
a sede de alegria —
por mais amarga.

In "Coração do Dia"

O AMOR
Estou a amar-te como o frio
corta os lábios.

A arrancar a raiz
ao mais diminuto dos rios.

A inundar-te de facas,
de saliva esperma lume.

Estou a rodear de agulhas
a boca mais vulnerável.

A marcar sobre os teus flancos
itinerários da espuma.

Assim é o amor: mortal e navegável.

***
É apenas o começo. Só depois dói,
e se lhe dá nome.
Às vezes chamam-lhe paixão. Que pode
acontecer da maneira mais simples:
umas gotas de chuva no cabelo.
Aproximas a mão, os dedos
desatam a arder inesperadamente,
recuas de medo. Aqueles cabelos,
as suas gotas de água são o começo,
apenas o começo.
Antes do fim terás de pegar no fogo
e fazeres do inverno
a mais ardente das estações.

In Sulcos da Sede


domingo, 27 de janeiro de 2013

Etty Hillesum

SEXTA-FEIRA PELA MANHÃ [5 DE JUNHO DE 1942], ÀS SETE E MEIA.

Esta tarde vi gravuras japonesas com o Glassner. E de repente fiquei a saber: é assim que eu quero escrever. Com um espaço imenso à volta das palavras. Detesto muitas palavras. Quereria escrever somente palavras organicamente inseridas num grande silêncio, daquelas cuja única utilidade é dominar o silêncio e rasgá-lo. Na realidade as palavras devem acentuar o silêncio, tal como naquela gravura japonesa com o ramo florido para baixo, para o canto. Umas tênues pinceladas  — mas com que olho para reproduzir o mais pequeno pormenor — e, à volta delas, o grande espaço,  mas não um espaço representando um vazio, mas sim, digamos, um espaço com alma. Detesto uma acumulação de palavras. Na realidade pode usar-se poucas palavras para nomear as grandes coisas que importam na vida. Se algum dia chegar a escrever — o quê, sinceramente? — gostaria então de pincelar algumas palavras sobre um fundo mudo. E há-de ser mais difícil de reproduzir e animar esse silêncio e essa mudez do que achar as palavras. O importante será a relação justa entre palavras e silêncio, um silêncio no qual acontece mais do que em todas as palavras que uma pessoa consiga reunir. E em cada novela — ou seja lá aquilo que for — o fundo em silêncio terá de ter um matiz e um conteúdo diferentes, exatamente como acontece nas gravuras japonesas. Não se trata de um silêncio vago e inatingível, esse silêncio terá também de ter os seus próprios contornos definidos e a sua própria forma. E, por conseguinte, as palavras deveriam servir somente para dar forma e delineação ao silêncio. E cada palavra é como um pequeno marco ou um pequeno relevo ao longo de infindáveis caminhos planos e extensos, e vastas planícies.

[In Diário 1941-1943, Assírio & Alvim, Lisboa, 2009, colecção Teofanias].

Paulo José Miranda

DA CORRUPÇÃO DOS CORPOS
À saída da cidade bizantina, depois das Muralhas de Teodósio
o mar de Mármara e as janelas (enormes laranjas brilhantes
penduradas nas altas árvores de betão e famílias no lado de lá, na Ásia)
que lembram os olhos a arder ao fim de mais um dia

depois de se largar a solda e antes de se deixar a oficina.
Com um só cigarro, restava-lhe pôr-se a andar
ao contrário dos carros, em busca de peixe e Raki.
Toda a terra é estrangeira, se não houver

uma gota de álcool e uma língua que se cale,
as pequenas coisas com que se desperdiçam os dias
e se inventa a eternidade ou uma noite de sexo à tarde.
Do Mar Negro, chegaram

um maço de cigarros e um prato de anchovas.
Juntou-se ao velho que cantava versos dolentes
acerca da corrupção dos corpos e de raparigas.
Com a neve a derreter, os carros

ficam cobertos de um gelo mal semeado
como a barba dos velhos quando acordam
com os olhos e as ruas enlameadas pelo peso dos passos.
Partilharam a mesma garrafa,

palavras sem decência alguma,
folhas de agrião a moverem-se nos lábios
e um isqueiro como dados de gamão.
Eram dois irmãos filhos de um pai inexistente,

despediram-se para nunca mais.
A beleza branca e macia da neve (que quase sempre mata)
já não cobre a noite nem de silêncio nem de vontades ferozes
de se pegar num corpo qualquer e perfurá-lo,

como se essa vida fosse o dente que nos maça.
Ainda assim não procurou a casa, seguiu as velhas ruas de Gálata
decidido a pagar para ouvir alguém fingir prazer,
como se fingir não fosse realmente natural.

(O Tabaco de Deus, Edições Cotovia: Lisboa, 2002, pp. 37-38)

***

Esforça-te para que saibam que o
[mundo começou de vez
Estende uma palavra amável ao
[transeunte
E o luxo anacrónico de um sorriso
Àquele que falar mal de ti
Perdoa – o com a ternura de falar bem
[dele
Segue pela rua não esquecendo nunca
Essa missão dura e difícil que tens
[pela frente
Ainda que te esbofeteiam te
[espezinhem te humilhem
És e serás sempre o profeta do
[humano
Aquele que anuncia a chegada do
[mundo

***

Ninguém diria que trazias o cheiro
Dos últimos começos
Da primeira apanha de frutas das
[nossas árvores
Ninguém diria que cheiravas ao
[momento
Em que por fim
O enfermo abre a janela e deixa
[entrar o ar fresco
A prometida e bela manhã tantas
[vezes sonhada
Que faz renascer a vida e seus
[atributos
Ninguém diria que serias o Sol
E sua chama acesa bem alta
Queimando a pele humana
Desgastando todos os outros animais
Deixando o dia e que girar á sua
[volta em cinzas
Ninguém diria que tudo irá acabar
Numa cova profunda e escura
De tão escura que um ou outro
[insecto
Parecerá uma estrela

Fonte: http://manuthinkerfree.blogspot.com.br

Sobre o Autor

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...