terça-feira, 9 de abril de 2013

Maria do Rosário Pedreira

Vieste como um barco carregado de vento, abrindo 
feridas de espuma pelas ondas. Chegaste tão depressa 
que nem pude aguardar-te ou prevenir-me; e só ficaste
o tempo de iludires a arquitectura fria do estaleiro

onde hoje me sentei a perguntar como foi que partiste,
se partiste,
que dentro de mim se acanham as certezas e
tu vais sempre ardendo, embora como um lume
de cera, lento e brando, que já não derrama calor.

Tenho os olhos azuis de tanto os ter lançado ao mar
o dia inteiro, como os pescadores fazem com as redes;
e não existe no mundo cegueira pior do que a minha:
o fio do horizonte começou ainda agora a oscilar,
exausto de me ver entre as mulheres que se passeiam
no cais como se transportassem no corpo o vaivém
dos barcos. Dizem-me os seus passos

que vale a pena esperar, porque as ondas acabam
sempre por quebrar-se junto das margens. Mas eu sei
que o meu mar está cercado de litorais, que é tarde
para quase tudo. Por isso, vou para casa

e aguardo os sonhos, pontuais como a noite.


In O Canto do Vento nos Ciprestes (Gótica ed., 2001), in Poesia Reunida (Quetzal, 2012)

Anita Malfati

segunda-feira, 8 de abril de 2013

José Saramago

Apesar da obscuridade cinzenta da antemanhã, via-se que os pássaros, não as amáveis criaturas aladas que já não tardarão muito tempo a soltar ao sol os seus cantos, mas as brutas aves de rapina, essas carnívoras que viajam de patíbulo em patíbulo, tinham come­çado o seu trabalho de limpeza pública nas partes expostas dos enforcados, as caras, os olhos, as mãos, os pés, a meia perna que a túnica não alcançava cobrir. Duas corujas, alarmadas pelo ruído das patas do jumento, alçaram voo dos ombros do escravo, num ténue rumor de seda só perceptível por ouvidos expe­rientes. Introduziram-se em voo raso por uma viela estreita, ao lado do palácio, e desapareceram. Caim tocou o jumento com os calcanhares, atravessou a praça, pensando se também agora iria encontrar o velho com as duas cabras atadas por um baraço, e, pela primeira vez, perguntou-se quem seria a impertinente personagem, Talvez fosse o senhor, muito capaz disso é ele, com aquele gosto de aparecer de repente em qualquer parte, murmurou. Não queria pensar em lilith. Quando na sua desolada cama de porteiro des­pertou de um sono sobressaltado, constantemente interrompido, um súbito impulso quase o tinha levado a entrar no quarto para uma última palavra de despe­dida, para um último beijo, e quem sabe o que poderia suceder mais. Ainda estava a tempo. No palácio dor­mem, só lilith de certeza estará desperta, ninguém daria pela rápida incursão, ou talvez as duas escravas que lhe haviam entreaberto as portas do paraíso à che­gada, e elas diriam, sorrindo, Que bem te entendemos, abel. Depois de virar a próxima esquina deixaria de ver o palácio. O velho das ovelhas não estava ali, o senhor, se era ele, dava-lhe carta branca, mas nem um mapa de estradas, nem um passaporte, nem recomen­dações de hotéis e restaurantes, uma viagem como as que se faziam antigamente, à ventura, ou, como já então se dizia, ao deus-dará. Caim tocou outra vez o jumento e em pouco tempo encontrou-se em campo aberto. A cidade tomara-se numa mancha parda que, aos poucos, pela distância que ia aumentando, apesar do passo medido do asno, parecia afundar-se no chão. A paisagem era seca, árida, sem um fio de água à vista. Diante desta desolação era inevitável que caim recor­dasse a dura caminhada feita depois de o senhor o ter expulsado do fatídico vale onde o pobre abel para sempre ficara. 

In CAIM, São Paulo, Companhia das Letras, 2009, pp. 74-75.

domingo, 7 de abril de 2013

Etty Hillesum


Todo esse devorar de livros, desde pequena, é simplesmente preguiça da minha parte. Deixo que os outros formulem aquilo que eu mesma devia fazer. Procuro a confirmação por toda a parte do que em mim vive e se revolve, mas para obter o esclarecimento vou ter de utilizar as minhas próprias palavras. Vou ter de deitar borda fora muita preguiça, e sobretudo inibição e insegurança, antes de me descobrir. E por minha via, aos outros. Tenho de atingir o esclarecimento e tenho de me aceitar. E agora vou comprar um melão ao mercado. É tudo um peso enorme dentro de mim. E eu gostaria tanto de ser leve.
Absorvo tudo, há anos e anos, vai tudo para dentro, para um grande reservatório, mas um dia terá de sair tudo cá para fora, senão fico com a sensação de ter vivido para nada, de só ter espoliado a humanidade e não ter dado nada em troca. Às vezes tenho a sensação de que parasito, daí às vezes a grande depressão e a interrogação de se na realidade levo uma vida útil. Se calhar é minha tarefa explicar-me toda, explicar-me realmente toda, tudo o que me atinge e tortura e o que em mim brada por uma solução e formulação. Porque porventura não serão problemas só meus, mas também os problemas de muitos outros. E quando eu, ao fim de uma longa vida, conseguir encontrar uma forma para as coisas que agora são um caos dentro de mim, talvez tenha então concluído a minha pequena tarefa com êxito. Enquanto escrevo isto, creio que algures no meu subconsciente estou a ficar ago­niada. Por causa das palavras «tarefa de vida», «humanidade» e «solu­ção de problemas». Acho essas palavras pretensiosas, acho-me a mim mesma uma ingênua «donzela recatada», mas isso deve-se ao fato de ainda não ter coragem de me revelar.

[In Diário 1941- 1943,  Lisboa, Assírio & Alvim, 2009, p. 100]

sábado, 6 de abril de 2013

Sebastião Uchoa Leite


TEMPUS FUGIT N. 1

Não celebrar o sol 
mestre de tantas solércias.
Sol sovina,
amante do dia efêmero.
Não soletrar no céu 
qualquer salvação ou mensagem 
numa salva de gases.
Não saudar o dia, não dizer “Bom-dia” 
aos impacientes, nem indagar a saúde 
dos pacientes.
Ser cordial com a ruína.
Mas não ser turista da miséria 
nem depositar cheques no banco da fome. 
Especula-se a hora, a metafísica da luz 
a energia do mal?
Compreender que o dia é transeunte,
que a claridade é uma forma de transição.
Todos passeiam na transação do tempo
e se fazem boas transações
na cama burguesa, no sono finito.


TEMPUS FUGIT N. 2

Aqui deste alto pavimento, isolado 
do real vivido e dividido 
pelas folhas de vidro e aço, 
vê-se a ponte em perspectiva.
Não se vê o dragão nem a donzela 
daquele cenário de Ucello 
nem a Ville Blanche de Vieira da Silva, 
reflexos compostos em abstração, 
mas a máquina humana viva, 
a mecânica da vida concreta.
O outro lado não é previsível: 
a cidade é uma lâmina fria 
cortando cômodas suposições.
Uma lâmina curva que decepa 
a sóbria reta que se traçou na ponte. 
Matemática do passeio, 
composição do livre arbítrio, adeus!
As traças devoram
os livros de estampas góticas ou modernas.

In Obra em Dobras, São Paulo, Duas Cidades, 1988, pp. 168-169

Sobre Sebastião Uchoa Leite

Basquiat

sexta-feira, 5 de abril de 2013

Sophia de Mello Breyner Andresen

LISBOA
Digo
"Lisboa"
Quando atravesso — vinda do sul — o rio
E a cidade a que chego abre-se como se do seu nome nascesse
Abre-se e ergue-se em sua extensão nocturna
Em seu longo luzir de azul e rio
Em seu corpo amontoado de colinas —
Vejo-a melhor porque a digo
Tudo se mostra melhor porque a digo
Tudo mostra melhor o seu estar e a sua carência
Porque digo
Lisboa com seu nome de ser e de não-ser
Com seus meandros de espanto insónia e lata
E seu secreto rebrilhar de coisa de teatro
Seu conivente sorrir de intriga e máscara
Enquanto o largo mar a Ocidente se dilata
Lisboa oscilando como uma grande barca
Lisboa cruelmente construída ao longo da sua própria ausência
Digo o nome da cidade
— Digo para ver


[In Navegações]

Arco do Marquês do Alegrete
 Real Bordalo

quinta-feira, 4 de abril de 2013

Henriqueta Lisboa

AS COLEÇÕES
Em primeiro lugar as magnólias. 
Com seus cálices 
e corolas: aquarelas 
de todas as tonalidades e suma 
delicadeza de toque.
Pequena aurora diluída 
com doçura, nos tanques.

Depois a música: frêmito 
e susto de pássaro.
As valsas — que sorrateiras. E as flautas. 
As noites com flauta sob a janela 
inaugurando a lua nascida 
para o suspirado amor.

Mais tarde os campos, as grutas, 
a maravilha. E o caos.
Com seus favos e suas hidras, 
o mundo. O mar com seus apelos, 
horizontes para o éter, 
desespero em mergulho.

Com o tempo, o ocaso. As lentas 
plumas, os reposteiros 
com seus moucos ouvidos, 
a tíbia madeira para 
o resguardo das cinzas, 
as entabulações — e com que recuos — 
da paz.

Finalmente os endurecidos espelhos, 
os cristais sob o quebra-luz, 
dos ângulos o verniz, 
o ouro com parcimônia, a prata, 
o marfim dos esqueletos.

(Flor da morte)

quarta-feira, 3 de abril de 2013

Marguerite Duras

EXCERTO DE "CADERNOS DA GUERRA E OUTROS TEXTOS"

Disseram-me: “O seu filho morreu.” Foi uma hora depois do parto, eu tinha visto a criança. No dia seguinte, perguntei: “Como era ele?” Disseram-me: “É loiro, meio ruivo, tem sobrancelhas como as suas, é parecido com você.” “Ele ainda está lá?” “Está, vai ficar lá até amanhã.” “Ele está frio?” R. respondeu: “Não toquei nele, mas deve estar, está muito pálido.” Depois ele hesitou: “Ele é bonito, é também por causa da morte.” Pedi para vê-lo. R. me disse que não. Pedi à Superiora. Ela me disse: “Não vale a pena.” Não insisti. Explicaram-me onde ele estava, num cômodo pequeno ao lado da sala de trabalho, indo para lá à esquerda. Eu estava sozinha com R. no dia seguinte. Fazia muito calor. Eu estava deitada de costas, estava com o coração cansado, não devia me mexer. Não me mexia. “Como é a boca dele?” “Ele tem a sua boca”, dizia R. E todas as horas: “Ele ainda está lá?” “Não sei.” Eu não podia ler. Olhava a janela aberta, a folhagem das acácias que cresciam nos aterros da estrada de ferro periférica.

À noite, a irmã Marguerite veio ver-me. “É um anjo, você deveria estar contente.” “O que vão fazer?” “Não sei”, dizia a irmã Marguerite. “Eu quero saber.” “Quando são tão pequenos eles os cremam.” “Ele ainda está lá?” “Está lá ainda.” “Então os cremam?” “Sim.” “E rápido?” “Não sei.” “Eu não queria que o cremassem.” “Não se pode fazer nada.” No dia seguinte, a Superiora veio: “Você quer dar suas flores para Nossa Senhora?” Eu disse: “Não.” A irmã olhou para mim: ela tinha setenta anos, estava ressecada pelo exercício cotidiano de organizadora da clínica, ela era terrível, tinha um ventre que eu imaginava preto e seco, cheio de raízes secas. Voltou no dia seguinte. “Você quer comungar?” Eu disse: “Não.” Então ela olhou para mim. Seu rosto estava horrível, era o rosto da maldade, do diabo: “Essa aí não quer comungar e se queixa porque o filho morreu.” Ela saiu batendo a porta. Chamavam-na de “minha mãe” (É um dos três ou qua­tro seres que encontrei que teria gostado de estripar. Estripar. A palavra é vertiginosa. Estripar. A palavra foi feita para ela, para a sua barriga cheia de tinta negra.)

Estava fazendo muito calor. Era entre os dias 15 e 31 de maio. Verão. Eu disse a R.: “Não quero mais visitas. Nada além de você.” Deitada sempre voltada para as acácias. A pele de minha barriga se colava às costas de tão vazia que eu estava. A criança tinha saído. Não estávamos mais juntas. Ela tinha morrido de uma morte separada. Havia uma hora, um dia, oito dias, morta à parte, morta para uma vida que tínhamos vivido nove meses juntos e ela acabava de morrer separadamente. Meu ventre havia caído pesa­damente, floc, sobre si mesmo, como um trapo usado, um farrapo, um lençol mortuário, uma laje, uma porta, um nada que era esse ventre. Ele tinha portado gloriosamente, num arredondamento adorável, aquela semente próspera, aquele fruto (uma criança é um fruto verde que nos faz subir a saliva à boca como um fruto verde) submarino que só tinha vivido no calor viscoso, aveludado e escuro de minha carne e que a claridade matou, que foi mortal­mente atingido por sua solidão no espaço. Tão pequeno e já tanto desde que morreu à parte. “Onde está ele?”, dizia eu a R. “Está sendo cremado?” “Não sei.” As pessoas diziam: “Não é tão terrível no nascimento. É melhor isso do que perdê-lo aos seis meses.” Eu não respondia às pessoas. Era terrível? Acredito que era. Precisamente essa coincidência entre a sua "vinda ao mundo" e a sua morte. Nada. Não me restava nada. Esse vazio era terrível. Eu não tinha tido filho, mesmo durante uma hora, obrigada a imaginar tudo. Imóvel, eu imaginava.  

Este, que está ali agora e dorme, este riu há pouco, riu para uma girafa que lhe acabavam de dar. Ele riu e isso fez barulho. Ventava e uma parte do barulho daquele risinho chegou até mim. Então eu levantei um pouco a capota de seu carrinho, dei-lhe de novo a girafa para que ele risse outra vez. Ele riu outra vez e eu enfiei a cabeça na capota do carrinho para captar todo o barulho do riso. Do riso do meu filho. Coloquei o ouvido naquela con­cha para ouvir o barulho do mar. A ideia de que aquele riso ia-se embora com o vento era insuportável. Eu o peguei. Fui eu que o tive. Às vezes, quando ele boceja, eu respiro a sua boca, o hálito de seu bocejo. Não sou uma mãe biruta. Não vivo só desse riso, desse hálito. Preciso de muitas outras coisas, da solidão, de um homem. Não. Sei o preço de uma criança. “Se ele morrer”, pensei, “terei tido esse riso.” Foi porque perdi um, é porque sei que pode morrer que sou assim. Meço todo o horror da possibilidade de tal amor. A maternidade nos torna boas, diz-se. Bobagem. Desde que o tenho tornei-me má. Enfim, tenho certeza desse horror, enfim eu o tenho, enfim os que acreditam se tornaram para mim absolutamente estranhos.

[DURAS, M. Cadernos da guerra e outros textos, São Paulo: Estação Liberdade, 2006, pp. 221-223].

Steve gribben

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...