sábado, 8 de junho de 2013

Ruy Cinatti

NAVIOS DO VENTO
Fechei a minha janela 
ao vento que vem do largo, 
que entra pela voz do rio 
e declina pela cidade, 
silvando pelos telhados 
que lhe servem de desvio.
No rio sobem navios 
que apitam de quando em quando. 
Oh, mudo pranto fechado 
que se ouve no meu quarto!
Mas o vento força a porta, 
sublinha-se pelas frinchas 
com denodado desígnio 
que me fere de malícia.
Abro a janela, fecho-a 
e recebo-o em minha casa 
com honras de visitante, 
pé atrás, outro adiante, 
como se fosse esperado.
Oh, pranto desenganado!
Não converso, não me espanto 
com o que o vento sussurra 
quando entra de improviso.
O que se ouve no meu quarto 
é um anjo apavorado 
que me pretende assustar 
com uma voz d'além túmulo 
ouvida algures além-mar.
Oh, lamento recordado 
de uma criança a chorar!
Eu vejo cavalos brancos
galopando sobre as nuvens 
as crinas ao ar soltando, 
halo de espuma e salsugem. 
O vento que me percorre 
rodopia sem cessar, 
enche-me o quarto todo 
de furtivos sentimentos 
difíceis de controlar.
Oh, mudo pranto fechado 
a sete chaves pelo vento!

27/2/75

[In 56 Poemas, Lisboa: Relógio D´Água, 1992, pp. 64-65].






sexta-feira, 7 de junho de 2013

Jorge de Lima

O SONO ANTECEDENTE
Parai tudo que me impede de dormir: 
esses guindastes dentro da noite, 
esse vento violento, o último pensamento desses suicidas.
Parai tudo o que me impede de dormir:
esses fantasmas interiores que me abrem as pálpebras,
esse bate-bate de meu coração,
esse ressonar das coisas desertas e mudas.

Parai tudo que me impede de voltar ao sono iluminado 
que Deus me deu 
antes de me criar.

[In Antologia Poética, Rio de Janeiro: Ed. Sabiá, 1969, p. 81]



A.Kuinj

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Marize Castro

se me distancio, perco-me 
em mar aberto, acerto-me

furtiva, saúdo a morte

para me tornar oásis 
falta -me sorte

entre espectros, sou alegria 
a loucura é minha bússola

única guia

se me aproximo, atinjo-me 
asas me faltam, mas voar 
é meu agasalho

— meu mais crível lastro

In Habitar teu Nome, Natal (RN): Una, 2011, p. 26



quarta-feira, 5 de junho de 2013

Antonio Carlos Secchin

Margem
A Alberto Pucheu

Vou andando para a beira desse porto, 
entre cheiros de cigarro e de sardinha 
e um desejo líquido de partir.
Meu olhar desliza no horizonte, querendo saber 
a que distância um nome deixa de doer.
Seu nome, marcado em minha boca 
como a polpa de uma pera.
O navio enorme avisa que vai embora.
Escrevo a palavra salto, 
e paro no sal, e não chego ao alto.
A noite está boiando
num óleo grosso de silêncio e luz.
Molho os pés, penso em seu nome: gozo 
de um poço tapado. Insônia de musgos 
na beira das águas redondas.
Me vejo na ponta do cais,
cacos de luz
abrindo a cara do mar.
Destroços de palavras, pedaços de seu nome,
sílabas que batem contra os cascos.
Estou parado na beira de um porto,
azul e morte no oco do mar. 

In Todos os ventos, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2002, pp. 89-90



terça-feira, 4 de junho de 2013

Margaret Atwood

CANÇÃO DO BARCO
Há empurrões e tumulto, 
coletes salva-vidas de menos: 
isso é óbvio;

então, por que não passar os últimos momentos 
praticando nossa modesta arte 
como sempre fizemos,

criando um lago de conforto possivelmente falso 
em meio à tragédia?
Há algo a ser dito em favor disso.

Imaginem-nos, então, na orquestra do navio.
Todos permanecemos em nossos lugares, tocando 
notas breves e dedilhando e marcando o tempo

com nossos instrumentos cotidianos 
enquanto os gritos e as botas correm pesados.
Alguns pularam; seus casacos de pele e seu desespero

puxam-nos para baixo. Mãos crispadas se projetam em meio
[ao gelo.
O que estamos tocando? E uma valsa?
Há comoção demais

para que os outros possam distinguir com clareza,
ou então estão longe demais —

um alegre foxtrote, um velho hino meloso?
O que quer que seja, somos nós com os violinos
enquanto as luzes se esvaem e o grande navio afunda
e a água se fecha sobre ele. 

In A Porta, trad. Adriana Lisboa,  Rio de Janeiro: Rocco, 2013, pp. 109-110



segunda-feira, 3 de junho de 2013

Mariana Ianelli

PALABRA DE DANIEL
Mariana Ianelli - Gran poeta brasileña contemporánea

Si te poseo,
Poseo lo inefable:
El arte de estar
Por encima de mi cuerpo legendario.

Tu mensaje, apocalipsis.
Tu nombre, aquel que arde.

En búsqueda de lo extraordinario,
Si no te encuentro,
En cada cosa vivencio a tu falta,
En una gota de mirra, en una zona de sombra.

Te veo demasiado cerca,
Te siento aquí, medular.
Soy el triste ganador de mis días
Aunque sin desearlo;
Yo apenas te deseo
Y no esta lucha sin adversario.

Tu respiración, vendaval.
Tu centella de odio, catástrofe.

No hay tiempo que me fortalezca
Sin antes haberme derrumbado.
Para ti, mientras tanto, el tiempo
Es materia a la que das vida y muerte.
Si te poseo, poseo lo inenarrable:
El arte de hacer de mi palabra tu morada.

(Traducción: Martín Palacio Gamboa - Poemas publicados en “Los trazos de Pandora”, 2010)



Lélia Coelho Frota

CANÇONETA LEVETA
Não procures tecer de crivos 
metafísicos nosso amor.
Ele é lúdico. E não carece 
de teu floreio sem calor.

E nem sugere, mais vossa dama, 
alexandrinos como desculpa: 
só teu perfil, incisivo e breve, 
já destruíra a se alguma, culpa.

Eu não espero nem desespero. 
Para te amar, fiarei um escrínio 
de mais amar, que me dissolvesse 
pelas agruras do teu fascínio.

Tênue é a vida, rude o juízo 
que determina minha passagem — 
enternecer-me com teus indícios 
enquanto habitas outra paisagem.

[In Iminente Cristal, in Poesia Reunida 1956-2006, Rio de Janeiro, Bem-Te-Vi, 2013, p.184].



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...