quinta-feira, 1 de agosto de 2013

Isabel Mendes Ferreira

__________________________é agora que vejo a realidade. em suspenso. como se fazem milagres? em cortes de viés ou com dores de parto? pergunta com resposta na ponta do sonho que nos olha obliquamente. pensar mata. repensar é vestir a corda bamba do futuro com a plasticina do sangue vivo. sei nada. estou cega de saber da expansão do silêncio. ergo a voz imaterial. trepadeira de água. não espero. a confiança é uma partitura rasgada.

ooOOoo

dos cínicos e dos falsos competentes é que reza a história_______________________________sagrada profana torrencial poderosa violenta frágil festiva submissa retórica exaltada falsa invejavelmente impecável a história dos anjos e demónios que nos batem à porta para ser coração e entram adagas e se fazem sudários. flores de um mal que disfarçam bem o péssimo que são. dos cínicos e dos falsos cantores é que reza o presente. em altar de sombras e pontos de fuga. renda dormideira e tecedora de grinaldas mortas. são estes os insaciáveis anjos mortíferos que nos abraçam as costas com punhos de fogo. e sempre caminheiros sobreviventes sobre a nossa morte.

© Isabel Mendes Ferreira

RENOIR

quarta-feira, 31 de julho de 2013

Arthur Rimbaud

CIDADE
Sou um cidadão efêmero e não de todo descontente de uma metrópole tida por moderna porque o gosto geralmente aceito foi evitado no mobiliário e exterior das casas, e bem assim no plano da cidade. Aqui não encontrareis traços de nenhum monumento de superstição. A moral e a língua reduzidas, afi­nal! à sua mais simples expressão. Esses milhões de pessoas, que não têm necessidade de se conhecerem, conduzem a educação, o trabalho e a velhice de maneira tão paralela que as loucas estatísticas concluiriam que seu curso de vida só pode ser várias vezes inferior ao do encontrado para os povos do continente. Assim [como], de minha janela, vejo espectros novos rolando através da espessa e eterna fumaça do carvão, — nossa sombra dos bosques, nossa noite de verão! — novas Erínias, diante do meu chalé que é minha pátria e todo o meu coração já que tudo aqui se parece com isto, — a Morte sem lágrimas, nossa ativa filha e criada, um Amor desesperado, e um bonito Crime piando na lama da rua.
(Iluminações)

In Prosa Poética, trad. Ivo Barroso, 2a. ed. rev., Rio de Janeiro, Ed. Topbooks, 2007,  p. 241


terça-feira, 30 de julho de 2013

Astrid Cabral

CREPÚSCULO
Por que esta ânsia de sobreviver 

assim se amoita no âmago de mim 

sempre que as lerdas pálpebras da noite 

baixam nas altas ramas com os morcegos? 

Por que o poente assim me abala o eixo 

e de fúnebre pompa alma me embrulha 

tal qual mortalha um pouco prematura? 

Por que me pesa suportar as trevas 

que o implacável fim do dia instaura 

quando já estagiei em precipícios 

saltando trampolins perto de abismos? 

Por que morrer me assusta e paralisa 

se o que temo perder, de longe sei 

nada tem de eldorado ou paraíso?

Cézanne

segunda-feira, 29 de julho de 2013

Rainer Maria Rilke

O LEGENTE
Há muito tempo, desde que a tarde se ouvia
Com o murmúrio da chuva nas janelas, eu lia.
O vento lá fora, já o não escutava:
O meu livro pesava.
Como se fossem rostos, as folhas sob o meu olhar
Escurecem de tanto pensamento
E, envolvendo a leitura, avolumava o tempo.
De súbito desce sobre as páginas um fulgor,
E em vez de confusas palavras - um tormento -
Há em todas só... noite, noite só, a nascer.
Não olho ainda para fora, mas já as longas
Linhas se desfazem, e as palavras rolam
Do fio que as liga, vão para onde querem...
E então eu sei que há céus sem fim
Sobre o esplendor e a plenitude dos jardins;
O sol teve de nascer mais uma vez. -
E agora é verão e noite o horizonte:
O que andava disperso em grupos se une,
Poucos, e há gente pelos caminhos escuros,
E longe, estranhamente, como se outro sentido
Tivesse, ouve-se o pouco que ainda acontece.

E ao levantar do livro o olhar agora,
Nada me é estranho, tudo tem grandeza.
O que aqui dentro eu vivo, está lá fora,
E aqui e lá não tem limite o mundo;
Só eu me teço mais com tudo isso,
Quando os meus olhos se ajustam às coisas
E à grave singeleza dessa gente -
O mundo cresce então, num golpe de asa.
O céu inteiro o abraça, é o que se sente:
E a estrela d′ alba é como a última casa.

In O Livro das Imagens, trad. Maria Teresa Dias Furtado

O SOLITÁRIO
Como alguém que por mares desconhecidos viajou,
assim sou eu entre os que nunca deixaram a sua pátria;
os dias cheios estão sobre as suas mesas
mas para mim a distância é puro sonho.

Penetra profundamente no meu rosto um mundo,
tão desabitado talvez como uma lua;
mas eles não deixam um único pensamento só,
e todas as suas palavras são habitadas.

As coisas que de longe trouxe comigo
parecem muito raras, comparadas com as suas —:
na sua vasta pátria são feras,
aqui sustém a respiração, por vergonha.

In O Livro das Imagens, trad. Maria João Costa Pereira

Anastasia Kraineva



domingo, 28 de julho de 2013

Rubem Braga

A Palavra

Tanto que tenho falado, tanto que tenho escrito — como não imaginar que, sem querer, feri alguém? Às vezes sinto, numa pessoa que acabo de conhecer, uma hostilidade surda, ou uma reticência de mágoas. Imprudente ofício é este, de vi­ver em voz alta.
As vezes, também a gente tem o consolo de saber que alguma coisa que se disse por acaso ajudou alguém a se reconciliar consigo mesmo ou com a sua vida de cada dia; a sonhar um pouco, a sentir uma vontade de fazer alguma coisa boa.
Agora sei que outro dia eu disse uma palavra que fez bem a alguém. Nunca saberei que palavra foi; deve ter sido alguma frase espontânea e distraída que eu disse com naturalidade porque senti no momento — e depois esqueci.
Tenho uma amiga que certa vez ganhou um canário, e o canário não cantava. Deram-lhe receitas para fazer o canário cantar; que falasse com ele, cantarolasse, batesse alguma coisa ao piano; que pusesse a gaiola perto quando trabalhasse em sua máquina de costura; que arranjasse para lhe fazer companhia, algum tempo, outro canário cantador; até mesmo que ligasse o rádio um pouco alto durante uma transmissão de jogo de futebol... mas o canário não cantava.
Um dia a minha amiga estava sozinha em casa, distraída, e assobiou uma pe­quena frase melódica de Beethoven — e o canário começou a cantar alegremente. Haveria alguma secreta ligação entre a alma do velho artista morto e o pequeno pássaro cor de ouro?
Alguma coisa que eu disse distraído — talvez palavras de algum poeta antigo — foi despertar melodias esquecidas dentro da alma de alguém. Foi como se a gente soubesse que de repente, num reino muito distante, uma princesa muito triste tivesse sorrido. E isso fizesse bem ao coração do povo; iluminasse um pouco as suas pobres choupanas e as suas remotas esperanças.

Novembro, 1959

In 200 Crônicas escolhidas, Rio de Janeiro: Ed. Record, 35a. ed., 2013, p. 377


sexta-feira, 26 de julho de 2013

Ruy Belo

A MÃO NO ARADO
Feliz aquele que administra sabiamente
a tristeza e aprende a reparti-la pelos dias
Podem passar os meses e os anos nunca lhe faltará

Oh! como é triste envelhecer à porta
entretecer nas mãos um coração tardio
Oh! como é triste arriscar em humanos regressos
e equilíbrio azul das extremas manhãs do verão
ao longo do mar transbordante de nós
no demorado adeus da nossa condição
É triste no jardim a solidão do sol
vê-lo desde o rumor e as casas da cidade
até uma vaga promessa de rio
e a pequenina vida que se concede às unhas
Mais triste é termos de nascer e morrer
e haver árvores ao fim da rua

É triste ir pela vida como quem
regressa e entrar humildemente por engano pela morte dentro

É triste no outono concluir
que era o verão a única estação
Passou o solidário vento e não o conhecemos
e não soubemos ir até ao fundo da verdura
como rios que sabem onde encontrar o mar
e com que pontes com que ruas com que gentes com que montes conviver
através de palavras de uma água para sempre dita
Mas o mais triste é recordar os gestos de amanhã
Triste é comprar castanhas depois da tourada
entre o fumo e o domingo na tarde de Novembro
e ter como futuro o asfalto e muita gente
e atrás a vida sem nenhuma infância
revendo tudo isto algum tempo depois
A tarde morre pelos dias fora
É muito triste andar por entre Deus ausente

Mas, ó poeta, administra a tristeza sabiamente

("O Problema da Habitação - Alguns Aspectos") - 1962



quinta-feira, 25 de julho de 2013

Isabel Mendes Ferreira

era da alma. sim. estilhaços, era da paisagem caída sobre os acordes da noite, cálida. calada, de poeiras e relâmpagos em extinção, porém fecundos ainda, como silêncio ambarino nos teus ombros, redondos, estilhaços, sim. de um dezembro que a morte fez de todos os dias o mesmo dia. mesmo depois de mim. rasa na tua sepultura de ervas e cardos. estilhaços sim. refracções isoladas de tempo e som. e a vida é só este instante, de estilhaços sim. “as obras primas são sempre escritas numa espécie de língua estrangeira”.

voilá la vie. la nuit. estilhaços, oui. sim. línguas de aço. doença sem frêmito, devagar, só espaço, praia sem ondas, rebentação fria. sono­lenta no horizonte, cada vez mais perto, na constante matéria do pre­cário. rígido, hirto. um devir-anjo felino, a irromper-me a garganta, inchada, de sílabas, de papel, ardido, ardente, rumor parasita de uma ausência musculada. on est ce quon pense? já não me penso, arrefece a respiração, medo estreito, ponte alargada de certezas, rios árabes a serem pedras líquidas no deserto enquanto me visto de areia, ou de sombra, cada vez mais perto, perto, perto, estilhaços, sim. agora, incêndio, sem sentido, de olhos abertos, a devorar dezembro, que atento e vingativo me espera e abraça, perto, muito perto, viagem, certa, e a casa é uma estátua, presença de nuvem tumular. on devient noir sur le corp et on se quitte.. .em estilhaços, reveladora a ausência de luz. e de dezembro é o pulso. decepado. é bom não escrever. des. ser. aberto o olhar em estilhaços. arrepio.
alma tensa e húmida de terra e de sal. como ser interior sendo corpo e planta silente? 

In As Lágrimas Estão Todas Na Garganta do Mar, Lisboa: Arcádia, 2010, pp. 358-359.

Amadeo de Souza-Cardoso

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...