quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Miodrag Pávlovitch

Réquiem
Desta vez
morreu alguém por perto 

Réquiem
no parque cinzento 
sob o céu carrancudo

As mulheres seguiram o corpo morto 
a morte ficou no quarto vazio 
e desceu a cortina

Sintam
o mundo ficou mais leve 
por um cérebro humano

Silêncio agradável depois do almoço 
o menino descalço senta-se ao portão 
e come uvas

Será que alguém permanece fiel 
àquilo que perdeu

Miodrag Pávlovitch, Poetas do Mundo, Bosque da Maldição, Brasília: Editora UNB, 2003, p. 101, trad. Aleksandar Jovanovic.

CÂNDIDO PORTINARI

terça-feira, 5 de novembro de 2013

Luiza Neto Jorge

O corpo insurrecto
Sendo com o seu ouro, aurífero,
o corpo é insurrecto.
Consome-se, combustível,
no sexo, boca e recto.

Ainda antes que pegue
aos cinco sentidos a chama,
por um aceso acesso
da imaginação
ateiam-se à cama
ou a sítio algures,
terra de ninguém,
(quem desliza é o espaço
para o corpo que vem),

labaredas tais
que, lume, crepitam
nos ciclos mais extremos,
nas résteas mais íntimas,
as glândulas, esponjas
que os corpos apoiam,
zonas aquáticas
onde os órgãos boiam.

No amor, dizendo acto de o sagrar,
apertado o corpo do recém-nascido
no ovo solar,
há ainda um outro
corpo incluído,

mas um corpo aquém
de ser são ou podre,
um repuxo, um magma,
substância solta,
com pulmões.

Neste amor equívoco
(ou respiração),
sendo um corpo humano,
sendo outro mais alto,
suspenso da morte,
mortalmente intenso,
mais alto e mais denso,

mais talhado é o golpe
quando o põem em prática
com desassossego na respiração
e o sossego cru de quem,
tendo o corpo nu,
a carne ardida,
lhe pede o ladrão
a bolsa ou a vida.

[In Terra Imóvel  Poesia, 2ª edição,  organização e prefácio de Fernando Cabral Martins, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001].

Sobre Luiza Neto Jorge



segunda-feira, 4 de novembro de 2013

Hilda Hilst

SM:  Você poderia falar sobre o seu processo de criação na poesia e na prosa?
hh:  Normalmente você não pode dizer “eu hoje vou escrever um poema”, da mesma forma que você diz “eu hoje vou continuar o meu trabalho de ficção, de prosa”. Escrever ficção é um trabalho mais ou menos disciplinado. A poesia não. A poesia você não programa, é um estado quase inexplicável porque surge a qualquer momento. O primeiro verso aparece para você.

Outro dia, de repente, me veio uma frase assim: “Uma égua na água sob a lua”. Achei a frase bonita, anotei e coloquei-a em minha mesa. Às vezes eu anoto umas frases e coloco em minha mesa. Tenho uma bonita de Oscar Wilde que diz: “Todos nós estamos na sarjeta, mas alguns de nós olham para as estrelas”. Então anotei a frase. Depois de mais ou menos uns trinta dias, por acaso, eu estava folheando um dicionário de autores estrangeiros, quando leio a história do poeta chinês Li Tai Po, que embriagado sai de barco uma noite e, ao querer apanhar a lua refletida no lago, mergulha na água e morre. Quando terminei de ler essa história, de repente, me veio um fluxo amoroso, um sentimento que não sei definir, uma coisa febril, como se você estivesse entrando em contato com algo que não sabe explicar. É um sentimento quente, fervoroso, e então a poesia vem quase num fluxo, quase inteira:

De tanto te pensar, Sem Nome, me veio a ilusão.
A mesma ilusão.

Da égua que sorve a água pensando sorver a lua.
De tanto te pensar me deito nas aguadas
E acredito luzir e estar atada
Ao fulgor do costado de um negro cavalo de cem luas.
De te sonhar, Sem Nome, tenho nada 
Mas acredito em mim o ouro e o mundo.
De te amar, possuída de ossos e de abismos
Acredito ter carne e vadiar
Ao redor dos teus cimos. De nunca te tocar.
Tocando os outros
Acredito ter mãos, acredito ter boca
Quando só tenho patas e focinho.
Do muito desejar altura e eternidade

Me vem a fantasia de que Existo e Sou.
Quando sou nada: égua fantasmagórica 
Sorvendo a lua n’água.

A poesia vem, sem você arrumar muito, com esse ardor, esse vermelho todo, e então eu vou escrevendo o poema. Depois eu arrumo poucas palavras, porque, nesses dias todos, aquelas imagens já estavam dentro de mim. A ficção também aparece como uma das imagens de mim mesma. Eu imagino que posso ser várias pessoas, vários homens, várias mulheres, e, dependendo de como estou comigo mesma e com o mundo, surge uma personagem. Surgiu assim a Hillé, num momento em que eu sentia uma necessidade enorme de falar do desamparo que a pessoa sente envelhecendo, tendo desejado tanta compreensão e não tendo conseguido. Então surge uma personagem dentro de mim e o nome Hillé vem de repente. Talvez seja de lembranças de leituras, do meu nome, Hilda Hilst... Depois uma amiga me contou que Hillé quer também dizer doença. E eu, antes de tudo, estava sendo Hillé naquele momento, estava passando por um processo de busca muito desesperada, me sentindo desamparada em relação ao mundo, achando que várias pessoas nessa minha idade devem se sentir assim, sem coordenadas para se segurar, sentindo um desespero muito grande. E, então, a Hillé ficou me acompanhando um ano, dois anos. Às vezes eu anotava uma frase que ela dizia, um momento dela, mas nunca conseguia a Hillé inteira. Até que um dia, de repente também, a primeira frase na prosa surge assim de repente, não tem momento nem hora, mas você sabe que é o começo do relato. Então me veio a frase: “Vi-me afastada do centro de alguma coisa que não sei dar nome...”. É o dia em que vai começar tudo. Tenho sensações diversas e também medo, pois há dois anos que estou convivendo com aquela personagem e sei que agora é hora de passar para outro que já estava sedimentado dentro de mim. O texto já vem bastante arrumado porque já foi vivido esses dois anos, então não há muito o que ficar trabalhando. Escrevo pouco por dia, o máximo que consigo escrever são umas trezentas palavras. Para mim é assim. Escrevo na primeira pessoa porque sinto que fico mais próxima do outro para contar. Tenho dificuldades em escrever na terceira pessoa, pois sinto sempre um distanciamento, como se eu não estivesse dentro da personagem.
Tenho a impressão de que todo o meu trabalho é mesmo um círculo buscando as mesmas coisas. A pergunta é sempre a mesma. Quem eu sou, por que exatamente essa é a minha vida, será que eu vou terminar como? Será que eu entendi direito o meu processo de vida, soube fazer mais do que eu podia, ou fiz menos? São sempre as mesmas buscas, e talvez exista alguma coisa que eu ainda não compreendi, que está ligada a mim num processo que eu também não sei qual é, mas que é invisível, inaudível, incomensurável Mas eu sinto que tenho uma afinidade, uma vontade de pactuação com algo que eu desconheço, mas que faz parte do cósmico. Eu acho que o meu caminho é sempre esse, o desejo de me irmanar com o inatingível para ver se descubro o sentido do que é existir.

In "Fico besta quando me entendem - Entrevistas com Hilda Hilst", Cristiano Diniz (Org.), São Paulo, Ed. Globo, pp. 91-93. 


domingo, 3 de novembro de 2013

Tadeusz Różewicz

Entre os muitos
e tão urgentes afazeres
eu me esqueci
de que também é preciso morrer

irresponsavelmente
negligenciei esta obrigação
ou a assumi de forma superficial

a partir de amanhã
tudo mudará

Cuidadosamente começarei a morrer
com inteligência e otimismo
sem perder um só instante

Sobre Tadeusz Różewicz




sábado, 2 de novembro de 2013

Mariana Ianelli

Para honrar tua vontade, festejamos.
Esse amor rente à boca nos ensina 
A crer no tempo da eternidade,
Num espaço em que a matéria é luz, enfim,
E onde o temor da morte se destrói. 
Atravessamos a época de um verão que faz sofrer, 
Uma serpente se levanta entre os cascalhos 
E se põe contra quem vem pelo caminho.
Mas somos muitos, somos teus, e aguardamos.
Se coragem há que torne as horas mais tranquilas, 
Nós não sabemos,
Apenas contamos com o retorno de teus olhos 
E ao poder da natureza suplicamos 
Que recuperes a mesma identidade 
Pela qual te reconhecíamos diariamente 
Como o soberano autor de tua vida 
E não este ser convulso que de nós se afasta 
Para vagar numa esfera invernal 
De mudez, alienação e indiferença.
Estamos em ti sempre que te ausentas.

[Passagens, São Paulo: Iluminuras, 2003, p. 81]

Mark Rothko

Antonio Gamoneda

Tenho frio junto aos mananciais. Subi até cansar  o coração. 

Há erva negra nas ladeiras e açucenas roxas entre 
sombras, mas, - que faço diante do abismo? 

Sob as águias silenciosas, a imensidão carece de significado. 

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Diante dos  vinhedos queimados pelo inverno, penso no medo e na luz (uma única substância em meus olhos), penso na chuva e nas distâncias perpassadas pela ira.



sexta-feira, 1 de novembro de 2013

Ernesto Sabato

BRUNO QUERIA IR-SE,

sentia-se incômodo, o via desalentado, além de escrever centenas de páginas ainda era necessário explicar quem era, pois afinal se tratava disso. E agora o via naquele canto, tirando os óculos e passando a mão na testa, com seu gesto de cansaço e desalento, enquanto aqueles rapazes discutiam entre si. Porque nem eles mesmos estavam de acordo, e constituíam uma absurda mistura (que fazia ali, por exemplo, Marcelo, e seu companheiro soturno e silencioso? Em virtude de que disparatada combinação também se encontravam ali? ). E aquela discórdia, aquela violenta e irônica discórdia, lhe lembrava o signo da tremenda crise, o desmoronamento das doutrinas. Se acusavam entre si como inimigos mortais, e no entanto todos eles per­tenciam ao que chamavam esquerda; mas cada um deles parecia ter motivos para considerar com desconfiança o que estava ao lado ou em frente, como sutil ou aber­tamente vinculado a serviços de informações, à CIA, ao imperialismo. Olhava seus rostos. Quantos mundos diferentes havia atrás daquelas fachadas, quantos seres fun­damentalmente distintos. A Humanidade Futura. Que cânones, que tipos de seres? O Homem Novo. Mas como construí-lo com aquele arrivista hipócrita, com aquele Puch que ali estava a adivinhá-lo, e com alguém como Marcelo? Que atributos, que unha daquele pequeno arrivista da esquerda poderia contribuir à integração desse Homem Novo? Contemplava Marcelo, com sua campeira surrada e suas calças enru­gadas, com aquela presença quase imperceptível que no entanto tanto impressiona­va Sábato. Porque, explicava-lhe Sábato, diante dele se sentia sempre culpado, como em outro tempo lhe ocorrera em relação a Arturo Sánchez Riva; e não porque fosse terrível, mas pelo contrário: por sua bondade, por sua reserva, por sua delicadeza. Não acreditava que sua alma fosse aprazível; quase com certeza era atormentada. Mas seu tormento era recatado, até mesmo cortês. Lhe resultava curioso observar em seu rosto os mesmos traços que no Dr. Carranza Paz, seu nariz ossudo e proemi­nente, sua fronte alta e estreita, aqueles olhos grandes e aveludados, um pouco úmi­dos: um dos cavalheiros do enterro do Conde de Orgaz. Por que então as diferen­ças? Mais uma vez compreendia que pouco significavam os ossos e a carne do rosto. Eram sutilezas, as que produziam as diferenças, às vezes abissais. Mas é que as coisas se diferenciam no que se parecem, já havia descoberto Aristóteles, a parte proustiana daquele gênio múltiplo. E era efetivamente o que aqueles olhos e aquela boca e aquele nariz ossudo, proeminente, tinham de comum, o que revelava o fosso aberto entre pai e filho. Um fosso talvez natural, mas logo aumentado pelos anos. Traços quase invisíveis nos extremos dos olhos, nas pálpebras, nas comissuras dos lábios, na forma de inclinar a cabeça e de recolher as mãos (em Marcelo, com timidez, como pedindo desculpas por tê-las, por não saber onde escondê-las), o que se­parava triste e definitivamente dois seres tão próximos e até mesmo (quase poderia afirmá-lo) tão necessitados um do outro.

In Abadon,  o Exterminador, Tradução de Janer Cristaldo, Rio de Janeiro, Livraria Francisco Alves Editora, 1981, p. 101.






Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...