quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

João Luís Barreto Guimarães

Sol de janeiro
Nunca tanto como hoje reparei com atenção
na
luz do sol de janeiro. Forte
mas delicada. Furtiva
mas
demorada. Não arde nem faz tremer.
Não é densa nem clara. A
luz
do sol em janeiro:
assim é o nosso amor
oculto pela tinta dos dias apenas
espreita uma aberta
(uma distracção das nuvens)
para luzir e irromper
(nunca antes como hoje precisei
tanto que o vento lhe
desse oportunidade).
O nosso amor é janeiro:
mesmo se o julgo esquecido
sei que
vem sempre lá.

[In Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2011, p. 212]


terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Mariana Ianelli

O DIA FINAL
É véspera da passagem
do ano velho
e como os primos distantes
que se reconhecem
só nos dias de ceia
(mas calorosamente)
aqueles deveres vitais
de resolver as falhas
no amor e na moral,
por inteiro, reaparecem
(calorosamente)
prometendo a solução
que não há.
E como o peru grávido
de passas e de bom cheiro,
o peru da ceia
a que vão os primos,
chegam os projetos de hoje,
estelares,
na poesia, no suicídio,
e são tantos
que estão fora de pauta
em bombardeio
na mira da página branca
- é um salto ágil
para cima do muro
para as telhas de casa
para um rabo de nuvem
para os confins do céu
para além do mundo.
Esse ano terminando,
incandescemos:
como a chama de um dia
que treme até à tarde
e pousa rápida, grafite.

[In Trajetória de Antes (1999), pp. 73-74]




Margaret Atwood

DAGUERREÓTIPO EM IDADE ANTIGA
Sei das mudanças, sim
Sei que mudei

A quem pertence este rosto inexpressivo
Tristonho e largo, redondo
Suspenso no papel
como se avistado num telescópio

uma lua granulosa

Levanto-me da cadeira
Repudio a gravidade
Viro-me
e saio para o jardim

Revolvo os vegetais
A minha cabeça pesada
A reflectir o sol
Sombras nas cavadas ravinas
Abertas nas minhas faces, nas
Duas crateras dos meus olhos

Entre os caminhos
Traço a minha órbita
As macieiras brancas
Brancas estrelas
Revolteando em meu redor

A ser devorada
Pela luz.

Tradução: HelenaVasconcelos



segunda-feira, 30 de dezembro de 2013

Dora Ferreira da Silva

ÚLTIMO DIA DE UM ANO QUALQUER
Eis a chuva do último dia.
Levados são todos os outros
neste ar de chuva,
mais que o sol, dissipador de imagens.
Mas quem é que tange as cordas de um instrumento
delicadamente desafinado,
sobressaltando objetos sobre a mesa
e a madeira polida?
Há uma nota imprevista: leve pisar de outrora.

A chuva cessa. O ano findou
com seu vestido sóbrio, quase elegante.

[In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Ed. Topbooks, 1999, pp. 264-265]



domingo, 29 de dezembro de 2013

António Cabrita

OITO VARIAÇÕES DE UM MELRO SUFI
1
Essa voz que vem de dentro
É a voz do mar.
Ela pergunta-nos: onde está a morte?
Em que naufrágio se perdeu?
Em que banco de coral se dissimulou?
Dormem os seus olhos na boca do lúcio,
Ou sob o manto das medusas?
Onde está a morte, tão mínima
Que temos de a procurar no miolo das praias?
Reboam as ondas sobre os seixos
E, ouvidos os canários, perguntam-lhes:
Onde está a morte?
Essa voz que vem de dentro,
Que nos exalta e recoloca
No êxtase, como dentro de um vaso,
É a voz do mar.

2 
Quando vejo alguém encantado com o abajur
Percebo que cegou à luz,
Que um reposteiro se interpôs
Entre ele e o mar.

Eu felizmente tenho os teus ombros
Que não me deixam esquecer
Tenho a minha boca que os declina
Em colinas de jade.

Basta mordê-las e a luz jorra
Criva-se nos meus olhos,
Espasmódica, láctea: reflui.

3
Como pode haver uma ponte sem duas margens?
Olhou-a dentro, descontaminando
A fractura dos seus olhos?
Os mistérios são verdes, como o electrão,
Como a tua carne no duche.
O que permanece intocado
Cabe dentro das Suas mãos,
Mãos que seguram as tuas.
A saída do ar é Deus
Que te alambaza de vinho.
Sacia-te, antes de recomendar:
O gato comeu o Espírito Santo,
Sorve-lhe tu agora o coração.

4
É muito difícil pôr a cabeça
De lado. A cabeça
Do cravinho
É mais sã. Também à palavra
Às vezes é preciso cosê-la
Ou encapsulá-la no silêncio.

5
Só via tinta preta
Onde havia letras de um viço
Que atapetava o chão de miosótis.
Nesse verão amiúde

Raiou a caligrafia de Deus
Nos olhos da raposa.
Mas estava incréu
Como pão ázimo.

A sua alma ia com a crina
Daquele cavalo
Que refulgiu como um cometa
No incêndio do estábulo.

6
Quando o estilhaço
Abre uma cratera na cabeça
Do soldado que estava ao teu lado,
Ter medo é uma demasia Inútil.

Quando acordas
Deslumbrado pela mão que poisada
No teu peito te desencordoa
O sangue, ter medo
É uma demasia Inútil.
Guarda as moedas
Para as atirares ao mar.

7
Há um náufrago nos teus cabelos,
Arrasta-te para cima.
O que é plausível
É que a cereja na sua boca
Faça de mim um homem diferente.
Há um náufrago na tua aorta,
Arrasta-te para o sol.

8
Nunca o meu coração foi tão verde
E vibra como a prancha da piscina que folgou.
Aflui a mim a paisagem,
Manancial, anelo, no sonho de despertar Contigo.

E sou quase feliz.
Só não sei onde cresce o ruibarbo.
Havia uma mulher que areava a lua,
Um plátano a abarrotar de estorninhos,
O teu medo estreme na ombreira
Da minha solidão. Confia.
Essa voz que vem de dentro É a voz do mar. 








sábado, 28 de dezembro de 2013

Emily Dickinson

Eu passei fome todos esses Anos - 
E enfim cheguei à Mesa
Para almoçar - e eu tremendo - o Vinho
Exótico toquei -

Era isso que eu vira à Mesa quando
Espiava às Janelas
A Riqueza que à míngua eu não ousava
Almejá-la sequer

Um Pão inteiro era tão diferente
Das Migalhas que tive
E que ao Ar Livre os Pássaros vieram
Comigo repartir -

Doía-me a Fartura - era algo novo -
Senti-me mal -  e estranha -
Qual Frutinha da Serra que na Rua
Fosse largada ao chão -

E eu já nem tinha fome - e me dei conta
Que a Fome era só algo
Que se tem do outro lado das Janelas -
E acaba-se ao entrar

[In A branca voz da solidão, tradução de José Lira, São Paulo: Iluminuras, 2011, p. 299].


Nesis Elisheva





sexta-feira, 27 de dezembro de 2013

Ruy Belo

POEMA DE NATAL
É dia de natal a festa da família um deus nasceu
não me sinto sozinho mas estou sozinho
toda a minha família sou só eu
Levo nas algibeiras alguns versos e caminho
quando sinto de súbito o desejo de reler o herculano
a única pessoa que nos livros e na vida hoje me faz falta
única companhia para o meu natal
Entro nas poucas livrarias de peniche
e gasto em livros de herculano o dinheiro que tenho
O herculano entre outras coisas bem sabia distinguir os tempos
sabia o que num tempo é distinto de outro tempo
tinha muitos amigos entre os seus e meus antepassados
e deu sempre à verdade o que os demais costumam dar à vida
Era casmurro abandonou um dia as casas de má nota
deixou o parlamento e a vida literária
e procurou no campo a companhia
de árvores bem mais que os homens verticais
Tinha muito mau génio fulminava com os olhos
franzia a testa e não havia nada que fazer
era teimoso o velho como antero lhe chamava
Penso nele e caminho pelas ruas de peniche
e só vão a meu lado uma má música daquelas
que ferem os ouvidos nestas quadras do natal
e a fotografia num jornal de um elevado dignitário da hierarquia
para quem o mistério do natal não sei bem que mistério ou que natal
encerra o verdadeiro humanismo novo
frase que me provoca comoções
porquanto as aliterações são dos meus pratos favoritos
Vou encerrar-me em casa a sós com herculano
que tanto quanto sei não era humanista
ou que se porventura o era o não sabia
ou não dizia ao menos ser tal coisa como
se duvidássemos que o fosse se é que o era
É dia de natal estou sozinho e penso ler o herculano
que há tanto ano já me não fazia
a falta que me faz precisamente neste dia
em que só me faz falta a sua companhia
Vamos pra minha casa ó herculano
vou fechar as janelas acender a luz
e aguardar contigo o fim do ano
Prefiro-te herculano a músicas e altos dignitários pois
nem talvez tenha já a convicção de quem anualmente
escreve pontual se não contente o seu poema de natal
(Transporte no Tempo)
[In Todos os Poemas, Lisboa, Assírio & Alvim, 3a. edição, 2009, pp. 474-475]



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...