sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

João Luís Barreto Guimarães

FALSA PARTIDA
Ainda estranho o lugar quando acordamos
no revés de já ser outro
o dia
porque espelhas o tempo à janela é
à face de teu rosto que decido
o que vestir.
O vento que molda a praia
é de todas as bandeiras:
há um silêncio talhado à substância do quarto
(o chão de madeira matiza o
frio que força uma fresta)
podia apostar comigo: hoje
de madrugada
um cão ladrou na voz do galo.
O meu sobrenome segue-te
pela véspera da casa
(fim de emissão no ecrã
cálices
meio hasteados) a
chuva desistiu de apagar nosso amor embaciado
pelo lado negativo.
Tornas à cama e abres
aquele romance de sempre (o descanso existe
noutro cansaço).

[In Poesia Reunida, Lisboa, Quetzal, 2011, p. 183].

JORGE CABALLERO


quinta-feira, 30 de janeiro de 2014

W. H. Auden

HERMAN MELVILLE
(A Lincoln Kirstein)

Perto do fim velejou rumo a uma extraordinária mansuetude
E ancorou em sua própria casa e chegou até a esposa
E vogou dentro do golfo da mão dela
Que atravessava todas as manhãs para ir a um escritório
Como se a sua ocupação fosse outra ilha.

A bondade existia: era esse o saber novo.
Seu terror teve de arder até esgotar-se
Para ele poder vê-la; mas fora o temporal que o arrastara
Além do cabo Horn do sucesso perceptível
Que brada: “Este rochedo é o Éden. Naufragai aqui.”

Ensurdeceu-o com trovões, porém; com raios confundiu-o:
— O herói maniaco a buscar, como se joia,
O raro monstro ambíguo que o sexo lhe arruinara,
Ódio por ódio terminando em grito,
O inexplicado sobrevivente atalhando o pesadelo —
Tudo isto era intrincado e fácil; a verdade era bem simples.

O Mal é pouco aparatoso e sempre humano
E partilha o nosso leito e come à nossa mesa,
E somos apresentados à Bondade todo dia,
Mesmo em salas de visita entre uma turba de enganos;
Tem um nome, algo assim como Billy, e é quase perfeito,
Mas ostenta uma gagueira como se fosse enfeite;
E toda vez que se encontram o mesmo tem de acontecer;
É o Mal que qual amante se vê só e sem socorro
E lhe cumpre puxar briga e dela sair bem,
E ambos claramente se destroem aos nossos olhos.

Pois agora ele estava desperto e bem sabia
Que ninguém é poupado nunca, exceto em sonhos.
Mas havia algo mais que o pesadelo distorcera —
Mesmo o castigo era humano e uma forma de amor:
A tormenta a rugir fora a presença do seu pai
E no peito do pai havia sido carregado o tempo todo.

O pai agora o pôs no chão, com jeito, e foi-se embora.
Ele ficou de pé na exígua sacada, ouvido à escuta:
Como na infância, os astros cantavam lá de cima
“Tudo é vaidade, tudo’’, mas não era a mesma coisa;
Pois agora as palavras desciam como a calma das montanhas —
— Nathaniel havia sido tímido porque o seu amor era egoísta —
Renascido, gritou, de exultação rendido:
“A Divindade partiu-se como um pão. Nós somos os pedaços.”

E sentou-se à escrivaninha e escreveu um conto.
(j. P.P.)

[In Poemas, Seleção de João Moura Jr., Tradução e Introdução: José Paulo Paes e João Moura Jr., São Paulo, Companhia das Letras, 1986, pp. 83-85]

OLIVER RAY



quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

Eucanaã Ferraz

Pílades e Orestes
Como se caminhassem sobre a pele de uma praia,
no ladrilho dessa pele, podiam ouvir a respiração
repetida na respiração do outro como num búzio
o búzio uma só flauta onde nascia o vento

na voz vizinha que respondia apontando o peito
que o acolhera confundidos na mesma água
que lhes subia pela cintura num tempo demorado,
nem sol nem lua, somente essa quadra, quando

o pensamento desviava de crimes, imolações,
moedas, suas mãos singravam cristais, estrelas,
antes de serem órfãs, livres do medo, rosas
de plástico, abelhas apenas, um

do outro o amigo esperado o oráculo
a cordilheira o bosque a noz o raio estragados
com o doce de se amarem sem que se dissessem,
mas, ali, ombro a ombro, nada havia além deles;

o mundo interrompe suas rodas sem penhor
sem mapas sem o sangue de laços e guerras,
só o grito noturno dos aviões entrechocando-se
no ar sonhar amar não amar saber não saber.

[In Sentimental, São Paulo, Companhia das Letras, 2012, p. 65]



terça-feira, 28 de janeiro de 2014

Gerard Manley Hopkins

A GRANDEZA DE DEUS
O mundo está carregado da grandeza de Deus.
Vai chamejar — chispas em sacudidas folhas de metal;
Vai expandir-se — óleo que imprensado escorre, tal e qual,
E alaga. Por que o homem não teme o açoite dos céus?
Gerações têm caminhado, quanto elas têm caminhado!
Tudo tem manchas de homem, partilha cheiro de homem,
O solo está desnudo, mas pés calçados não o sentem;
Pelas lides, pelo tráfego, um mundo sujo e crestado;

E, apesar disso tudo, a natureza nunca se esgota;
Todas as coisas nela vivem num frescor renovado;
Inda que no turvo ocaso sumam as últimas luzes,
A manhã, na fímbria castanha do oriente, brota —
Porque o Espírito Santo, sobre este mundo vergado,
Vigia com peito cálido e oh! luzentes asas.

[In Poemas, trad. e introd. de Aíla de Oliveira Gomes, São Paulo, Companhia das Letras, 1989, p. 81]

James Thomas Canali


segunda-feira, 27 de janeiro de 2014

Wislawa Szymborska

EXEMPLO
O vendaval
à noite arrancou todas as folhas de uma árvore,        
menos uma,
deixada
para balançar só num galho nu.

Com este exemplo
a Violência demonstra    
que sim –
às vezes ela gosta de se divertir.

OS PENSAMENTOS QUE ME VISITAM NAS RUAS MOVIMENTADAS
Rostos.
Bilhões de rostos na face da terra.
Dizem que cada um é diferente
dos que já se foram e dos que virão um dia.
Mas a Natureza – quem é que a entende? –
cansada do trabalho que nunca acaba
talvez repita suas ideias antigas            
e ponha-nos rostos
já usados outrora.

Pode ser Arquimedes de jeans que passa ao seu lado,
a czarina Catarina com roupa de brechó,              
um dos faraós de pasta e óculos.

A viúva de um sapateiro descalço
vinda de uma Varsóvia pequenina ainda,
um mestre da gruta de Altamira
levando as netas para o zoológico,
um Vândalo cabeludo a caminho do museu
para se deliciar com os mestres do passado.

Os que tombaram há duzentos séculos,
há cinco séculos,
há meio século.

Alguém levado em carruagem dourada,
alguém levado em vagão de extermínio.
Montezuma, Confúcio, Nabucodonosor,
suas babás, suas lavadeiras e Semíramis
que só fala inglês.

Bilhões de rostos na face da terra.
Meu, seu, de quem –
você nunca saberá. Talvez a Natureza tenha que ludibriar
para dar conta dos prazos e da demanda
e pesque até o que estava submerso              
no espelho da deslembrança.

UM ACIDENTE DE TRÂNSITO
Ainda não sabem
o que há meia hora        
aconteceu na estrada.

Em seus relógios
a hora é mais ou menos
tarde, de quinta-feira, e setembro.

Alguém escoa o macarrão.          
Alguém varre as folhas do jardim.        
Crianças correm gritando ao redor da mesa.
Um gato se digna a ser afagado.        
Alguém chora –
diante da televisão, como de costume,
quando o malvado Diego trai a Juanita.            
Alguém bate na porta –
não é nada, só uma vizinha devolvendo a frigideira.
O telefone toca nos fundos da casa –            
por ora, só o telemarketing.

Se alguém chegasse à janela
e olhasse o céu
poderia ver as nuvens
que vinham do lugar onde ocorreu o desastre.        
Rasgadas, despedaçadas,
mas, até aí, nada de especial.

AUSÊNCIA
Por pouco
e a minha mãe teria casado
com o senhor Zbigniew B. de Zduńska Wola.
Se tivessem uma filha – não seria eu.
Talvez com a memória para nomes, rostos
e canções ouvidas uma só vez – melhor que a minha.
Distinguindo sem erro um pássaro do outro.
Com excelentes notas de física e química,
de polonês nem tanto,
mas escrevendo poemas às escondidas,
logo muito melhores que os meus.                      

Por pouco
e naquela mesma época meu pai teria casado
com a senhorita Jadwiga R. de Zakopane.
Se tivessem uma filha – não seria eu.
Talvez mais teimosa e intransigente.
Saltando sem medo na água funda.
Suscetível ao que comove as massas.
Vista em vários lugares ao mesmo tempo,
poucas vezes com um livro, muito mais com a bola,
jogando com meninos nos pátios e ruas.

As duas poderiam ter se encontrado
na mesma escola e na mesma classe,
mas sem afinidades,
nenhum parentesco,
e na foto da turma, bem afastadas entre si.

Fiquem aqui, meninas
– diz o fotógrafo –,
as pequenas na frente, as mais altas atrás.              
E sorrisos bonitos quando eu der o sinal.        
Verifiquem ainda,
não falta ninguém?

– Sim, senhor, estamos todas aqui.

O DIA DEPOIS – SEM NÓS
A previsão é de manhã fria e céu nublado.
Do oeste
aparecerão nuvens chuvosas.    
A visibilidade será fraca.
As estradas escorregadias.

Ao longo do dia,
possível diminuição de nebulosidadeem áreas isoladas        
causada pela frente de pressão alta do norte.
No entanto, com o vento forte e inconstante            
podem ocorrer tempestades.

À noite,                                
tempo bom em quase todo o país,
só no sudeste
possíveis pancadas de chuva.                  
A temperatura vai baixar significativamente
e a pressão vai subir.

O dia seguinte
deve ser de sol,          
mas quem ainda estiver vivo                
talvez precise de guarda-chuva.

Tradução de Henryk Siewierski

Poemas do livro "Here", de Wislawa Szymborska. Copyright 2010 de Wislawa Szymborska. Traduzido e reproduzido sob permissão de Houghton Mifflin Harcourt Publishing Company. Todos os direitos reservados.

Fonte: Revista Piauí


Stanisław Wyspiański

domingo, 26 de janeiro de 2014

Mariana Ianelli

AS VIDAS DE MATILDE
Matilde vivia ali desde sempre. Eu assim imaginava. Que antes de Matilde era um tempo tão remoto como antes de os céus se terem separado das águas. Desde que existia a casa da avó, Matilde existia. Cozinhava. Preparava alcachofras, minestrones e um capeletti que vinha numa travessa larga, nos almoços de domingo, quando a família se fartava de tagarelar até bem depois dos pratos limpos e da travessa esvaziada. Matilde alimentava a casa, justamente ela que era tão miúda, as mãos enrugadas de lavar batatas, cheirando à salsa.

A idade de Matilde? A idade de Salé, de Héber, de Faleg, de qualquer um da geração dos velhos patriarcas. Não que fosse realmente velha, apenas que já tendo visto muitas coisas nesta vida devia ainda ter vida para ver duas vezes mais. Tinha uma pele muito fina, muito branca, e a voz miudinha como ela. Não era bonita, Matilde. Era sozinha. Tão sozinha que nunca deixava a casa. Tinha seu quarto num anexo onde se fechava durante a noite e nos feriados. Era de falar pouco, mas falava comigo, isso eu lembro, a risada que ela ria para dentro, o rosto todo afogueado.

Lembro de Matilde empoleirada num banco da cozinha roendo as unhas, de Matilde dando nacos de mamão para as tartarugas, ou de repente Matilde desvairada, batendo gavetas, ensaiando o fim do mundo num estrondo de cumbucas, panelas, colheres e facas. Porque ela também tinha seus rompantes, suas esquisitices, dizia que não era deste planeta, que por isso não mostrava seus pés nem se fosse obrigada.

O susto que foi para mim quando ela resolveu ir embora da casa. Os netos todos crescidos, os almoços de domingo rareando, foi embora sem levar nada, que não tinha mesmo nada para levar. Então que descobrimos outras vidas de Matilde. Que ela sofria da síndrome de Diógenes, aquela doença que faz a pessoa acumular todo tipo de tralha, latas velhas, jornais velhos, montes de lixo que a avó descobriu no quartinho do anexo que vivia trancado.

Susto ainda maior foi descobrir que antes das travessas de capeletti e dos pratos de alcachofra, Matilde ganhava a vida no porto de Santos, quem podia imaginar uma coisa dessas, Matilde entretendo os marinheiros do litoral. Da vida que viveu depois da casa, só ficamos sabendo do final. Um final trágico. Um dia desceu de um ônibus e foi atropelada. Dizem que morreu lá mesmo, no meio da rua, justamente ela que era tão solitária. Cá para mim, entre todas essas vidas, Matilde ainda está ali na casa da avó, empoleirada num banco da cozinha, no deserto dos seus dois séculos de idade, eu falo com ela e ela ri aquela risada miudinha, para dentro, o rosto todo afogueado.

[Fonte: Revista Rubem, 07/12/2013]




sábado, 25 de janeiro de 2014

Alexei Bueno

OS SONÂMBULOS
Eles caminham nos telhados,
Nas balaustradas, nas varandas, 
Dedos à frente, olhos cerrados, 
Beiram o vácuo dos dois lados 
Sobre os beirais e as platibandas.

Como ímãs ébrios seus sapatos 
Burlam a queda, e, no seu dia 
Onde há um sol negro, chutam gatos 
Ao ar, pisando os pobres matos, 
Mechas da velha alvenaria.

Não estão mortos nem são vivos, 
Cruzam por urbes de ninguém 
Onde há milhões. Hirtos, esquivos, 
Sabem, idênticos e altivos,
O que é o real, e o certo e o bem.

Senhores da hora e da verdade, 
Babam no abismo, engolem moscas, 
Marcham pela única cidade 
Que existe, em glória e majestade, 
Com as reviradas íris foscas.
24.11.1998

[In Em Sonho, São Paulo, Record, 1999, p. 63]


BY GRACIELA BELLO

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...