sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Pedro Gonzaga

ASSÉDIO
enquanto bebemos vinho
os visigodos assediam nossa mesa -
em suas bocas mastigam dentes fortes
têm sempre tanta coisa a dizer
ferozes como paulo de tarso
mas infinitamente menos sábios
a luz branca do salão
ergue em teus cabelos
um incêndio que só eu vejo
clamando de minhas mãos
um sacrifício dócil
previsto em outras noites de inverno
quando às facas de pedra
não coube a destreza de nos imolar
não havia ainda a epístola,
é verdade
nem a lâmina dos versículos
a ferida aberta do verbo
um evangelho
um átila
uma queda
entregávamo-nos
ingênuos
à sabedoria da carne
protegidos por um muro,
odre de vinho perdurável
tão distinto da uva acerba
que nossos lábios agora vilifica
expondo-nos à nudez do escárnio
da tia que coordena o bufê a quilo

[In A última temporada, Porto Alegre: Ardotempo, 2011,  pp. 65-66]

Jan van Bijlert




quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Machado de Assis

POLONIA
(1862)
E ao terceiro dia a alma deve voltar ao
corpo, e a nação ressucitará.
Mickiewicz - Livro da Nação Polaca
Como aurora de um dia desejado,
Clarão suave o horisonte innunda.
E talvez amanhã. A noite amarga
Como que chega ao termo; e o sol dos livres,
Cançado de te ouvir o inútil pranto,
Alfim resurge no dourado Oriente.

Eras livre, — tão livre como as aguas
Do teu formoso, celebrado rio;
          A corôa dos tempos
Cingia-te a cabeça veneranda;
E a desvellada mãi, a irmã cuidosa,
          A santa liberdade,
Como junto de um berço precioso,
À porta dos teus lares vigiava.

Eras feliz demais, demais formosa;
A sanhuda cobiça dos tyranos
Veio enluctar teus venturosos dias...
Infeliz! a medrosa liberdade
Em face dos canhões espavorida
Aos reis abandonou teu chão sagrado;
          Sobre ti, moribunda,
Viste cahir os duros oppressores:
Tal a gazella que percorre os campos,
          Se o caçador a fere,
Cahe convulsa de dôr em mortaes ancias,
          E vê no extremo arranco
          Abater-se sobre ella
Escura nuvem de famintos corvos.

Presa uma vez da ira dos tyranos,
          Os membros retalhou-te
Dos senhores a explendida cobiça;
Em proveito dos reis a terra livre
Foi repartida, e os flhos teus — escravos —
Viram descer um véu de luto à patria
E apagar-se na historia a gloria tua.

A gloria, não! — É gloria o captiveiro,
Quando a captiva, como tu, não perde
A alliança de Deus, a fé que alenta,
E essa união universal e muda
Que faz communs a dôr, o odio, a esperança.

Um dia, quando o calix da amargura,
Martyr, até às fezes esgotaste,
Longo tremor correu as fibras tuas;
Em teu ventre de mãi, a liberdade
Parecia soltar esse vagido
Que faz rever o céu no olhar materno;
Teu coração estremeceu; teus lábios
Trêmulos de anciedade e de esperança,
Buscaram aspirar a longos tragos
A vida nova nas celestes auras.
          Então surgiu Kosciusko;
Pela mão do Senhor vinha tocado;
A fé no coração, a espada em punho,
E na ponta da espada a torva morte,
Chamou aos campos a nação cahida.
De novo entre o direito e a força bruta
Empenhou-se o duello atroz e infausto
          Que a triste humanidade
Inda verá por séculos futuros.
Foi longa a luta; os filhos dessa terra
Ah! não pouparam nem valor nem sangue
A mãi via partir sem pranto os filhos,
A irmã o irmão, a esposa o esposo,
          E todas abençoavam
A heroica legião que ia à conquista
          Do grande livramento.

          Coube às hostes da força
          Da pugna o alto prêmio;
          A oppressão jubilosa
Cantou essa victoria de ignominia;
E de novo, ó captiva, o véu de luto
Correu sobre teu rosto!
                                  Deus continha
Em suas mãos o sol da liberdade,
E inda não quiz que nesse dia infausto
Teu macerado corpo allumiasse.

Resignada à dôr e ao infortúnio,
A mesma fé, o mesmo amor ardente
          Davam-te a antiga força.
Triste viuva, o templo abriu-te as portas;
Foi a hora dos hymnos e das preces;
Cantaste a Deus; tua alma consolada
Nas azas da oração aos céus subia,
Como a refugiar-se e a refazer-se
          No seio do infinito.
E quando a força do feroz cossaco
A casa do Senhor ia buscar-te,
          Era ainda resando
Que te arrastavas pelo chão da egreja. 
Pobre nação! — é longo o teu martyrio,
A tua dôr pede vingança e termo,
Muito has vertido em lagrimas e sangue,
É propicia esta hora. O sol dos livres
Como que surge no dourado Oriente.
          Não ama a liberdade
Quem não chora comtigo as dôres tuas,
E não pede, e não ama, e não deseja
Tua ressurreição, finada heroica!

[In Machado de Assis, Chrysalidas, Belo Horizonte, Crisálida, 2000, pp. 68-71]

Sobre Machado de Assis

Jan Matejko 1888



Weydson Barros Leal

O TEAR DA MANHÃ
Os três únicos fios
dessa corda que teço,
são sentenças na boca
que me morde por dentro;

são três tripas de corda
de um sisal que não meço,
mas que aos poucos me engolem
como o dia o seu estro;

essas linhas que cruzo,
que manejo, que intento,
são da cesta os arreios
a frear o seu peso;

não conheço o traçado
de seu curso, o desenho,
sei que os fios são gritos
da mudez, do incêndio;
essa corda que arrasta
por meu corpo o seu beijo,
risca o chão, cada tábua
duma escada que desço,

que componho e desfaço,
que equilibro e é penso,
e ao ser chão é patíbulo
dessa boca que invento.


[In A Quarta Cruz, Rio de Janeiro: Topbooks, 2009, pp. 35-36]




quarta-feira, 26 de fevereiro de 2014

Fiama Hasse Pais Brandão

CANTO DIURNO
No silêncio bebe a sua taça
e é dor o amor enquanto espera,
imagina o desejo de repente
e lentamente olha o olhar do Outro.
Conhecer é amar, disse o divino
Platão ou outro filósofo antigo.
Porém como traçar na sombra
da persiana de luz o esboço
do teu rosto escasso ausente,
se no diurno amor a memória
o faz mais esquecer-se?

Quando Março me dá a nova flor
que abre sem palavras a corola,
eu comparo-a com o amor que eclode
na pupila do olhar em luz e sombra.
Todo o ventre é bendito, tanto
mais o da primavera do cio
de aves e flores. Também o desejo
imaginou a língua sem palavras,
e que é a do som do Canto e dos poemas.

Este diurno Amor está em corpo,
e num e noutro, como o pão partido
no banquete dos convivas silenciosos
que é o de cada um consigo e os outros.
Nenhuma coisa ausente o partilha,
quando as estações do tempo passam
por nós depois da Primavera e param
na longa mesa posta para o Verão.
Tudo é presença aqui, e o tempo é dia.

[In Obra Breve Poesia Reunida, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006, pp. 577-578].

CANTO DA ARTE BREVE
Horácio enganou-se ao contar
os longos anos da vida breve vivida.
O periquito que ganhou a plumagem
há uma semana, e morre mal concebe
as cores no seu corpo, é apenas breve.
O meu relógio de caixa alta, Cronos,
que como um animal ferino me segue,
é também um ser de pulso escasso
e fugaz. No sexto dia pára, e espera
que eu de novo lhe ofereça o seu bafo.
Só os meus imensos dias jamais cabem
nos versos escritos ou ditos, quotidianos,
e se somarmos as horas dos sentidos
é curta a memória e alonga-se o desejo.

Os afectos, os silêncios, os sinais
são a diversa linguagem dos meus dias
e o corpo soma a sua soma em vida.
Nunca a Arte mais se demorou
do que estas mãos que são frugais:
o pouco pão e a água abundam
nos muitos anos longos de penúria.
E é tão vária e imprecisa a vida
que não pode ficar toda contida
em palavras que apenas a resumem.
Os bens que entesourei excedem
a Arte que quisesse neles contentar-se.
Ó morte, se a vida é longa e breve
soma-lhe ainda a mudez e a cegueira
e dá tu aos versos a medida inteira.

[In Obra Breve Poesia Reunida, Lisboa, Assírio & Alvim, 2006, p.584].

By Franz Ignaz Günther
 Chronos





terça-feira, 25 de fevereiro de 2014

Pedro Salinas

NÃO EM PALÁCIOS DE MÁRMORE 
não em meses ou algarismos,
nunca pisando o solo:
em leves mundos frágeis,
foi que vivemos juntos.
O tempo se contava
apenas por minutos:
um minuto era um século,
uma vida, um amor.
Abrigavam-nos tetos,
menos que todos, nuvens;
menos que nuvens, céus;
ar, menos ainda, nada.
Atravessando mares
feitos de vinte lágrimas,
dez tuas e dez minhas,
chegávamos a contas
douradas de colar,
ilhas limpas, desertas,
sem flores e sem carne;
albergue, tão miúdo,
em vidro, de um amor
que sozinho bastava
para o querer mais grande
e não pedia auxílio
aos barcos nem ao tempo.
Galerias enormes
abrindo
em grãozinhos de areia,
descobrimos as minas
de chamas ou de acasos.
E tudo
a pender de um só fio
quem sustentava? quem?
Por isso nossa vida
não parece vivida:
deslizante, resvala,
nem estelas nem rastos
deixou atrás. Se queres
recordá-la, não olhes
onde se buscam sempre
pegadas e lembranças.
Não olhes para a alma,
a sombra, ou para os lábios.
Contempla bem a palma
de tua mão, vazia.

[In Carlos Drummond de Andrade, Poesia Traduzida, Organização e Notas Augusto Massi e Júlio Castañon Guimarães, Introdução Júlio Castañon Guimarães, São Paulo: Cosac Naify, 2011, pp. 329-330]

Sobre Pedro Salinas

By Louise Bourgeois


segunda-feira, 24 de fevereiro de 2014

Rainer Maria Rilke

A MORTE DO POETA
Jazia. A sua face, antes intensa,
pálida negação do leito frio,
desde que o mundo e tudo o que é presença,
dos seus sentidos já vazio,
se recolheu à Era da Indiferença.

Ninguém jamais podia ter suposto
que ele e tudo estivessem conjugados,
e que tudo, essas sombras, esses prados,
essa água mesma eram o seu rosto.

Sim, seu rosto era tudo o que quisesse
e que ainda agora o cerca e o procura;
a máscara da vida que perece
é mole e aberta como a carnadura
de um fruto que no ar, lento, apodrece.

[In Augusto de Campos, Coisas e Anjos de Rilke, São Paulo: Perspectiva, 2013, p.105]





domingo, 23 de fevereiro de 2014

Maria Teresa Horta

OS SILÊNCIOS
Não entendo os silêncios
que tu fazes
nem aquilo que espreitas
só comigo

Se escondes a imagem
e a palavra
e adivinhas aquilo que não
digo

Se te calas
eu oiço e eu invento
Se tu foges
eu sei, não te persigo

Estendo-te as mãos
dou-te a minha alma
e continuo a querer
ficar contigo

TU
Falta-te o sono
até de madrugada
Foge-te a paz aí interrompida

Fazes vigília
nas emoções rasgadas
atento à pátria onde pões vigias

Furtas o mel
do teu fim de tarde
acendes o fogo à cabeceira

Feres a chama
se ela ainda arde
Apagas o coração
de quem de ti se abeira

[In Palavras Secretas, São Paulo, Escrituras, 2007, pp. 118-119)

By Remedios Varo


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...