segunda-feira, 31 de março de 2014

T. S. Eliot

UM CÂNTICO PARA SIMEÃO
Senhor, os jacintos romanos estão florindo nos vasos
E o sol do inverno resvala sobre as colinas de neve.
Rendeu-se a quadra obstinada.
Minha vida é luz, à espera do sopro da morte,
Tal uma pluma no dorso de minha mão.
A poeira entre os raios de sol e a memória nos cantos
Aguardam o vento que esfria rumo à terra morta.

     Concede-nos tua paz.
Muitos anos caminhei nesta cidade,
Guardei fé e jejum, poupei para os pobres,
Dei e recebi honra e conforto.
Ninguém jamais de minha porta repeli.
Quem se recordará de minha casa, onde viverão os filhos
[de meus filhos
Quando vier o tempo do infortúnio?
Buscarão eles a trilha da cabra e a toca da raposa,
Esquivando-se às faces e às espadas forasteiras.

     Antes do tempo das cordas e dos flagelos e dos lamentos
Concede-nos tua paz.
Antes das estações na montanha da desolação,
Antes da hora certa da aflição materna,
Agora, nesta quadra em que morte se avizinha,
Possa o Infante, o Verbo inexpresso e impronunciado ainda,
Conceder a consolação de Israel
A quem tem oitenta anos e nenhum amanhã

     Conforme tua palavra.
Eles Te haverão de exaltar e de sofrer em cada geração
Com glória e escárnio,
Luz sobre luz, galgando a escada dos santos.
Não para mim o martírio, o êxtase do pensamento e da
[prece,
Não para mim a última visão.
Concede-me tua paz.
(E uma espada trespassará teu coração,
O teu também.)
Estou cansado de minha vida e da vida dos que virão depois
[de mim,
Estou morrendo de minha morte e da morte dos que virão
[depois de mim.
Deixa partir teu servo,
Após ter visto tua salvação.

[In Poemas de Ariel, Poesia, T. S. Eliot, Tradução, apresentação, introdução e notas de Ivan Junqueira, Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2006, pp. 150-151].

Rembrandt van Rijn


domingo, 30 de março de 2014

Ingeborg Bachmann

MANOBRAS DE OUTONO
Não digo: foi ontem. Com insignificantes
trocos de Verão nos bolsos, estamos de novo deitados
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.
E a nós não nos é dada, como aos pássaros,
a retirada para o sul. À noite passam por nós
traineiras e gôndolas, e por vezes
atinge-me um estilhaço de mármore impregnado de sonho,
onde a beleza me torna vulnerável, nos olhos.

Leio nos jornais muitas notícias - do frio
e suas consequências, de imprudentes e mortos,
de exilados, assassinos e miríades
de blocos de gelo, mas pouca coisa que me dê prazer.
E porque havia de dar? Ao pedinte que vem ao meio dia
fecho-lhe a porta na cara, porque há paz
e podemos evitar essas, mas não
o triste cair das folhas à chuva.

Vamos viajar! Debaixo de ciprestes
ou de palmeiras ou nos laranjais, vamos
contemplar a preços reduzidos
inigualáveis pores-de-sol! Vamos esquecer
as cartas ao dia de ontem, não respondidas!
O tempo faz milagres. Mas se chegar quando não nos convém,
com o bater da culpa - não estamos em casa.
Na cave do coração, desperto, encontro-me de novo
sobre o joio do sarcasmo, nas manobras de Outono do tempo.

[In O tempo Aprazado, Lisboa, Assírio & Alvim, 1992, pp. 35-37]


Jacob Epstein

sábado, 29 de março de 2014

Luís Filipe Castro Mendes

DE ESQUECER
Demorei-me muito tempo ao pé de ti.
As portas fechadas por dentro, como se encerrasses
o amor e a lei. Demorei-me demais. Ao fim da tarde,
nesse mesmo dia que já morreu,
olhámo-nos devagar, mas distraídos. Diria até que anoiteceu
Nunca falámos do amor que chega tarde.
Nem o interpelámos (como se já não pudesse
ter nome). Fingia ter esquecido o teu corpo
nas muralhas. Nas areias.
Vês aqui alguma figura? Ninguém vê.
Repara no ponto preto que alastra na margem do quadro
nas minhas lágrimas desse tempo.
Relê.

[In Modos de Música, In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 2001, p. 307]

Claude Monet


sexta-feira, 28 de março de 2014

Edmond Jabès

SEMIABERTA, MINHA MÃO
Semiaberta,
minha mão
insensível à fadiga.
Signos e seus sons
buscam se embrenhar
no estreito espaço
prometido à pena.
Em breve, a respiração
não se fará mais.
A mão se achatará
sobre a folha.
Abusada.

[In DESEJO DE UM COMEÇO, ANGÚSTIA DE UM SÓ FIM, A MEMÓRIA E A MAO - UM OLHAR, São Paulo, Lumme Editor, trad. Armanda Mendes Casal & Eclair Antonio Almeida Filho, 2013, pp. 77-79]




quinta-feira, 27 de março de 2014

Seamus Heaney

OSTRAS
Nossas conchas craqueavam nos pratos.
Minha língua era um estuário se enchendo.
Meu palato curvado de estrelas:
Enquanto eu degustava as Plêiades salgadas
Órion mergulhava o pé na água.
Vivas e violadas,
Jaziam nos leitos de gelo:
Bivalves: o bulbo partido
E o suspiro galanteador do oceano.
Milhões delas rompidas, arrancadas, dispersadas.
Fôramos de carro àquela costa
Através de flores e calcários
E lá estávamos, brindando à amizade,
Depondo uma lembrança perfeita
No frescor do colmo e da louça de barro.

[In Poemas, São Paulo, Companhia das Letras, 1998, p. 141]




quarta-feira, 26 de março de 2014

Adélia Prado

SONHO E LEMBRANÇA — I
UMA BRUMA DE CHUVA escurecia a manhã, lentíssima em clarear. Uma de nós precisava sair: minha mãe ou eu? Fui eu, com uma sombrinha preta. Desci na porta da rua os dois degraus e abri a sombrinha há muito tempo fechada. Saíram de dentro ciriricas grandes. Eu ia abrindo a sombrinha, abria junto o sol. Uma coisa desatava-se, a semente da claridade. Distinguia no ar, com a luz aumentando, muitas ciriricas, alguém me esperava para a alegria do corpo, tal qual nesta lembrança antiga que eu possuo: sol com chuva, de tarde. No caminho atrás da fábrica vai uma dona gordíssima de cabelo “à-demi”, exibindo sombrinha e ancas. É uma dona feliz, é uma dona engraçada, sem saber. É boa, boa, usa pó-de-arroz e vai me visitar com presentinhos. É igualzinho sol com chuva casamento de viúva. Na minha lembrança essa dona caminha firme até uma casa e depois não sei mais o que acontece. É retalho de vida, desenho de almanaque, é sonho? O que seja, é do céu que vem. Não pode vir de outro sítio, o que me deixa assim, picando de felicidade. É mais poderosa que o tempo a coisa orgasmática. Vige no sonho, em vigília, põe o corpo radioso, mesmo velho. É pré-cristã, não pagã. É assim: Deus é multívoco.

[Adélia Prado, in Solte os Cachorros, Rio de Janeiro, Ed. Nova Fronteira, 1979, pp. 99]




Torquato da Luz, 2004





terça-feira, 25 de março de 2014

Al Purdy

SOBRE SER-SE HUMANO
Quando a minha mãe foi parar ao hospital
após ter caído sozinha no quarto
eu estava a vinte e oito quilómetros de distância
a tentar construir uma casa

Fui visitá-la mais tarde
e algo no meu rosto a fez dizer
"Achei que fosses sentir-te pessimamente"
referindo-se ela a eu ficar destroçado
com aquilo que lhe tinha acontecido
— eu não andava a sentir lá grande coisa
por essa altura e julgo que terá transparecido
o simples pensamento de que teria de percorrer
aqueles vinte e oito quilómetros todos os dias
para a visitar e o resmoneio para mim mesmo
Nesse instante
ela tinha visto para lá das portadas
que normalmente se fecham sobre o rosto humano
e apercebeu-se de repente
que pouco ou nenhum afecto
por si havia no meu rosto
e essa percepção
foi pior do que os seus ferimentos

Porém não há como voltar atrás no tempo
para agora fazer algo a esse respeito
se nada foi feito então
e nada foi feito
Ela morreu não muito tempo depois
desorientada da cabeça
esquecida daquilo que lhe tinha acontecido
mas eu lembro-me dessas últimas palavras
coloco-as em primeiro lugar
na lista das coisas de que me envergonho
tão intoleráveis como apercebermo-nos
de que toda a nossa vida foi desperdiçada
— lembrando as palavras da minha prima
sobre o seu irmão bêbedo:
"Teria sido melhor
se ele nem sequer tivesse vivido"

Lembro-me dessas últimas palavras
antes de a febre lhe arrebatar a ideia
e a única coisa positiva agora
é pensar nessas palavras
e ela ver-se imediatamente
restituída de vida
no meu pensamento
para repetir as mesmas palavras
"Achei que fosses sentir-te pessimamente"
uma e outra e outra vez
e eu continuo envergonhado
e eu continuo vivo

Al Purdy foi um grande poeta canadense (30/12/1918 - 21/04/2000)

[Tradução de Vasco Gato]


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...