sábado, 31 de maio de 2014

Eduardo Espina

A VIDA, UM OBJETO RECENTE
A mortalidade de sua matéria é o que
dá para começar: a ponto de permanecer
desejada encontra a pérola e o apelido.
Vida como dádiva duradoura, como foi
a do búfalo e antes, a da pantera.
Entre largos passos até cruzar a bruma
além da alvorada somada à pessoa
do pajem que pergunta pelo anfitrião.
A tempo de possuir o que nunca nasceu,
a manhã derrama lebréis de brilho,
a letra que à voz anuncia nações,
nada mais que a solução de sempre.
Chega a chuva, a rotina da água
e o ócio que por certo cai em desuso:
a lua no feno faz a planície, o
inverno ao cervo que alcança a ceder.
Por sua imundície o lugar foi reduzido,
convertido em algo como corno e aí:
a flecha conhecida ao restar cravada,
o corpo disposto pela possibilidade.
Poderia resumir-se assim: a margem das
lembranças se origina com o gerúndio e a
canção levada ao crocitar do sussurro.
Cervo, erva e logo louvam ao vento:
a casa encontra o limite desconhecido.
De toda sua estatura faz sentir ao céu.
Dorme a pele apesar do que passa.
Os olhos tomam como verdade as palavras
as coisas buscam um lugar na visão.

[In Jardim de Camalões - A poesia neobarroca na América Latina, organização, seleção e notas Cláudio Daniel, tradução Cláudio Daniel, Luiz Roberto Guedes, Glauco Mattoso, São Paulo, Iluminuras, 2004, p. 59].

Salvador Dali

sexta-feira, 30 de maio de 2014

Alfred Tennyson

LÁGRIMAS, INÚTEIS LÁGRIMAS

Lágrimas, inúteis lágrimas,
Não sei o que significam,
Lágrimas vindas do fundo
De alguma aflição sublime
Emergem no coração,
E chegam até os olhos,
Vendo os alegres campos outonais
E pensando nos dias que não mais existem.

Novas qual primeiro raio
Cintilando numa vela,
Que traz aqui para cima
Os amigos do submundo,
Tristes como as derradeiras
Que fazem corar alguém
Que afunda com tudo o que amamos sob a borda;
Tão tristes novos dias que não mais existem.

Tristes e estranhas como em
Sombria alba de verão
Primeiro pio de aves semilúcidas
Para ouvidos moribundos,
Quando pra olhos decadentes
Lentamente a janela desenvolve
Um quadrado de luz tênue;
Tristes, estranhos dias que não mais existem.

Diletas tal qual os beijos
Na memória após a morte,
E suaves como aqueles
Que em afeto sem fé fingem
Nos lábios que são para outros;
Profundas como é o amor,
Como é o primeiro amor,
E insano com toda a pena;

O Morte em Vida, os dias que não mais existem!


[In Grandes Poetas da Língua Inglesa do século XIX, Organização e tradução de José Lino Grünewald, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1988, p. 91].




quinta-feira, 29 de maio de 2014

Walt Whitman

MURMÚRIOS DA MORTE CELESTIAL
Murmúrios da morte celestial sussurrados ouvi,
Conversa labial da noite, coros sibilantes,
Passos ascendendo suavemente, aragens místicas vogavam amenas e
baixo,
Ondulações de rios invisíveis, marés de uma corrente a fluir, sempre
a fluir,
(Ou será o salpicar de lágrimas? as ilimitadas águas das lágrimas
humanas?)

Vejo, vejo exatamente em direção ao céu, imensas massas de nuvens,
Lugubremente devagar elas flutuam, silenciosamente dilatando-se
e mesclando-se,
Com às vezes uma entristecida estrela, remota e semi-eclipsada.
Aparecendo e desaparecendo.

(Provavelmente algum parto, algum nascimento solene e imortal;
Impenetrável sobre as fronteiras para os olhos,
Alguma alma está passando por cima.)

[In Grandes Poetas da Língua Inglesa do século XIX, Organização e tradução de José Lino Grünewald, Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1988, p. 103].


quarta-feira, 28 de maio de 2014

Raul de Leoni

E O POETA FALOU
Afinal, tudo que há de mais nobre e mais puro
Neste mundo de sombras e aparências
Fui eu quem revelou ou concebeu...

Fui a primeira luz neste planeta obscuro!
Fui a suprema voz de todas as consciências!
Fui o mais alto intérprete de Deus!

Dei alma à Natureza indiferente,
Inteligência às cousas, sentimentos
Às forças cegas e automáticas do Cosmos!...

Acompanhei e dirigi os povos
Na sua eterna migração para o Poente:
Levantei os primeiros monumentos

E os primeiros impérios milenários:
Teci as grandes lendas tutelares,
Despertei na memória das criaturas
A sua antiga tradição divina,
Criando as religiões, as fábulas, os mitos
Para iludir a dor universal;
Abri os horizontes infinitos;
Bebi o néctar das primeiras taças;
Plasmei os altos símbolos humanos.
Sutilizei o instinto e imaginei o amor;
Fui a força ideal das civilizações!
O gênio transfigurador da História!
O espírito anônimo dos séculos!
E, harmonioso, profético, profundo,
Passei humanizando as cousas pelo mundo,
Para divinizar os homens sobre a Terra!

[In Luz Mediterrânea, Prefácio de Rodrigo Melo Franco de Andrade, 7a. ed., Martins, São Paulo, 1952, pp. 66-67]

Sobre RAUL DE LEONI





terça-feira, 27 de maio de 2014

Gonzalo Rojas

O QUE SE AMA QUANDO SE AMA? 
O que se ama quando se ama, meu Deus: a terrível luz da vida
ou a luz da morte? O que se busca, o que se encontra, que
é isso: amor? Quem é? A mulher com sua profundidade, suas rosas,
seus vulcões,
ou este sol colorido que é meu sangue furioso
quando nela entrou até as últimas raízes?

Ou tudo é um grande jogo, Deus meu, e não há mulher
nem há homem mas um só corpo: o teu,
repartido em estrelas de formosura, em partículas fugazes
de eternidade visível?

Nisto eu morro, oh Deus, nesta guerra
de ir e vir entre elas pelas ruas, de não poder amar
trezentas de cada vez, porque estou condenado sempre a uma,
a essa uma, a essa única que me deste no velho paraíso.

Sobre GONZALO ROJAS

André Derain


segunda-feira, 26 de maio de 2014

Rainer Maria Rilke

OS CADERNOS DE MALTE LAURIDS BRIGGE

Mas havia algo mais. Havia uma voz, a voz que há apenas sete semanas era desconhecida de todos: pois essa não era a voz do camareiro da corte. Essa voz não pertencia a Christoph Detlev, essa voz pertencia à morte de Christoph Detlev.

A morte de Christoph Detlev já habitava há muitos e muitos dias em Ulsgaard, falava com todos e fazia exigências. Exigia ser carregada, exigia o quarto a/ul, exigia o salão pequeno, exigia a sala. Exigia os cães, exigia que se risse, falasse, tocasse música, ficasse em silêncio ou tudo ao mesmo tempo. Exigia a presença de amigos, mulheres e falecidos, e exigia inclusive morrer: exigia. Exigia e gritava.

Pois quando a noite havia chegado e os membros da criadagem esgotada que não tinham vigília a cumprir procuravam adormecer, a morte de Christoph Detlev gritava, gritava e gemia, berrava por tanto tempo e com tanta insistência que os cães, que de início a acompanhavam uivando, emudeciam e não ousavam se deitar, mas, em pé sobre suas pernas longas, delgadas e trêmulas, tinham medo. E quando as pessoas ouviam no povoado, através da noite estival dinamarquesa, vasta e prateada, que a morte berrava, punham-se de pé como faziam quando havia temporal, vestiam-se e ficavam sentadas em tomo da candeia até que tudo tivesse passado. E as mulheres que estavam próximas de dar à luz eram alojadas nos quartos mais afastados e atrás dos tabiques mais espessos; mas elas a ouviam, ouviam-na como se estivesse em seus próprios corpos, e imploravam para que também as deixassem levantar, e iam, brancas e grandes, sentar-se junto aos outros com seus rostos apagados. E as vacas que pariam nessa época estavam desamparadas e ficavam trancadas, e, de uma delas, arrancaram o feto morto e todas as entranhas quando ele não quis sair de maneira alguma. E todos faziam mal o seu trabalho cotidiano e esqueciam-se de recolher o feno porque durante o dia receavam a noite e porque estavam tão fatigados das tantas vigílias e de levantar assustados que não podiam se lembrar de nada. E quando, no domingo, iam à igreja, branca e sossegada, oravam pedindo para que não houvesse mais nenhum senhor em Ulsgaard: pois esse senhor era terrível. E o que todos pensavam e oravam, o pastor dizia em alta voz de cima do púlpito, pois também ele não tinha mais noites e não podia compreender Deus. E também o dizia o sino, que agora tinha um rival apavorante que ressoava a noite inteira e contra o qual, mesmo que começasse a repicar a todo metal, nada podia. Sim, diziam-no todos, e havia um jovem que tinha sonhado que entrara no castelo e matara o senhor com o forcado do estrume, e as pessoas estavam tão irritadas, tão acabadas, tão exaltadas, que todas prestavam atenção nele enquanto contava seu sonho e, inteiramente sem se darem conta, mediam-no para ver se estaria à altura de semelhante ato. Era isso que as pessoas sentiam e era assim que falavam por toda a região em que, havia apenas algumas semanas, o camareiro da corte era amado e lastimado. Mas ainda que as pessoas assim falassem, nada mudou. A morte de Christoph Detlev, que morava em Ulsgaard, não se deixou coagir. Ela tinha vindo para ficar dez semanas, e as cumpriu. E durante esse tempo, foi mais senhoril do que Christoph Detlev Brigge jamais o fora, ela foi qual uma rainha, chamada, depois e para sempre, de a terrível.

Essa não foi a morte de um hidrópico qualquer, essa foi a morte maléfica, principesca, que o camareiro da corte levara durante toda a sua vida dentro de si e alimentara com seu próprio sangue. Todo o excesso de orgulho, vontade e força senhoril que ele próprio não pudera consumir em seus dias tranquilos passara para a sua morte, a morte que agora se encontrava em Ulsgaard e esbanjava.

Com que expressão o camareiro da corte Brigge não teria encarado aquele que lhe pedisse para morrer outra morte que não essa! Ele morreu a sua morte difícil.

[In Os cadernos de Malte Laurids Brigge, tradução e notas de Renato Zwick,  L&MP, Porto Alegre, 2010, pp. 14-16]



domingo, 25 de maio de 2014

Marco Lucchesi

DUALISMO
Teu rosto é claro se meu sonho é escuro,
só vens me visitar quando não quero,
andas perdido quando te procuro,
se mais confio em ti mais desespero.
Se buscas o passado sou futuro,
se dizes a verdade és insincero,
se temo tua face estou seguro,
se chegas ao encontro não te espero.
Bem sei que em nosso olhar refulge o nada,
que somos, afinal, a negação
mais funda, mais sombria e desolada.
Como lograr, meu Deus, reparação,
enquanto segues longe pela estrada,
de nossa irreparável solidão?

[In Poemas Reunidos, São Paulo, Record, 2000, p. 51]

Sobre MARCO LUCCHESI


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...