segunda-feira, 30 de junho de 2014

Edmond Jabès

E Yukel fala:
Busco-te.
O mundo onde te busco é um mundo sem árvores.
Nada além de ruas vazias,
ruas nuas.
O mundo onde te busco é mundo aberto a outros mundos sem nome,
um mundo onde não estás, é aí que te busco.  
Há teus passos,
teus passos que sigo e espero.
Segui o lento caminhar de teus passos sem sombra
sem saber quem eu era,
sem saber para onde ia.
Um dia lá estarás.
Aqui, ou em outro lugar,
um dia como todos os outros.
Talvez, amanhã.
Tenho seguido, para chegar a ti, outros caminhos amargos
onde o sal quebra o sal.
Tenho seguido, para chegar a ti, outras horas, outras orlas.
A noite é uma mão para quem segue a noite
À noite, caem todos os caminhos.
Era necessária essa noite em que peguei tua mão, quando estávamos sozinhos.
Era necessária essa noite como era necessário esse caminho.
No mundo onde te busco és a grama e o degelo.
És o grito perdido em que me extravio.
Mas és também, ali onde nada vela, o esquecimento feito de cinzas de espelho.



sábado, 28 de junho de 2014

Gregório Duvivier

a baía de guanabara é uma sopa de óleo
diesel detritos ferramentas sal de lágrimas
e a saudade dos que já partiram — quando
atingimos seu vórtice devemos jogar cinzas
anéis e outros restos mortais de uma pessoa
a ser engolida pelos deuses subaquáticos
pois para isso cariocas fomos feitos — para
salgar esse imenso caldo que nos banha.

[In Ligue os pontos poemas de amor e big bang, Companhia das Letras, São Paulo, 2013, p. 35].

SOBRE GREGÓRIO DUVIVIER



sexta-feira, 27 de junho de 2014

Mário Faustino

DIVISAMOS ASSIM O ADOLESCENTE

Divisamos assim o adolescente,
A rir, desnudo, em praias impolutas.
Amado por um fauno sem presente
E sem passado, eternas prostitutas
Velavam por seu sono. Assim, pendente
O rosto sobre um ombro, pelas grutas
Do tempo o contemplamos, refulgente
Segredo de uma concha sem volutas.
Infância e madureza o cortejavam,
Velhice vigilante o protegia.
E loucos e ladrões acalentavam
Seu sono suave, até que um deus fendia
O céu, buscando arrebatá-lo, enquanto
Durasse ainda aquele breve encanto.

[In O HOMEM E SUA HORA E OUTROS POEMAS, São Paulo: Companhia de Bolso, 2009, p. 141].


quinta-feira, 26 de junho de 2014

Adriana Lisboa

DENSIDADE
No  meio do caminho tinha uma pedra porosa. Dava para ver seus grãos. Chegando mais perto, raios finíssimos de sol atravessavam a pedra. Mais perto ainda, um turbilhão, um pequeno redemoinho (uma galáxia minúscula) se movia lá dentro, no leve corpo da pedra.

A pedra, no meio do caminho, era permeável: se chovesse, ficava encharcada. O vento a enchia de poeira, pólen e cadáveres de insetos. O calor do meio-dia a deixava com sono e sede. A neblina que às vezes baixava no fim da tarde invadia a pedra, no seu corpo as nuvens trafegavam sem pressa. Os sons passavam por ela e iam se extinguir em algum lugar desconhecido. Na pequena galáxia dentro da pedra havia pequenos planetas orbitando em torno de sóis de diamante.

[Caligrafias, Rio de Janeiro: Rocco, 2004, p. 79]



quarta-feira, 25 de junho de 2014

Astrid Cabral

XXXIII
Pelas ruas de Alepo
(atrás de mesquitas
esculpidas no ouro
de régios crepúsculos)
procuro os hititas.
Se muitos debandaram
pela extensa Anatólia
ou tombaram aos entreveros
contra inimigas hordas
outros se amoitaram
— traidores ou sábios? —
em brandas trincheiras
de sexos alheios ao clã:
séculos vogando veias
de rubrescuros rios
à luz deste Ramadã
quando os transeuntes
óbvios com que cruzo
são todos: resumo vivo
de história saltando
os fundos precipícios
do tempo e da memória.

[In Torna-Viagem, In De déu em déu -  poemas reunidos (1979-1994), Rio de Janeiro: Sette Letras, 1998, p. 123].


terça-feira, 24 de junho de 2014

Herberto Helder

AOS AMIGOS
Amo devagar os amigos que são tristes com cinco dedos de cada lado.
Os amigos que enlouquecem e estão sentados, fechando os olhos,
com os livros atrás a arder para toda a eternidade.
Não os chamo, e eles voltam-se profundamente
dentro do fogo.
— Temos um talento doloroso e obscuro.
Construímos um lugar de silêncio.
De paixão.

[In Ou o Poema Contínuo, São Paulo: A Girafa Editora, 2006, p. 125]

By Daniel Tjongari - 2014

segunda-feira, 23 de junho de 2014

Emily Dickinson

Foi como um Furacão aberto ao meio
Que mais e mais se aproximando 
Estreitasse o seu Círculo de fúria 
Até que uma Aflição

Pôs-se fria a brincar com o arremate
De uma Bainha imaginária -
E algo partiu-se - e às cegas tu caíste -
E acordaste afinal -

Foi como se um Duende com uma Escala
Todas as Horas conferisse -
Até que o teu Segundo sem remédio
Foi aos seus Pés cair -

E nem mais os teus Nervos te acudiam -
Tua razão abandonou-te -
E Deus então - lembrou-se - aí o Demo
Te soltou - e se foi -

Como se o frio dos Porões deixando
Para cumprir tua Sentença
Do conforto da Dúvida saísses
Para a Forca - e o Além -

E quando um Véu te costurava os olhos
Viesse alguém bradar - “Já chega!”
Que Tortura maior então seria -
Perecer - ou viver?

[In A branca voz da solidão, tradução de José Lira, São Paulo: Iluminuras, 2011, p. 223].



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...