domingo, 4 de janeiro de 2015

Hélio Pellegrino

SOFRENDO A NOITE
"... agora, é apenas meu coração que
está palpitando no mundo."

Emílio Moura

Sou uma lâmpada votiva ardendo ardendo,
murmúrios e mistérios da noite vibram em mim.
Todo o mundo em meu corpo, toda a vida:
amores e pecados, dores, morte
— uma vida ou uma lentíssima agonia?
Sinto na carne vigílias maceradas
gritos que eu grito, soluços que eu soluço,
esgares gargalhados que laceram
entram-me no ouvido, pelo sangue, na alma,
Na alma em abandono. Em silêncio o mundo
tão cheio de presságios, de ódios e silêncio.
Mistérios e traições da noite, a todos sofro
como o último dos desgraçados.
Não aves, não flores, não carinhos
mas o negrume, a solidão, este abandono
na noite eterna.
Desde sempre a sofri, não mais me deixará,
Serei o holocausto dos que agora
Esquecem a noite.
E nem poder lançar o olhar em busca das estrelas.
(Vejo além das estrelas)

O VAGABUNDO POETA
Cantarei a erva nos pastos
E o crescimento do sol, com
Suas ramas ríspidas. Cantarei os
Caninos do lobo, e o reflexo de
Sua fome, temperada de duro
Azul. Cantarei a eficácia da
Pedra e o clarão áspero de sua
Nudez. Cantarei algumas palavras, ao
Acaso inscritas num muro, e o silvo
Das locomotivas transviadas, e o vazio
De deus no mundo, e a liberdade na
Morte. Cantarei — sim, cantarei — os
Regalos do homem, seus pulmões absurdos,
O couro de seus sapatos e a vertigem
De sua marcha — extinto diamante.

(In Minérios domados, poesia reunida, seleção e edição de Humberto Werneck, Rio de Janeiro: Rocco, 1993, pp. 204-205)




sexta-feira, 2 de janeiro de 2015

Ivan Junqueira

Ó MEMÓRIA INSEPULTA
Ó memória insepulta nas areias
da praia a que regresso, mas não ouço
ali a voz dos ventos, o balouço
da espuma nas espáduas das sereias.
Ó memória da infância sob as teias
que as aranhas teceram rente ao poço
do jardim: ervas, lodo, o calabouço
onde se afiam os punhais, as meias
palavras, as intrigas cujas veias
vertem ódios tão duros quanto um osso
e tudo o que separa, fundo fosso,
as coisas puras das mais vis e feias.
Ó memória que augura: ainda és moço,
e a velhice é tão só outro alvoroço.

(In Essa música, Rio de Janeiro: Rocco, 2014, p. 47)




Mariana Ianelli: Um legado de afeto e pensamento do poeta e crítico Ivan Junqueira

quinta-feira, 1 de janeiro de 2015

Giacomo Leopardi

A NOITE DO DIA DA FESTA

Noite sem vento, doce, clara. A lua
Flutua sobre tetos e pomares,
Serena, revelando ao longe, os montes.
As ruas e os caminhos silenciam,
Minha amada. Pelos balcões, são raros
Os lampiões, um sono suave invade
Os aposentos, você dorme, nada
Perturba o seu repouso, muito menos
A chaga que me abriu dentro do peito!
Mas você dorme, e ao céu de aspecto ameno
– E à antiga natureza onipotente
Que me vota à aflição – dirijo os olhos.
“Para você, nem mesmo uma esperança;
Para os seus olhos, só um brilho: lágrimas”,
Ela me disse. Mas que dia magnífico!
Dormem danças e jogos, mas, em sonho,
Talvez para você desfilem todos
De quem gostou ou aos quais agradou
(Menos eu, que nesse rol não compareço).
Mas se calculo os dias que me restam,
Vejo-me aos gritos, a rolar na terra:
Que vida horrível numa vida jovem!
Vai pela rua o canto solitário
De quem já trabalhou, passou na tasca,
E volta tarde para a casa pobre.
Vai-me apertando, amargo, o coração,
Só penso em como tudo passa e passa,
Quase sem deixar rastro. Já se foi
O dia de festa, e agora chega o dia
Normal, onde tudo se escoa no tempo,
Todos os atos humanos. E o estrondo
Dos antigos, as vozes dos heróis
De ontem, onde estão? e o grande império,
E as armas e o fragor que faz tremer
Os caminhos da terra e do oceano?
Tudo é paz e silêncio. O mundo
Tudo aquieta. Já não se pensa em nada.
Quando criança, vinha a espera ansiosa
Do dia de festa, que findava logo.
Sofrendo, comprimia o travesseiro,
Ao ouvir pela noite aquele canto
Que ia morrendo, aos poucos, lentamente,
Morrendo e me apertando o coração.

(Tradutor:  Décio Pignatari)

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Armando Silva Carvalho

PELA ALAMEDA de silvas vai o amador
Das vastas alegorias
O pastor enlevado a flauta e as ovelhas.
Vai o barco pela barra e nele o marinheiro.
Teu mar é um palimpsesto
E as tuas ilhas gregas.

Tudo está cheio de deuses aqui no meu caminho.
O burro e a carroça, a bicicleta e o carro
São transportes directos para um Olimpo
Rural, oposto do marinho.

A boca seca, a força braçal dos jornaleiros,
O cuspo, o som das cavas, a entrada do ferro
Das enxadas nas resistentes leivas do Outono
Cenas vivas da terra aberta aos olhos infantis
Que vão saber amar para sempre esses dias inteiros.

Tudo o que a vista toca, a língua cheira,
O ouvido sente, a pele escuta, o nariz fita
Na gramática do corpo na tabuada da alma
As minhas linhas-férreas correm
No leito dos teus rios.

Éramos duas crianças a caminho
Da escrita.

(em Sol a Sol)

SOBRE ARMANDO SILVA CARVALHO

terça-feira, 30 de dezembro de 2014

Keats

ODE A UM VASO GREGO

I

Tu, noiva ainda não desvirginada da quietude,
Tu, criada pelo silêncio e o tempo lento,
Historiadora silvestre, que podes assim expressar
Um conto floral mais suave que nossa rima.
Que lenda de friso de folhas se oculta sob teu traçado
De divindades ou mortais, ou ambos,
No Tempe ou nos vales da Arcádia?
Que homens ou Deuses são eles? Que donzelas relutantes?
Que louca perseguição? Que luta para escapar?
Que flautas e pandeiros? Que êxtase selvagem?

II

As melodias são doces, mas aquelas não ouvidas
São mais doces; desta maneira, vós, suaves flautas, soai;
Não ao ouvido sensorial, mas, ternamente,
Toquem as melodias espirituais do não-som.
Belo jovem, sob as árvores, não deixarás
Tua canção, como jamais perderão as árvores suas folhas;
Amante audacioso, nunca, nunca beijarás
Embora perto de tua meta - não te aflijas;
Ela não se desvanecerá, e embora não tenhas o deleite,
Sempre amarás, e será ela sempre bela!

III

Ah! Os ramos alegres, alegres! Que não perdereis jamais
Vossas folhas, nem vos despedireis da primavera;
E, músico feliz, incansável,
A tocar melodias sempre novas;
Mais amor feliz! Mais feliz, feliz amor!
Eternamente cálido e para sempre a ser gozado,
Continuamente palpitante e sempre jovial;
Todos eles suspirando a intensa paixão humana,
Que deixa o coração aflito e saciado,
A cabeça quente, e a língua seca.

IV

Quem são aqueles indo ao sacrifício?
A que verde altar, Ó misterioso sacerdote,
Conduzes aquela bezerra berrante aos céus,
E todos seus sedosos flancos com guirlandas?
Qual cidade à beira da praia ou rio,
Ou na montanha cercada por muralhas,
Que está deserta, nesta sagrada manhã?
E, na pequena cidade, tuas ruas sempre estarão
Em silêncio, pois ninguém que poderia contar
Porque estás deserta voltará.

V

Ó estilo Ático, bela Atitude!
De homens e donzelas forjados em mármore,
Com ramos silvestres e relva pisada;
Tu, forma silente, arroja-nos ao sortilégio
Qual a eternidade: Fria Pastoral!
Quando a velhice arruinar esta geração,
Permanecerás, em meio a outro infortúnio
Que não o nosso, amigo do homem, a quem proferes,
“A Beleza é Verdade, a Verdade Beleza” - isto é tudo
O que sabeis na terra, e tudo o que deveis saber.

[In Nas invisíveis asas da poesia, tradução Alberto Marsicano e John Milton, São Paulo, Iluminuras, 1998, pp. 29-33]. 



segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Konstantínos Kaváfis

O SOL DA TARDE

Este quarto, como o conheço bem.
Agora alugam-se quer este quer o do lado
para escritórios comerciais. A casa toda tornou-se
escritórios de intermediários, e de comerciantes, e Sociedades.

Ah este quarto, não é nada estranho.

Perto da porta por aqui estava o sofá,
e diante dele um tapete turco;
ao pé a prateleira com duas jarras amarelas.
À direita; não, em frente, um armário com espelho.
Ao meio a sua mesa de escrever;
e três grandes cadeiras de vime.
Ao lado da janela estava a cama
onde nos amámos tantas vezes.

Estarão ainda os coitados nalgum lugar.

Ao lado da janela estava a cama;
o sol da tarde chegava-lhe até metade.

...De tarde quatro horas, tínhamo-nos separado
por uma semana só . . . Ai de mim,
aquela semana tornou-se para sempre.

(Tradução de Joaquim Manuel Magalhães e Nikos Pratsinis)

DOIS JOVENS, DE 23 A 24 ANOS

Desde as dez e meia estava no café,
e esperava que aparecesse logo.
Foi-se meia-noite – e ainda o esperava.
Foi-se uma hora e meia; esvaziara-se
o café quase por inteiro.
Cansou-se de ler jornais
mecanicamente. Dos seus escassos, três xelins
restava apenas um: tanto tempo esperou
que gastou os outros em cafés e conhaque.
Fumou todos os seus cigarros.
Esgotava-o a espera demasiada. Pois
assim sozinho como já estava por horas, começavam
a ocupá-lo pensamentos importunos
da sua vida desviada.

Mas quando viu o seu amigo entrar – de pronto
o cansaço, o tédio, os pensamentos fugiram.

Seu amigo trazia uma notícia inesperada.
Ganhara no jogo de cartas sessenta libras.

Seus belos rostos, sua juventude maravilhosa,
o amor sensual que tinham entre si,
refrescaram-se, avivaram-se, acentuaram-se
com as sessenta libras do jogo de cartas.

E cheios de alegria e força, sentimento e beleza
foram – não para as casas de suas famílias honradas
(onde, aliás, nem os queriam mais):
a uma conhecida, e mui particular,
casa de perdição foram e pediram
quarto de dormir, e bebidas caras, e novamente beberam.

E quando acabaram as bebidas caras,
e quando aproximavam-se as quatro horas,
ao amor entregaram-se felizes.

(Tradução: R. M. Sulis, M. P. V. Jolkesky, A. T. Nicolacópulos)

domingo, 28 de dezembro de 2014

Paul Auster

SOMBRA A SOMBRA
Contra a fachada do crepúsculo:
sombras, fogo e silêncio.
Nem mesmo o silêncio, mas seu fogo
a sombra
que projeta uma respiração.

Por penetrar o silêncio deste muro,
tenho de me deixar para trás.

PROVENCE: EQUINÓCIO
Clara-noite: o osso e o alento
transparentes. Essa jornada
de céu ofertado
para o centro do céu
que habitamos — uma montanha
no ar que desmorona.

Tu, só
dorme-te no fundo
deste ponto,
terra natimorta, como se pudesses sonhar
tão longe
por me dizer da densa, relameada semente
que arde em nós,
e acalmar a lenta, vernal agonia
que lida
no longo processo de arrancar pela raiz
as estrelas.

[Fonte: Todos os poemas, Tradução e prefácio de Caetano W. Galindo, São Paulo, Companhia das Letras, 2004, pp. 163-165].

Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...