DIZER TREVAS
Como Orfeu, toco
a morte nas cordas da vida
e à beleza do mundo
e dos teus olhos que regem o céu
só sei dizer trevas.
Não te esqueças que também tu, subitamente,
naquela manhã, quando o teu leito
estava ainda úmido de orvalho e o cravo
dormia no teu coração,
viste o rio negro
passar por ti.
Com a corda do silêncio
tensa sobre a onda de sangue,
dedilhei o teu coração vibrante.
A tua madeixa transformou-se
na cabeleira de sombras da noite,
os flocos negros da escuridão
nevavam sobre o teu rosto.
E eu não te pertenço.
Ambos nos lamentamos agora.
Mas, como Orfeu, sei
a vida ao lado da morte,
e revejo-me no azul
dos teus olhos fechados para sempre.
[In O tempo Aprazado, Seleção, tradução e introdução João Barrento e
Judite Berkemeier, Lisboa, Assírio & Alvim, 1992, pp. 27-29]
sábado, 28 de março de 2015
quinta-feira, 26 de março de 2015
Álvaro de Campos
ESTOU CANSADO, É CLARO
Estou cansado, é claro
Porque, a certa altura, a gente tem que estar cansado.
De que estou cansado, não sei:
De nada me serviria sabê-lo,
Pois o cansaço fica na mesma.
A ferida dói como dói
E não em função da causa que a produziu.
Sim, estou cansado,
E um pouco sorridente
De o cansaço ser só isto-
Uma vontade de sono no corpo,
Um desejo de não pensar na alma,
E por cima de tudo uma transparência lúcida
Do entendimento retrospectivo…
E a luxúria única de não ter já esperanças?
Sou inteligente: eis tudo.
Tenho visto muito e entendido muito o que tenho visto,
E há um certo prazer até no cansaço que isto nos dá,
Que afinal a cabeça sempre serve para qualquer coisa.
O QUE HÁ EM MIM É SOBRETUDO CANSAÇO
O que há em mim é sobretudo cansaço –
Não disto nem daquilo,
Nem sequer de tudo ou de nada:
Cansaço assim mesmo, ele mesmo,
Cansaço.
A subtileza das sensações inúteis,
As paixões violentas por coisa nenhuma,
Os amores intensos por o suposto em alguém,
Essas coisas todas –
Essas e o que falta nelas eternamente -;
Tudo isso faz um cansaço,
Este cansaço,
Cansaço.
Há sem dúvida quem ame o infinito,
Há sem dúvida quem deseje o impossível,
Há sem dúvida quem não queira nada –
Três tipos de idealistas, e eu nenhum deles:
Porque eu amo infinitamente o finito,
Porque eu desejo impossivelmente o possível,
Porque quero tudo, ou um pouco mais, se puder ser,
Ou até se não puder ser…
E o resultado?
Para eles a vida vivida ou sonhada,
Para eles o sonho sonhado ou vivido,
Para eles a média entre tudo e nada, isto é, isto…
Para mim só um grande, um profundo,
E, ah com que felicidade infecundo, cansaço,
Um supremíssimo cansaço,
íssimo, íssimo, íssimo,
Cansaço…
NÃO, NÃO É CANSAÇO
Não, não é cansaço…
É uma quantidade de desilusão
Que se me entranha na espécie de pensar,
E um domingo às avessas
Do sentimento,
Um feriado passado no abismo…
Não, cansaço não é…
É eu estar existindo
E também o mundo,
Com tudo aquilo que contém,
Como tudo aquilo que nele se desdobra
E afinal é a mesma coisa variada em cópias iguais.
Não. Cansaço por quê?
É uma sensação abstracta
Da vida concreta –
Qualquer coisa como um grito
Por dar,
Qualquer coisa como uma angústia
Por sofrer,
Ou por sofrer completamente,
Ou por sofrer como…
Sim, ou por sofrer como…
Isso mesmo, como…
Como quê?…
Se soubesse, não haveria em mim este falso cansaço.
(Ai, cegos que cantam na rua,
Que formidável realejo
Que é a guitarra de um, e a viola do outro, e a voz dela!)
Porque oiço, vejo.
Confesso: é cansaço!…
segunda-feira, 23 de março de 2015
Ruy Belo
PRIMEIRO POEMA DO OUTONO
Mais uma vez é preciso
reaprender o outono -
todos nós regressamos ao teu
inesgotável rosto
Emergem do asfalto aquelas
inacreditáveis crianças
e tudo incorrigivelmente principia
Já na rua se não cruzam
olhos como armas
Recebe-nos de novo o coração
E sabe deus a minha humana mão
SEGUNDO POEMA DO OUTONO
Quantas vezes ainda verei eu cair
as pálidas leves folhas do outono?
- Não pode um homem vê-las
cair e conseguir viver
(e cá estou também eu
cá estou eu incorrigivelmente a cantar
as gastas folhas do outono
as mesmas das minhas mais antigas leituras
as primeiras e as últimas que tenho visto cair
Haverá outra poesia que não
a que cai nas tristes
folhas do outono?)
- Não pode o homem ver
cair as folhas e viver
[In Aquele Grande Rio Eufrates, Todos os Poemas, Lisboa, Assírio & Alvim, 3a. edição, 2009, pp. 106-107].
Mais uma vez é preciso
reaprender o outono -
todos nós regressamos ao teu
inesgotável rosto
Emergem do asfalto aquelas
inacreditáveis crianças
e tudo incorrigivelmente principia
Já na rua se não cruzam
olhos como armas
Recebe-nos de novo o coração
E sabe deus a minha humana mão
SEGUNDO POEMA DO OUTONO
Quantas vezes ainda verei eu cair
as pálidas leves folhas do outono?
- Não pode um homem vê-las
cair e conseguir viver
(e cá estou também eu
cá estou eu incorrigivelmente a cantar
as gastas folhas do outono
as mesmas das minhas mais antigas leituras
as primeiras e as últimas que tenho visto cair
Haverá outra poesia que não
a que cai nas tristes
folhas do outono?)
- Não pode o homem ver
cair as folhas e viver
[In Aquele Grande Rio Eufrates, Todos os Poemas, Lisboa, Assírio & Alvim, 3a. edição, 2009, pp. 106-107].
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| CLAUDE MONET |
quinta-feira, 19 de março de 2015
Enrique Vila-Matas
Leio as palavras do poeta Ullán sobre Marguerite Duras e é como se a estivesse vendo agora: “Marguerite perguntava sem parar. E era o eco e o filtro do que ela mesma se perguntava. Enfiava nisso cizânia e persuasão, melodrama e comicidade. Exigia de viva voz que lhe desse a razão, quando na verdade náo a desejava. Ia do copo ao cigarro, da tosse espasmódica às intermináveis pausas. Retorcia suas mãos carregadas de anéis, brincava com os óculos ou improvisava algum agrado leve com a ajuda do foulard. Ria e chorava amiúde. Com facilidade? Quem sabe! De fato, ali se sabia cada vez menos. Menos, de qualquer modo, do que ela queria saber”.
Eu a recordarei sempre como uma mulher violentamente livre e audaz, que encarnava em si mesma e com sentido de urgência — com seu inteligente uso, por exemplo, da libertinagem verbal, que em seu caso consistia em sentar-se numa poltrona de sua casa e, com verdadeira ferocidade, despachar com gosto — todas as monstruosas contradições que reúne o ser humano, todas essas dúvidas, fragilidade e desamparo, individualidade feroz e busca do desconsolo compartilhado, enfim, toda essa grande angústia que somos capazes de desdobrar frente à realidade do mundo, essa desolação da qual são feitos os escritores menos exemplares, os menos acadêmicos e edificantes, os que não estão propensos a dar uma correta e boa imagem de si mesmos, os únicos de quem não aprendemos nada, porém também os únicos que têm a rara coragem de se expor literalmente nos seus escritos - onde despacham com gosto - e que admiro profundamente porque somente eles vão fundo e me parecem escritores de verdade.
(Enrique Vila-Matas, Excerto de "Paris não tem fim")
Eu a recordarei sempre como uma mulher violentamente livre e audaz, que encarnava em si mesma e com sentido de urgência — com seu inteligente uso, por exemplo, da libertinagem verbal, que em seu caso consistia em sentar-se numa poltrona de sua casa e, com verdadeira ferocidade, despachar com gosto — todas as monstruosas contradições que reúne o ser humano, todas essas dúvidas, fragilidade e desamparo, individualidade feroz e busca do desconsolo compartilhado, enfim, toda essa grande angústia que somos capazes de desdobrar frente à realidade do mundo, essa desolação da qual são feitos os escritores menos exemplares, os menos acadêmicos e edificantes, os que não estão propensos a dar uma correta e boa imagem de si mesmos, os únicos de quem não aprendemos nada, porém também os únicos que têm a rara coragem de se expor literalmente nos seus escritos - onde despacham com gosto - e que admiro profundamente porque somente eles vão fundo e me parecem escritores de verdade.
(Enrique Vila-Matas, Excerto de "Paris não tem fim")
quarta-feira, 18 de março de 2015
Eugénio de Andrade
A Sílaba
Toda a manhã procurei uma sílaba.
É pouca coisa, é certo: uma vogal,
uma consoante, quase nada.
Mas faz-me falta. Só eu sei
a falta que me faz.
Por isso a procurava com obstinação.
Só ela me podia defender
do frio de janeiro, da estiagem
do verão. Uma sílaba.
Uma única sílaba.
A salvação.
Abril
Brinca a manhã feliz e descuidada,
como só a manhã pode brincar,
nas curvas longas desta estrada
onde os ciganos passam a cantar.
Abril anda à solta nos pinhais
coroado de rosas e de cio,
e num salto brusco, sem deixar sinais,
rasga o céu azul num assobio.
Surge uma criança de olhos vegetais,
carregados de espanto e de alegria,
e atira pedras às curvas mais distantes
- onde a voz dos ciganos se perdia.
Adeus
Como se houvesse uma tempestade
escurecendo os teus cabelos,
ou, se preferes, minha boca nos teus olhos
carregada de flor e dos teus dedos;
como se houvesse uma criança cega
aos tropeções dentro de ti,
eu falei em neve - e tu calavas
a voz onde contigo me perdi.
Como se a noite se viesse e te levasse,
eu era só fome o que sentia;
Digo-te adeus, como se não voltasse
ao país onde teu corpo principia.
Como se houvesse nuvens sobre nuvens
e sobre as nuvens mar perfeito,
ou, se preferes, a tua boca clara
singrando largamente no meu peito.
Adeus II
Já gastámos as palavras pela rua, meu amor,
e o que nos ficou não chega
para afastar o frio de quatro paredes.
Gastámos tudo menos o silêncio.
Gastámos os olhos com o sal das lágrimas,
gastámos as mãos à força de as apertarmos,
gastámos o relógio e as pedras das esquinas
em esperas inúteis.
Meto as mãos nas algibeiras e não encontro nada.
Antigamente tínhamos tanto para dar um ao outro;
era como se todas as coisas fossem minhas:
quanto mais te dava mais tinha para te dar.
Às vezes tu dizias: os teus olhos são peixes verdes.
E eu acreditava.
Acreditava,
porque ao teu lado
todas as coisas eram possíveis.
Mas isso era no tempo dos segredos,
era no tempo em que o teu corpo era um aquário,
era no tempo em que os meus olhos
eram realmente peixes verdes.
Hoje são apenas os meus olhos.
É pouco, mas é verdade,
uns olhos como todos os outros.
Já gastámos as palavras.
Quando agora digo: meu amor,
já se não passa absolutamente nada.
E no entanto, antes das palavras gastas,
tenho a certeza
que todas as coisas estremeciam
só de murmurar o teu nome
no silêncio do meu coração.
Não temos já nada para dar.
Dentro de ti
não há nada que me peça água.
O passado é inútil como um trapo.
E já te disse: as palavras estão gastas.
Adeus.
Ainda sabemos cantar
Ainda sabemos cantar,
só a nossa voz é que mudou:
somos agora mais lentos,
mais amargos,
e um novo gesto é igual ao que passou.
Um verso já não é a maravilha,
um corpo já não é a plenitude.
segunda-feira, 16 de março de 2015
Rainer Maria Rilke
Amo as horas sombrias de meu ser,
nas
quais se me aprofundam os sentidos:
nelas
eu tenho achado, como em velhas cartas,
meu
dia-a-dia já vivido, e feito
alguma
lenda distante e sofrida.
Delas
me vem a noção de que tenho
lugar
numa outra vida mais ampla e infinita.
E
eu às vezes me sinto feito a árvore
que,
sobre um túmulo, madura e ciciante,
preenche
o sonho de algum morto jovem
(a
cuja volta ela aperta as raízes mornas)
perdido
entre amarguras e cantigas.
***
com
rude batimento no meio da noite,
é
que de quando em quando te ouço respirar
e
sei que estás sozinho no salão.
E,
se careces de algo, lá não há ninguém
que
te ofereça um gole às mãos tateantes...
Sempre
atento estou eu: ao menor sinal teu
eu
estou muito perto.
Só
existe entre nós uma fina parede,
por
acaso: se houvesse, por acaso,
de
tua boca ou da minha algum chamado,
ela
se desfaria
sem
alarme ou ruído.
De
imagens tuas ela é toda feita:
imagens
que em tua frente se põem - nomes.
E,
tão logo se acende em mim a luz
com
que te reconhece a profundeza minha,
ela
some com um reflexo na moldura.
E
meus sentidos, que em pouco se debilitam,
desligados
de ti - ficam sem pátria.
***
Capto de tuas palavras o sentido
e
o da história dos gestos
com
que tuas mãos em torno do devir,
quentes
e sábias, tentam limitá-lo.
Da
vida falavas alto, da morte falavas baixo,
e
sempre e sempre repetias: ser...
Ainda
antes da primeira morte veio o crime
-
e era um rasgão cruzando teus maduros círculos
e
uma área havia
e
vozes arrastadas
que
então se reuniam
para
te proclamarem,
para
te conduzirem
-
pontes sobre todo abismo.
E
o que têm, desde então, balbuciado
são
pedaços
de
teu antigo nome.
***
Fala Abel, pálido moço:
-
Eu não existo. Algo me fez meu irmão
que
meus olhos não viram.
A
luz ele me apagou,
meu
rosto ele sufocou
com
o rosto dele.
Agora
ele está sozinho.
Eu
penso que ele nem deve existir:
com
ele ninguém faz o que ele fez comigo.
Todos
me seguem a trilha:
todos
chegam defronte à ira dele
e
diante dele parecem perdidos.
Creio
que meu irmão maior vigia
igual
a um tribunal.
É
em mim que a noite tem pensado,
não
é nele.
***
Tu, escuridão da qual descendo,
de
ti gosto mais que da labareda:
ela
reduz
o
mundo em que reluz
a
uma espécie de círculo
fora
do qual nenhum ser a conhece.
Já
a escuridão, em si tudo contém:
formas
e flamas e animais, e eu
-
assim como também ela reúne
pessoas
e potências...
E
pode ser isto: uma grande força
a
se mover nos subúrbios de mim...
Acredito
nas noites.
***
Eu creio em tudo que ainda não foi dito.
Quero
soltar meus mais sagrados sentimentos.
O
que ninguém sabe ainda querer muito
em
mim um dia há de ser espontâneo.
Se
é presunção isto, meu Deus, perdoa:
mas
é só isto o que eu tenho a dizer-te.
A
força melhor em mim há de ser como um impulso
assim
sem zangas nem hesitações;
e
é assim que te amam as crianças.
Com
esta maré, com este estuário
nos
largos braços do mar aberto,
com
esta volta crescente,
quero
reconhecer-te e proclamar-te
como
antes ninguém fez.
Se
isto é soberba, deixa eu ser o soberbo
por
minha prece,
que
tão grave e solitária
ergue-se
em frente a teu rosto de nuvens.
sábado, 14 de março de 2015
Mariana Ianelli
De Rilke para Sophia, de Alceu para Lia
Além dos célebres contos e poemas de Natal, que todos os anos surgem em novas coletâneas, há na literatura este nicho muito particular das cartas natalinas, no qual Rainer Maria Rilke ocupa um lugar especial. Suas cartas de Natal para a mãe cobrem nada menos que 26 anos, um período sem lacunas que raramente encontra paralelo no gênero epistolar a ponto de render um livro temático. Curiosamente, o que sintetiza as cartas do poeta e ao mesmo tempo as mantém vivas por um quarto de século tem relação com as cartas de Alceu Amoroso Lima para sua filha Lia. Essa presença por meio da palavra, nunca como presença física, numa época do ano em que era esperado que pais e filhos celebrassem juntos, acontece com uma intenção que não foge ao espírito da data.
Diz-se que Rilke mantinha uma distância estratégica da mãe e suas cartas seriam prova disso, de um filho que, não faltando com o afeto, tampouco buscava expandir essa relação. Mas a importância do Natal para o poeta como um momento de celebração meditativa, nítida nos motivos de sua poesia, coincide com o gesto e o conteúdo de suas cartas. Em 1903, três anos depois do início da correspondência com a mãe, Rilke propõe a ela um ritual: que sua carta seja aberta apenas no dia 24 e às 6 horas da tarde os dois se encontrem em pensamento. Fica tacitamente acordado que o Natal será comemorado sempre assim, numa secreta sintonia entre mãe e filho que significará para ambos uma comunhão sagrada.
As cartas não falham, a cada ano vêm de um lugar diferente, Paris, Westerwede, Roma, Duíno, Viena, Munique, cada lugar marcando uma fase da vida e da obra do poeta. O ritmo intenso tanto nas mudanças de residência de Rilke quanto em seu trabalho literário tem como contraponto sutil a serenidade de espírito que o poeta busca para si, desejando o mesmo para sua mãe. O presente de Natal enviado com a primeira carta, em dezembro de 1900, é simbólico: "Histórias do Bom Deus", um livro em que a mãe vai reconhecer - ele espera - o melhor em que seu filho se tornou.
É bom lembrar que, nessa época, Rilke já esboçava com o pintor Heinrich Vogeler o projeto de um ciclo de poemas de Natal que, mais de dez anos depois, resultaria no livro "A Vida de Maria". Uma das cenas escolhidas para esse ciclo é o repouso de Maria e Jesus durante a fuga para o Egito. Esse momento de repouso dos prófugos está representado também de modo simbólico no conteúdo das cartas natalinas, especialmente durante os anos da Primeira Guerra Mundial. Aquela paz de uma hora em que os dois se encontram, sempre em dezembro, numa espécie de cerimônia íntima, de cumplicidade na solidão, significa ainda um espaço interior de refúgio, uma celebração da criança a salvo dentro de um e de outro.
No Natal de 1901, em Westerwede, Rilke está casado, tem uma filha, e a família recém-formada justifica as palavras breves. No dezembro seguinte ele volta a escrever, dessa vez longamente. Fala do trabalho, da filha pequena, do tempo quente e úmido de Paris. Já em 1906, instalado em Capri, na Villa Discopoli, Rilke está separado mulher e da filha, tão sozinho quanto a mãe. A paz da hora então é real, e a solidão, uma palavra festejada. A partir daí, Rilke afasta-se cada vez mais de sua família a ponto de comentar, poucos anos depois, em Duíno, que há muito tempo não recebe notícias de sua mulher, Clara.
Em 1910, Rilke celebra o Natal em Túnis, em meio a uma paisagem de mesquitas, "templos divinos de outra crença, mas [erguidos] ao mesmo Deus". Esse breve comentário resume a convicção de fundo místico do poeta. Também nessa carta está uma de suas definições para o espírito da data: "Sentir no peito uma vez ao ano a expectativa, a esperança inabalável, de que o adulto, ora vigorando em nós, nos quer surpreender, não um pouco, não, muito, com o infinito".
Essa "esperança inabalável" e essa "feição de inocente criança" que dão sentido à hora sagrada serão desafiadas durante os anos de guerra. Justamente em 1914, a carta vem sem referência de lugar. É o primeiro dezembro de um mundo em transe, uma época em que as palavras não convencem. Mas René, o velho René, como agora assina suas cartas, continua a ver no Natal "a comemoração do júbilo", o envolvimento de cada um na imagem daquela criança pura, mesmo em circunstâncias de destruição e luto.
Se já a fidelidade das cartas, ao menos uma vez por ano, mostra uma constância de pensamento, o equilíbrio que o poeta mantém numa época de desabono espiritual prova que sua alegria não oscila com as oscilações do mundo. Por isso, suas cartas de 1914 a 1918 insistem em reabilitar as palavras desacreditadas e assumem o desafio: "Somos assim postos à prova, se de fato compreendemos a necessidade de transcender a nós próprios no congraçamento".
As cartas que se seguem, de 1919 a 1921, marcam uma temporada de turnês de leituras e conferências de Rilke pela Suíça, além da etapa final da longa gestação de "Sonetos a Orfeu" e "Elegias de Duíno". Em 1923, os poemas de "A Vida de Maria" estreiam numa peça para canto e piano.
O interessante nessa arquitetura dos poemas de Natal, contemporâneos das primeiras "Elegias", e nas cartas natalinas para a mãe, é a sugestão de uma mesma atmosfera de capela, sob a influência das artes, especialmente a pintura de ícones. Não por acaso, além das pinturas citadas pelo poeta em suas cartas, há referências a capelas que ele visita, em particular a capelinha abandonada de Santa Ana, de propriedade do Castelo de Muzot, que sintetiza em uma imagem o imperturbável sentimento ascético de Rilke nos tempos do pós-guerra. Sua última carta vem em 1925, de Muzot, e ali está, mais uma vez intacta, a celebração de júbilo do filho, comungando em pensamento com a mãe.
A criação desse espaço de sintonia lembra o teor de outras cartas natalinas, agora de pai para filha. Cobrindo um período de mais de 20 anos, as cartas de Alceu Amoroso Lima para sua filha Lia aproximam-se do espírito de união entre Rilke e Sophia. Vale destacar a carta de dezembro de 1950. A bordo do navio Argentina, no Dia dos Santos Inocentes, Alceu escreve para a filha se despedindo. Começava um tempo novo para os dois, Alceu a caminho dos Estados Unidos, Lia a caminho do mosteiro Santa Maria, em São Paulo. Nessa carta de despedida, Alceu faz um único pedido para a filha às vésperas da vida nova: que ela nunca perca sua naturalidade. Que, dali a alguns anos, ele possa reconhecer a mesma alegria de menina quando a reencontrar, "com os seus véus negros, atrás de uma grade".
É assim que os dois comemoram o Natal, celebrando a figura de uma criança e nela a essência de uma pureza e uma alegria. Em dezembro de 1961, Alceu escreve: "Se não fosse, hoje em dia, Santa Maria, e em Santa Maria se não fosse uma 'nossa menina', sempre alegre, sempre igual, sempre animada, sempre criança, (...) e por isso com o ar puro do espírito varrendo sempre todos os miasmas da minha melancolia, da inquietação, da dúvida, da divisão, da discórdia comigo mesmo, do medo, em suma, dos fantasmas do demônio exterior e interior (...), que seria de mim, neste confuso crepúsculo de 61?"
[In Valor Econômico, 6 de dezembro de 2013]
Além dos célebres contos e poemas de Natal, que todos os anos surgem em novas coletâneas, há na literatura este nicho muito particular das cartas natalinas, no qual Rainer Maria Rilke ocupa um lugar especial. Suas cartas de Natal para a mãe cobrem nada menos que 26 anos, um período sem lacunas que raramente encontra paralelo no gênero epistolar a ponto de render um livro temático. Curiosamente, o que sintetiza as cartas do poeta e ao mesmo tempo as mantém vivas por um quarto de século tem relação com as cartas de Alceu Amoroso Lima para sua filha Lia. Essa presença por meio da palavra, nunca como presença física, numa época do ano em que era esperado que pais e filhos celebrassem juntos, acontece com uma intenção que não foge ao espírito da data.
Diz-se que Rilke mantinha uma distância estratégica da mãe e suas cartas seriam prova disso, de um filho que, não faltando com o afeto, tampouco buscava expandir essa relação. Mas a importância do Natal para o poeta como um momento de celebração meditativa, nítida nos motivos de sua poesia, coincide com o gesto e o conteúdo de suas cartas. Em 1903, três anos depois do início da correspondência com a mãe, Rilke propõe a ela um ritual: que sua carta seja aberta apenas no dia 24 e às 6 horas da tarde os dois se encontrem em pensamento. Fica tacitamente acordado que o Natal será comemorado sempre assim, numa secreta sintonia entre mãe e filho que significará para ambos uma comunhão sagrada.
As cartas não falham, a cada ano vêm de um lugar diferente, Paris, Westerwede, Roma, Duíno, Viena, Munique, cada lugar marcando uma fase da vida e da obra do poeta. O ritmo intenso tanto nas mudanças de residência de Rilke quanto em seu trabalho literário tem como contraponto sutil a serenidade de espírito que o poeta busca para si, desejando o mesmo para sua mãe. O presente de Natal enviado com a primeira carta, em dezembro de 1900, é simbólico: "Histórias do Bom Deus", um livro em que a mãe vai reconhecer - ele espera - o melhor em que seu filho se tornou.
É bom lembrar que, nessa época, Rilke já esboçava com o pintor Heinrich Vogeler o projeto de um ciclo de poemas de Natal que, mais de dez anos depois, resultaria no livro "A Vida de Maria". Uma das cenas escolhidas para esse ciclo é o repouso de Maria e Jesus durante a fuga para o Egito. Esse momento de repouso dos prófugos está representado também de modo simbólico no conteúdo das cartas natalinas, especialmente durante os anos da Primeira Guerra Mundial. Aquela paz de uma hora em que os dois se encontram, sempre em dezembro, numa espécie de cerimônia íntima, de cumplicidade na solidão, significa ainda um espaço interior de refúgio, uma celebração da criança a salvo dentro de um e de outro.
No Natal de 1901, em Westerwede, Rilke está casado, tem uma filha, e a família recém-formada justifica as palavras breves. No dezembro seguinte ele volta a escrever, dessa vez longamente. Fala do trabalho, da filha pequena, do tempo quente e úmido de Paris. Já em 1906, instalado em Capri, na Villa Discopoli, Rilke está separado mulher e da filha, tão sozinho quanto a mãe. A paz da hora então é real, e a solidão, uma palavra festejada. A partir daí, Rilke afasta-se cada vez mais de sua família a ponto de comentar, poucos anos depois, em Duíno, que há muito tempo não recebe notícias de sua mulher, Clara.
Em 1910, Rilke celebra o Natal em Túnis, em meio a uma paisagem de mesquitas, "templos divinos de outra crença, mas [erguidos] ao mesmo Deus". Esse breve comentário resume a convicção de fundo místico do poeta. Também nessa carta está uma de suas definições para o espírito da data: "Sentir no peito uma vez ao ano a expectativa, a esperança inabalável, de que o adulto, ora vigorando em nós, nos quer surpreender, não um pouco, não, muito, com o infinito".
Essa "esperança inabalável" e essa "feição de inocente criança" que dão sentido à hora sagrada serão desafiadas durante os anos de guerra. Justamente em 1914, a carta vem sem referência de lugar. É o primeiro dezembro de um mundo em transe, uma época em que as palavras não convencem. Mas René, o velho René, como agora assina suas cartas, continua a ver no Natal "a comemoração do júbilo", o envolvimento de cada um na imagem daquela criança pura, mesmo em circunstâncias de destruição e luto.
Se já a fidelidade das cartas, ao menos uma vez por ano, mostra uma constância de pensamento, o equilíbrio que o poeta mantém numa época de desabono espiritual prova que sua alegria não oscila com as oscilações do mundo. Por isso, suas cartas de 1914 a 1918 insistem em reabilitar as palavras desacreditadas e assumem o desafio: "Somos assim postos à prova, se de fato compreendemos a necessidade de transcender a nós próprios no congraçamento".
As cartas que se seguem, de 1919 a 1921, marcam uma temporada de turnês de leituras e conferências de Rilke pela Suíça, além da etapa final da longa gestação de "Sonetos a Orfeu" e "Elegias de Duíno". Em 1923, os poemas de "A Vida de Maria" estreiam numa peça para canto e piano.
O interessante nessa arquitetura dos poemas de Natal, contemporâneos das primeiras "Elegias", e nas cartas natalinas para a mãe, é a sugestão de uma mesma atmosfera de capela, sob a influência das artes, especialmente a pintura de ícones. Não por acaso, além das pinturas citadas pelo poeta em suas cartas, há referências a capelas que ele visita, em particular a capelinha abandonada de Santa Ana, de propriedade do Castelo de Muzot, que sintetiza em uma imagem o imperturbável sentimento ascético de Rilke nos tempos do pós-guerra. Sua última carta vem em 1925, de Muzot, e ali está, mais uma vez intacta, a celebração de júbilo do filho, comungando em pensamento com a mãe.
A criação desse espaço de sintonia lembra o teor de outras cartas natalinas, agora de pai para filha. Cobrindo um período de mais de 20 anos, as cartas de Alceu Amoroso Lima para sua filha Lia aproximam-se do espírito de união entre Rilke e Sophia. Vale destacar a carta de dezembro de 1950. A bordo do navio Argentina, no Dia dos Santos Inocentes, Alceu escreve para a filha se despedindo. Começava um tempo novo para os dois, Alceu a caminho dos Estados Unidos, Lia a caminho do mosteiro Santa Maria, em São Paulo. Nessa carta de despedida, Alceu faz um único pedido para a filha às vésperas da vida nova: que ela nunca perca sua naturalidade. Que, dali a alguns anos, ele possa reconhecer a mesma alegria de menina quando a reencontrar, "com os seus véus negros, atrás de uma grade".
É assim que os dois comemoram o Natal, celebrando a figura de uma criança e nela a essência de uma pureza e uma alegria. Em dezembro de 1961, Alceu escreve: "Se não fosse, hoje em dia, Santa Maria, e em Santa Maria se não fosse uma 'nossa menina', sempre alegre, sempre igual, sempre animada, sempre criança, (...) e por isso com o ar puro do espírito varrendo sempre todos os miasmas da minha melancolia, da inquietação, da dúvida, da divisão, da discórdia comigo mesmo, do medo, em suma, dos fantasmas do demônio exterior e interior (...), que seria de mim, neste confuso crepúsculo de 61?"
[In Valor Econômico, 6 de dezembro de 2013]
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Fernando Paixão
Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
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Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
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PÃO-PAZ O Pão chega pela manhã em nossa casa. Traz um resto de madrugada. Cheiro de forno aquecido, de levedo e de lenha queimada. Traz as...
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O Barco Bêbado Quando eu atravessava os Rios impassíveis, Senti-me libertar dos meus rebocadores. Cruéis peles-vermelhas com uivos terríve...


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