domingo, 31 de maio de 2015

John Donne

ELEGIA V - RETRATO DELE

Aqui está, toma o meu retrato; embora de ti me despeça
O teu no meu coração, onde habita a minha alma, habitará.
É como eu agora, mas se eu morrer, será mais,
Quando formos ambos sombras, do que era antes.
Quando eu voltar gasto das intempéries, as mãos
Talvez rasgadas pelos remos rudes, ou curtidas dos raios do Sol
A minha face e o peito de silício, e a cabeça semeada
Com os eczemas dos cuidados das tempestades súbitas,
O corpo num saco de ossos, quebrado por dentro,
E as manchas azuis da pólvora espalhadas na pele;
Se rivais loucos te acusarem de ter amado um homem
Tão imundo e rude como, ah! então poderei parecer,
Isto deverá mostrar o que eu era, e tu deverás dizer,
Será que as dores dele me atingem? Arrumam o meu valor?
Ou atingem-lhe a mente pensante, e ele agora
Amará menos o que tanto gostava de ver?
Aquilo que nele foi belo e delicado,
Era apenas o leite que no estado infantil do amor
O alimentava; o qual agora cresceu forte o bastante
Para se alimentar do que, a gostos desusados, parece rude.

[ In Elegias Amorosas, tradução de Helena Barbas ]

SOBRE JOHN DONNE

Marc Saint-Saëns 



sábado, 30 de maio de 2015

Lélia Coelho Frota

OCLUSO

A floresta — verde
úmida epiderme.
A capela rósea,
sobre alguma nuvem
a estátua vendada.
Sempre em sustenido
a aérea cascata.
E o trilo do grilo
(no maior sigilo)
exato no musgo:
estremecimento
minúsculo, tenso.
Gotejante linho
sobre os corpos claros
e as mãos em descanso
no remanso tênue
da erva sensitiva,
e os imperceptíveis
suspiros no limo.
E pela pervinca
do plural silêncio
egeu, vegetal,
os apaixonados
restauram o tempo
em um só crisólito
de mudo colóquio
branco e malincônico
fossem duas notas
de velado acorde
fossem duas asas
num voo perdido
fosse o diamante
de duas facetas
(mágica luneta
a frasear o escuro
de encantada luz)
fosse o mesmo anjo
nas pupilas vagas
do desmemoriado
fosse a mesma grave
comissura em que
os lábios se fecham
no segredo incrível
do mais puro amor.

[In Poesia Lembrada, Rio de Janeiro: José Olympio, 1971, pp. 138-139].


By Anne-Laure Djaballah

sexta-feira, 29 de maio de 2015

Kóstas Varnális

ORESTES
Os teus cabelos de aipo, perfumados,
solta para mostrar tua beleza
e expulsa a obrigação da mente presa
às palavras do oráculo afamado.

Não há outra maneira. De bom grado
sorri. As portas de Argos, como vês, a
via fatal te trouxe. Tua empresa:
rasgar o ventre onde foste gerado.

Ninguém te lembra aqui. Portanto esquece
quem és, e à encruzilhada comparece
da áurea cidade. Ali hás de fazer,

como se um outro fosses, teu dever.
Que importa? Vão contigo, aonde fores,
o sangue de tua mãe e teus próprios horrores.
[De Poemas]

O GUIA
Não sou a semente do Acaso,
da nova vida criador. 
Sou filho da Necessidade,
maduro filho do Rancor.

Não foi das nuvens que desci
nem fui mandado por um santo
Pai para dar-te lenitivo,
escravo que padeces tanto.

Potências do céu, serafins,
lírios, pássaros, orações —
nada disso. A mim só assistem
vossos irados corações.

Eu, carranca de uma sereia
erguida à proa do navio.
Sobre mim se abatem tormentas,
fustiga-me o tempo bravio.

Dos séculos tanta vergonha
encheu-me o coração, a mente,
que minhas mãos aparelhou
de relâmpagos ignescentes.

Eu não sou um, eu sou milhares!
Não só os vivos é que eu vejo
atrás de mim — também os mortos
seguem o meu negro cortejo.

E me bendizem, aos milhares,
os que inda não têm existência,
põem sobre mim suas espadas
e as inclinam em reverência.

Ouvi como trazem os ventos
as vozes de milhares de anos.
Nas minhas palavras ecoam
todos os tormentos humanos.

Oh! como elas correm no vento
e como as repetem, exangues,
negros abismos, tumbas negras,
rios carregados de sangue.

E eis que a irmandade do Trabalho
lá surge, e os homens afinal
são unidos por duas mãos:
as da Amizade universal.
[Idem]

AS DORES DA VIRGEM SANTÍSSIMA
Onde esconder-te, filho meu, que não te encontrem os
malvados?
Em qual das ilhas do Oceano, em qual dos picos desolados?
Não te ensinarei a falar para que contra o mal te eleves.
Sei que terás um coração tão doce, tão afeiçoado,
que nos laços da cólera estarás te retorcendo em breve.

Terás um corpo delicado, terás os olhos azuis.
Vou te guardar do mau-olhado, te guardar do tempo ruim,
do primeiro susto ao despertar do juvenil ardor.
Não nasceste para as lutas, não nasceste para a cruz.
És um pequeno senhor, não um escravo ou delator.

Levantarei de noite e na ponta dos pés, devagarinho,
me inclinarei para ver-te respirando, passarinho.
Amornarei teu leite, a camomila cheirosa,
e mais tarde, da janela aflita, te verei a caminho
da escola: numa das mãos a lousa, na outra o lápis de
ardósia.

E se alguma vez o Senhor do céu com a verdade — brilho
de raio — te ferir a mente, não digas nada, filho.
Os homens não podem, feras, o brilho da luz suportar.
Só a verdade do silêncio é cristal; as outras, vidrilho.
Se nasceres mil vezes, mil vezes te irão crucificar!

LAMENTO DOS ESCRAVOS

O primeiro escravo
Os olhos com um brilho de água fria,
um rostinho de seda, macio. Entre
catorze, dezesseis anos teria.
Onde está agora? Terra, no teu ventre!

O segundo escravo
Rosas embaixo, um mar; a sebe só
de madressilvas, rio que transborda.
Onde estarão agora? Cinza e pó.
E nas alturas uma lua morta.

O terceiro escravo
Nem começo nem fim, tampouco meio.
Céu, mar, terra: extensões ilimitadas.
A tudo prende uma férrea cadeia.
Vazio o mundo; dentro ou fora: nada. 

Todos juntos
Silêncio em tudo. O vento silencia.
O sol está cego: olha mas não vê.
Não se distingue mais a noite e o dia.
O fim do mundo, a profecia crê.

Mas quem virá nos salvar? O Oriente?
O Ocidente? Um deus grego ou um deus bár-
baro? Há um mundo novo à nossa frente?
Ou o velho mundo é que vai voltar?

[In PAES, José Paulo (seleção e tradução). Poesia moderna da Grécia. Rio de Janeiro: Guanabara, 1986. pp. 115-119].


KÓSTAS VARNÁLIS (1884-1974) nasceu em Pírgos, Bulgária, onde fez o primário e o secundário. Cursou filosofia na Universidade de Atenas. Graduado em 1908, voltou à Bulgária para ali lecionar língua e literatura grega; mais tarde, fixou-se definitivamente na Grécia, a princípio como professor de ginásio. Em 1919, ganhou uma bolsa de estudos para a Sorbonne e em Paris familiarizou-se com o marxismo, ao qual aderiu intelectual e politicamente. Durante a ditadura de Pángalos, foi demitido do cargo de professor de literatura grega moderna numa faculdade de Atenas por causa de suas atividades esquerdistas (1925). Dedicou-se a partir de então exclusivamente ao jornalismo, à literatura e às traduções. Além de poesia, escreveu biografias, ensaios, livros infantis e contos, e traduziu em verso, para o grego moderno, obras teatrais de Aristófanes, Eurípedes, Molière, Corneille e Musset, as quais foram encenadas em teatros da Grécia. Recebeu em 1958 o Prêmio Lênin da Paz.

Ilustração: Detalhe de Orestes perseguido pelas Fúrias, , 1862
Oil on canvas, by Adolphe William Bouguereau
(1825–1905)








quinta-feira, 28 de maio de 2015

Gérard de Nerval

DÉLFICA

Ultima Cumaei venit jam carminis aetas.

Tu a conheces, Dafne, esta antiga romança,
Do sicômoro aos pés, sob os louros pendentes,
Sob a oliveira, o mirto e os salgueiros trementes,
Esta canção de amor que além sempre se lança?...

Reconheces o TEMPLO onde a cornija avança,
E os amargos limões onde entravam teus dentes,
E a caverna fatal a hóspedes imprudentes
Onde o dragão vencido esconde a íntima herança?...

Eles retornarão, os Deuses que tu choras!
O tempo recriará a ordem das velhas horas;
De um profético sopro o chão foi sacudido...

Enquanto isso a sibila de rosto latino
Ainda dorme por sob o arco de Constantino:
— E nada perturbou o Pórtico esquecido.

[In Alexei Bueno, Cinco Séculos de Poesia, Rio de Janeiro, Ed. Record Ltda., 2012, p. 77]

terça-feira, 26 de maio de 2015

Antonio Gamoneda

Um animal oculto no crepúsculo vigia-me e apieda-se
de mim. Pesam as frutas corrompidas, fervem as câma-
ras corporais. Cansa atravessar esta enfermidade cheia
de espelhos. Alguém assobia no meu coração. Não sei
quem é mas compreendo a sua sílaba interminável.

Há sangue no meu pensamento, escrevo sobre lápides
negras. Eu mesmo sou o animal estranho. Reconhe-
ço-me: lambe as pálpebras que ama, leva na língua as
substâncias paternais. Sou eu, não há dúvida: canta
sem voz e sentou-se a contemplar a morte, contudo
não vê mais que lâmpadas e moscas e as legendas das
fitas fúnebres. Às vezes, grita em tardes imóveis.

O invisível está dentro da luz, mas, arde alguma coisa
dentro do invisível? A impossibilidade é a nossa igreja.
Em todo o caso, o animal nega-se a fatigar-se na agonia.

É ele que está desperto em mim quando durmo. Não
nasceu e, no entanto, há-de morrer.

Como as coisas, de que perdida claridade vimos?
Quem pode recordar a inexistência? Podia ser mais
doce regressar, mas
entramos indecisos num bosque de espinhos. Nada
há além da última profecia. Sonhámos que um deus
lambia as nossas mãos: ninguém verá a sua máscara
divina.

Como as coisas,
a loucura é perfeita.

[In Oração Fria, Antologia. Sel., trad., introd. e posf. de João Moita, Lisboa, Assírio & Alvim, 2013, pp. 237-239].



domingo, 24 de maio de 2015

Isabel Mendes Ferreira

127.
com o corpo a ser campânula nos ombros lisos da água
fez-se película a morte em vez de viagem.

com as palavras surdas
e o coração em contrabaixo disse o profeta que seriam
horas de resgatar o anel a pedra e a tensão do sonho.

mais uma estrela e as tuas mãos submarinas seriam a
planície.
o profeta morreu e andam gaivotas no tecido que é caos.
assim se prende o rio do esquecimento à bainha do mar.

assim a face oculta que te assenta como
máscara.

128.
e um rio inteiro extenuava-se insatisfeito de ser água
sem margem, crispada a noite reincidiu em anel de
horizontes cativos, e como sílabas apolíneas vieram os
anjos, morrer estava fora do assombro, melhor seria a
mordaça e um olhar perfectus.
e logo o rio se fez nave a descrever imaginífica e
desvelada luz. assim a morte nunca será pedra, antes
maré ôntica. 

129.
dilatada a terra em que nos fazem ser sangue e ausência,
esventradas sombras como falsas muralhas de pele
rasgada, a subtileza é um mapa abandonado e neste
murmúrio cego de acento agudo sento-me à espera,
de um baptismo de espinhos redentores, que na flor é
declínio de ramagem, e nos teus olhos rotação de astro
desértico, serpentiforme o movimento anterior à fala.

130.
um dia uma ilha subiu aos céus. é verdade, existem
mistérios assim, feitos de escritos absurdos e
instáveis, um dia a unidade fez-se apenas intuição rasgo
e instância fora da pele do abandono, quilha disforme
que nenhum porto segurou, nem pelas redes que a lua
cuspiu.

um dia a infância deu à costa nas costas incomunháveis
reminiscentes e visionárias do futuro que não foi nem
história nem origem, o mistério luminoso do mundo é
ser desmascaramento e antítese, morde-se a cauda da
serpente para ser-se eterno e nada é. em círculo só a
boca. como ilha. mesmo que nada pareça ser tudo sugere
e os verdadeiros contrários são ângulos redondos

[In O TEMPO É RENDA, Lisboa: Labirinto de Letras, 2014, p. 086-087]


By Jörg Eichelberger



sábado, 23 de maio de 2015

Giacomo Leopardi

A CALMA DEPOIS DA TEMPESTADE
Passou a tempestade:
Ouço a aérea alacridade, e a galinha
Que volta e recomeça
Seu ciscar costumeiro. Eis que o céu limpo
Ressurge do poente, na montanha;
Alegra-se a campanha
E claro o riacho surge lá no vale.
Todo peito se alegra, a todo lado
Retornam os rumores
E o labor costumado.
O artesão, fito o olhar no úmido espaço,
Canta, empunhando a obra,
Na porta. Alegremente
Sai a aldeã a recolher a água
Da tormenta recente.
A voz sempre presente
Do homem das ervas erra
Pelas trilhas de terra.
Eis o Sol de retorno, que irradia
Nos montes e casais. Cada família
Nos balcões e terraços logo assoma:
E, da estrada molhada, se ouve ao longe
Chocalhos a tinir,- o carro chia
Do viajante que o rumo enfim retoma.

Em toda alma um ardor
Doce, se espalha enfim,
Quando é, a vida, assim?
Quando com tanto amor
No estudo o homem se alenta?
Ou à obra torna? ou coisa nova intenta?
Quando dos males seus se lembra menos?
Prazer, filho da ânsia;
Vão deleite, que é fruto
Do passado temor, onde tremeu
Quem, não amando a vida,
Teve medo da morte,
Onde, em longo tormento,
Muda, fria, transida,
Toda gente arfa e sua, apenas vendo
Cobrir-nos de uma vez
Raios, granizo e vento.

Natureza cortês,
Eis teu dom portentoso,
São esses os deleites
Que ofertas aos mortais. Fugir de penas
Entre nós é um gozo.
Penas espalhas de mão cheia, a dor
Surge espontânea, e se um prazer, acaso,
Por monstruoso milagre algumas vezes
Nasce da angústia, grande é o ganho. Impura
Raça aos Céus cara! Já és feliz bastante
Respirando um instante
De alguma dor; bendita
Se a ti de toda dor a morte cura.

[In Alexei Bueno, Cinco século de Poesia, São Paulo, Record, 2013, p. 43-45]

HEIDI MALLOT


Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...