POR CAUSA DAS ROUPAS
Sem costureiros para conectar
A boa vontade do corpo
Ao propósito da mente,
Devíamos ser dois mundos
Em vez de um mundo e sua sombra,
A carne.
A cabeça é um mundo
E o corpo um outro —
O mesmo, mas algo mais lento
E mais deslumbrado e anterior,
A divergência sendo corrigida
No vestido.
Há um cheiro de Cristo
No tecido: abaixo do queixo
Não se quer mal algum. Igual, imune
À prova capital, o saber floresce
Do seio protegido da luz, e as coxas
São humildes.
A união da matéria com a mente
Pelo método da indumentária
Não destrói nossa nudez
Nem abafa a sineta do pensamento.
O momento apenas une-se à sua hora
Muda.
No íntimo existe o brilho do conhecimento
E por fora existe o sombrio da aparência.
Mas ao vestir o manto e a touca
Só com mãos e face aparecendo,
Internalizamos o sombrio e brilhamos
Suavemente.
Por causa disso, pela graça neutra
Da agulha, nos apossamos de nossos triunfos
E de nossas derrotas
Numa conjugação equilibrada e única:
Hesitamos entre senso e insensatez,
E vivemos.
[In Mindscapes Poemas, Seleção, tradução e Introdução Rodrigo Garcia Lopes, Iluminuras, São Paulo, 2004, pp. 117-119]
terça-feira, 30 de junho de 2015
segunda-feira, 29 de junho de 2015
Diogo Cardoso
*
Amei o porco guardado nos olhos da mulher. Era janeiro e a nascente de tudo era fora das chuvas. Amei o porco e ele amava a traça no homem em mim. Vivíamos de desespero e água, e o esquecimento nos nutria a fome. Era janeiro e como não haveria de ser se o sol queimava as águas guardadas no verão? Era um rosto num olhar e ao novo já era outro o mesmo rosto. E eu era traça, pulga, rainúnculos e fibras. E ainda assim, água, amei o porco nos olhos da mulher guardado.
* *
Por duas vezes gritei e o que saia de minha boca eram raízes extremas. Duas vezes, não mais que duas. Da primeira, sete aves visitaram-me os lábios e com a certeza de quem assassina, comi-as todas. Farto, sentei as raízes em minha desolação. Não podia mais ser grito, não podia – queria apenas o silêncio perpétuo dos ânus venais. Isso foi há muito tempo, quando ainda os deuses nasciam com os pés atados à terra e as árvores eram tecidas de carnes mortas infantis. Da segunda, padeço ainda hoje das raízes saídas do sexo e do sonho impossível dos voos de pássaros dos quais sinto toda a fome.
* * *
Os caranguejos sangraram a perna do homem que sem esperanças adiava a fome. Tudo era um só lodaçal vermelho com cheiro de morte e frutos do mar. Os filhos choravam o tempero da lama, e os olhos umidamente amolecidos do pai pediam perdão. Era uma tarde de horizonte rubro e gralhas estridentes animavam o céu. Enquanto o homem padecia nas profundezas do lodo, sob a crueldade móvel de exoesqueletos, as crianças, obedientes, viravam as costas e de cabeças humildemente baixas tomavam o rumo de volta ao exílio.
* * * *
Ele comia sabugos mortos na estrada. Em sua imundice, ele mastigava aquela matéria seca e árida de areia e saliva. Um coelho, puro e limpo em sua brancura, prostra-se indiferente ao lado daquela podridão humana. O homem, diante da bola branca pulsante, tomado por uma compaixão quase satânica, oferece-lhe um de seus sabugos. O bicho indiferente distancia-se num salto, sutil pluma de galinha que reza. O homem sente-se ultrajado, diminuído à última unha que lhe resta nos dedos, a cada sabugo morto caído sobre a terra. Num rompante, certo de sua miséria, exato em sua redenção, o homem consome a pureza no coelho com uma mordida certeira que lhe parte cabeça e corpo.
Um peixe nada em todo o esquecimento. De que lodo é matéria a memória?
Diogo Cardoso é bacharel em Letras pela Universidade de São Paulo. Participou de diversos projetos literários, dentre eles o sarau Faça pArte, em parceria com o departamento de cultura da prefeitura de São Bernardo do Campo, Leitores itinerantes, sob curadoria de Tarso de Melo, e foi um dos curadores do projeto Clarice Lispector.
Fonte: Portal Vermelho
Amei o porco guardado nos olhos da mulher. Era janeiro e a nascente de tudo era fora das chuvas. Amei o porco e ele amava a traça no homem em mim. Vivíamos de desespero e água, e o esquecimento nos nutria a fome. Era janeiro e como não haveria de ser se o sol queimava as águas guardadas no verão? Era um rosto num olhar e ao novo já era outro o mesmo rosto. E eu era traça, pulga, rainúnculos e fibras. E ainda assim, água, amei o porco nos olhos da mulher guardado.
* *
Por duas vezes gritei e o que saia de minha boca eram raízes extremas. Duas vezes, não mais que duas. Da primeira, sete aves visitaram-me os lábios e com a certeza de quem assassina, comi-as todas. Farto, sentei as raízes em minha desolação. Não podia mais ser grito, não podia – queria apenas o silêncio perpétuo dos ânus venais. Isso foi há muito tempo, quando ainda os deuses nasciam com os pés atados à terra e as árvores eram tecidas de carnes mortas infantis. Da segunda, padeço ainda hoje das raízes saídas do sexo e do sonho impossível dos voos de pássaros dos quais sinto toda a fome.
* * *
Os caranguejos sangraram a perna do homem que sem esperanças adiava a fome. Tudo era um só lodaçal vermelho com cheiro de morte e frutos do mar. Os filhos choravam o tempero da lama, e os olhos umidamente amolecidos do pai pediam perdão. Era uma tarde de horizonte rubro e gralhas estridentes animavam o céu. Enquanto o homem padecia nas profundezas do lodo, sob a crueldade móvel de exoesqueletos, as crianças, obedientes, viravam as costas e de cabeças humildemente baixas tomavam o rumo de volta ao exílio.
* * * *
Ele comia sabugos mortos na estrada. Em sua imundice, ele mastigava aquela matéria seca e árida de areia e saliva. Um coelho, puro e limpo em sua brancura, prostra-se indiferente ao lado daquela podridão humana. O homem, diante da bola branca pulsante, tomado por uma compaixão quase satânica, oferece-lhe um de seus sabugos. O bicho indiferente distancia-se num salto, sutil pluma de galinha que reza. O homem sente-se ultrajado, diminuído à última unha que lhe resta nos dedos, a cada sabugo morto caído sobre a terra. Num rompante, certo de sua miséria, exato em sua redenção, o homem consome a pureza no coelho com uma mordida certeira que lhe parte cabeça e corpo.
Um peixe nada em todo o esquecimento. De que lodo é matéria a memória?
Diogo Cardoso é bacharel em Letras pela Universidade de São Paulo. Participou de diversos projetos literários, dentre eles o sarau Faça pArte, em parceria com o departamento de cultura da prefeitura de São Bernardo do Campo, Leitores itinerantes, sob curadoria de Tarso de Melo, e foi um dos curadores do projeto Clarice Lispector.
Fonte: Portal Vermelho
domingo, 28 de junho de 2015
Guilherme Antunes
PRECARIEDADE
entre as tristezas, pousam-me as fragilidades:
ciência da precariedade de todas as coisas.
impermanência e despedidas como inevitáveis temas
do lado oposto do sentir.
reunindo pecados afastei-me do sol para ver melhor
tudo quanto me põe a viver parece cansaço
e por ser-me o destino um assombro
e sorrir-me sempre o passado,
te aguardo para sempre na memória das ruínas.
COLO
Pudesse eu dar colo ao mundo todo,
para egoísta esquecer-me a dor inteira,
e das tantas metades muitas
que ainda muito me lembram tanto
a voz do teu amor
preguiçoso,
no meu céu
das manhãs
de quase
junho.
RITUAL
estava espalhada pelos dias toda a tua falta,
arrastando nos pés o peso da tua ausência.
a saudade me era uma oferenda das manhãs e de todas elas
percebi: a tristeza era um ritual
COSTUREIRO
poeta é costureiro:
confecciona amores para os olhos
desaperta a vida nas palavras
do texto ao têxtil
da palavra ao fio
costura para fora, encantamentos
(não trabalha sob encomenda)
traz o poema aos dedos
e ainda que por vezes se alfinete
garante seu ofício
pois sabe que a poesia jamais estará
fora de moda.
MULHER
Mulher, se queres me amar peço: ama com força, com os dentes, ama com as unhas, com os olhos, o quadril, as tempestades, ama com tuas vísceras, tua ira, ama como se viesses a criar os deuses todos. Ama com a intensidade das marés sob a lua cheia. Ama a aliviar-me da minha própria e finita condição; a dar-me vida e aniquilar-me ininterruptamente. Ama para afastar o ar ou matéria qualquer que nos afaste a boca. E bebe de mim, come de mim, sorva saliva como alma a diluir na tua. Ama para escrever-nos o futuro e apagar-nos o passado. Ama como uma neurose, como doença, e como a cura. Ama como tua maior ambição e o teu mais nobre desapego. Ama como a dor jubilosa do orgasmo, e cale o tempo entre as tuas pernas, cale a dúvida entre os teus gemidos. Lambe-me o queixo e a paz que estendemos entre os lençóis. Ama para interrupção suave do tempo, para o cessar brusco do mundo. Apertar o peito, dilatar pupilas, derramar o sonho, incendiar a lágrima, o sangue, vencer a morte.
Deita-me na cama dos absurdos, e brinda-nos o amor.
DESTITUÍDO
o homem bebia.
o homem bebia para esquecê-la tanto quanto para lembrá-la.
o álcool como a tirar-lhe a lembrança para devolvê-la depois. ou o contrário disso.
o álcool para desinfetá-lo das fundas dores e lustrar o seu recente amor antigo.
o homem bebia para ficar mais longe do ontem.
aos goles, acentuava as inexatidões.
com as palavras de bêbado, falava para se ouvir.
enchendo a garrafa de flores a fazer-lhe um jardim para o descanso.
"quando melhorar, quero ser longe" - dizia.
era o homem como todos nós: tolo.
apenas destituído de sua lucidez.
CORRENTES
Estar é um improviso e ser é permanência, mas uma permanência descuidada por nós. Somos uma fragilidade desatenta às marés que nos atingem incessantemente. Não sabemos se as correntes nos levarão à terra firme ou nos afogarão de vez. Por isso desejamos as sempre mesmas e já conhecidas correntes. Acostumados com suas direções, sabemos pelo hábito para onde nos levarão. E então fazemos do imenso oceano, nossa particular e limitada lagoa, a navegarmos em círculos como se fosse tudo, como se fosse o bastante. E assim tememos as demais pois não sabemos o que será de nós para além das paisagens que não conhecemos. O medo nos desenraíza ao mesmo tempo em que nos prende no mesmo lugar. O não-saber nos apavora e nos desequilibra. Mas quem sabe se permitirmos que a ondulação do ir e vir das coisas mesmas não nos leve àquele lugar, real, e inédito onde possamos aportar e encontrar descanso, mas que por ora só alcançamos no espelho da poesia?
INFERNO
Eu irei para o inferno. Com passagem só de ida e sem chances de cancelamento. Eu irei para o inferno e chegarei com honrarias de um chefe de Estado, com o prestígio de um líder religioso, como o ganhador de um prêmio Nobel. Receberei as mais calorosas boas vindas, camarote com porcelana chinesa e mil toalhas brancas. Serei finalmente um sucesso, celebrado pela minha incoerência, festejado pela competência em ser emocionalmente incompetente. Serei aplaudido de pé pelos meus desperdícios: de tempo, do outro, de mim. Serei abraçado por todos os amores que por capricho joguei fora. Autógrafos por todas as chances que por orgulho descartei. Serei aclamado por acreditar nos deuses mais pagãos - como o sofrimento - e dar minha vida toda a ele em sacrifício. Serei notícia pela minha cegueira existencial, manchete pela exímia habilidade em transformar frustrações em raiva e destruição. Ganharei medalhas por me arrepender muito mais vezes do que ter feito melhor. Creio até que ganharia a chave da cidade se lá fosse uma. Serei palestrante a contar como coleciono todas as contradições do mundo e exijo coerência de todos que me cercam. Serei convidado à jantar para explicar como nego meus erros e transformo responsabilidade em culpa para jogar nos outros. Ganharei prêmios pelo vitimismo e troféus por escolher as palavras certas para dizer coisas erradas. Darei aulas por andar em círculos e deixar o que me serve escapar por um triz; por convenientemente acreditar que a vida é injusta e o mundo me é um eterno devedor, podendo com meu ressentimento cobrar a todos das maneiras mais infantis. E antes da minha primeira entrevista coletiva, chorarei nos bastidores. Por não ter roupa que usar, pois ir para o inferno é ficar nu. Diante de si mesmo. E não saber lidar com a vergonha que nos despiu e nos contou que costumamos nos colocar sozinhos no inferno para não sermos mandados para lá.
BLOG DE GUILHERME ANTUNES
entre as tristezas, pousam-me as fragilidades:
ciência da precariedade de todas as coisas.
impermanência e despedidas como inevitáveis temas
do lado oposto do sentir.
reunindo pecados afastei-me do sol para ver melhor
tudo quanto me põe a viver parece cansaço
e por ser-me o destino um assombro
e sorrir-me sempre o passado,
te aguardo para sempre na memória das ruínas.
COLO
Pudesse eu dar colo ao mundo todo,
para egoísta esquecer-me a dor inteira,
e das tantas metades muitas
que ainda muito me lembram tanto
a voz do teu amor
preguiçoso,
no meu céu
das manhãs
de quase
junho.
RITUAL
estava espalhada pelos dias toda a tua falta,
arrastando nos pés o peso da tua ausência.
a saudade me era uma oferenda das manhãs e de todas elas
percebi: a tristeza era um ritual
COSTUREIRO
poeta é costureiro:
confecciona amores para os olhos
desaperta a vida nas palavras
do texto ao têxtil
da palavra ao fio
costura para fora, encantamentos
(não trabalha sob encomenda)
traz o poema aos dedos
e ainda que por vezes se alfinete
garante seu ofício
pois sabe que a poesia jamais estará
fora de moda.
MULHER
Mulher, se queres me amar peço: ama com força, com os dentes, ama com as unhas, com os olhos, o quadril, as tempestades, ama com tuas vísceras, tua ira, ama como se viesses a criar os deuses todos. Ama com a intensidade das marés sob a lua cheia. Ama a aliviar-me da minha própria e finita condição; a dar-me vida e aniquilar-me ininterruptamente. Ama para afastar o ar ou matéria qualquer que nos afaste a boca. E bebe de mim, come de mim, sorva saliva como alma a diluir na tua. Ama para escrever-nos o futuro e apagar-nos o passado. Ama como uma neurose, como doença, e como a cura. Ama como tua maior ambição e o teu mais nobre desapego. Ama como a dor jubilosa do orgasmo, e cale o tempo entre as tuas pernas, cale a dúvida entre os teus gemidos. Lambe-me o queixo e a paz que estendemos entre os lençóis. Ama para interrupção suave do tempo, para o cessar brusco do mundo. Apertar o peito, dilatar pupilas, derramar o sonho, incendiar a lágrima, o sangue, vencer a morte.
Deita-me na cama dos absurdos, e brinda-nos o amor.
DESTITUÍDO
o homem bebia.
o homem bebia para esquecê-la tanto quanto para lembrá-la.
o álcool como a tirar-lhe a lembrança para devolvê-la depois. ou o contrário disso.
o álcool para desinfetá-lo das fundas dores e lustrar o seu recente amor antigo.
o homem bebia para ficar mais longe do ontem.
aos goles, acentuava as inexatidões.
com as palavras de bêbado, falava para se ouvir.
enchendo a garrafa de flores a fazer-lhe um jardim para o descanso.
"quando melhorar, quero ser longe" - dizia.
era o homem como todos nós: tolo.
apenas destituído de sua lucidez.
CORRENTES
Estar é um improviso e ser é permanência, mas uma permanência descuidada por nós. Somos uma fragilidade desatenta às marés que nos atingem incessantemente. Não sabemos se as correntes nos levarão à terra firme ou nos afogarão de vez. Por isso desejamos as sempre mesmas e já conhecidas correntes. Acostumados com suas direções, sabemos pelo hábito para onde nos levarão. E então fazemos do imenso oceano, nossa particular e limitada lagoa, a navegarmos em círculos como se fosse tudo, como se fosse o bastante. E assim tememos as demais pois não sabemos o que será de nós para além das paisagens que não conhecemos. O medo nos desenraíza ao mesmo tempo em que nos prende no mesmo lugar. O não-saber nos apavora e nos desequilibra. Mas quem sabe se permitirmos que a ondulação do ir e vir das coisas mesmas não nos leve àquele lugar, real, e inédito onde possamos aportar e encontrar descanso, mas que por ora só alcançamos no espelho da poesia?
INFERNO
Eu irei para o inferno. Com passagem só de ida e sem chances de cancelamento. Eu irei para o inferno e chegarei com honrarias de um chefe de Estado, com o prestígio de um líder religioso, como o ganhador de um prêmio Nobel. Receberei as mais calorosas boas vindas, camarote com porcelana chinesa e mil toalhas brancas. Serei finalmente um sucesso, celebrado pela minha incoerência, festejado pela competência em ser emocionalmente incompetente. Serei aplaudido de pé pelos meus desperdícios: de tempo, do outro, de mim. Serei abraçado por todos os amores que por capricho joguei fora. Autógrafos por todas as chances que por orgulho descartei. Serei aclamado por acreditar nos deuses mais pagãos - como o sofrimento - e dar minha vida toda a ele em sacrifício. Serei notícia pela minha cegueira existencial, manchete pela exímia habilidade em transformar frustrações em raiva e destruição. Ganharei medalhas por me arrepender muito mais vezes do que ter feito melhor. Creio até que ganharia a chave da cidade se lá fosse uma. Serei palestrante a contar como coleciono todas as contradições do mundo e exijo coerência de todos que me cercam. Serei convidado à jantar para explicar como nego meus erros e transformo responsabilidade em culpa para jogar nos outros. Ganharei prêmios pelo vitimismo e troféus por escolher as palavras certas para dizer coisas erradas. Darei aulas por andar em círculos e deixar o que me serve escapar por um triz; por convenientemente acreditar que a vida é injusta e o mundo me é um eterno devedor, podendo com meu ressentimento cobrar a todos das maneiras mais infantis. E antes da minha primeira entrevista coletiva, chorarei nos bastidores. Por não ter roupa que usar, pois ir para o inferno é ficar nu. Diante de si mesmo. E não saber lidar com a vergonha que nos despiu e nos contou que costumamos nos colocar sozinhos no inferno para não sermos mandados para lá.
BLOG DE GUILHERME ANTUNES
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| BY PISITH SONG |
sexta-feira, 26 de junho de 2015
Dušan Matić
DIANTE DA TEMPESTADE
Que seja a noite novamente assim como desejais
Eu nada sei mais
Nada compreendo mais
À noite pegajosa e agroamarga só se aconchega
A noite e a noite e a noite.
Em vez do ouro e do mal e do bem e da parede de desespero
Que não tem mais fim e onde com a cabeça bato a cada instante
Um encantamento sem forma um entendimento sem grito
Pela longa noite que se aproxima
Um olhar e uma visão risível e turvieterna
Além do sangue que corre entre todas as dores e todas as dores
Não há altura que possa medir-lhes a profundidade.
Esquece tuas lembranças esquece teu esquecimento
Como o viajante esquece distraído o lenço na estação desconhecida
a ponte chagosa das chagas do mundo estende-se por sobre esses
[precipícios
Por sobre esse horror e barro
Em que se despedaça o hábito de luz em lágrimas irresgatáveis
Eis aí na clareira deste tremor sem fundo que eu vele e durma
Quebradiço e tristonho e só
Em nada me auxilia a audácia.
Dušan Matić - Poeta sérvio, nasceu em 1898, em Tchúpria e morreu em Belgrado, em 1979.
[In Poesia Iugoslava Contemporânea, prefácio, tradução e notas de Aleksander Jovanovic, São Paulo: Meca, 1987, p. 35]
Que seja a noite novamente assim como desejais
Eu nada sei mais
Nada compreendo mais
À noite pegajosa e agroamarga só se aconchega
A noite e a noite e a noite.
Em vez do ouro e do mal e do bem e da parede de desespero
Que não tem mais fim e onde com a cabeça bato a cada instante
Um encantamento sem forma um entendimento sem grito
Pela longa noite que se aproxima
Um olhar e uma visão risível e turvieterna
Além do sangue que corre entre todas as dores e todas as dores
Não há altura que possa medir-lhes a profundidade.
Esquece tuas lembranças esquece teu esquecimento
Como o viajante esquece distraído o lenço na estação desconhecida
a ponte chagosa das chagas do mundo estende-se por sobre esses
[precipícios
Por sobre esse horror e barro
Em que se despedaça o hábito de luz em lágrimas irresgatáveis
Eis aí na clareira deste tremor sem fundo que eu vele e durma
Quebradiço e tristonho e só
Em nada me auxilia a audácia.
Dušan Matić - Poeta sérvio, nasceu em 1898, em Tchúpria e morreu em Belgrado, em 1979.
[In Poesia Iugoslava Contemporânea, prefácio, tradução e notas de Aleksander Jovanovic, São Paulo: Meca, 1987, p. 35]
quinta-feira, 25 de junho de 2015
Cláudio Castoriadis
OLSEN
sem pressa, resenhou planuras de alcantilas
quase como se quisesse ser indecidível
na qualidade de respingo ao contrário
disposto em séculos
é o que estás a ver
as devas estão surdas
e, no seu estômago, estiletes engatilham
dispostos em forma de decotes redobrados
***
CITY AND COLOUR
congregávamos numa constelação enigmática
enquanto eu contava os trocados
você fazia diagnósticos sobre meu humor
fazia uso da verticalidade ao seu dispor
sempre pelos astros inabitáveis
desses, de um extremo ao outro - descontrolados
tínhamos mantimentos, cobertores, comida, abrigo
tínhamos cabelos tumultuados
parafusos cambiantes
tínhamos a gente
eu carregava crônicas na mochila
carregava o clima dallas green
aquele do city and colour...
***
AERIALS
e, cantava uma infinidade de corinas
dessas que não conseguimos
em definitivo
a priori
sabe como é
diferente daquelas que constituem
a natureza por necessidade lancinante
percorrendo onde restava percorrer
de costas com sua camisa xadrez
interpolando hipsters flanelados
e o que sobrou
ficou c/ os standards
esquemas semânticos, lânguidos, palhetas
cães de aluguel e engenheiros diacrônicos
***
MESMO DORMINDO NUMA FRASE DE EFEITO
no momento mais tranquilo da noite
coisas impossíveis escalam ruídos
florestas, obreiros, gencianas
afloram no desfiladeiro
antúrios fecham as paredes
recompõem a eternidade
com sua modesta
moldura
a noite é feita
de melodias articuladas
vc falava disso tudo
debruçada numa frase de efeito
lembra?
você explicava
que o som mais próximo
poderia ser o mais inaudível
rodopiando sobre o próprio single
(risos)
eu esperava seu sono
virar prosa
narrativa
não
poesia
por isso lembro
de como você adorava os sons emoldurados
dos acordes despertos nas molduras tricotadas
de quando em sempre você acompanhava o realejo do tio lauro
você tinha razão, os sons não são sucessivos, são simultâneos
Blog do Autor
sem pressa, resenhou planuras de alcantilas
quase como se quisesse ser indecidível
na qualidade de respingo ao contrário
disposto em séculos
é o que estás a ver
as devas estão surdas
e, no seu estômago, estiletes engatilham
dispostos em forma de decotes redobrados
***
CITY AND COLOUR
congregávamos numa constelação enigmática
enquanto eu contava os trocados
você fazia diagnósticos sobre meu humor
fazia uso da verticalidade ao seu dispor
sempre pelos astros inabitáveis
desses, de um extremo ao outro - descontrolados
tínhamos mantimentos, cobertores, comida, abrigo
tínhamos cabelos tumultuados
parafusos cambiantes
tínhamos a gente
eu carregava crônicas na mochila
carregava o clima dallas green
aquele do city and colour...
***
AERIALS
e, cantava uma infinidade de corinas
dessas que não conseguimos
em definitivo
a priori
sabe como é
diferente daquelas que constituem
a natureza por necessidade lancinante
percorrendo onde restava percorrer
de costas com sua camisa xadrez
interpolando hipsters flanelados
e o que sobrou
ficou c/ os standards
esquemas semânticos, lânguidos, palhetas
cães de aluguel e engenheiros diacrônicos
***
MESMO DORMINDO NUMA FRASE DE EFEITO
no momento mais tranquilo da noite
coisas impossíveis escalam ruídos
florestas, obreiros, gencianas
afloram no desfiladeiro
antúrios fecham as paredes
recompõem a eternidade
com sua modesta
moldura
a noite é feita
de melodias articuladas
vc falava disso tudo
debruçada numa frase de efeito
lembra?
você explicava
que o som mais próximo
poderia ser o mais inaudível
rodopiando sobre o próprio single
(risos)
eu esperava seu sono
virar prosa
narrativa
não
poesia
por isso lembro
de como você adorava os sons emoldurados
dos acordes despertos nas molduras tricotadas
de quando em sempre você acompanhava o realejo do tio lauro
você tinha razão, os sons não são sucessivos, são simultâneos
Blog do Autor
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| By Çizi-Yorm |
quarta-feira, 24 de junho de 2015
Sebastião da Gama
HORA VERMELHA
Por que vieste, pensamento?
Já me bastava o Mar violento,
Já me bastava o Sol que ardia…
P’los meus sentidos escorria
não sei lá bem que seiva forte
que a carne toda me deixava
qual uma flor ou uma lava
num riso aberto contra a Morte.
Já me bastava tudo isto.
Mas tu vieste, pensamento,
e vieste duro, turbulento.
Vieste com formas e com sangue:
erectos seios de mulher,
as carnes róseas como frutos.
Boca rasgada num pedido
a que se quer e se não quer
dizer que não.
Os braços longos estendidos.
A mão em concha sobre o sexo
que nem a Vénus de Camões.
Aí!, pensamento,
deixa-me a calma da Poesia!
Aqui na praia só com ela,
virgem castíssima, sincera!…
Sua mão branca saberia
chamar cordeiro ao Mar violento,
Pôr meigo, meigo, o Sol que ardia.
Mas tu vieste, pensamento.
Tua nudez, que me obsidia,
logo, subtil, encheu de alento
velhos desejos recalcados,
beijos mordidos
antes de os ver a luz do Dia.
Vai-te depressa, pensamento!
Deixa-me a calma da Poesia.
Fique em minh’alma o só perfume
da cerca alegre de um convento.
Os meus sentidos embalados
numa suave melodia.
(Ah!, não nos quero desgrenhados
como quem volta de uma orgia).
E então meus lábios mais serenos
do que se orassem sobre um berço,
sorrindo à Vida,
sorrindo à Morte.
Ah!, não nos quero assim grosseiros,
ébrios, torcidos,
como depois de um vinho forte.
SOBRE SEBASTIÃO DA GAMA
Por que vieste, pensamento?
Já me bastava o Mar violento,
Já me bastava o Sol que ardia…
P’los meus sentidos escorria
não sei lá bem que seiva forte
que a carne toda me deixava
qual uma flor ou uma lava
num riso aberto contra a Morte.
Já me bastava tudo isto.
Mas tu vieste, pensamento,
e vieste duro, turbulento.
Vieste com formas e com sangue:
erectos seios de mulher,
as carnes róseas como frutos.
Boca rasgada num pedido
a que se quer e se não quer
dizer que não.
Os braços longos estendidos.
A mão em concha sobre o sexo
que nem a Vénus de Camões.
Aí!, pensamento,
deixa-me a calma da Poesia!
Aqui na praia só com ela,
virgem castíssima, sincera!…
Sua mão branca saberia
chamar cordeiro ao Mar violento,
Pôr meigo, meigo, o Sol que ardia.
Mas tu vieste, pensamento.
Tua nudez, que me obsidia,
logo, subtil, encheu de alento
velhos desejos recalcados,
beijos mordidos
antes de os ver a luz do Dia.
Vai-te depressa, pensamento!
Deixa-me a calma da Poesia.
Fique em minh’alma o só perfume
da cerca alegre de um convento.
Os meus sentidos embalados
numa suave melodia.
(Ah!, não nos quero desgrenhados
como quem volta de uma orgia).
E então meus lábios mais serenos
do que se orassem sobre um berço,
sorrindo à Vida,
sorrindo à Morte.
Ah!, não nos quero assim grosseiros,
ébrios, torcidos,
como depois de um vinho forte.
SOBRE SEBASTIÃO DA GAMA
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| By Russ Potak |
segunda-feira, 22 de junho de 2015
Danilo Kiš
LIXO
Restos humanos e de animais: unhas, cabelos
Cabelos femininos que crepitaram sob o contato elétrico do
pente,
Micas de calos cortados com gilete
Escuras pústulas de feridas
Pelos de pernas narizes orelhas
Musgo perfumado de axilas femininas
Crânios de peixe
Leques abertos de caudas
Pentes de corte duplo das espinhas de peixe
Cabeças de galinha escalpeladas
Penas negras úmidas
Pés de galinha de escamas em cera
Ossos de animais de tutano sugado
Enodoadas entranhas verdes de ave
Tubos de ossos de peixes — mostruários de agulhas
Balões duplos de bexigas de peixe
Mordidas em maçã
Caroços de ameixas pêssegos melancias
Caroços de cerejas como vitamina
Carbono amarrotado com números
Fruto podre que vermes roem feito carne humana
Piteiras roídas de cerejeira de plástico de âmbar
Piteiras de dedos amarelecidos
Giletes azuis envelopes azuis de giletes passagens de bonde
etiquetas
Renda de papel de fitas de teleimpressoras
Restos de renda engomada
Cartuchos dourados vazios de carmim — cartuchos de
espingarda
Cascas de ovos que geraram monstros bicudos sem asa sem
cauda
Tampas de garrafa de cerveja
Cacos de vasos quebrados
Esteira, palha apodrecida,
Bandeira negra de guarda-chuva
Esqueleto de pássaro de guarda-sol
Guardanapos com a estampa da máscara mortuária dos lábios
Sacos de papel vazios que conservam dentro de suas rugas
grãos de cristal feito concha envolta em carne mole
Cenoura cortada com anéis verdes no centro e cada vez mais
avermelhados
Favas de ervilha — lábios cortados
Lâmpadas queimadas — ovos de ave-no-cio, fios
Cartões de sócio com os dez mandamentos em que ninguém mais
crê
Punhos amarelados
Gravatas de seda — caules arrancados de flores aquáticas
Tubos de pasta de dente espremidos
Rolhas
Fotografias batidas ao luar
Cravos que apodrecem terrivelmente
Tulipas narcisos gladíolos
Lírios que conferem ao monturo de lixo a solene aparência de
cemitério
Pregos fechos de roupas grampos agulhas parafusos grampos de
cabelo
Rolos ruivos de fio de cobre
Canetas esferográficas vazias
Teias de aranha meia de náilon
Luva sem par
Cadarços chapas de fogão pequenos discos
Velhos sapatos que aos poucos enverdecem feito relva
Desenhos infantis sóis e céus em que a chuva deixa sua
assinatura transformando-os em obras-primas
Capas berrantes de livro — útero sangrento das musas da
poesia
Grampos de cabelo abertos como bicos de papagaio
Rolos de papel-crepom molhados
Fios enferrujados
Restos rendados de lápis apontados
Cascas de noz — crânios de pássaro partidos
polpas podres de noz similares a cérebros humanos
tubos de palha e suas
meias arrancadas de papel para cigarro
Escovas de dente em que restaram apenas raízes em gengivas
de vidro
Caixas de lata de cartolina
Tubos de ensaio de vidro onde havia aspirinas — ervilhas
maduras
Garrafas de leite cerveja coca-cola
Garrafas de gargalo minúsculo — sanguessugas
Garrafas-cromorno garrafas-flauta garrafas-ocarina
Garrafas desventradas como peixes
Garrafas com estrias verdes
Garrafas que rescendem a bagaço e vômito
garrafas com maçã no focinho — leitões mortos
garrafas com gargalo entintado — boca de moleque de escola
Cascas de laranja — pele de mulher entre as omoplatas
Casca de pão azedado em água suja como na boca desdentada de
anciães
Metades espremidas de limões
Molas-espirais de cascas de maçã
Cascas de melancia — carne de cavalo atacada por grandes
moscas negras
Cascas de banana — membro masculino esfolado
Cascas de batata cortadas simplesmente sem economia como
se corta o pão
Rolos marrom de poeira
Cinzas de cigarro
Pontas de cigarros amassadas — grandes vermes brancos nascidos do lixo
Preservativos em cujo interior viscoso homúnculos apodrecem
Porcelana ondulada de pratos quebrados
Jornais amarrotados que atrasam até um mês e meio
Plástico, vidro inquebrável
Rolos de algodão com sangue e pus coalhados
Botões de chifre de lata de madrepérola
pedaços de gaze — como se tivessem sido arrancadas da moldura
tampões em que floresce a flor da feminilidade
faixas de gaze com pelos dourados de raízes brancas
Poesias (também esta)
Envelopes de ventre roxo arrancado
Selos rubros amarelos azuis verdes
Selos sobre os quais estadistas poetas e conquistadores do
espaço estufam o peito
Selos aprisionados pelo contato da língua assim como os
amantes são aprisionados
Selos que enlouquecem os filatelistas dispostos a embalsamá-
los
Selos carimbados feito reses
Selos debruados de renda
Selos em que flores florescem e leões rugem
Selos com carimbos de cidades
Selos com datas como nas caixas de leite pasteurizado para
que o lixo sempre esteja mais fresco
Cartas escritas nos trens sobre os joelhos
Cartas escritas em grandes máquinas de escrever com dedos flexíveis dedos
de datilógrafas dedos de onde escorreu
manteiga
Cartas escritas com mãos infantis
Cartas escritas com mãos trêmulas de ancião
cartões-postais escritos com esferográfica em terraços de
bistrôs
Cartas com a logomarca de hotéis famosos
Cartas de amor que a chuva transforma em tragédia
Cadernos de estudante que precisam ser guardados para a
velhice
cartões fúnebres a respeito dos quais nada se pode dizer
salada verde repolho verdura sempreverde
pimenta-do-reino aneto cravo couve-flor
Mordidas de maçã (de novo)
Cachos de lilás desmantelados como os pulmões arrancados de
um fumante
trapos elásticos colarinhos
panos impermeáveis lenços de musselina seda
Rosas
Rosas que ficam bem tanto no lixo quanto no poema
rosas que começam a feder como gente
rosas em que pousam moscas
rosas embrulhadas pelas mãos úmidas da vendedora em finos
papéis farfalhantes
rosas guardadas como peixes dourados em vasos de cristal
rosas cuja água foi trocada feito compressa sobre a testa do
enfermo
rosas amarrados com fios feito criminosos
rosas com as articulações dos ungulados
rosas com folhas similares às rosas artificiais
rosas que me fizeram acordar às 3,30 da madrugada para que
não as esquecesse até amanhã
Budapeste, 1966
[In Céu Vazio: 63 Poetas Eslavos, organização, estudo introdutório, notas biográficas e tradução Aleksandar Jovanović, São Paulo, Hucitec, 1996]
Restos humanos e de animais: unhas, cabelos
Cabelos femininos que crepitaram sob o contato elétrico do
pente,
Micas de calos cortados com gilete
Escuras pústulas de feridas
Pelos de pernas narizes orelhas
Musgo perfumado de axilas femininas
Crânios de peixe
Leques abertos de caudas
Pentes de corte duplo das espinhas de peixe
Cabeças de galinha escalpeladas
Penas negras úmidas
Pés de galinha de escamas em cera
Ossos de animais de tutano sugado
Enodoadas entranhas verdes de ave
Tubos de ossos de peixes — mostruários de agulhas
Balões duplos de bexigas de peixe
Mordidas em maçã
Caroços de ameixas pêssegos melancias
Caroços de cerejas como vitamina
Carbono amarrotado com números
Fruto podre que vermes roem feito carne humana
Piteiras roídas de cerejeira de plástico de âmbar
Piteiras de dedos amarelecidos
Giletes azuis envelopes azuis de giletes passagens de bonde
etiquetas
Renda de papel de fitas de teleimpressoras
Restos de renda engomada
Cartuchos dourados vazios de carmim — cartuchos de
espingarda
Cascas de ovos que geraram monstros bicudos sem asa sem
cauda
Tampas de garrafa de cerveja
Cacos de vasos quebrados
Esteira, palha apodrecida,
Bandeira negra de guarda-chuva
Esqueleto de pássaro de guarda-sol
Guardanapos com a estampa da máscara mortuária dos lábios
Sacos de papel vazios que conservam dentro de suas rugas
grãos de cristal feito concha envolta em carne mole
Cenoura cortada com anéis verdes no centro e cada vez mais
avermelhados
Favas de ervilha — lábios cortados
Lâmpadas queimadas — ovos de ave-no-cio, fios
Cartões de sócio com os dez mandamentos em que ninguém mais
crê
Punhos amarelados
Gravatas de seda — caules arrancados de flores aquáticas
Tubos de pasta de dente espremidos
Rolhas
Fotografias batidas ao luar
Cravos que apodrecem terrivelmente
Tulipas narcisos gladíolos
Lírios que conferem ao monturo de lixo a solene aparência de
cemitério
Pregos fechos de roupas grampos agulhas parafusos grampos de
cabelo
Rolos ruivos de fio de cobre
Canetas esferográficas vazias
Teias de aranha meia de náilon
Luva sem par
Cadarços chapas de fogão pequenos discos
Velhos sapatos que aos poucos enverdecem feito relva
Desenhos infantis sóis e céus em que a chuva deixa sua
assinatura transformando-os em obras-primas
Capas berrantes de livro — útero sangrento das musas da
poesia
Grampos de cabelo abertos como bicos de papagaio
Rolos de papel-crepom molhados
Fios enferrujados
Restos rendados de lápis apontados
Cascas de noz — crânios de pássaro partidos
polpas podres de noz similares a cérebros humanos
tubos de palha e suas
meias arrancadas de papel para cigarro
Escovas de dente em que restaram apenas raízes em gengivas
de vidro
Caixas de lata de cartolina
Tubos de ensaio de vidro onde havia aspirinas — ervilhas
maduras
Garrafas de leite cerveja coca-cola
Garrafas de gargalo minúsculo — sanguessugas
Garrafas-cromorno garrafas-flauta garrafas-ocarina
Garrafas desventradas como peixes
Garrafas com estrias verdes
Garrafas que rescendem a bagaço e vômito
garrafas com maçã no focinho — leitões mortos
garrafas com gargalo entintado — boca de moleque de escola
Cascas de laranja — pele de mulher entre as omoplatas
Casca de pão azedado em água suja como na boca desdentada de
anciães
Metades espremidas de limões
Molas-espirais de cascas de maçã
Cascas de melancia — carne de cavalo atacada por grandes
moscas negras
Cascas de banana — membro masculino esfolado
Cascas de batata cortadas simplesmente sem economia como
se corta o pão
Rolos marrom de poeira
Cinzas de cigarro
Pontas de cigarros amassadas — grandes vermes brancos nascidos do lixo
Preservativos em cujo interior viscoso homúnculos apodrecem
Porcelana ondulada de pratos quebrados
Jornais amarrotados que atrasam até um mês e meio
Plástico, vidro inquebrável
Rolos de algodão com sangue e pus coalhados
Botões de chifre de lata de madrepérola
pedaços de gaze — como se tivessem sido arrancadas da moldura
tampões em que floresce a flor da feminilidade
faixas de gaze com pelos dourados de raízes brancas
Poesias (também esta)
Envelopes de ventre roxo arrancado
Selos rubros amarelos azuis verdes
Selos sobre os quais estadistas poetas e conquistadores do
espaço estufam o peito
Selos aprisionados pelo contato da língua assim como os
amantes são aprisionados
Selos que enlouquecem os filatelistas dispostos a embalsamá-
los
Selos carimbados feito reses
Selos debruados de renda
Selos em que flores florescem e leões rugem
Selos com carimbos de cidades
Selos com datas como nas caixas de leite pasteurizado para
que o lixo sempre esteja mais fresco
Cartas escritas nos trens sobre os joelhos
Cartas escritas em grandes máquinas de escrever com dedos flexíveis dedos
de datilógrafas dedos de onde escorreu
manteiga
Cartas escritas com mãos infantis
Cartas escritas com mãos trêmulas de ancião
cartões-postais escritos com esferográfica em terraços de
bistrôs
Cartas com a logomarca de hotéis famosos
Cartas de amor que a chuva transforma em tragédia
Cadernos de estudante que precisam ser guardados para a
velhice
cartões fúnebres a respeito dos quais nada se pode dizer
salada verde repolho verdura sempreverde
pimenta-do-reino aneto cravo couve-flor
Mordidas de maçã (de novo)
Cachos de lilás desmantelados como os pulmões arrancados de
um fumante
trapos elásticos colarinhos
panos impermeáveis lenços de musselina seda
Rosas
Rosas que ficam bem tanto no lixo quanto no poema
rosas que começam a feder como gente
rosas em que pousam moscas
rosas embrulhadas pelas mãos úmidas da vendedora em finos
papéis farfalhantes
rosas guardadas como peixes dourados em vasos de cristal
rosas cuja água foi trocada feito compressa sobre a testa do
enfermo
rosas amarrados com fios feito criminosos
rosas com as articulações dos ungulados
rosas com folhas similares às rosas artificiais
rosas que me fizeram acordar às 3,30 da madrugada para que
não as esquecesse até amanhã
Budapeste, 1966
[In Céu Vazio: 63 Poetas Eslavos, organização, estudo introdutório, notas biográficas e tradução Aleksandar Jovanović, São Paulo, Hucitec, 1996]
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