PURA GEOMETRIA
Dos teus olhos
brotam lampejos de metáfora.
Não me espanto.
Corro o risco
de delinear essa zona.
Pura geometria.
Inevitavelmente pincelo teus labirintos
capturo tuas utopias.
Para tanta cumplicidade
não há mais limite.
Onde retomar o desejo?
Talvez reinventando o mistério
disperso na noite
peregrino de sexos, línguas e coxas.
Pensando em ti
às vezes de mim esqueço.
Retardo todos os regressos
e me limito
a sair do páreo, pela sombra.
Dualidade de quem jamais se encontra.
SÍNTESE
Sintetizo em ti
todos os meus desejos.
Não me oponho aos teus.
Que ressoem as espadas.
Que relinchem os corcéis.
Seremos sempre singulares
sobre esses inúteis céus.
Assim
meu corpo urde embriagado
teu corpo arde descompassado.
Desvio a rota.
Não há mais retorno.
Se não mais me oculto
nem cometo crimes
me disfarço em brinde.
[In Marrons Crepons Marfins, Natal (RN), 1984]
quinta-feira, 3 de setembro de 2015
quarta-feira, 2 de setembro de 2015
Isabel Mendes Ferreira
214.
que fazes inês sentada entre os cardos se estes te são cães
desamparados, que água te seca a pele e reduz a osso os
olhos pergunta pedro como se a resposta viesse cheia de
espinhos e de cartas em branco, despeço-me. despeço-me
dos lugares que não vi dos abandonos que sepultei e das
lágrimas que ousaram cozer o pão à sombra de um fogo
sem espólio.________________ e assim se deixou inês
no domínio imperfeito de uma mesa sem lugar marcado
para o rascunho da luz. a trinta e um de maio serviu-se
de um livro de estrelas para salvar o dia que nunca foi
outro nem de ouro nem anteprimeiro dos símbolos,
gratuita inês das rosas mortas a ser história sem esposo
nem despojos, apenas hóspede de um momento que
já era outro, adeus pedro que és rei das pedras e da
prudência imaculada, fica neste lugar binário, ergue-
te maior e mais hino. sobe à palavra vária e faz-me um
verso como epitáfio terno._____________________
que fazes inês assim morta e luminosa se agora não
voltas aos meus braços, nada. nada que antes já era
descoincidente. guarda-me a presença ao centro dos
cardos._____________ que volto pensante e viúva de
mim. lá fora aguardam-me abutres e serpentes, anéis dos
impasses imaginários, a trinta e um de maio veste-se inês
para morrer, já suficientemente morta.
215.
que fazes inês sentada entre os cardos se estes te são cães
desamparados, que água te seca a pele e reduz a osso os
olhos pergunta pedro como se a resposta viesse cheia de
espinhos e de cartas em branco, despeço-me. despeço-me
dos lugares que não vi dos abandonos que sepultei e das
lágrimas que ousaram cozer o pão à sombra de um fogo
sem espólio.________________ e assim se deixou inês
no domínio imperfeito de uma mesa sem lugar marcado
para o rascunho da luz. a trinta e um de maio serviu-se
de um livro de estrelas para salvar o dia que nunca foi
outro nem de ouro nem anteprimeiro dos símbolos,
gratuita inês das rosas mortas a ser história sem esposo
nem despojos, apenas hóspede de um momento que
já era outro, adeus pedro que és rei das pedras e da
prudência imaculada, fica neste lugar binário, ergue-
te maior e mais hino. sobe à palavra vária e faz-me um
verso como epitáfio terno._____________________
que fazes inês assim morta e luminosa se agora não
voltas aos meus braços, nada. nada que antes já era
descoincidente. guarda-me a presença ao centro dos
cardos._____________ que volto pensante e viúva de
mim. lá fora aguardam-me abutres e serpentes, anéis dos
impasses imaginários, a trinta e um de maio veste-se inês
para morrer, já suficientemente morta.
confiar no inefável ser amigo de Deus
apreender o indizível com palavras repetidas ao ritmo
do coração e manter as cinco orações diárias, às horas
prescritas, a fim de conversar com Deus de coisas
práticas__________ António Barahona
como por exemplo perguntar oh deus por onde andas
que andas tão do tamanho de uma porta fechada
onde as crianças de ontem morrem hoje selvagens e
assombrosamente abandonadas... que surdez de nó
cego te faz mudo perante o nome anónimo das árvores
que sangram em cada ruga em cada nervo em cada
dente enterrado no mais obscuro seio seco e rude.
como confiar-te oh deus esta esperança sem coração
se explodes em sono e em leite crivado de fossos e
de fomes, que criança és tu oh deus que esqueces a
folhagem do esplendor, em horas práticas de paisagem
calcinada, corrente de halos abastecida de gramática
ardida e água de sal.________ conversa inútil a um deus
de cordeiros sacrificados, em dia de ser criança, ainda e
já rouca de tanta miséria, esqueci de emendar o caos.
terça-feira, 1 de setembro de 2015
Srbo Ivanovski
PALAVRA
Tranquei-te na pedra
como num porta-jóias
no fundo da pedra
um local solitário como “O Quarto” de Van Gogh
tranquei-te no silêncio em meu silêncio
e eis-te aqui
torrente gélida
orvalho sobre gramado
Coloquei-te sobre o fogo
vocês sentem esse doce crime
cometido apenas por aquele
que carrega o fogo de poema em poema
Forjei-te na espada
espada rubra de corte branco
dor adocicada
que me tira o fôlego quando sorrio
[In Céu vazio 63 poetas eslavos, Organização, estudo introdutório, notas biográficas e tradução Aleksandar Jovanovic, Huitec:São Paulo, 1996, p. 142]
Srbo Ivanovski: Poeta e tradutor macedônio, nascido em 1928. Foi editor-chefe da Rádio Skopje e traduziu poemas do russo e esloveno. Em 1959 recebeu o prêmio Koco Racin. Estreou como poeta em 1950 co o livro Lírica. Também ficcionista, escreveu obras de literatura infantil.
Tranquei-te na pedra
como num porta-jóias
no fundo da pedra
um local solitário como “O Quarto” de Van Gogh
tranquei-te no silêncio em meu silêncio
e eis-te aqui
torrente gélida
orvalho sobre gramado
Coloquei-te sobre o fogo
vocês sentem esse doce crime
cometido apenas por aquele
que carrega o fogo de poema em poema
Forjei-te na espada
espada rubra de corte branco
dor adocicada
que me tira o fôlego quando sorrio
[In Céu vazio 63 poetas eslavos, Organização, estudo introdutório, notas biográficas e tradução Aleksandar Jovanovic, Huitec:São Paulo, 1996, p. 142]
Srbo Ivanovski: Poeta e tradutor macedônio, nascido em 1928. Foi editor-chefe da Rádio Skopje e traduziu poemas do russo e esloveno. Em 1959 recebeu o prêmio Koco Racin. Estreou como poeta em 1950 co o livro Lírica. Também ficcionista, escreveu obras de literatura infantil.
sexta-feira, 28 de agosto de 2015
Ferreira Gullar
A ESTRELA
Gatinho, meu amigo,
fazes ideia do que seja uma estrela?
Dizem que todo este nosso imenso planeta
coberto de oceanos e montanhas
é menos que um grão de poeira
se comparado a uma delas
Estrelas são explosões nucleares em cadeia
numa sucessão que dura bilhões de anos
O mesmo que a eternidade
Não obstante, Gatinho, confesso
que pouco me importa
quanto dura uma estrela
Importa-me quanto duras tu,
querido amigo,
e esses teus olhos azul-safira
com que me fitas
DOIS POETAS NA PRAIA
É carnaval,
a terra treme:
um casal de poetas conversa
na praia do Leme!
Falam os dois de poesia
e dos banhistas
que nunca leram Drummond nem Mallarmé.
— E lerão meu poema?
pergunta ela.
— Alguém vai ler.
— Pois mesmo que não leia
não vou deixar de dizer
o que vejo nesta areia
que eles pisam sem ver.
E o poeta mais velho
sorri confortado:
a poesia está ali
renascida a seu lado.
SOBRE FERREIRA GULLAR
[In Em alguma parte alguma, 4a. ed - Rio de Janeiro: José Olympio, 2010].
Gatinho, meu amigo,
fazes ideia do que seja uma estrela?
Dizem que todo este nosso imenso planeta
coberto de oceanos e montanhas
é menos que um grão de poeira
se comparado a uma delas
Estrelas são explosões nucleares em cadeia
numa sucessão que dura bilhões de anos
O mesmo que a eternidade
Não obstante, Gatinho, confesso
que pouco me importa
quanto dura uma estrela
Importa-me quanto duras tu,
querido amigo,
e esses teus olhos azul-safira
com que me fitas
DOIS POETAS NA PRAIA
É carnaval,
a terra treme:
um casal de poetas conversa
na praia do Leme!
Falam os dois de poesia
e dos banhistas
que nunca leram Drummond nem Mallarmé.
— E lerão meu poema?
pergunta ela.
— Alguém vai ler.
— Pois mesmo que não leia
não vou deixar de dizer
o que vejo nesta areia
que eles pisam sem ver.
E o poeta mais velho
sorri confortado:
a poesia está ali
renascida a seu lado.
SOBRE FERREIRA GULLAR
[In Em alguma parte alguma, 4a. ed - Rio de Janeiro: José Olympio, 2010].
quinta-feira, 27 de agosto de 2015
Hélia Correia
Eram meses de verão, fartos de ventos, saturados de pó e de aridez. Milena passeava todo o dia uma inesperada e alarmante beleza. No seu encalço atropelavam-se ânsias de homens, invejas de mulheres. Irene habituara-se a segui-la, chinelando, obstinada, com um riso beato.
Pelas irmãs Ferrão veio Ercília a saber de como os inocentes percursos da sobrinha inquietavam as almas a ponto de nas ruas se sentirem pairar morrinhas de pecado.
Surpreendeu-se a velha, pois pouco tinha dado pelas saídas de Milena e muito menos pelo esplendor tardio daquele corpo. Vivia ensimesmada, em árduas rezas, para tentar redimir-se dos seus sonhos em que homens de ombros nus a derrubavam sobre um amontoado de cautelas.
Começou a espreitar os passos da sobrinha, a farejar-lhe a roupa de onde se levantavam vapores enjoativos. Aplicadamente, durante horas, abriu a canivete uma fresta na porta do quarto de Milena.
Sete noites a fio, enquanto a lua enchia, viu-a deitar-se sobre a colcha de algodão e adormecer no seu insuportável e tranquilo sorriso. Até que, encalorada por um luar terníssimo, Milena se despiu e o seu ventre redondo, tenso e resplandecente como uma madrepérola, varou os olhos espiões de Ercília. Era um ventre de grávida.
A pudica senhora quase perdeu a fala. E a ninguém da sua intimidade deixou adivinhar a causa verdadeira da prostração a que se condenou. A sobrinha passava pela mulher a dias, pelas velhas amigas em visita, com uma leve agitação de pálpebras interpretada como um cumprimento. Comia muito pouco, ia à cozinha mastigar hortelã, miúdos de aves. Os seus fatos austeros, de cores secas, apareciam leves, avivados, agarrando-se aos seios, enroscando nas pernas com lampejos, carícias de cetim.
Quando a barriga começou a levantar-se num inchaço arrogante por debaixo das saias e a vila se pasmou da maravilha, Milena abandonou a casa onde crescera. Exactamente dois minutos antes de Ercília decidir que a expulsaria, sentindo, pela dor que lhe açoitava as fontes, que dali em diante ninguém nem força alguma poderia obrigá-la a tomar decisões ou sequer a manter conhecimento sobre coisas lastimáveis e hostis. Ficou então dotada de surdez selectiva, de modo que os ouvidos decifravam apenas as falas optimistas e qualquer má notícia ou mero incómodo esbarravam numa incompreensão argelical.
Naquele sereno entardecer de Junho, preparando-se em vão para reacções de lágrimas e cenas de romance, a velha atravessou o corredor. Pareceu-lhe que no escuro faiscavam iluminações verdes como olhos de felino. Teve medo e benzeu-se, pensando que as batalhas de Deus e do Diabo se travavam tão perto dos humanos que às vezes apareciam a vistas desarmadas. Entrou no quarto da sobrinha e viu, dentro da luz marinha do crepúsculo, a cama por fazer, o armário revolvido, as gavetas abertas e caídas no chão.
— Então, já cá não está. Tanto melhor— comentou dona Ercília. E assentou a mão esquerda sobre o peito, a confortar um coração vazio.
[Excerto de Montedemo, 2a. ed, Lisboa: Ulmeiro, 1984, pp. 27-29]
terça-feira, 25 de agosto de 2015
Marize Castro
existiu em minha vida uma águia
claros olhos a me olharem todos os dias
certa vez fui rever o mundo
e o coração da minha águia parou
sepultaram-na sem meu último abraço
quando retornei a nossa casa
trazia comigo a mais indivisível dor
e a pergunta que ainda hoje
permanece em mim
quando o Grande Mistério
se revelará
enfim?
[In Habitar teu Nome, Natal (RN): Una, 2011, p. 53]
claros olhos a me olharem todos os dias
certa vez fui rever o mundo
e o coração da minha águia parou
sepultaram-na sem meu último abraço
quando retornei a nossa casa
trazia comigo a mais indivisível dor
e a pergunta que ainda hoje
permanece em mim
quando o Grande Mistério
se revelará
enfim?
[In Habitar teu Nome, Natal (RN): Una, 2011, p. 53]
sexta-feira, 21 de agosto de 2015
Luiza Neto Jorge
O ÊXODO
I
Ninguém duas vezes passa o rio
porque os rios se afastam para morrer
ou, correndo nós,
vivemos, disséssemos,
com os rios morrendo.
E com o nível posto
na baixa altura da nascente
incorressem os vivos e
corressem os mares que não
se ajuntam mais, na mesma igualdade
longínqua.
II
Dentro de dias morre
mais alguém
para o hermético triunfo
das paisagens.
Então os sítios vão
subindo
povoam-se e entreolham-se
desencantam-se.
A órbita apodrece
descrê-se o sol.
O SIMULACRO
Aprendam o simulacro daquilo
que me retém no meu vulto
de animal excessivo de
vegetação mais densa:
um pião pôs-se a rodar no mês de Maio
donde nasceram os lábios e várias forças
que frequentaram a terra, como a música de
concertina, o ventre, o touro.
Fez-se uma roda no mês de Maio, com lotaria
com tudo a sumir-se com tudo a unir-se
velhos a parecerem outra coisa mais leve
peixes converteram-se à fala prédios
ocuparam um lugar acrescentaram-se
vegetações por dentro e por fora.
Foi o simulacro. O touro riu-se.
Animais práticos bem falantes
roçaram pelo meu pelo. Vários voavam
para o centro vários espojavam-se no ar
houve quem sorrisse para dentro de uma
vasilha quem se forrasse de cobra
quem se cobrisse de folhas no sexo e o touro,
no mês astrológico de Maio, a rir-se.
[In Poesia (1960-1989), 2a. edição, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, pp. 149-151]
I
Ninguém duas vezes passa o rio
porque os rios se afastam para morrer
ou, correndo nós,
vivemos, disséssemos,
com os rios morrendo.
E com o nível posto
na baixa altura da nascente
incorressem os vivos e
corressem os mares que não
se ajuntam mais, na mesma igualdade
longínqua.
II
Dentro de dias morre
mais alguém
para o hermético triunfo
das paisagens.
Então os sítios vão
subindo
povoam-se e entreolham-se
desencantam-se.
A órbita apodrece
descrê-se o sol.
O SIMULACRO
Aprendam o simulacro daquilo
que me retém no meu vulto
de animal excessivo de
vegetação mais densa:
um pião pôs-se a rodar no mês de Maio
donde nasceram os lábios e várias forças
que frequentaram a terra, como a música de
concertina, o ventre, o touro.
Fez-se uma roda no mês de Maio, com lotaria
com tudo a sumir-se com tudo a unir-se
velhos a parecerem outra coisa mais leve
peixes converteram-se à fala prédios
ocuparam um lugar acrescentaram-se
vegetações por dentro e por fora.
Foi o simulacro. O touro riu-se.
Animais práticos bem falantes
roçaram pelo meu pelo. Vários voavam
para o centro vários espojavam-se no ar
houve quem sorrisse para dentro de uma
vasilha quem se forrasse de cobra
quem se cobrisse de folhas no sexo e o touro,
no mês astrológico de Maio, a rir-se.
[In Poesia (1960-1989), 2a. edição, Lisboa, Assírio & Alvim, 2001, pp. 149-151]
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Fernando Paixão
Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
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Os berros das ovelhas de tão articulados quebram os motivos. Um lençol de silêncio cobre a tudo e todos. Passam os homens velho...
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PÃO-PAZ O Pão chega pela manhã em nossa casa. Traz um resto de madrugada. Cheiro de forno aquecido, de levedo e de lenha queimada. Traz as...
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O Barco Bêbado Quando eu atravessava os Rios impassíveis, Senti-me libertar dos meus rebocadores. Cruéis peles-vermelhas com uivos terríve...





