quarta-feira, 30 de setembro de 2015

Renata Pallottini

CHOVE SOBRE UM LIVRO DE F. PESSOA
CHOVER não é o que me entristece,
mas que chova sem utilidade, isto é,
que chova sem solução para o estar chovendo também em mim,
que chova audivelmente fora de mim
e em mim chova calado.
Queria que em mim a chuva fizesse barulho
ou se pudesse ver, queria que houvesse trovões,
qualquer coisa de pirotécnico,
qualquer coisa de molhado, capas impermeáveis, por exemplo,
gostaria que houvesse uma espécie de guarda-chuvas por dentro,
guarda-chuvas que abrissem ao contrário
e que tivessem só o forro preto
gruarda-chuvas com as varetas apontadas para o alto, por exemplo,
guarda-chuvas cujo cabo viesse de cima, por exemplo,
e que só servissem para chuvas interiores,
para tempos nublados interiores,
para umidades interiores.

Seria conveniente também que existissem galochas para o íntimo.

Creio que nem por uma coincidência tais apetrechos são negros,
creio firmemente que a chuva é uma coisa de fúnebre,
uma coisa de estar enterrado.
Creio que estar morto é estar chovendo sempre.
Estar morto é estarem chovendo sempre sobre a gente
e a gente sem poder usar guarda-chuva ou capa impermeável ou galochas,
creio que esse é exatamente o desconforto de estar morto,
creio que estar chovendo sobre a nossa face indefesa
é o símbolo de se estar morto,
até nossas mãos cruzadas sobre o peito
e o não poder arredar a água dos olhos
são o símbolo de se estar morto.

E firmemente sei, também e não obstante, que estar morto
é mais confortável,
(e sem dúvida será mais original)
que o estar chovendo na gente;
tudo, com a imensa vantagem de ser eterno.

[In: Obra Poética,  São Paulo, Editora Hucitec, 1995, p. 149]


segunda-feira, 28 de setembro de 2015

Mariana Ianelli

PARA AQUELES A QUEM OS DIAS SÃO UM SOPRO
Raramente concede entrevistas este ermitão chamado Antonio Lobo Antunes. Não vai a lançamentos, não aparece, não promove seus livros. Uma vez, convidado a encerrar um congresso de medicina, não hesitou em frustrar as expectativas declarando que “esperar que um escritor diga coisas interessantes é o mesmo que esperar de um acrobata que ande aos saltos mortais na rua”. Por muito que soe antipático, e com isso prove a outra face da fama, Lobo Antunes não participa da indústria do espetáculo por uma razão muito simples, talvez por isso mesmo incômoda, elementar feito água. Lobo Antunes não aparece porque, sendo escritor, está a escrever. Porque o tempo é curto para o que de melhor ele tem a fazer, e está fazendo - diante do papel, não dos microfones.

Há certo escândalo em se abster do espetáculo quando vigora a lógica de que todo o tempo, por uma boa causa, pode ser negociável. Há um escândalo no sentido radical da palavra, o impedimento desta lógica perversa que arrebata o escritor da sua mesa de trabalho para um palco, aparentemente em favor da própria literatura. E esperado que, além de escrever, o escritor fale a respeito do seu livro, e fale sedutoramente, que seja cativante, que desperte e faça durar o interesse de uma plateia, que conte um pouco sobre o seu método de trabalho, sobre como faz para pensar o que pensa e dizer o que diz. É esperado que ele dê mais do que o inefável de sua escrita, ele, que já falhou tantas vezes na vida, e falhou com tanta excelência a ponto de criar um mundo novo dentro da órbita do espanto de estar vivo; ele, que escreve desde sua solidão sem fundo, desde súplicas remotas, fazendo de suas perguntas sem resposta o seu poema, ele agora é este escritor que deve estar apto a responder, a fascinar, a surpreender, como quem volta de uma longa jornada e abre sua bagagem cheia de lembranças exóticas, histórias de além-mar, relatos de pequenas grandes peripécias por trás de suas cicatrizes, tudo isso transformado de chofre num livro vivo, numa proeza, num evento digno de aplauso, como um acontecimento que, para além dos inenarráveis fracassos pessoais que porventura alimentam a própria escrita, possa ser considerado o fato de uma conquista, a razão de um sucesso, a prova de que um livro antes escrito sem plateia e sem garantia de resposta é um livro que, afinal, merece ser lido.

Basta pensar no teor venatório da expressão “público-alvo” para ver que alguma coisa aí não faz sentido. Num auditório que reúne uma centena de pessoas com o propósito de ouvir a uma só pessoa, ali, de frente para todos, caberia a pergunta de onde está realmente o alvo. Porque, ao fim e ao cabo, num verdadeiro encontro entre o escritor e seus leitores, não há quem não saia atingido, quem não se reconheça nas mesmas antigas interrogações de um único homem que, há muito tempo, nos confins da Arábia e do país de Edom, por falta de um consolo para a angústia que sentia, não encontrou outra saída senão cantar dentro de um longo poema, e assim, cantando, perguntava por que ele era cercado por todos os lados, vigiado, tomado por alvo, posto à prova, agarrado pela orla de sua túnica, confundido com o pó e a cinza.
(Publicada em 26/03/2011)

[In Breves Anotações sobre um Tigre, ilustrações de Alfredo Aquino, Porto Alegre: Ardotempo, 2013, pp. 79-81]



domingo, 27 de setembro de 2015

W. H. Auden

LUNAR, ESTA BELEZA

Lunar, esta beleza
E primeva, inteira,
Não tem nenhuma história.
Se a beleza mais tarde
Exibe algum traço,
Foi porque teve amante,
Já não é como antes.

Nisto, qual em sonho,
Vige um outro tempo,
Perdido se o dia
De tudo se apropria.
O tempo são centímetros
E mudanças de alma
Que espectro assombrou,
Perdeu e desejou.

Mas isto, por certo,
Não foi coisa de espectro,
Nem espectro, ela finda,
Sentiu-se a gosto, ainda,
E enquanto persista,
Nem se chega amor
A tal doçura e a dor
Tampouco lhe vem dar
Seu infinito olhar.

(J. P.P.)

[In Poemas, Seleção de João Moura Jr., Tradução e Introdução: José Paulo Paes e João Moura Jr., São Paulo, Companhia das Letras, 1986, p. 35]



sábado, 26 de setembro de 2015

Murilo Mendes

OURO PRETO

A alma livremente encarcerada
Comunica-se com os doidos e os poetas
Oue pelas frias naves dão-se os pés.
Sinto grego o céu de outrora me envolver.

A cavalo sobre as igrejas de pedra
Irrompe o Aleijadinho na sua capa.
Nas linhas de ar balança-se o relógio
Marcando cegamente o compasso do tempo.

Um vulto cruza outro na ladeira.
Pelos desertos espaços metafísicos
Arrastam-se as sandálias da pobreza.

Das varandas azuis tombam ossadas.
Ouro Preto severa e íntima adormece
Num abafado rumor de águas subterrâneas.

[In Sonetos brancos, in  Poesia Completa e Prosa, Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1994, p. 445]






sexta-feira, 25 de setembro de 2015

Adélia Prado

INCONCLUSO
O dia em sua metade
e o calor do corpo ainda não me deixou.
Ele estava em minha casa e ia comer conosco.
Enquanto a mãe cozinhava,
esgueirou-se e disse no meu ouvido:
Quero falar com você.
Vamos até ali, respondi abrasada,
medrosa de que alguém nos visse.
Chegara com um frango depenado
— o que não me abalava o enlevo —
como se me testasse:
A quem não ama seu corpo,
sua alma lhe fecha a porta.
Ai, que meu pai não me visse assim tão ofegante
e estumasse seu nariz perdigueiro
à cica que me entranhava.
O sonho acabou aqui, onde estou até agora
ardente e virgem.

[In MISERERE, São Paulo, Record, p. 77]


quinta-feira, 24 de setembro de 2015

Ángelos Sikelianós

O APOCALIPSE
E a criação, como após
a morte de Deus, se enchera
de brumas. O ar nevoento,
que a espada de luz
das estrelas feria,
por toda parte estremecia
de antigo sofrimento...

A bruma se elevava, espessa
como o incenso da oferenda
fiel de uma escrava enquanto,
inundados de lua,
os olhos vertiam,
orvalho silencioso, o pranto.

E com as mãos rasguei
o ar enganoso à volta;
nos montes e nos mares
a meus olhos luzia
do profundo, sacro dia
da criação, o arrebol.
Uma lira soava
no ar tão intenso
— a do sol!

[De O vidente, 1]

CREPÚSCULO
E eu tinha os olhos cheios,
mas tão cheios de luz,
que se fechasse as pálpebras
ela jorraria como pranto,
como pranto — abrindo-se
em flores orvalhadas.
A luz cavava sulcos
em meu cérebro, aligeirando-o
como à árvore o vento
que lhe atira os frutos
ao chão, e aí,
libertas, as folhas
frondejam nas alturas
com um novo frêmito.
A luz cavava sulcos
em meu cérebro e corria-me
pelas veias, lenta, calma.

[Idem, III]

HOMERO
E o ombro tocou-me
mão que não se via;
e tive pena ao guiar um cego
pela rua sombria.
A alta lei não-escrita
da criação ouvia
eu, pálpebras bem abertas,
como quem não deseja
perder da grande luz
uma gota que seja.
No bosque à minha volta
noite adentro as azeitonas
se iluminavam do secreto
azeite que as sazona.

E enquanto ele ascendia, farto,
contemplando os longes, eu
anulava em meus olhos
a lágrima, como Odisseu.

[Idem, III]

SOBRE SIKELIANÓS

[In Poesia Moderna da Grécia, seleção, tradução direta do grego, prefácio, textos críticos e notas de José Paulo Paes, Rio, Ed. Guanabara, 1986, pp. 96-98].



quarta-feira, 23 de setembro de 2015

Marize Castro

meu menino parte e eu estou longe
mas não tão longe que não sinta seu hálito
seu arfar, sua alegria

meu rebelde (assim eu o chamava) foi enviado
em uma Iria noite, antes dos relâmpagos

envolto em placenta verde, pediu-me:

rasgue-a, traga-me para este mundo
serei sua liberdade
sua proteção
te guardarei à noite
durante o dia dormirei
aos seus pés
você me amará para sempre
serei seu filho mais alegre
mas também serei sua maior tristeza
em terra estrangeira
quando eu partir, você estará longe
não te deixarei não me ver andar
eu que sempre voei, estarei paralisado

ampliando a eternidade

-0-0-

triste rapaz, quando eu disser
não te amo mais

não acredite

sob meus pés
uma terra estrangeira move-se
um funeral anuncia-se

novamente sou líquida tempestade

estou de novo na primeira floresta
alimentando-me de uivo
granizo
fel

por isso, triste rapaz, quando eu disser
distancie-se
saiba que há um dilúvio
a galope

(este coração está por um triz)
mas também saiba
que te ter dentro de mim
é o que as pessoas neste imenso
mundo chamam
de Céu

[In Habitar teu Nome, Natal (RN): Una, 2011, pp. 46-47].



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...