terça-feira, 27 de outubro de 2015

Ángelos Sikelianós

SAUDAÇÃO A NIKOS KAZANTZAKIS

Meu amigo e eu na Montanha Santa, pelas ladeiras eternas, sós ao amanhecer enquanto se desfaziam pela primeira luz as belezas que a chuva espalhou.

Respirando profundamente víamos até lá embaixo onde brilhava oculto, pálido, o largo mar, e nossa mente, como a poderosa copa do pinheiro

se regozijava na completa calma, na bendita fragrância do monte, e pelo frescor que sentíamos até o interior de nosso jovem coração ressuscitado...

Nas testas, nas mãos, sobre todos os nossos membros, brilhava serenamente a sossegada força que conheceu o mel da criação, e voltando de novo ao passar por onde se sorveu,  ou se amamentou em tudo a alegria mística, fazia-nos elevar os braços como se fossem asas
em direção a  um inefável culto...

Magna graça sobre ele ia derramando o robusto
e irrigador manancial da solidão, e insone em seus olhos negros uma alma pensante

se alegrava, sagrada e amplamente, de abraçar de dia os céus ocultos, e como uma fonte em sua fundura de abraçar em segredo a formosa maturidade da mente...

Alto e silencioso nos rodeava como um ciclópico muro; e de repente, sossegada, tal como água fluente, quando sem cessar chega um sussurro,

A voz de meu amigo soou em meus ouvidos: “Irmão, bendita seja a hora em que tomei a trilha,
a odorífica trilha que se afasta do povoado, e te encontrei tal asceta

debaixo daquele pinheiro, gozando o místico festim da mente, e ali, já juntos,
repartimos como  pão
a alegria do céu cheio de estrelas...


10 de outubro de 1921



segunda-feira, 26 de outubro de 2015

Javier Iglesias

A QUEBRADA ONDA
Para Aylan Kurdi

Esta chuva que cala a memória
não apaga a aleivosia da noite
nem o naufrágio de inocentes
em um mar ausente de manhãs.

Como justificar a inclemência divina,
o ódio contra as religiões
se o sol amanhece em Roma
sem esquecer-se do deserto.

Hoje minha raiva é contra todos
me falta a fé de Jó
os filhos que perdeu
em outra bíblica tempestade.

Em minhas veias não corre futuro
meu sobrenome se afogará numa beira de mar
longe das câmeras
mas me sobram forças para gritar
quando o mundo morre numa praia.

Não me falem de fronteiras
Menos ainda da civilizada Europa
velha puta que esqueceu seu passado.

Fracassou a humanidade

E também é minha culpa.



LA ROTA OLA 
Para Aylan Kurdi

Esta lluvia que cala la memoria
no apaga la alevosía de la noche
ni el naufragio de inocentes
en un mar ausento de mañanas.

Cómo justificar la inclemencia divina,
el odio contra las religiones
si el sol amanece en Roma 
sin olvidarse del desierto.

Hoy mi rabia es contra todos
me falta la fe de Job
los hijos que perdió 
en otra bíblica tempestad.

En mis venas no corre futuro
mi apellido se ahogará en una orilla 
lejos de las cámaras
pero me sobran fuerzas para gritar 
cuando el mundo muere en una playa.

No me hablen de fronteras
menos aún de la civilizada Europa 
vieja puta que olvido su pasado.

Ha fracaso la humanidad 
y también es mi culpa.

sábado, 24 de outubro de 2015

Eugénio de Andrade

ANIMAL DE PALAVRAS

Ele procurava palavras, as mãos tacteando na noite, ávidas ainda. A luz era débil, roubada ao sono. Chamava-as pelo nome, mas elas não vinham, voltava a chamar. Era o que lhe doía, aquele abandono. Com amor lhes queria, longamente sonhava com as faces do seu corpo fino, luzindo no escuro: essas folhas de aço, prontas a ferir. Navalhas, animais de funduras. Agora não respondiam, mesmo que gritasse. Era uma criança espancada, sem elas, um homem amargo, tocado pelo verde da lepra. Para não morrer precisava desse sol a prumo, dessas águas de seda. Estendidas. Sobre as ervas de junho.

INSÓNIA

Apaguei outra vez a lâmpada, procurei agarrar os fios do sono, mas o que se aproximou foi um camponês muito jovem, que atravessou a noite para saber o que é que me doía.
O meu nome é Guérassim.
Devia responder-lhe que o conhecia bem, mas limitei-me a perguntar-lhe porque deixara a casa de Ivan Ilich.
Agora és tu que precisas de mim. Que é que tens?
O meu mal é sem remédio. O que eu queria era água, água. Água de quatro rios, sobre a garganta. Para adormecer. Com o sol na boca.

[In Poesia e Prosa [1940-1979], vol II, Imprensa Nacional - Casa da Moeda, Lisboa, 1980, pp. 194-195]


quarta-feira, 21 de outubro de 2015

Anne Sexton

Há mil portas atrás
quando eu era uma miúda solitária
numa casa grande com quatro
garagens e era verão
desde sempre,
da noite deitada na relva,
com os trevos a enrugarem-se por cima de mim
as estrelas sábias deitadas sobre mim,
a janela da minha mãe um funil
de calor amarelo a escorrer
a janela do meu pai, meia fechada,
um olho onde adormecidos passavam,
e as tábuas da casa
eram macias e brancas como a cera
e provavelmente um milhão de folhas
velejavam nos seus caules estranhos
enquanto os grilos faziam tiquetaque em uníssono
e eu, no meu corpo recém estreado,
que ainda não era o de uma mulher,
dizia às estrelas as minhas perguntas
e pensava que Deus poderia mesmo ver
o calor e a luz pintada,
cotovelos, joelhos, sonhos, boa noite.

- Tradução de Maria Sousa

SOBRE ANNE SEXTON

By Peter Herzog

sexta-feira, 16 de outubro de 2015

Yu Xuanji

PARA OS SALGUEIROS JUNTO AO RIO
Vultos em jade às margens devolutas
à névoa assombram pavilhões distantes
Reflexos deitam-se no rio do outono
e flores descem sobre os pescadores
Peixes ocultam-se às raízes densas
enlaçam os ramos barcos visitantes
Respiração da noite, a chuva e o vento
ecoam tristes sonhos revolutos

PARA FEIGINQ
Grilos cricrilam nos degraus de pedra
Orvalho novo recobre os arbustos
Bem perto à luz do luar soa música
Montanhas: sombras, do terraço, ao longe
Vem brisa fresca deitar-se na esteira
Jade frio corta entre as notas à cítara
Preguiça tens de escrever, Mestre Ji!
Nenhum consolo terei neste outono

VENDENDO PEÔNIAS MURCHAS
O rosto ao vento, a suspirar, pétalas caem
e vai-se outra primavera em seus odores
Hoje ninguém as quer corqprar, dizem-nas caras
Intenso, afasta as borboletas, seu aroma
Pétalas rubras, só crescessem em palácios
Folhas de jade, vão tingir-se ao pó da estrada?
Antes se transplantarem a imperiais vergéis
e as colheriam belos jovens em cortejo

CARTA A LI ZI' AN, OLHANDO A DISTÂNCIA DESDE JIUNLING
Folhas de bordo, milhares, ramo após ramo
no rio, às pontes. Poente, e os barcos não chegam.
Flui dia e noite, Senhor, o rio: meu desejo
oeste a leste não para, nem um descanso.

O QUARTO SOLITÁRIO
Choro, recolhe-se o sol: só ervas nas mãos1
Ouço: à casa vizinha o marido retorna
Dias atrás os cisnes perderam-se ao norte
Hoje nos chegam os gansos, estes viajantes

Vem primavera, antes outono e somente
resta a saudade, não há notícia, nem carta
Melhor cerrar a porta, por que se ocupar
bater as roupas, juntá-las? Há mais ninguém

INÍCIO DE OUTONO
Brilham os novos botões de crisântemo
Ao poente a névoa oculta as montanhas
No verde às árvores um vento frio
nas cordas ressoa uma canção límpida
Mulheres: a espera junto ao tear
Aos homens, a marcha além da   Muralha
As aves no céu; aos peixes, o rio
Ficam as cartas a meio caminho

PARA GUO XIANG
Manhã à noite, beber e cantar
Esta saudade vem com a primavera
À chuva foi-se o mensageiro, a carta
Junto à janela ficou sofrimento
Veem-se entre as contas da cortina os montes
Dores recordam-se ao odor da grama
E àquela festa finda, à despedida,
quanta poeira desabou dos caibros

SOBRE YU XUANJI

[In Poesia Completa de Yu Xuanji, tradução, organização, apresentação e notas Ricardo Primo Portugal e Tan Xiao, Unesp, São Paulo, 2011, pp. 31-45]


quarta-feira, 14 de outubro de 2015

Pablo Neruda

19
Do incomunicado,
do ignorante hostil que eu sempre fui
desde antes de nascer, entre o orgulho
e o terror de viver sem ser amado,
passei a dar a mão a todo mundo
e me deixei telefonar sem frêmitos
a princípio, aceitando,
uma voz, um conselho pelo fio,
uma metálica comunicação
até que me afastei de mim eu mesmo
e levantando como diante de um revólver
os braços, me entreguei
às degradações do telefone.
Eu que fui com tato singular
me afastando de claros escritórios,
de ofensivos palácios industriais
só de fitar um aparelho negro
que mesmo silencioso me insultava,
eu, poeta torpe como um pato na terra,
fui me corrompendo até conceder
minha orelha superior (que consagrei
com inocência a pássaros e música)
a uma prostituição de cada dia,
conectando ao ouvido o inimigo
que foi se apoderando do meu ser.
Passei a ser telefinho, telefonino,
telefante sagrado,
me prosternava quando a espantosa
campainha do déspota pedia
minha atenção, minha orelhas e meu sangue,
quando uma voz equivocadamente
perguntava por técnico ou putas,
ou era um parente que eu detestava
uma tia esquecida, inaceitável,
um Prêmio Nacional alcoólatra
que a todo custo queria pegar-me
ou uma atriz tão azul e açucarada
que queria violar-me, seduzir-me
usando um telefone cor-de-rosa.
Mudei de roupa, de costumes,
sou só orelhas,
vivo tremendo de que não me chamem
ou de que me chamem os idiotas,
minha ansiedade resistiu a remédios,
doutores, sacerdotes, estadistas,
vou talvez me transformando em telefone,
em instrumento negro e abominável
pelo qual comuniquem os outros
o desprezo que me consagrarão
quando eu já não sirva para nada
ou seja, para que falem
as vespas por intermédio do meu corpo

[In Teus pés toco na sombra e outros poemas inéditos, tradução de Alexei Bueno, edição, introdução e notas Darío Oses, prólogo Pere Gimferrer, 1a. edição, José Olympio: Rio de Janeiro, 2015, pp. 115-119]

Jordi Feliu

terça-feira, 13 de outubro de 2015

Abgar Renault

SEMI-INTERNATO
A Pedro Nava

Bonde cor de sono das minhas manhãs de colégio triste.
Enevoado bonde abrindo a friagem e o silêncio dos bairros
[estremunhados.
(De onde vinha misteriosamente, arrastando os começos do
[dia,
o bonde madrugador, carregado de junho,
com seu motorneiro de bigodes pardos, suas cortinas de
[vento, seus balaústres de gelo?)
Dor de sentir a manhã entrando debaixo das cobertas,
e ter de sair correndo para pegar o bonde das seis
(e sair sem correr para não pegar o bonde das seis).
Ir às seis, voltar às seis, ser triste como a tarde às seis da
[tarde.
Hoje não vou porque estou com dor de dente.
Como é que hei de ir hoje com esta roupa?
Não sei a lição e hoje não vou.
Não vou porque também a comida é muito ruim.
E ia hoje sem roupa no bonde das seis.
E ia hoje sem lição no bonde das seis.
E ia hoje sem dor de dente no bonde das seis.
Ia ficar com fome o dia inteiro — e partir no bonde das seis,
para só voltar às seis com o meu sono e a minha tarde
[precoce.
Assíduo e inocente, eu fugia das aulas e do almoço
e meditava o Parque Municipal contemplando os gramados
[e as pontes
(dor misteriosa de ver as águas fluindo sob a indiferença
[das pontes paradas)
e vadiava com meus sonhos vagarosos pelas ruas desabitadas
[e infinitas,
em busca dos doceiros que aceitavam coupons de bonde
[como dinheiro.
(Gratuidade da vida simples em que passagens de bonde
[compravam doces!
Ó antiguidade sem ônibus! Ó cinco automóveis na Avenida
[Afonso Penna,
que eu conversava, acariciava e de olhos fechados conduzia!
Ó Distribuidora de Eletricidade! Ó frack do Dr. Carvalho
[Brito!
Ó Cinema Familiar do Poni na Rua da Bahia sem nunca
[matinée!)
Era ali na Avenida João Pinheiro, esquina de Timbiras,
que eu devia residir das seis e meia às seis da tarde,
e era dali que eu fugia nas águas de barcarola do Parque,
[com Nick Cárter e os primeiros punhais de mulher.
Era lá que eu sonhava nunca estar e ser feliz,
e era dentro das paredes grossas que sem olhos, nem ouvidos
[revivia as horas de pagode em casa
e pensava gravemente no olhar de sombras dos olhos lon-
[gínquos de minha mãe.
Não aprendi o francês de Halbout, nem história sagrada,
[nem análise.
Viajava de bonde triste no ar desmaiado da manhã
e em cima da voz do professor ia desenhando jardins assírios,
[crimes, pistas e seminudezes.
Foi outrora. É outrora. Outrora é ali naquela esquina de
[Timbiras
onde estou ainda parado sem querer entrar para não chorar
[perdidos pêndulos;
é o meu olhar de hoje quando translê submersas ruas;
são as minhas calças curtas, as queijadinhas de medievais
[doceiros,
a minha boca temerosa perguntando: "O senhor aceita
[coupon?”;
é um bonde pálido, sujo da madrugada de amarelos arra-
[baldes,
levando para a prisão, às seis horas frias da manhã, o sono
[dos onze anos.

[In A outra face da lua, Rio de Janeiro: José Olímpio/INL, 1983, pp. 121-122]




Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...