segunda-feira, 30 de novembro de 2015

Adriana Lisboa

POR UM INSTANTE DE PENUMBRA

Há sol demais por aqui. As sombras
expatriam-se dentro das coisas, sem uma
chance. A luz é cáustica,
esta luz de inquérito sob a qual o preso
não tem outra alternativa.
Você optaria por um mundo em claro-escuro,
mas tudo se revela (pior: se demonstra,
como num laboratório, como no corpo
aberto de uma cobaia) com enorme zelo e
não admite perfis, murmúrios, vislumbres.
Essa luz medonha que se esfrega
na sua cara — o quanto você não daria
por um instante de penumbra.
Por um segundo de indecisão.

[In Parte da Paisagem, São Paulo: Iluminuras, 2014]







sábado, 28 de novembro de 2015

Leonam Cunha

V

Ela é o veneno
Que eu escolhi
Para morrer sem sentir.
Noel Rosa
Acender-te-ei,

Em chamas que consomem a si,
Pelos teus seios de luas caladas

Mas que falam,
E ensandecem,
Feito os olhos nossos

Tragar-te-ei,
Para não usar de sinônimo,
Fumando-te por inteiro

Encher-me-ei de ti.
E ainda serás meu antídoto

VIII

Beber de teus poros
A água que brota feito gêiser
Do poço escuro que conservas
Em ti

Salgados como todos os lábios.
Crioulos, ou sem melanina.
O sal é tempero de ti

Morde-me com dentes fartos.
Teus olhos: bocas de baleia.
Engolem-me aos cardumes.
Entrançam as minhas pernas -
Caio sobre o tablado

Posso me levantar,
Carregando o mundo
Sobre meus ombros.
E um anjo pendurado ao braço,
Enquanto arrasto a duras penas
Um caído.

IX

Dai-nos, deuses,
O gozo.
Fazei-nos lembrar
Do gosto,
Da pulsação,
                      vital

Devorem-nos: pensamento,
Carne, perfuração, perjuro,
                               bênção.
A filosofia de tu e eu jogados
                                ao chão.

[In Dissonante, Sarau das Letras, Mossoró (RN), 2014]










sexta-feira, 27 de novembro de 2015

Eugénio de Andrade

MEDITERRÂNEO
Como no poema de Whitman um rapazito
aproximou-se e perguntou-me: O que é a erva
Entre o seu olhar e o meu o ar doía.
À sombra de outras tardes eu falava-lhe
das abelhas e dos cardos rente à terra. 

MADRIGAL MELANCÓLICO
Raramente lá vou, mas sempre
que passo na cidade, junto ao rio,
é o jardim que procuro primeiro,
onde o amigo colheu há tantos anos,
para me dar, a flor da canforeira.
Coimbra é ainda essa flor,
e na memória que bem que cheira.

[In Escrita da Terra, Poesia e Prosa (1940-1979), Imprensa Nacional Casa da Moeda, Vila da Maia, 1980, pp. 246-247]. 


quarta-feira, 25 de novembro de 2015

Giuseppe Ungaretti

.
A PIEDADE
1. 

Sou um homem ferido.

Quisera sair buscando
e finalmente alcançar
Piedade, onde se escuta
O homem que está só consigo.

Tenho apenas bondade e orgulho.

E me sinto exilado entre os homens.

Por isso mesmo sofro.

Não serei digno de tornar a mim?

Povoei de nomes o silêncio.

Despedacei coração e mente
para cair na servidão das palavras?

Reino sobre fantasmas.

Ó folhas secas,
alma levada aqui e ali...

Não, odeio o vento e sua voz
de besta imemorial.

Deus, aqueles que te imploram
não te conhecem mais que de nome?

Me expulsaste da vida.
Me expulsarás da morte?

Talvez o homem seja indigno de esperar.

Até a fonte do remorso está seca?

O pecado que importa
se já não conduz à pureza.

A carne se recorda apenas
que foi forte uma vez.

A alma se sente gasta e louca.

Deus, olha a nossa fraqueza.

Queremos uma segurança.

Já nem mesmo te ris de nós?

Sê compassiva, pois, crueldade.

Não mais suporto estar murado
no desejo sem amor.

Aponta-nos um traço de justiça.

A tua lei qual é?

Fulmina minhas pobres emoções,
liberta-me da inquietude.

Estou cansado de clamar sem voz.

[Henriqueta Lisboa, Poesia Traduzida, Reinaldo Marques e Maria Eneida Victor Farias, Belo Horizonte, Editora UFMG, 2001, pp. 255-257]

BY SABINE VAN DURMEN


domingo, 22 de novembro de 2015

Marize Castro

SENHAS

Não há último amor.
Há noites que se apaziguam.
Bosques a galope.
Labirintos que se enraízam.
Anjos que zelam hortos.
Moças que escrevem abismadas cartas
e, escarlates, enlouquecem.
Jogam-se — cerradas —
em qualquer movediço porto.

[In Esperado Ouro, p. 89]

Josef Kote

sábado, 21 de novembro de 2015

Carminha Gouthier

PAÍS SEM FRONTEIRAS

Ó Tu que remas,
qual o nome deste grande mar?
A água azul, de tão azul, tingiu meus olhos,
a água azul tingiu meus sonhos.

Perdi o rumo das enseadas
e o contorno dos mil países

Não quero caminho, não quero norte,
não quero agulhas de navegante.

Sei de terras lá muito longe,
de um palácio sem morador.
Sei de uma estrada — de onde vem?
que é longa e reta - para onde vai?

O tu que remas tão devagar,
As horas caem das tuas mãos.

Há luzes mortas nos horizontes
e estranho apelo para a solidão.

 By Ahmed Ammar


sábado, 14 de novembro de 2015

Rainer Maria Rilke

Amo as horas sombrias de meu ser,
nas quais se me aprofundam os sentidos:
nelas eu tenho achado, como em velhas cartas,
meu dia-a-dia já vivido, e feito
alguma lenda distante e sofrida.
Delas me vem a noção de que tenho
lugar numa outra vida mais ampla e infinita.

E eu às vezes me sinto feito a árvore
que, sobre um túmulo, madura e ciciante,
preenche o sonho de algum morto jovem
(a cuja volta ela aperta as raízes mornas)
perdido entre amarguras e cantigas.

[In Livro de Horas, Tradução de Geir Campos, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2ª ed., 1994]

By Ruth Doremus



Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...