domingo, 31 de janeiro de 2016

Orides Fontela

A ESTRELA PRÓXIMA

A poesia é
impossível

o amor é mais
que impossível

a vida, a morte loucamente
impossíveis.

Só a estrela, só a
estrela
existe

— só existe o impossível.

In Rosácea (1986)

HOMENAGEM II
Mário Quintana

PROGRAMAS
Exorcizar os ventos
anular as estátuas
recuperar os anjos
— instaurar a alegria.

Para instaurar jardins:
desencantar as fadas
dissolver os rochedos
devorar as esfinges.

In Rosáceas (1986)


quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Ana Luísa Amaral

PENÉLOPE FALA A ULISSES, OU OUTRAS FALAS
1.

Cala-te, tu,
de voz de azul harpia
e deixa-me que eu ouça outra vez o Egeu,
as ondas sufocadas,
as sereias cantando,
e um riso que foi meu junto de tanto mar

Deixa que ouça outra vez a sua voz
e silencia o tom de azul harpia,
agora, 
que o meu amigo fala,
e a memória que dele se desprende
só me pode rimar com o que tenho agora
e é demais conhecido ao longo desta língua,
a minha língua que não é de Egeu,
mas de outro mar mais largo

2.

Deixa-me que registe
por dentro da memória
a sua voz,
que com ela me cheguem
mil Cretas e soluços de sereias,
Minotauros brincando pela praia,
livres como meninos
em castelos de areia e labirintos

Deixa-me a sua voz,
tu, a de azul harpia,
revisitados montes sem idade
nem tempo para amar

3.

Por isso, ao meu amigo, lhe fala a minha língua
de saudade
- rimando no meu mar com o seu mar,
que é outro e tão diferente
e em tempo tão diferente
do azul, que até à exaustão
cantei 
Por isso, ao meu amigo, lhe fala
a minha língua de saudade:
de janelas de sol emolduradas em solidões
diferentes,
mas sempre e ao mesmo tempo
e neste bastidor:
a solidão igual -

[In INVERSOS poesia 1990-2010, Publicações Dom Quixote, Lisboa, 2010. pp. 534-536]



sábado, 2 de janeiro de 2016

Jorge Luis Borges

O ANJO
Que o homem não seja indigno do Anjo
cuja espada o protege
desde que o gerou aquele Amor
que move o sol e outras estrelas
até o Ultimo Dia em que ressoe
o trovão na trombeta.
Que não o arraste a vermelhos bordéis
nem aos palácios que erigiu a soberba
nem às tavernas insensatas.
Que não se entregue à súplica
nem ao ultraje do pranto
nem à fabulosa esperança
nem às pequenas magias do medo
nem ao simulacro do histrião;
o Outro o observa.
Que lembre que jamais estará só.
Ou no público dia ou na sombra,
o incessante espelho o confirma;
que não macule seu cristal uma lágrima.

Senhor, que até o fim de meus dias sobre a Terra
eu não desonre o Anjo.

O SONHO
A noite nos impõe sua tarefa
mágica. Destecer o universo,
as infinitas ramificações
de efeitos e de causas, que se perdem
na vertigem sem fundo que é o tempo.
A noite quer que esta noite esqueças
teu nome, teus ancestrais e seu sangue,
cada palavra humana e cada lágrima,
o que a vigília pôde te ensinar,
o ponto ilusório dos geômetras,
a linha, o plano, o cubo, a pirâmide,
o cilindro, a esfera, o mar, as ondas,
tua face sobre a fronha, o frescor
do lençol estreado, os jardins,
os impérios, os Césares e Shakespeare
e o que é mais difícil, o que amas.
Curiosamente, uma pílula pode
riscar o cosmos e erigir o caos.

[Poesia Borges, Companhia das Letras, 2009, pp. 340-341]



terça-feira, 22 de dezembro de 2015

Dora Ferreira da Silva

ÁRTEMIS

Entre espadas cruzadas de verdes ramas
a nenhum olhar doada, senão às claras pupilas que a
[circundam,
o fogo branco do corpo queima feixes de água
e à seta mais ligeira precede,
desferida num voo mais secreto.

Cantam ursinhas no lago
ao som da harpa que o vento cego estende
à ninfa. Em vagas se distende a música.
Rolam pérolas nas frontes, em fios de úmidos
vapores. E não seria o som — nem mesmo o sopro
mais ligeiro —

companheiro da nudez velada,
se pousasse o vento aedo as fortes mãos
na harpa atirada ao colo de Cirene, a clara.

AFRODITE

Disse a deusa a sorrir:
esta manhã o mar deu-me adereços
e vestida de pérolas
fui a um reino distante.
Cânticos despertaram vides
e frutos nasceram, que o sol
cultiva nos pomares.
Coros adolescentes perseguiam Eros
— o coroado de pâmpanos —
pois de meus lábios haviam provado
o vinho farto e suave.

Liames atando e desatando,
ele a beleza ocultava nas angras mais profundas,
pois quando emergia — flâmeo! —
o murmúrio do mar as praias inundava
e a embriaguez vizinha da morte
ameaçava os amantes... 

O DEUS QUE VEM

Frêmito no alto céu,
morde Scorpio a Virgo escura.
Este o sinal de que se deve cantar os tempos
de juvenil tropel. Estua o vinho na uva por nascer
e a terra nas grotas úmidas de lágrimas fecha a boca.
A Lua espreita, enquanto dorme o Sol do liso flanco
de ouro. Acordêmo-lo e em procissão subamos
aos lugares altos. A noite é propícia para o germinar,
para o borbulhar de risos líquidos.
Lamenta a Virgem de verde sua casta solidão.

Ei-lo que desponta ao longe, nas dobras do mar:
no topo de um penhasco, grava-o a águia em sua
[pupila.
É o deus que vem, há um frêmito no alto céu
enquanto se une ao Sol a Lua desnudada,
submersos nos remoinhos das águas do dia por nascer.
Frutos brilharão nos campos e os celeiros não bastarão 
para conter tantas espigas. O Novo Tempo vem,
[circundando
bosques, alvas colunas e imagens se dissolvem para
[que tudo
reverdeça: beberemos o vinho saboroso, o trigo terá
[sabor
de trigo e o deus vestirá de amor os corpos nus.


[In Poesia Reunida, Rio de Janeiro, Topbooks, 1999, pp. 244-246]



sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Rodrigo Bro

O NÃO SILÊNCIO DO AMOR

O amor é uma criança que beija o colo luminoso das lavadeiras
que alvejam suas tristezas submergidas no rio até a cintura.
Sou riacho a desaguar no oceano.
A vida é um varal
onde o amor e eu penduramos nossas lembranças e nossas roupas
comuns.
 Flameja em mim o ardor  pelo  vento a balançar o lençol
que assiste todas as noites o meu jeito de amar.
Amo as lavadeiras, suas cantigas
e as crianças que sopram bolas de sabão leves e lustrosas.
Por estarem limpas as minhas roupas,
estandartes das procissões do desejo,
amo os antúrios que Conceições enfeitam.
A tudo amo, até pedras que caladas edificam as vozes das moradias.
Uma casa habitada fala.

AS MÃOS SUAVES DO AMOR ME DESNUDAM 

Nos canteiros do meu corpo,
vem o amor colher as flores.
Jardineiro que me toca
como a brisa a lamber com sofreguidão as hastes virgens das orquídeas.
O amor é o alimento que nutri  existências.
É nele que eu existo,
deleito-me
e descanso qual artesão  no fim do dia,
qual caminheiro no fim do caminho
qual criança  que dorme e sonha com chegares de andorinhas.
As mãos suaves do amor me desnudam.

(Rodrigo Bro é mineiro de Belo Horizonte, tem 34 anos, e mantém um blog no portal "Recanto das Letras", onde publica seus textos. Esse dois poemas foram cedidos para publicação pelo autor). 


domingo, 13 de dezembro de 2015

Leonard Cohen

LIVRO DO DESEJO

Não consigo superar as colinas
O sistema foi abaixo
Vivo de comprimidos
Coisa que agradeço a D--s

Segui o trajeto
Do caos à arte
Desejo o cavalo
Depressão a carruagem

Naveguei como um cisne
Afundei-me como uma rocha
Mas o tempo passou há muito
Pelas minhas reservas de riso

A minha página era demasiado
branca
A minha tinta era demasiado fina
O dia não quis escrever
Aquilo que a noite rabiscara

O meu animal uiva
O meu anjo aborreceu-se
Mas não me é permitida
Uma réstia de remorso

Pois alguém há-de utilizar
Aquilo que eu não soube ser
O meu coração será dela
De uma forma impessoal

Ela pisará o caminho
Perceberá a minha intenção
A minha vontade partida em duas
E a liberdade pelo meio

Por menos de um segundo
As nossas vidas colidirão
O interminável suspenso
A porta de par em par

Então ela há-de nascer
Para alguém como tu
O que nunca ninguém fez
Ela continuará a fazer

Sei que ela vem aí
Sei que ela irá olhar
E esse é o desejo
E este é o livro

[In  Livro do Desejo, tradução de Vasco Gato, Edições Quasi]


Scubagal Pictures

quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

García Lorca

CACIDA DA MÃO IMPOSSÍVEL

NÃO quero mais que uma mão,
mão ferida, se possível.
Não quero mais que uma mão,
inda que passe noites mil sem cama.

Seria um lírio pálido de cal,
uma pomba atada ao meu coração,
o guarda que na noite do meu trânsito
de todo vetaria o acesso à lua.

Não quero mais que essa mão
para os diários óleos e a mortalha de minha agonia.
Não quero mais que essa mão
para de minha morte ter uma asa.

Tudo mais passa.
Rubor sem nome mais, astro perpétuo.
O demais é o outro; vento triste
enquanto as folhas fogem debandadas.

[In Romanceiro Gitano e outros Poemas, trad. Oscar Mendes, Rio de Janeiro: José Aguilar Editora, 1974, p. 184]






Fernando Paixão

  Os berros das ovelhas  de tão articulados quebram os motivos.   Um lençol de silêncio  cobre a tudo  e todos. Passam os homens velho...