SONETO DO AMOR E DA MORTE
quando eu morrer murmura esta canção
que escrevo para ti. quando eu morrer
fica junto de mim, não queiras ver
as aves pardas do anoitecer
a revoar na minha solidão.
quando eu morrer segura a minha mão,
põe os olhos nos meus se puder ser,
se inda neles a luz esmorecer,
e diz do nosso amor como se não
tivesse de acabar, sempre a doer,
sempre a doer de tanta perfeição
que ao deixar de bater-me o coração
fique por nós o teu inda a bater,
quando eu morrer segura a minha mão.
NO OBSCURO DESEJO
no obscuro desejo,
no incerto silêncio,
nos vagares repetidos,
na súbita canção
que nasce como a sombra
do dia agonizante,
quando empalidece
o exterior das coisas,
e quando não se sabe
se por dentro adormecem
ou vacilam, e quando
se prefere não chegar
a sabê-lo, a não ser,
pressentindo-as, ainda
um momento, na aresta
indizível do lusco-fusco.
ESPAÇO INTERIOR
quando o poema
são restos do naufrágio
do espaço interior
numa furtiva luz
desesperada,
resvalando até
à superfície,
lisa, firme, compacta,
das coisas que todos
os dias agarramos,
quando
o poema as envolve
numa aura verbal
e se incorpora nelas,
ou são elas a impor-lhe
a sua metafísica
e o espaço exterior
que povoam de
temporalidades eriçadas,
luzes cruas, sons ínfimos, poeiras.
[in "Antologia dos Sessenta Anos"]
Sobre Vasco Graça Moura
quarta-feira, 25 de julho de 2018
terça-feira, 24 de julho de 2018
Czeslaw Milosz
MANHÃ
Bela é a terra
belas são as nuvens
belo é o dia
e muito intenso é o amanhecer.
Assim cantava um homem olhando para baixo, a cidade,
de onde fumegava uma bateria de cem chaminés.
E o pão da mesa era um segredo,
de vê-lo palpitava a fronte
o homem levantou alto o braço
e entre risos dançava ao redor, desfraldado.
O sabor do pão recorda a luz do sol
ao comê-lo, do pão irradiam raios.
Depois, indo para o trabalho, o homem sentiu o amor
e mencionou-o às pedras da rua.
Amo a matéria que é só um espelho que gira.
Amo o movimento do sangue, única razão do mundo.
Creio na destrublidade de tudo o que existe.
Para não perder-me, tenho na mão um lívido mapa de veias.
ESTE MUNDO
Acontece que houve um mal entendido.
Tomou-se por literal o que não passava ainda de uma prova.
Os rios voltarão às suas origens,
o vento deixará de dar voltas.
As árvores não brotarão e voltarão às suas raízes.
Os velhos correrão atrás da bola,
Olhar-se-ão no espelho e serão outra vez meninos.
Os mortos despertarão sem compreender.
Até que todo o andado se desandará.
Que alívio! Respirai, vós que tanto haveis sofrido!
(Versão: Antonio Cabrita)
Bela é a terra
belas são as nuvens
belo é o dia
e muito intenso é o amanhecer.
Assim cantava um homem olhando para baixo, a cidade,
de onde fumegava uma bateria de cem chaminés.
E o pão da mesa era um segredo,
de vê-lo palpitava a fronte
o homem levantou alto o braço
e entre risos dançava ao redor, desfraldado.
O sabor do pão recorda a luz do sol
ao comê-lo, do pão irradiam raios.
Depois, indo para o trabalho, o homem sentiu o amor
e mencionou-o às pedras da rua.
Amo a matéria que é só um espelho que gira.
Amo o movimento do sangue, única razão do mundo.
Creio na destrublidade de tudo o que existe.
Para não perder-me, tenho na mão um lívido mapa de veias.
ESTE MUNDO
Acontece que houve um mal entendido.
Tomou-se por literal o que não passava ainda de uma prova.
Os rios voltarão às suas origens,
o vento deixará de dar voltas.
As árvores não brotarão e voltarão às suas raízes.
Os velhos correrão atrás da bola,
Olhar-se-ão no espelho e serão outra vez meninos.
Os mortos despertarão sem compreender.
Até que todo o andado se desandará.
Que alívio! Respirai, vós que tanto haveis sofrido!
(Versão: Antonio Cabrita)
segunda-feira, 9 de julho de 2018
Yannis Ritsos
EXPLICAÇÃO NECESSÁRIA
Há certos versos - às vezes poemas inteiros -
que eu próprio não sei o que querem dizer. O que ignoro
retém-me ainda. E tu, tu tens razão, em interrogar. Não interrogues.
Já te disse que não sei.
Duas luzes paralelas
vindo do mesmo centro. O ruído da água
que cai, no inverno, da goteira a transbordar
ou o ruído de uma gota de água caindo
de uma rosa no jardim, regado há pouco,
devagar, devagarinho, uma tarde de primavera,
como soluço de um pássaro. Não sei
que quer dizer este ruído; contudo aceito-o.
As coisas que sei explico-tas.
Sem negligência.
Mas as outras também acrescentam a nossa vida.
Eu olhava
o seu joelho dobrado, como ela dormia,
levantando o lençol -
não era apenas amor. Este ângulo
era o cume da ternura, e o cheiro
do lençol, a lavado e a primavera, completavam
este inexplicável, que eu procurei,
em vão ainda, explicar-te.
(tradução: Eugénio de Andrade)
domingo, 11 de março de 2018
Roberto Juarroz
ENCONTREI O LUGAR JUSTO ONDE SE PÕEM AS MÃOS
Encontrei o lugar justo onde se põem as mãos,
a um só tempo maior e menor do que elas mesmas.
Encontrei o lugar
onde as mãos são tudo o que são
e também algo mais.
Mas lá não encontrei
algo que estava certo de encontrar:
outras mãos esperando pelas minhas.
ASSIM NÃO PODEMOS
Assim como não podemos
sustentar por muito tempo um olhar,
também não podemos sustentar por muito tempo a alegria,
a espiral do amor,
a gratuidade do pensamento,
a terra em suspensão do cântico.
Não podemos nem sequer sustentar por muito tempo
as proporções do silêncio
quando algo o visita.
E menos ainda
quando nada o visita.
O homem não pode sustentar por muito tempo o homem,
nem tampouco o que não é o homem.
E ainda assim pode
suportar o peso inexorável
do que não existe.
UM AMOR PARA ALÉM DO AMOR
Um amor para além do amor,
por cima do rito do vínculo,
para além do jogo sinistro
da solidão e da companhia.
Um amor que não necessite de regresso,
e nem tampouco de partida.
Um amor não submetido
às labaredas do ir e vir,
do estar acordados ou adormecidos,
do chamar ou do calar.
Um amor para estar juntos
ou para não estar
mas também para todas as posições
intermediárias.
Um amor como abrir os olhos.
E talvez também como fechá-lo
SOBRE ROBERTO JUARROZ
Fonte: Estadão
Tradutor: Pedro Gonzaga
Encontrei o lugar justo onde se põem as mãos,
a um só tempo maior e menor do que elas mesmas.
Encontrei o lugar
onde as mãos são tudo o que são
e também algo mais.
Mas lá não encontrei
algo que estava certo de encontrar:
outras mãos esperando pelas minhas.
ASSIM NÃO PODEMOS
Assim como não podemos
sustentar por muito tempo um olhar,
também não podemos sustentar por muito tempo a alegria,
a espiral do amor,
a gratuidade do pensamento,
a terra em suspensão do cântico.
Não podemos nem sequer sustentar por muito tempo
as proporções do silêncio
quando algo o visita.
E menos ainda
quando nada o visita.
O homem não pode sustentar por muito tempo o homem,
nem tampouco o que não é o homem.
E ainda assim pode
suportar o peso inexorável
do que não existe.
UM AMOR PARA ALÉM DO AMOR
Um amor para além do amor,
por cima do rito do vínculo,
para além do jogo sinistro
da solidão e da companhia.
Um amor que não necessite de regresso,
e nem tampouco de partida.
Um amor não submetido
às labaredas do ir e vir,
do estar acordados ou adormecidos,
do chamar ou do calar.
Um amor para estar juntos
ou para não estar
mas também para todas as posições
intermediárias.
Um amor como abrir os olhos.
E talvez também como fechá-lo
SOBRE ROBERTO JUARROZ
Fonte: Estadão
Tradutor: Pedro Gonzaga
sábado, 3 de março de 2018
Mário Cesariny
VISTO A ESTA LUZ
Visto a esta luz és um porto de mar
com reverberos de ondas onde havia mãos
rebocadores na brancura dos braços
Constroem-te uma ponte
que deverá cingir-te os rins para sempre
O que há horrível no teu corpo diurno
é a sua avareza de palavras
és tu inutilmente iluminado e quente
como um resto saído de outras eras
que te fizeram carne e se foram embora
porque verdade sem erro certo verdadeiro
nada era noite bastante para tocarmos melhor
as nossas mãos de nautas navegando o espaço
os corpos um e dois do navio de espelhos
filhos e filhas do imponderável
de cabeça para baixo a ver a terra girar
Quero-te sempre como não querer-te?
mas esta luz de sinopla nas calças!
este interposto objecto
e o seu leve peso de eternidade
[In Poemas de Londres]
sábado, 28 de outubro de 2017
Sofia Nestrovski
Tuiuiú
Um leão, galos e galinhas, animais velozes, tartarugas, um elefante, marsupiais, um aquário de muitas coisas, animais de orelhas compridas, um pássaro que canta no fundo da floresta, outros pássaros, pianistas, fósseis e um cisne. Minha casa é cheia de animais de plástico, miniaturas, e uma gata. Uma vez sonhei que brotavam salamandras das torneiras. Poucos meses depois, sonhei que tinha um minotauro de estimação.
No meu sonho, o minotauro precisava ser mantido à base de carinho, ou fugiria. O meu maior medo era que, na fuga, destruísse minha casa e depois o mundo inteiro. Emily Dickinson escreveu um poema em que diz que um sapo pode morrer de luz. Em outro, sobre quando ela mesma morreu, conta que uma mosca ficou no meio do caminho entre ela e a luz, e o universo deixou de existir. Bom, eu ainda me lembro da sensação de ser pequena o bastante para colocar meus dedos sobre a mesa da sala e ficar com os olhos na altura dela. O que eu via quando olhava para cima era luz sobre luz, a luz da janela refletindo no verniz da mesa e voltando em direção à fonte, indo de encontro consigo mesma. De resto, pessoas e móveis eram gigantes, opacos e não me interessavam.
Ultimamente não tenho bebido água em casa porque meu filtro de barro virou um cemitério de aranhas. É a segunda vez que isto acontece. Na primeira, fui encher meu copo e vi que uma aranha quase transparente de tão minúscula caiu dentro dele. Joguei fora a água e fui enchê-lo de novo; mais uma aranha caiu. Então encontrei uma fileira delas marchando em volta do filtro, indo em direção ao ponto onde as duas metades dele se juntam. As aranhas entravam no filtro por frestas nessa junção, e quando levantei a parte de cima, descobri que havia uma colônia inteira delas dentro d’água. Mortas e incontáveis, eu as bebia há não sei quanto tempo. Limpei o filtro e vedei a fresta. Mas elas voltaram. Vocês que me visitam também já beberam das minhas aranhas.
Em 1855, Walt Whitman disse que poderia morrer com o sol nascendo, se não fosse ele também capaz de irradiar um sol para fora de si. Minha gata caça baratas e moscas, eu mantenho minhas aranhas mortas, minhas plantas têm desmaiado de insolação. Em 1856, Emily Dickinson disse sentir pelas criaturas da natureza um “êxtase de cordialidade”. Eu agora venho todos os dias na casa da Deborah beber água. Hoje nós duas ficamos na sala, olhando para sua gata que olhava para fora da janela. A gata encarava a luz, piscando muito rápido para não desviar o olhar, e a Deborah disse “Pare de se comunicar com o sol, Matilda”. Mas ela nunca para.
Fonte: Blog da editora Cotovia
Sofia Nestrovski nasceu em São Paulo, em 1991. Cresceu no meio do milharal dos Estados Unidos, voltou para São Paulo mais tarde. Faz mestrado sobre o poeta William Wordsworth na Universidade de São Paulo, dá cursos sobre Shakespeare, assina uma seção semanal sobre palavras no jornal Nexo, escreve resenhas para a revista Quatro cinco um. Também luta Kung Fu, mas não muito.
Um leão, galos e galinhas, animais velozes, tartarugas, um elefante, marsupiais, um aquário de muitas coisas, animais de orelhas compridas, um pássaro que canta no fundo da floresta, outros pássaros, pianistas, fósseis e um cisne. Minha casa é cheia de animais de plástico, miniaturas, e uma gata. Uma vez sonhei que brotavam salamandras das torneiras. Poucos meses depois, sonhei que tinha um minotauro de estimação.
No meu sonho, o minotauro precisava ser mantido à base de carinho, ou fugiria. O meu maior medo era que, na fuga, destruísse minha casa e depois o mundo inteiro. Emily Dickinson escreveu um poema em que diz que um sapo pode morrer de luz. Em outro, sobre quando ela mesma morreu, conta que uma mosca ficou no meio do caminho entre ela e a luz, e o universo deixou de existir. Bom, eu ainda me lembro da sensação de ser pequena o bastante para colocar meus dedos sobre a mesa da sala e ficar com os olhos na altura dela. O que eu via quando olhava para cima era luz sobre luz, a luz da janela refletindo no verniz da mesa e voltando em direção à fonte, indo de encontro consigo mesma. De resto, pessoas e móveis eram gigantes, opacos e não me interessavam.
Ultimamente não tenho bebido água em casa porque meu filtro de barro virou um cemitério de aranhas. É a segunda vez que isto acontece. Na primeira, fui encher meu copo e vi que uma aranha quase transparente de tão minúscula caiu dentro dele. Joguei fora a água e fui enchê-lo de novo; mais uma aranha caiu. Então encontrei uma fileira delas marchando em volta do filtro, indo em direção ao ponto onde as duas metades dele se juntam. As aranhas entravam no filtro por frestas nessa junção, e quando levantei a parte de cima, descobri que havia uma colônia inteira delas dentro d’água. Mortas e incontáveis, eu as bebia há não sei quanto tempo. Limpei o filtro e vedei a fresta. Mas elas voltaram. Vocês que me visitam também já beberam das minhas aranhas.
Em 1855, Walt Whitman disse que poderia morrer com o sol nascendo, se não fosse ele também capaz de irradiar um sol para fora de si. Minha gata caça baratas e moscas, eu mantenho minhas aranhas mortas, minhas plantas têm desmaiado de insolação. Em 1856, Emily Dickinson disse sentir pelas criaturas da natureza um “êxtase de cordialidade”. Eu agora venho todos os dias na casa da Deborah beber água. Hoje nós duas ficamos na sala, olhando para sua gata que olhava para fora da janela. A gata encarava a luz, piscando muito rápido para não desviar o olhar, e a Deborah disse “Pare de se comunicar com o sol, Matilda”. Mas ela nunca para.
Fonte: Blog da editora Cotovia
Sofia Nestrovski nasceu em São Paulo, em 1991. Cresceu no meio do milharal dos Estados Unidos, voltou para São Paulo mais tarde. Faz mestrado sobre o poeta William Wordsworth na Universidade de São Paulo, dá cursos sobre Shakespeare, assina uma seção semanal sobre palavras no jornal Nexo, escreve resenhas para a revista Quatro cinco um. Também luta Kung Fu, mas não muito.
domingo, 15 de outubro de 2017
Tonino Guerra
TONINO GUERRA PARA TARKOSVY
"Não sei o que é uma casa
É um abrigo?
Ou um guarda-chuva quando chove?
Eu a enchi de garrafas, trapos, patos de madeira, cortinas, leques
Parece que não quero abandoná-la nunca
Então é uma janela que aprisiona qualquer um que entre nela
Inclusive um pássaro como você, sujo de neve
Mas o que contamos um ao outro é tão leve
Que não pode ser retido em seu interior."
[Tonino Guerra a Tarkovski no documentário Tempo di viaggio, 1983]
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Fernando Paixão
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O Barco Bêbado Quando eu atravessava os Rios impassíveis, Senti-me libertar dos meus rebocadores. Cruéis peles-vermelhas com uivos terríve...

